Economia

Acordo provisório vai
derrubar mitos?

DANIEL LIMA - 05/08/1998

Afinal, domingo é dia de comércio? A resposta à pergunta-título de matéria de LivreMercado de agosto de 1997 continua no ar. O Dia D para tomada de decisão provisória que envolve cerca de 60 mil comerciários é 12 de agosto, em nova reunião da Câmara Regional. Mesmo que os empregados do comércio digam sim à experiência de quatro meses apresentada na Câmara Regional pelo Sindicato do Comércio Varejista do Grande ABC e Prefeituras da região, a resposta definitiva ficará mesmo para quando janeiro chegar. Até lá, a prática do laboratório experimental deve servir para desmistificar conceitos e trazer a realidade à tona -- segundo prevê José Carlos Buchala, presidente do Sindicato do Comércio Varejista da região.


Se depender de Minervino Ferreira, funcionário do Grupo Pão de Açúcar há 22 anos e há 12 na presidência do Sindicato dos Comerciários do Grande ABC, a resposta continua sendo não, como na entrevista de um ano atrás. As alegações também são as mesmas. Dos empregados no comércio, entre 60% e 65% são mulheres, que além de trabalharem fora têm de cuidar da casa, da família e delas próprias. "O domingo é sagrado, é dia de descanso. Entendo a abertura como prejuízo ao pequeno comerciante e não acredito que a improvável alteração significaria geração de empregos porque não aumentaria o consumo. Ninguém vende e ninguém ganha, porque a maioria dos vendedores depende das comissões. Tampouco conseguem me convencer de que o consumidor acaba por trocar o Grande ABC por shoppings e grandes hipermercados de São Paulo que abrem por conta de Medida Provisória do governo federal que estamos contestando. Tanto que já fomos três vezes a Brasília para procurar meios legais de evitar a abertura concedida no artigo 6º da Medida Provisória" -- afirma Minervino Ferreira.


O dirigente sindical garante que o acordo só será sacramentado na reunião da Câmara Regional se os interesses da categoria não forem contrariados. No ano passado pesquisa entre 13 mil comerciários indicou que 90% eram contra. "Não assino acordo que contraria a vontade da categoria" -- reafirma Minervino. Estabilidade no emprego por 180 dias é o item mais importante da pauta de reivindicações, que engloba pagamento adicional de 60% de horas extras quando o total ultrapassar 44 horas semanais, vale-transporte, vale-refeição de R$ 10, dois domingos de folga e duas folgas mensais durante a semana. Tudo em contrato assinado e a ser fiscalizado. Alguns dos itens da proposta do sindicato patronal já ficaram bem próximos da aceitação dos comerciários no primeiro encontro da Câmara Regional, mas o posicionamento oficial depende de confirmação.


O Sindicato dos Empregados no Comércio de São Paulo também assume posição contrária à liberdade de abertura aos domingos. Seus representantes entendem que a Medida Provisória precisa  ser cassada, e não reeditada a cada 30 dias. "A atitude só beneficia os shoppings, que têm estrutura. Não gera emprego, porque as equipes são mantidas. Acontece revezamento, não contratação. Há apenas troca de dias e o trabalhador continua sem descanso. Queremos a definição de calendário de datas festivas e acordos com o sindicato patronal, sem intervenção por meio de Medida Provisória" -- afirma Salvador Astone, diretor jurídico da entidade da Capital, também com representatividade de cerca de 60 mil comerciários.


Reverso da moeda -- A Associação Brasileira dos Shopping Centers, presidida por Henrique Falzoni, contesta e exibe como trunfo principal pesquisa envolvendo 26 shoppings que mostra evolução de 7% a 8% na geração de empregos após a Medida Provisória. "Liberdade é fundamental para grandes e pequenos empreendedores, que nem sempre são concorrentes diretos e sim complemento um do outro. O domingo não será diferente do que já acontece de segunda a sábado na relação grandes e pequenos. Digo há muito tempo que a abertura é irreversível e agora mais ainda, como acontece nos Estados Unidos e na Europa" -- garante Falzoni, para quem o Grande ABC vai reconquistar os consumidores que estavam gastando em São Paulo. Na Capital  há shoppings que abrem às 12h e fecham às 18h ou 20h de domingo, procedimento que poderia, segundo Falzoni, ser adotado pelo Grande ABC para beneficiar as famílias tanto de funcionários quanto de consumidores. O segmento de shoppings envolve mais de 250 mil funcionários e em 97 teve faturamento de  R$ 13 bilhões, o que significa 17% de todo o varejo nacional, excluindo-se o setor automotivo.        


Embora também entenda como irreversível a abertura facultativa do comércio aos domingos, das 10h às 20h, o presidente do Sindicato do Comércio Varejista, José Carlos Buchala, mantém o ponto de vista de que a liberação, sem ações gradativas e protecionistas, prejudicará os pequenos negócios. Ele afirma que domingo sem a concorrência dos grandes é um dos dias mais rentáveis. "Os pequenos representam empresas familiares que não dependem de empregados contratados. A abertura interessa apenas às administradoras de shoppings, mas a decisão soa como inadiável, embora só garanta a manutenção do nível de emprego. Os quatro meses de experiência vão derrubar muitos mitos e mostrar que a realidade é diferente. A prática vai servir para uma avaliação melhor" -- diz José Carlos Buchala, cujo sindicato representa perto de 30 mil pontos de venda na região, dos quais apenas uma centena com mais de 100 funcionários.


Fiscalização -- Caso o acordo experimental entre comerciantes e trabalhadores seja aprovado, o cumprimento terá fiscalização de grupo formado por membros dos sindicatos, das Prefeituras representadas pelo Consórcio Intermunicipal, da DRT (Delegacia Regional do Trabalho), do  Fórum de Vereadores e de técnico de um instituto de pesquisa, cuja principal atribuição seria acompanhar o item que prevê a manutenção ou oscilação do nível de emprego da categoria.    


O secretário de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de Santo André e coordenador do Grupo de Trabalho Atividade Comercial da Câmara Regional, Nelson Tadeu Pereira, é favorável à abertura. Ele explica que em janeiro de 1999 a comissão de acompanhamento fará avaliação dos quatro meses de experiência. Se o resultado for positivo, os prefeitos enviarão  projetos de lei às Câmaras Municipais para que a medida seja aprovada em caráter definitivo. Por decreto do prefeito Luiz Tortorello, o comércio de São Caetano tem livre arbítrio para abrir quando quiser. Para alguns dirigentes sindicais, isso fragiliza qualquer posição contrária de outros Municípios do Grande ABC.  


Leia mais matérias desta seção: Economia

Total de 2006 matérias | Página 1

08/04/2026 GILVAN ENFRENTA UMA GUERRA DE 65 DESAFIOS
07/04/2026 QUEM VAI PAGAR OS DANOS DO RODOANEL?
26/03/2026 REDUÇÃO DE IMPOSTOS É MESMO BOA NOTÍCIA?
25/03/2026 É IMPROVÁVEL GILVAN PERDER PARA PAULINHO
18/03/2026 MENOS RICOS E CLASSE MÉDIA NESTE SÉCULO
17/03/2026 PIB INDUSTRIAL: UM DESASTRE NO SÉCULO
12/03/2026 PIB PÓS-LULA DESABA 32% NO GRANDE ABC
11/03/2026 CLUBE SINDICAL ESTÁ PERDIDO NO TEMPO
09/03/2026 CLUBE ECONÔMICO TAMBÉM É FRACASSO
05/03/2026 DEMARCHI E O VEXAME DOS 100 MIL EMPREGOS
19/02/2026 EMPREGO INDUSTRIAL VAI CHEGAR À META?
04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC
03/02/2026 LULA ZERA ESTRAGO DE DILMA APÓS NOVE ANOS
29/01/2026 NÃO RIAM: COLÔMBIA É A GRANDE SAÍDA REGIONAL
22/01/2026 METRÔ PODE REPETIR DANOS DO RODOANEL
19/01/2026 UM SINDICALISTA COM A CABEÇA NO PASSADO
15/01/2026 IPTU AVANÇA SOBRE FORTE QUEDA DO ICMS
13/01/2026 IPTU EXAGERADO INIBE ECONOMIA REGIONAL
12/01/2026 GALPÃO E PÁTIO NÃO MUDAM GRANDE ABC