Dezembro de 1999. Festa empresarial no Parlamento Latino Americano do Memorial da América Latina, em São Paulo. A Solvay Indupa, indústria química de origem belga instalada há 59 anos em área de proteção de manancial na Serra do Mar, em Santo André, recebe o Top Ecologia da ADVB (Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil). O prêmio confere responsabilidade e reconhece esforço de empresas que crescem sem degradar o meio ambiente. Para a Solvay representa, além disso, um desafio: consolidar no Grande ABC imagem de guardiã de recursos naturais, até porque precisa garantir permanência na área. Para chegar lá, a empresa investe. Desembolsou quase R$ 50 milhões nos últimos cinco anos -- pouco menos de um sétimo do faturamento no Brasil em 1998, de R$ 380 milhões -- num sistema de gestão que alia atividades industriais à preservação do meio ambiente. Para este ano 2000 prevê mais injeção de recursos, entre R$ 10 milhões e R$ 20 milhões.
O projeto ambiental da Solvay é ambicioso. Muitos dirão que é pretensioso. Afinal, trata-se de indústria química instalada em área de preservação ambiental. Um contrasenso. Sob esse ponto de vista, faz sentido a preocupação dos ecologistas. Até a metade da década passada a imagem da indústria química como um todo se comparava ao péssimo conceito de fabricantes de cigarros e armas atômicas. Por isso mesmo, e por ser viável, o projeto é ambicioso. Indústrias químicas têm particularidade que as distingue: quando cometem falhas, quase sempre causam danos de grande monta -- até mesmo irreversíveis -- à natureza. Que o digam moradores do Rio de Janeiro diante do recente vazamento de óleo combustível de dutos da Petrobras, que infestou a Baía da Guanabara. A Solvay nunca causou estrago de tamanha proporção na Serra do Mar, mas nem por isso pode ser isentada de responsabilidade sobre danos ambientais com os quais esteve envolvida no passado.
Tão importante quanto o investimento em dinheiro que possibilitou obras como canalização e construção de comportas em rios que cortam a empresa, ou solução para problemas críticos como redução das emissões de mercúrio na produção de cloro-soda, é a autocrítica que a empresa faz hoje. A Solvay reconhece que causou problemas ambientais e está consciente de que o preço para tornar-se guardiã dos recursos naturais da Serra do Mar é a eterna vigilância sobre processos de produção e destinação de efluentes.
"Como qualquer indústria química, tivemos problemas, e isso reconhecemos. No final dos anos 80 e início dos 90 elaboramos plano global de preservação do meio ambiente que é a base desse reconhecimento. Hoje toda indústria química é signatária de atuação responsável, tanto que a Solvay é certificada com ISO 14001, que impõe normas rígidas de preservação ambiental" -- diz o engenheiro químico carioca Rogério Fragale, diretor industrial da planta da Serra do Mar. É ele mesmo quem arremata, ciente da responsabilidade que tem sobre os ombros: "Se deixarmos de obedecer as normas, perdemos a certificação. Isso é a mesma coisa que decretar a falência da companhia".
Teste de fogo -- Poucos meses antes de receber o Top Ecologia da ADVB, em dezembro passado, a Solvay teve o nome envolvido em polêmica internacional, quando a entidade ambientalista Greenpeace descobriu que a empresa mantém armazenadas em tanques de seu parque industrial -- de 12 milhões de metros quadrados -- 900 mil toneladas de cal umedecida, produto não-degradável que libera dioxinas que podem provocar câncer. A notícia teve efeito explosivo. A descoberta se deu na Holanda, onde vacas produziram leite contaminado. Estudos retroativos realizados com acompanhamento do Greenpeace revelaram que os animais alimentavam-se com ração importada do Brasil, na qual estava presente a cal, utilizada para secagem da polpa. A Solvay fornecia o produto à Carbotex, que o revendia para produtores de ração animal.
Rogério Fragale encara a repercussão negativa da denúncia no mundo inteiro como teste de fogo e considera à altura a forma como a Solvay agiu para reverter o problema. A empresa optou pela transparência. Confirmou o armazenamento da cal, franqueou todo tipo de informação e firmou acordo com a Cetesb (Companhia Estadual de Tecnologia de Saneamento Ambiental) e o Greenpeace, sob supervisão do Ministério Público, que resultará no confinamento geotécnico do depósito por meio de construção de barreiras hidráulicas. O acordo só foi possível porque o Greenpeace constatou que a Solvay cumpre a legislação ambiental vigente no País e tem avançado em alguns casos. A cal que está armazenada na indústria foi utilizada como matéria-prima alternativa à nafta do petróleo para a produção de acetileno, entre 1958 e 1996. Até o ano passado era comercializada principalmente para a indústria da construção civil.
O confinamento geotécnico dos tanques de cal tem prazo de dois anos para ser concluído, conforme o acordo firmado com Greenpeace e Cetesb. O custo ficará entre R$ 10 milhões e R$ 15 milhões, dependendo de decisões a serem tomadas e processos indicados para a impermeabilização. O executivo da empresa diz que o projeto está em fase de aprovação e prevê reflorestamento da área ocupada pelos tanques. "O importante é que esse material, que é indestrutível, fique contido e isolado. Nossa maior preocupação é criar barreira que impeça que a água das chuvas, ao escoar-se, transporte a cal para fora dos tanques" -- afirma Rogério Fragale. A Solvay pretende transformar a área de armazenamento em modelo de preservação ambiental. A idéia é restaurar a fauna no terreno a ser impermeabilizado e reflorestado.
Denúncia temporã -- A denúncia do armazenamento da cal na fábrica da Serra do Mar surpreendeu a comunidade ambientalista do Grande ABC. Fazia tempo que a Solvay não se envolvia em incidentes ambientais. Nos anos 80 e início dos 90 a empresa era presença frequente nas páginas dos jornais, quase sempre com más notícias. Às vezes, devido à mortandade de peixes causada por vazamento de soda cáustica no Rio Grande, que deságua na Represa Billings, principal manancial de água potável do Grande ABC. Outras, em consequência de denúncias sobre contaminação de funcionários na produção de soda-cloro por mercúrio, metal líquido extremamente nocivo à saúde. Sucediam-se multas aplicadas pela Cetesb e eram estridentes as reclamações e protestos de lideranças sindicais, entidades ambientalistas e moradores vizinhos.
"Felizmente mudamos para muito melhor e o processo pela excelência ambiental é irreversível. Estamos totalmente comprometidos com a causa" -- festeja Fragale, formado em Engenharia Química pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Rio de Janeiro. Com 400 unidades espalhadas pelo mundo -- entre escritórios, representações e plantas industriais --, a Solvay já produziu alguns modelos internacionais de proteção à natureza na Serra do Mar. Todos os efluentes da fábrica de Santo André recebem cuidados seguindo padrões do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente), resultado de investimento em estações de tratamento nas unidades de produção de PVC e cloreto de vinila e filtração de águas mercuriais.
Princípios de atuação responsável passaram a ser praticados na empresa em 1992, privilegiando desde qualidade de vida dos funcionários até prevenção e domínio de riscos de acidentes. A Solvay instituiu uma gerência só para cuidar da questão ambiental, cujo leque de atribuições vai da solução para tratamento de efluentes até segurança no trabalho e saúde ocupacional. Funcionários envolvidos com a preservação da natureza somam pontos e recebem remuneração extra no fim do ano, a título de prêmio pelo comprometimento. Hoje a empresa monitora e controla continuamente a qualidade da água, do solo, do ar e do ambiente antes e depois das emissões de efluentes. Os principais investimentos feitos até agora somam R$ 27 milhões em melhoria dos efluentes líquidos, R$ 6 milhões em melhoria dos resíduos industriais, R$ 4 milhões em melhoria das emissões gasosas, R$ 2 milhões em controle dos solos e águas subterrâneas e R$ 1 milhão em comunicação com comunidades e projetos de educação ambiental.
A exemplo de outros tipos de investimentos produtivos, os valores aplicados na gestão de recursos naturais proporcionam economia para a Solvay. A captação de água de rios para uso industrial -- o principal é o Rio Grande -- teve redução de 2,7 milhões de metros cúbicos/ano, com economia de R$ 379,4 mil. Outros R$ 638,4 mil são economizados anualmente com redução de 560 mil metros cúbicos/ano de efluentes finais tratados. Sem resultado financeiro, mas não menos importantes, são a redução de 137 toneladas na demanda bioquímica de oxigênio dos efluentes finais tratados, redução de 237 toneladas na demanda química de oxigênio dos efluentes e recuperação energética de gases com nível mínimo de emissões na atmosfera. Dentro da fábrica foi criado armazém de resíduos sólidos com pátio para reciclagem de sucatas, no qual são aplicados conceitos de coleta seletiva de lixo. O local é frequentemente visitado por professores e estudantes universitários, pois tornou-se referência de controle ambiental.
Com a comunidade -- Comunicação com comunidades vizinhas e projetos de educação ambiental são peças-chave da nova postura da Solvay. Estimulada pela globalização da economia, que exige produtos cada vez melhores e certificados dentro de normas e padrões de preservação ecológica, a empresa adotou política de boa vizinhança até por sobrevivência. Em passado não muito distante, indústria química era sinônimo de isolamento, insegurança, falta de transparência e pouca ou nenhuma conversa com a comunidade. "Hoje estamos bastante ligados às comunidades de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, municípios mais próximos da fábrica. Este ano pretendemos nos comunicar também com a comunidade de Mauá e, num futuro breve, estaremos chegando a Santo André. Queremos dialogar com a comunidade de todo o Grande ABC" -- afirma Rogério Fragale.
Os avanços são exemplares. A Solvay conversa permanentemente com órgãos do governo que cuidam da preservação ambiental e tem acatado frequentemente propostas de moradores vizinhos. Alunos do Ensino Fundamental de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra são beneficiados com o Projeto Química e Natureza, que informa com transparência o papel da indústria petroquímica no desenvolvimento da sociedade moderna. A principal qualidade do projeto é mostrar aos estudantes que é plenamente possível beneficiar a humanidade com produtos químicos sem que, para fazê-los, seja preciso agredir o meio ambiente. "Esse espírito já está impregnado em nossos funcionários, que se engajaram na meta de sermos guardiões da Serra do Mar. A imagem institucional da Solvay é de empresa responsável" -- afirma Fragale.
Fundada em 1863 na Bélgica por Ernest Solvay, criador do processo industrial da soda cáustica, a empresa instalou-se há 59 anos na Serra do Mar, entre Santo André e Rio Grande da Serra. Em parte por necessidade estratégica, em parte por conveniência. Então fabricante de soda cáustica, a Solvay precisava de água abundante (do Rio Grande), da proximidade com o Porto de Santos (de onde é trazido pelo trem que passa na porta da fábrica o sal utilizado na produção) e de energia elétrica (proporcionada por várias torres de transmissão). Além disso, era considerado prudente e seguro nos anos 40 instalar indústrias químicas o mais distante possível de núcleos populacionais. A Lei de Proteção aos Mananciais só foi criada em 1975 -- mais de três décadas depois do início das operações da companhia.
Atuação regional -- Interessada em ampliar a defesa do meio ambiente, a Solvay participa da Câmara do Grande ABC. Também está engajada na construção do coletor que levará todos os efluentes industriais e domésticos de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra diretamente para a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) na divisa de São Caetano com São Paulo. De acordo com a Lei de Proteção dos Mananciais, é proibido o lançamento de efluentes domésticos e industriais em rios de classe 2, os que deságuam diretamente na Represa Billings, caso do Rio Grande. A obra, a ser executada pela Sabesp, está orçada em R$ 22 milhões. A Solvay tem promovido discussões com a comunidade e incentiva outras empresas privadas, principalmente do setor químico, a desenvolver parcerias para que o coletor entre em operação o mais rápido possível. "Posso garantir que a água que jogamos de volta ao rio é muito melhor do que a que captamos" -- observa Fragale.
Com 450 funcionários diretos na fábrica de Santo André, outros 550 terceirizados e geração de aproximadamente 10 mil empregos indiretos, a Solvay tem no PVC, que começou a ser fabricado em 1956, o carro-chefe de produtos. A capacidade instalada de produção do plástico, de 240 mil toneladas/ano, está praticamente tomada. Em 1999 a produção chegou a 208 mil toneladas.
A companhia também fabrica anualmente 95 mil toneladas de soda cáustica, 36 mil toneladas de cloreto férrico, 60 mil toneladas de hipoclorito de sódio e 36 mil toneladas de resinas e compostos de PVC. O principal mercado da Solvay é o interno. No ano passado as exportações somaram apenas R$ 65 milhões. A grande expectativa da companhia é com o crescente emprego do PVC na construção civil. Antes só encontrado em encanamentos e caixas dágua, o plástico começa a sofrer transformações e já é utilizado na forma de paredes e esquadrias, entre outras aplicações. "O PVC vai revolucionar a construção civil" -- prevê Rogério Fragale.
Total de 2006 matérias | Página 1
08/04/2026 GILVAN ENFRENTA UMA GUERRA DE 65 DESAFIOS