Seja qual for o resultado da medição de forças em que se desdobrou a demissão de 2,8 mil trabalhadores da Ford, o melhor que se tem a dizer sobre o assunto é que a conjuntura econômica está apenas acelerando o ritmo de cortes que a globalização exige de quem pretende ser competitivo. A Ford escorregou no tomate ao não negociar um programa gradual de demissões que outras montadoras instaladas na região há muito praticam, mas a decisão significa que, em vez de catastrófica projeção de fechamento da fábrica de São Bernardo, fortalece a política de viabilizar a unidade que produz o Ka, o Fiesta e a picape Courier, isto é, todos os modelos nacionais colocados à disposição do mercado.
Não há consultor empresarial que consiga encontrar no gesto da Ford uma brecha sequer de lucidez. A demissão de 41% dos quadros assim de chofre foi um golpe forte à imagem da companhia que a reação do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC aprofundou. Pior que isso só o estrago na imagem externa do Grande ABC, cada vez mais relacionada com intolerância entre capital e trabalho. É até pouco dizer que os trabalhadores demitidos foram tratados como simples números. A atenuante é que a Ford encerrou 1998 com balanço de 98 horas de crédito para cada funcionário. Foram cerca de 70 dias úteis de licença remunerada, antecipação de férias coletivas e utilização em larga escala do banco de horas, mecanismo pelo qual o trabalhador recebe salário integral mesmo descansando em casa. Com tudo isso, não há produtividade que aguente.
No início de fevereiro, a expectativa de recuo da Ford se limitava ao otimismo de sindicalistas. A situação que já estava complicada quando a Ford optou pelas demissões, às vésperas do Natal, tornou-se quase desesperadora com a desvalorização do real e o aumento das taxas de juros. A raiz das dificuldades da Ford e também de outras montadoras da região, em menor ou maior grau, chama-se Custo ABC. A concorrência que se está instalando no País tem mais tecnologia, menores salários e vantagens tributárias que se traduzem em competitividade. A planta automotiva da região, e aí se incluem as autopeças que sobraram da desregrada abertura econômica, não consegue oferecer a eficiência da concorrência dos novos pólos que se instalam no País. Por isso, reduzir impostos estaduais e federais é apenas paliativo, porque contemplaria a todas as fábricas e por isso mesmo preservaria os desníveis de custos. Como a produção de veículos no País deverá ser ainda inferior à do ano passado -- 1,5 milhão -- e as novas fábricas começam a oferecer novas opções nacionais aos usuários, só mesmo Papai Noel é capaz de acreditar que a solução para o Grande ABC está em medidas tópicas. Ou se desmonta o Custo ABC, cujo peso em tempos de mercado nacional quase exclusivo significava repasse aos consumidores finais, ou muitos dos trabalhadores da região engrossarão ainda mais a legião de excluídos.
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08/04/2026 GILVAN ENFRENTA UMA GUERRA DE 65 DESAFIOS