Economia

Uma bomba que
ninguém desativa

DANIEL LIMA - 05/10/1998

As diferenças que envolvem o setor automotivo do Grande ABC, sobretudo nas questões trabalhistas, não foram sequer amenizadas até setembro, como programou a Câmara Regional, que pretendia anunciar série de acordos. O Custo ABC do setor metalúrgico, que atinge não só as montadoras de veículos mas as autopeças, como foi detalhadamente mostrado por LivreMercado na Reportagem de Capa da edição de agosto (Quem vai desativar a bomba sindical?), dificilmente será debatido nos próximos meses de forma mais intestina pelos representantes do capital e do trabalho. A explicação é que interlocutores do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que envolve os territórios de São Bernardo e Diadema, encontram sérias dificuldades de composições que superem alguns pontos sagrados da CUT (Central Única dos Trabalhadores), entidade à qual está vinculado.


A Câmara Regional do Grande ABC dividiu o Grupo de Competitividade do Setor Automotivo nos subgrupos de Relações Trabalhistas, Infra-Estrutura, Impostos e Desenvolvimento Tecnológico, mas são as questões especialmente ligadas ao capital e ao trabalho que vão determinar o sucesso ou o fracasso das negociações. E é exatamente aí que a roda pega. O que para as empresas se transformou em Custo ABC -- a série de vantagens salariais e de benefícios assistenciais que outras regiões do País não têm ou têm em grau bastante reduzido -- para os sindicalistas ganha outra denominação -- o exótico Benefício ABC. Quando, sob o comando do prefeito de São Bernardo, Maurício Soares, e a coordenação de seu secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo, Fernando Longo, se propôs a aproximação dos representantes das montadoras e das autopeças com as lideranças sindicais, a realidade de mercado era outra. Agora, o que se tem é uma conjuntura macroeconômica nacional e internacional complicada, claros sinais de que a produção de veículos vai desabar pelo menos 20% em relação aos 2,1 milhões fabricados no ano passado e que não haverá como deixar de combinar recessão com demissão. 


Com isso, fica difícil vender a imagem de que o Grande ABC está encontrando o caminho da sensatez e do pragmatismo no núcleo microeconômico que tradicionalmente mais tem gerado desenvolvimento econômico. Os limites do poder de negociação de Luiz Marinho, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, estreitaram-se ainda mais depois que asiáticos e russos ingressaram no clube dos desesperados. O terremoto do mercado financeiro atingiu  em cheio o Plano Real e a artificialidade de uma economia movida por fluxos de capitais voláteis. Se em tempos de paz e de mercado aquecido seria difícil acreditar que os custos adicionais de produção relacionados a aspectos trabalhistas pudessem ser razoavelmente debatidos, já que o sindicato considera mais importante levar tudo o que chama de vantagens para outras regiões brasileiras, o que esperar agora que o cinto se aperta?


Dificuldades -- Os protagonistas do Grupo Automotivo evitam declarações. Os coordenadores também. É possível que os outros subgrupos ofereçam avanços, porque há série de pontos cujos interesses se entrelaçam. Mas não dá para disfarçar que os pontos alinhavados pelos representantes de montadoras e autopeças e publicados com exclusividade por LivreMercado em agosto vão demarcar a diferença que separa de fato o Grande ABC de outras regiões que abriram as portas à indústria automotiva. 


Na medida do possível, os executivos públicos, privados e sindicais envolvidos no Grupo Automotivo vão tentar minimizar publicamente as dificuldades que estão encontrando para achar a ponta do fio de um novelo que começou a ser enrolado há 20 anos, quando o sindicalismo de Lula iniciou uma revolução nas relações entre o que chamam de patrões e empregados. Eram tempos de ditadura militar, de centralismo político e econômico. Tempos bem diferentes dos atuais, nos quais prevalecem a economia de mercado e a democracia política. Tempos de abertura dos portos. O que até poderia ser catalogado como Benefício ABC, e que inclusive motivou a vinda de muitos investimentos comerciais e de serviços, agora virou Custo ABC porque as novas regras do mercado estabeleceram regime de concorrência interna e externa. 


O peso relativo da indústria automotiva na economia do Grande ABC tem caído gradualmente e continuará a cair. Há outras nove plantas de novas montadoras de veículos instalando-se no País, depois da inauguração da Toyota no mês passado em Indaiatuba. Essas novas plantas vão montar 400 mil veículos por ano, ou seja, 20% da produção alcançada no ano passado e perto de 30% das projeções de vendas para este ano. O quadro de recessão poderá tornar a oferta maior do que a procura atual. O Grande ABC, que já representou quase 90% da produção de veículos de passeio e comerciais leves e pesados do País hoje não passa de 45%. 


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