Economia

Onde o cafezinho
vale duas roupas

RAFAEL GUELTA - 05/11/2000

Quem toma cafezinho a R$ 0,90 na sofisticada loja de chocolates Kopenhagen tem oportunidade de conferir o paradoxo comercial em que se transformou o Calçadão da Oliveira Lima, no Centro de Santo André. Um lojão de bancada, que fica em frente, vende peças de roupas populares por R$ 0,50. Isso mesmo: dá para comprar quase duas peças de roupa com o valor pago por um cafezinho! Parece cena de cinema-ficção com toque do humor fino e inteligente do diretor norte-americano Woody Allen, crítico contumaz das mazelas e contradições humanas. Trata-se, na verdade, do mais cruel retrato da tragédia em que se transformou um dos pontos mais nobres do comércio de rua do Grande ABC.


Nem é preciso apelar a raciocínio lógico para perceber que o comércio da Oliveira Lima está com sério problema de foco. Passado um ano desde a cobertura parcial do corredor, que atinge apenas metade da extensão programada, não há sinal de que o calçadão possa tornar-se shopping a céu aberto como pretendem Prefeitura e entidades ligadas ao comércio. Parte de amplo projeto que prevê a reurbanização do Centro da cidade, ao custo total de R$ 22 milhões, a cobertura só terá efeito prático no resgate do comércio de rua se for seguida de iniciativas como liberação de áreas para estacionamento, atividades de convívio, readequação do mix de lojas e substancial reforço na segurança.


Kopenhagen ou o lojão de roupas baratas? Um dos dois estabelecimentos está no lugar errado. Se o olhar for dirigido ao tipo de negócio que predomina no corredor comercial e se for considerado o poder aquisitivo do público que tem frequentado a área nos últimos tempos, é certo que a loja de chocolates finos tem de entregar o ponto. Mas se prevalecer a intenção do projeto que levou a Prefeitura de Santo André a investir na cobertura e urbanização do Centro, o estabelecimento que não se enquadra é o lojão popular, onde também se compra roupas por R$ 1,99. Cobertura e urbanização têm como principal meta resgatar o consumidor das classes A e B, que debandou para shoppings.

Enquanto comerciantes questionam se a Oliveira Lima tem futuro, a empresária Marília Rodrigues Dias, dona da franquia da Kopenhagen, já tomou a decisão de tirar o time de campo. Marília não esconde frustração de quem tentou tudo para se dar bem no corredor que até os anos 80 foi o ponto mais nobre do comércio de rua do Grande ABC. Instalada há 33 anos no calçadão, a loja de chocolates deve fechar depois do Natal.  Mudará para endereço ainda incerto. Marília Dias não sabe se a franquia permanecerá em Santo André. "Vamos sair do calçadão, isso já foi decidido. A Kopenhagen está convencida de que não há espaço para loja sofisticada em ambiente tão popular. Desde que assumimos a franquia, há um ano e meio, estamos no vermelho. Tivemos de improvisar serviço delivery para atender consumidores fiéis que não frequentam o calçadão" -- lamenta a empresária.


Dois mundos -- Os 10 metros de piso que separam a franquia da Kopenhagen do lojão popular equivalem a um abismo. A casa de chocolates finos investe em padronização visual e marketing. Tem atendimento classe A, com funcionárias uniformizadas. Comercializa caixas de bombons que chegam a custar R$ 200. O lojão popular não tem o menor cuidado com visual e tampouco investe em marketing. Roupas ficam amontoadas em bancadas que funcionam como self-service. O negócio parece mais feira-livre que comércio de confecções.


Quem tem menos de 20 anos de idade e passa pela Oliveira Lima não faz idéia do glamour dos anos 70 e boa parte dos 80. Lojas de todos os segmentos, com produtos de primeira qualidade, atraiam ricos e classe média às para compras. Havia também lojas para os segmentos mais populares. Com cinemas e restaurantes nas imediações do corredor comercial, Santo André vivia anos de prosperidade econômica, com abundância de empregos e industrialização crescente que resultavam em poder aquisitivo da população. O cenário, hoje, é desolador: desemprego, evasão industrial e perda de arrecadação em impostos que limita e até impede investimentos em melhorias públicas.


O lojão de roupas populares que fica em frente à Kopenhagen ocupa o mesmo espaço que até há alguns anos abrigou filial da Lojas Americanas. "Quem dera houvesse uma Americanas na frente da Kopenhagen" -- reclama a comerciante Marília Dias. A loja da grande rede -- que transferiu muitas filiais de rua para shoppings -- era chamariz para consumidores de maior poder aquisitivo. Na época das Americanas e também da Riachuelo, outra rede que trocou a Oliveira Lima por shopping, havia espaço para lojas com produtos de melhor qualidade. "Muita gente vinha ao calçadão comprar brinquedos na Americana e acabava comprando roupas por impulso na minha loja. Isso não existe mais desde que a Americanas e a Riachuelo foram embora" -- observa um lojista que pede para não ser identificado.


O anonimato é sintomático. O calçadão parece uma ilha cercada de zum-zum-zum. Comerciantes que vendem produtos de pouca qualidade a preços baixos consideram que se enquadram no estilo do comércio de rua. Enfatizam que shopping é lugar de loja de grife e produtos de primeira qualidade. Proprietários de estabelecimentos mais sofisticados e seletivos queixam-se dos vizinhos populares, que espantam clientela. Poucos topam enfrentar o embate frente a frente. "Não tenho a menor dúvida de que é preciso melhorar a qualidade dos produtos vendidos no calçadão, principalmente as roupas. Seria bom também que houvesse restaurantes de qualidade nas imediações" -- propõe Victor Benedusi, proprietário da Discoteca Aldo, há 43 anos no corredor comercial. Benjamin Telent, dono da Loja Riviera, com tradição de 42 anos e que durante muito tempo manteve clientela da classe A, concorda. "O calçadão precisa de mix de mais qualidade. Lojas populares espantam o público de melhor poder aquisitivo".


Cultura do imediatismo -- A Oliveira Lima sofreu o mesmo tipo de empobrecimento que atingiu regiões centrais de grandes cidades brasileiras nos últimos anos. Além de componente econômico, acrescenta-se a questão política. Inspirado no calçadão-modelo da Avenida XV de Novembro do Centro de Curitiba (PR), a chamada capital brasileira de Primeiro Mundo, o de Santo André foi construído a toque de caixa, resumindo-se num simples fechamento de rua. Aspectos como infra-estrutura, paisagismo e criação de área de convívio, que o atual governador-urbanista paranaense Jayme Lerner levou em conta quando instituiu o calçadão de Curitiba há pouco mais de duas décadas, passaram ao longe de Santo André. Ou seja: prevaleceu a velha e incompetente política de criar impacto sem conteúdo.


A cobertura inaugurada no ano passado inclui-se no rol das iniciativas que pretendem recuperar a falha e adicionar conteúdo. Flávio Martins, presidente da SOL (Sociedade Oliveira Lima), entidade criada por lojistas para recuperar a área, aposta no futuro do calçadão. Mas reconhece que impera desorganização. "Só agora começam a surgir os primeiros efeitos proporcionados pela urbanização. Até a metade do ano que vem as lojas estarão adaptadas ao novo visual. Aumentou a preocupação dos comerciantes com a fachada dos estabelecimentos. Outro fato importante é que as vendas de Natal prometem ser muito boas e deverão contribuir para novos investimentos" -- analisa o presidente da SOL.


Flávio Martins trabalha com a expectativa de que o corredor comercial venha a se tornar shopping de rua nos próximos anos. Sabe de antemão que a missão é complicadíssima. Aparentemente, é impossível. Afinal, como convencer proprietários dos cerca de 280 pontos comerciais que compõem o perímetro central de que devem alugar espaços para estabelecimentos que agreguem valor e não para comerciantes do ramo popular que se comprometam a pagar mais? As regras do mundo capitalista são extremamente claras e favoráveis a quem oferece mais. Estabelecer ordem contrária demandará ações de convencimento e, mais que isso, projetar visão de crescimento a longo prazo para quem geralmente quer lucro imediato. 


É justamente essa tarefa que SOL e Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André) pretendem transferir para a multinacional Richard Ellis, gigante norte-americana do setor imobiliário. A idéia é fazer com que a Richard Ellis empregue o know-how conquistado em grandes empreendimentos internacionais para elaborar projeto estratégico para o calçadão. "O primeiro passo será ampla pesquisa para apurar qual é o mix ideal de comércio" -- acentua Luiz Antonio Sampaio, gerente da Acisa.


Se a contratação da Richard Ellis for concretizada, a idéia da SOL e da Acisa é criar empresa privada para administrar a área que terá entre os investidores proprietários dos 280 pontos comerciais. Caberá à administradora organizar o mix comercial, urbanizar, transformar o corredor em pólo de convívio, garantir segurança e criar novas áreas para estacionamento de veículos, um dos quais subterrâneo.


Por que comerciantes e entidades desejam recuperar o Calçadão da Oliveira Lima? "Além da importância de resgatar o comércio de rua, há a emoção dos moradores. A exemplo do que acontece em toda grande cidade onde o centro se degradou, os habitantes de Santo André se ressentem da perda de qualidade de uma área que faz parte da história de suas vidas. Há um desejo coletivo de que o Centro seja local a ser preservado" -- analisa Luiz Antonio Sampaio, da Acisa.


A expectativa dos comerciantes é de que a Prefeitura realize o restante da cobertura em 2001 e conclua o projeto de urbanização do Centro. "Se isso acontecer, o pessoal daqui ganhará mais ânimo" -- acredita o lojista Benjamin Telent. De imediato, todos estão voltados para as vendas de Natal. "Dizem que este será o grande Natal do real. Torcemos para que isso se concretize" -- projeta Flávio Martins.


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