Economia

Saber fazer a hora
é a grande jogada

ANDRE MARCEL DE LIMA - 05/05/2000

A Indústria Metalúrgica APedro está diversificando a atuação pela primeira vez em quase 50 anos de atividades. Uma das maiores autopeças do País na área de estamparia de metais, com sede em São Caetano, a APedro quer agregar ao tradicional setor automotivo atendimento a quatro nichos de mercado: telecomunicações, eletroeletrônicos, movelaria e linha branca. Uma equipe de vendas já foi destacada para prospectar as novas frentes mercadológicas -- são 25 clientes em potencial situados no Grande ABC, Capital e Interior do Estado. Todos já receberam propostas de fornecimento e a expectativa dos irmãos Fornasieri, Levi (diretor comercial) e Marcelo (diretor industrial), é de que os novos setores representem 30% das vendas em 2001. "Continuaremos atendendo ao setor automobilístico. A diferença é que deixaremos de depender de apenas um segmento" -- sintetiza Levi.

A produção de peças para indústrias de eletroeletrônicos, telecomunicações, móveis e da linha branca representa oportunidade de ampliação de receitas sem necessidade de investir no parque industrial ou em pessoal, já que equipamentos e recursos humanos são mais do que suficientes para dar conta de novas demandas. "Pretendemos aproveitar a credibilidade junto às montadoras para conquistar novos mercados. O setor automotivo, que estamos acostumados a atender há várias décadas, é destacadamente o mais exigente em qualidade e pontualidade" -- relata Levi Fornasieri. 

Para quem está acostumado a produzir 350 itens, de varetas e tampas de óleo de motor a suportes para escapamento e barras laterais de segurança para veículos como Palio, Marea e Uno, não há segredo em fabricar dobradiças e suportes para móveis de escritório, suportes de painéis eletrônicos para telecomunicações, painéis de fogões para a indústria da linha branca e componentes internos para eletroeletrônicos, afirmam os irmãos Fornasieri.

A APedro precisa pulverizar as fontes de receitas porque não pode continuar colocando todos os ovos em um cesto vulnerável. A retração do mercado automobilístico nos dois últimos anos no Brasil é preocupante, já que a performance da APedro está inescapavelmente ligada às montadoras -- especialmente à Fiat, que absorve a maior parte da produção. 

Quando a indústria automotiva brasileira bateu recorde histórico em 1997, com produção de 2,070 milhões de veículos, a metalúrgica de São Caetano viveu o período mais dourado desde a fundação, em 1953. O faturamento alcançou R$ 27 milhões, com 37 milhões de peças industrializadas. A produção só emagreceu nos anos subsequentes por causa dos desarranjos pós-crise asiática. Quando a indústria automotiva amargou em 1999 o nível mais baixo dos últimos sete anos, com 1,391 milhão de unidades, a APedro faturou R$ 18 milhões em 30 milhões de peças.

A necessidade de manter a produção em alta rotação, porque a escala é tão decisiva quanto as margens de rentabilidade são estreitas, ganha contornos mais fortes quando se tem uma empresa que investiu pesado em novos equipamentos. Estimulada pela expectativa de recordes de produção do setor automotivo, a APedro importou em 1998 seis prensas de alta tonelagem e cinco robôs de solda por R$ 2,5 milhões. A maior parte dos recursos foi financiada para pagamento em cinco anos. "Imaginava-se que a produção bateria em 2,5 milhões de veículos em 1998. Como já estávamos operando com capacidade total, em três turnos, investimos em maquinário" -- comenta Levi Fornasieri. Ele afirma que a metalúrgica está prestando serviços de soldagem para outras empresas da cadeia automotiva a fim de amortizar os custos dos investimentos.

Até mesmo a indústria automobilística, mais paramentada e com melhores condições para analisar os movimentos macroeconômicos internacionais, foi pega no contrapé. A capacidade de produção das montadoras é exagerada em relação ao volume que o mercado tem condições de absorver. A APedro é vítima desse superdimensionamento sistêmico como tantas outras autopeças que consideram investimento pré-condição de sobrevivência. 

Além de ter de superar obstáculos pontuais, a APedro enfrenta desafio de se estabelecer em mercado cada vez mais dominado por grandes conglomerados multinacionais. Nem mesmo ícones nacionais de excelência como Metal Leve, Nakata e Cofap suportaram a competição com competidores globais que desfrutam de escala estratosférica de produção. "O suprimento das montadoras está cada vez mais concentrado em poucos -- e gigantes -- fornecedores sistemistas multinacionais" -- reconhece Levi Fornasieri, representante da terceira geração de empresa familiar fundada pelo avô Alberto Pedro.

A tendência mundial de concentração de autopeças em organizações transcontinentais não é fruto de conspiração estrangeira para roubar espaço da indústria nacional, como querem fazer crer nacionalistas desinformados ou mal-intencionados. A estratégia é consequência lógica e previsível de uma equação com dois elementos completamente distintos. De um lado está a indústria do Primeiro Mundo, fortificada em ambiente competitivo e historicamente beneficiada por facilidades de crédito para investimentos em avanços tecnológicos. De outro está a indústria brasileira, protegida durante décadas por uma reserva de mercado que a afastou dos padrões internacionais de qualidade e produtividade e praticamente impedida de tomar recursos no sistema bancário por juros cronicamente proibitivos.

A realidade da APedro é bem diferente da que lhe rendeu o título de Melhor das Melhores do Prêmio Desempenho de 1996, promovido pela Editora Livre Mercado. Em 1995 a empresa contabilizou produção 30% superior a 1994, por sua vez 40% maior que 1993. A produtividade por funcionário em 1995 era 40% maior que a de 1993. Mas o futuro desafiador não abala a determinação dos irmãos Fornasieri. Além de partir para outros mercados, a empresa está reforçando a atividade original por meio de qualificação. Cada um dos 160 funcionários receberá este ano 100 horas de treinamento, contra 70 no ano passado e 30 em 1996. "Alfabetizamos 12 colaboradores em parceria com o Sesi. Ninguém tem nível escolar inferior à quarta série completa" -- comenta Levi. 

Nos últimos anos a empresa deixou de ser mera fornecedora de peças isoladas para tornar-se sistemista, como são chamadas as autopeças que entregam conjuntos montados com várias peças. Além da Fiat de Betim (MG) e de Córdoba, na Argentina, a APedro fornece para a General Motors de São Caetano e do México, assim como à Mercedes-Benz. As exportações já representaram 12%, mas caíram para 4% com a crise argentina. A associação da Fiat com a General Motors ainda não refletiu nos negócios. Levi espera tirar proveito com intensificação de fornecimento à montadora norte-americana.


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