Economia

Moveleiros sofrem
pós-Plano Cruzado

DANIEL LIMA - 29/05/1987

A recessão na indústria de móveis de São Bernardo do Campo, um dos pólos mais importantes do País, já chegou ao fundo do poço. Pelo menos 20% dos 30 mil trabalhadores do setor já foram dispensados por pequenas, médias e grandes indústrias. A drástica queda da demanda, que atinge empresas especializadas em móveis populares e sofisticados, alcança números alarmantes. Em média, em termos reais, fatura-se 30% dos tempos do Plano Cruzado. Juros estratosféricos, aumento constante de matérias-primas e custos adicionais do gatilho salarial formam uma combinação aterrorizante para as indústrias e o comércio de móveis, bem durável prioritário na lista de supérfluo nos tempos de dificuldades financeiras.

Os moveleiros de São Bernardo, que compõem universo de quase 200 indústrias, deveriam servir de parâmetro para os perscrutadores da economia. Eles mesmos garantem isso, porque são os primeiros atingidos por percalços macroeconômicos. Por isso, mais do que ninguém, servem de indicativos para projetar quadro que só agora expande a outros setores. Desde o Plano Cruzado, o mercado moveleiro vem vivendo dificuldades. O Sindicato dos Empresários e o Sindicato dos Trabalhadores não têm estatísticas para quantificar o número de falências, concordatas e desemprego, mas uma rápida pesquisa estratifica o quadro aflitivo.

A “Especialista dos Móveis”, indústria voltada à classe média-alta, é bom exemplo de que os mais abastados protelaram compras em favor de investimentos no mercado financeiro. Nos últimos cinco meses a empresa cortou quadro de 130 para 80 funcionários. A explicação do diretor Cláudio Lorca dispensa complementação: “Estamos faturando hoje, em termos reais, apenas 20% do ano passado. Não temos como resistir senão com o corte de despesas e a mão-de-obra engatilhada é uma das saídas”.

Também as microempresas do setor recorrem à dispensa para salvarem-se ou para adiar o fechamento das portas. Pedro Azevedo e sua mulher são o que restou da Móveis e Decoração Riviera, que apenas comercializa produtos adquiridos em diferentes pontos do País. Até dezembro havia dois funcionários que passaram a custar demais a cada disparo do gatilho. A microempresa não consegue nominalmente alcançar os números de faturamento de um ano atrás. Em termos reais, a receita caiu em quase 100%.

O ex-bancário Alexandre de Oliveira já disse que sabe que seus dias de empresário estão contados. Ele mesmo propaga a decisão de virar vendedor; “Com menos problemas para esquentar a cabeça”. Da euforia do Plano Cruzado, quando chegou a ter 15 funcionários, à dureza da retração da demanda, quando mal consegue pagar salários de seis empregados, Alexandre de Oliveira vive a penosa trajetória de empregador. Deve para bancos a juros que cada vez mais devoram minguadas receitas. Dá-se por feliz se conseguir fechar a indústria e zerar a dívida.

Menos sorte tiveram muitos outros microempresários que o Sindicato dos Moveleiros não cataloga nos arquivos. São fábricas de fundo de quintal que começaram a sucumbir com ágio descarado das matérias-primas. A inflação foi a extrema-unção para eles. Só resistem os previdentes, como Joaquim Ferris e dois sócios que dirigem e trabalham na Móveis Miraí, microempresa com três funcionários. Ele não acreditou no Plano Cruzado e administrou como se nada de novo ocorresse na economia brasileira a partir de 28 de fevereiro do ano passado. “Foi minha salvação, estamos com a receita lá em baixo, a situação está ruim, mas não temos credores à porta” – argumenta Joaquim Ferris.

Enquanto Vladimir Galafassi, presidente do Sindicato dos Moveleiros, observa com certa tranquilidade o setor, ao afirmar que o nível de demissões ainda é preocupante, no Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Moveleiras o presidente Alcides Barbosa Teixeira contabiliza cada vez mais desempregados em busca de orientação trabalhista. Assegura que até mesmo os profissionais mais qualificados, verdadeiras moscas-brancas num setor que se ressente da forte concorrência das montadoras de veículos, de salários e benefícios sociais maiores, já começam a constar de listas de dispensa. Mas, nem mesmo tem a exata dimensão da crise no setor, porque as homologações feitas no Sindicato só atingem trabalhadores com o mínimo de um ano de empresa. Uma grande leva do efetivo extra recrutado durante o Plano Cruzado há muito já foi desligada sem passar pelas estatísticas do Sindicato.



Leia mais matérias desta seção: Economia

Total de 1995 matérias | Página 1

04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC
03/02/2026 LULA ZERA ESTRAGO DE DILMA APÓS NOVE ANOS
29/01/2026 NÃO RIAM: COLÔMBIA É A GRANDE SAÍDA REGIONAL
22/01/2026 METRÔ PODE REPETIR DANOS DO RODOANEL
19/01/2026 UM SINDICALISTA COM A CABEÇA NO PASSADO
15/01/2026 IPTU AVANÇA SOBRE FORTE QUEDA DO ICMS
13/01/2026 IPTU EXAGERADO INIBE ECONOMIA REGIONAL
12/01/2026 GALPÃO E PÁTIO NÃO MUDAM GRANDE ABC
05/01/2026 LULACÁ-LULALÁ NO RITMO DE FRACASSOS
22/12/2025 PIB CATASTRÓFICO DE SANTO ANDRÉ
19/12/2025 ATENÇÃO! PIB SEGUE DERROCADA DE DILMA
15/12/2025 SÃO CAETANO TEM MAIS DO MENOS
10/12/2025 QUANDO MAIS É CADA VEZ MENOS
02/12/2025 SÃO BERNARDO AINDA DEVE 92.372 VAGAS
27/11/2025 SANTO ANDRÉ TIRA PELE DOS MORADORES
26/11/2025 CARGA TRIBUTÁRIA EXPLOSIVA E CRUEL
24/11/2025 DIADEMA É MESMO PIOR QUE SANTO ANDRÉ? (5)
20/11/2025 GRANDE CAMPINAS GOLEIA GRANDE ABC
19/11/2025 FICAREMOS SEM AS MONTADORAS?