Economia

Pólo tecnológico
é a melhor saída

DA REDAÇÃO - 05/06/1998

O Grande ABC deve apostar no pólo tecnológico como instrumento mais apropriado para o programa de desenvolvimento regional baseado em tecnologia de ponta. É a fórmula já testada com sucesso por localidades que não se limitaram a um único espaço físico de produção de conhecimentos e souberam coordenar a integração de entidades como Poder Público, comunidade científica, empresas e escolas. Palavra do maior especialista do País em pólos e parques tecnológicos, o engenheiro mecânico e doutor em engenharia na área de metrologia e automação, Carlos Alberto Schneider, superintendente da Fundação Certi (Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras), de Santa Catarina. 


O professor Schneider esteve no mês passado na Fundação Santo André a convite da Câmara Regional do Grande ABC para falar sobre como a tecnologia cria abismos entre ganhadores e perdedores no mundo globalizado. Exatamente a diferença que o Grande ABC quer conquistar para criar novas perspectivas de desenvolvimento econômico e de compromisso com o futuro de suas empresas. Carlos Alberto Schneider sugeriu a implantação de um pólo -- não de um parque ou de incubadoras de empresas de bases tecnológicas, as chamadas EBTs -- como primeiro passo, devido à abrangência regional que o Grande ABC quer dar à empreitada. 


A Câmara Regional criou grupo de trabalho para debater a questão tecnológica, mas houve dúvidas sobre o que é mais viável ao Grande ABC para desenvolver pesquisas e produção científica: um pólo, um parque ou centros de difusão tecnológica. Após a palestra do professor Schneider, no início de maio, uma comitiva visitou em meados do mês o parque tecnológico de São Carlos, no Interior paulista, um dos atrativos que desequilibraram a disputa entre vários Municípios pela fábrica de motores da Volkswagen do Brasil.


Um pólo, ensinou o professor Schneider, não tem contorno físico, pois se trata de um programa com macro-abrangência, reunindo todas as forças que possam estimular e apoiar empreendimentos de base tecnológica em uma localidade. A própria Câmara Regional, que abriga representações governamentais, empresariais, trabalhistas e da sociedade, representa importante começo nesse processo, comentou o professor, informado momentos antes sobre essa experiência institucional da região. É que uma falha típica para o insucesso de um pólo está na falta de integração dos que o apóiam. "O pólo tecnológico de Florianópolis, que atende a 21 Municípios, sofre muito com a falta de diálogo" -- exemplificou. 


Já um parque tecnológico tem conceito mais vinculado a empreendimento imobiliário, pois abriga em uma área delimitada empresas de bases tecnológicas que interagem com universidades e centros de pesquisas de grandes empresas próximas. Um terceiro mecanismo de fomento tecnológico são as incubadoras de EBTs. "As incubadoras antecedem os parques, pois representam um sistema em que empresas compartilham infra-estrutura e serviços de suporte, como treinamento, assessoria na gestão dos negócios e na qualidade dos processos, apoio à participação em eventos e congressos, e banco de recursos humanos especializados, entre outras facilidades que devem ser oferecidas para que vinguem" -- explicou.


Pesquisa fora -- Fundada em 1984, a Fundação Certi é uma organização privada mantida com recursos provenientes do desenvolvimento de pesquisas e da assessoria tecnológica para empresas. Das 16 empresas que a criaram, três são do Grande ABC -- Volkswagen, Pirelli e Mercedes-Benz --, um desconforto para a região, que abriga cinturão fabril forte, mas produz fora seus conhecimentos científicos. 


Criar competência tecnológica na região é justamente o objetivo da Câmara Regional como chamariz para novas empresas e fortalecimento das já instaladas, explicou o representante do governo do Estado, Armando Laganá. Também o prefeito de São Bernardo, Maurício Soares, que preside o Consórcio Intermunicipal, acha que o que pode dar cara nova ao Grande ABC é uma grossa demão de tecnologia nas empresas que não querem perder competitividade.


Como tem forte relação com a Universidade Federal de Santa Catarina, a Fundação Certi construiu sua sede dentro do campus daquele centro acadêmico. A aproximação com a comunidade acadêmica, por sinal, é ponto básico, segundo o professor Schneider, para o êxito de qualquer um dos três mecanismos de empreendimentos de base tecnológica (pólo, parque ou incubadoras). "É a escola, universidade ou faculdade, que forma pessoas e conhecimento" -- sublinhou. 


Na Fundação Certi, das 37 empresas que integram a incubadora, 19 têm como empreendedores ex-alunos que vieram da Universidade Federal de Santa Catarina. Schneider tirou, entretanto, o caráter exclusivo das universidades como únicas geradoras de pesquisas e conhecimentos. Disse que outros centros de ensino de ponta podem fazê-lo, citando na região a FEI (Faculdade de Engenharia Industrial), o IMT (Instituto Mauá de Tecnologia) e a Fundação Santo André, que se reestrutura para modernizar a grade de ensino. 


Madrinhas -- A idéia de implantar na região um pólo ou parque tecnológico nasceu da falta de uma universidade pública, que no Brasil tem forte tradição de pesquisa científica. O professor Schneider recomendou que, ao contrário, sejam estabelecidas parcerias com a iniciativa privada, dadas as restrições burocráticas e limitações orçamentárias de organismos públicos. Disse que boa parte da tecnologia no mundo vem de empresas, por isso devem ser atraídas para o pólo ou parque paralelamente às parcerias com centros acadêmicos particulares e, no caso do Grande ABC, à pretendida extensão da Politécnica da USP (Universidade de São Paulo). 


"Ao contrário de Florianópolis, onde nosso principal interlocutor é o governo, o Grande ABC é privilegiado por ter atividades já consolidadas, como a indústria petroquímica e as montadoras, que podem ser empresas-madrinhas do pólo" -- sugeriu, citando que outra falha típica de pólos que não vingaram foi a falta de vocações das regiões para desenvolvê-las. Há no Brasil oito pólos tecnológicos, cinco dos quais em implantação, em localidades como Florianópolis (SC), São Carlos e São José dos Campos (SP), Porto Alegre (RS) e Uberlândia (MG). Os parques são cinco em operação, entre os quais os de Brasília e o Parque de Software de Curitiba (PR). As incubadoras somam 35, mas há outro tanto (38) em implantação, uma das quais só recentemente chegou à Capital de São Paulo.


A Fundação Certi administra quatro centros: de mecaoptoeletrônica, de metrologia e controle de qualidade, de gestão empresarial e o Celta (Centro Empresarial para Laboração de Tecnologias Avançadas), que cuida da incubadora, considerada a maior da América Latina. Nos 12 anos de atividades, a Celta consolidou 14 empresas de base tecnológica (que deixaram o espaço). As 37 que recebem assessoria continuam fornecendo normalmente ao mercado e faturaram no ano passado US$ 18 milhões, empregando 220 engenheiros e técnicos de nível superior e outros 250 técnicos de nível médio. Para se consolidar, uma EBT permanece na incubadora de três a cinco anos. 


"A EBT é fundamental para o pólo tecnológico de uma localidade porque é quem vai fazer o meio-de-campo entre a fonte geradora de tecnologia (universidade, grande empresa, centros de pesquisa) e a empresa fabricante do produto com valor tecnológico. A EBT não vai fazer o produto final ao consumidor, mas ajudar outras empresas com produção de conhecimentos e tecnologias inovadoras" -- explicou. Quando um projeto é encaminhado dentro de uma incubadora, a mortalidade das empresas é em média de 20% em cinco anos, citou o especialista. O Sebrae (Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa) detectou que 80% dos novos empreendedores, de administração convencional, não atravessam os primeiros dois anos de vida.


Ciência e tecnologia ainda são ilustres ausentes nas empresas nacionais. O Brasil investiu no ano passado, em desenvolvimento tecnológico, 1,2% do PIB (Produto Interno Bruto), contra 2,7% do Japão e 2,4% de Alemanha e Estados Unidos. Na década passada foi pior: o gasto foi de apenas 0,7% do PIB, segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia. A questão é que o Poder Público é o grande financiador: de 75% a 80% dos gastos em ciência e tecnologia são feitos pelo governo. Na Coréia do Sul, 80% vêm das empresas. No início da década de 90, as empresas brasileiras respondiam por somente 10% dos recursos, naco que subiu para cerca de 25% no ano passado em função de leis de incentivos fiscais (8.248 de 1991 e 8.661 de 1993). É possível, entre outros, deduzir gastos tecnológicos no Imposto de Renda e ter isenção de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) em equipamentos e aparelhos destinados à pesquisa e capacitação.


Leia mais matérias desta seção: Economia

Total de 2006 matérias | Página 1

08/04/2026 GILVAN ENFRENTA UMA GUERRA DE 65 DESAFIOS
07/04/2026 QUEM VAI PAGAR OS DANOS DO RODOANEL?
26/03/2026 REDUÇÃO DE IMPOSTOS É MESMO BOA NOTÍCIA?
25/03/2026 É IMPROVÁVEL GILVAN PERDER PARA PAULINHO
18/03/2026 MENOS RICOS E CLASSE MÉDIA NESTE SÉCULO
17/03/2026 PIB INDUSTRIAL: UM DESASTRE NO SÉCULO
12/03/2026 PIB PÓS-LULA DESABA 32% NO GRANDE ABC
11/03/2026 CLUBE SINDICAL ESTÁ PERDIDO NO TEMPO
09/03/2026 CLUBE ECONÔMICO TAMBÉM É FRACASSO
05/03/2026 DEMARCHI E O VEXAME DOS 100 MIL EMPREGOS
19/02/2026 EMPREGO INDUSTRIAL VAI CHEGAR À META?
04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC
03/02/2026 LULA ZERA ESTRAGO DE DILMA APÓS NOVE ANOS
29/01/2026 NÃO RIAM: COLÔMBIA É A GRANDE SAÍDA REGIONAL
22/01/2026 METRÔ PODE REPETIR DANOS DO RODOANEL
19/01/2026 UM SINDICALISTA COM A CABEÇA NO PASSADO
15/01/2026 IPTU AVANÇA SOBRE FORTE QUEDA DO ICMS
13/01/2026 IPTU EXAGERADO INIBE ECONOMIA REGIONAL
12/01/2026 GALPÃO E PÁTIO NÃO MUDAM GRANDE ABC