Economia

Pobre pequeno
comércio?

LUIS ANTONIO SAMPAIO DA CRUZ* - 05/11/2000

O assunto do pequeno comércio foi tratado em matéria publicada por LivreMercado há seis edições. No entanto, nas mais diversas rodadas de conversa sobre os problemas do Grande ABC, em particular de Santo André, a questão do grande e do pequeno comércio tem estado presente com insistência, sinalizando que o tema merece ainda muita discussão. Portanto, a matéria é imperiosamente atual. Acrescentar ângulos diferentes para acender mais o debate e levantar contrapontos para dedicar-se a alternativas não convencionais e não óbvias demais parecem ser um exercício legítimo neste momento.

De tudo o que já foi dito e publicado, alguns pontos não foram contemplados com profundidade ou foram abordados de maneira superficial. Além do mais, concluir simplesmente que a solução para equacionar o problema dos pequenos comerciantes (que, conforme grita quase generalizada, estão sendo vorazmente engolidos pelo grande comércio) seja a de protegê-los os primeiros através de legislação regulamentadora que, se não desestimule o grande de se instalar na região, pelo menos exija contrapartidas, tem alguns vieses a se refletir.

Primeiro, temos que desconfiar sempre de regulamentações e protecionismos. Sabemos todos nós o quanto essa política foi funesta durante décadas para o País: desestimulando a modernidade e produzindo acomodações estruturais e gerenciais que nos custaram o olho da cara quando fomos expostos à competição. Além do mais, regulamentar para beneficiar uma parte em detrimento de todo o conjunto da sociedade é desrespeitar o direito da escolha do cidadão consumidor ou impingir hábitos de consumo e de compra incompatíveis com os dias de hoje.

Segundo, a idéia das contrapartidas, apesar de louvável sob certos aspectos, esconde nitidamente em alguns casos um certo oportunismo do Poder Público para girar um pouco mais rápido a roda voraz da arrecadação, ou transferir para a iniciativa privada realizações e obras da sua responsabilidade.

Do ponto de vista mercadológico, na indústria é absolutamente claro e aceito que existem mercados nos quais somente os grandes sobrevivem e outros em que apenas pequenos e médios obtêm sucesso. É claro que existem também atividades onde grandes e pequenos convivem pacificamente, mesmo assim com segmentação diferenciada de produto, de preço, de volume etc.

Como exemplo do primeiro caso temos a indústria química de base. Este não é, absolutamente, um mercado para pequeno investidor, pois trata-se de um ramo de capital intensivo e de fator capitalístico baixo. Não dá para entrar nesse negócio sem se falar em algumas centenas de milhões de dólares. No segundo caso, com raras exceções, temos a indústria têxtil de confecção. A história tem mostrado que nesse ramo crescer além de determinado tamanho é fatal, por tratar-se de indústria de produto com sazonalidade irregular (temos anos sem inverno no Brasil). Além do mais, é indústria de mão-de-obra intensiva e que trabalha com estoques de matéria-prima relativamente altos. Portanto, tremendamente vulnerável a complicações de capital de giro e de descontrole nos custos.

Por que não podemos admitir que ao comércio se aplicam regras semelhantes? Por que, no raciocínio dos grandes e pequenos comércios, não consideramos a vontade e a liberdade de escolha do consumidor? Afinal, quando no Grande ABC não existiam grandes shopping centers, nossa população ia às compras nos shoppings da Capital, não é verdade?

Temos de considerar também que os hábitos de comprar e vender mudaram radicalmente nos últimos anos. O antigo comerciante era mero intermediário entre a indústria e o consumidor. Comprar não era nada mais do que o ato de trocar mercadoria por dinheiro.

Hoje, comprar significa muitas coisas. E coisas diferentes dependendo do momento, da urgência, da disponibilidade, da facilidade de locomoção, de estacionamento, de disponibilidade de transporte coletivo, de tempo e até do que se pretende fazer no antes, durante e depois do ato de comprar. É muito provável, então, que o comércio tradicional não tenha mais vez quando tantas outras coisas contam no entorno do ato de ir às compras.

O consumidor não quer mais somente trocar dinheiro por mercadoria. Quer fazer do ato de comprar ou um complemento de outra atividade ou busca de uma experiência nova, surpreendente e confortadora. Ao mesmo tempo em que se alardeia que o pequeno comércio está morrendo, nunca se viu tanta loja de conveniência abrindo portas. Ora, são pequenos comércios. Dedicados, é claro, a atrair e atender o consumidor com pressa, na urgência, deslocando-se para outra atividade.

Uma pergunta é fundamental nessa discussão: que tipo de pequeno comércio sofre com a concorrência do grande? Não será o comércio tradicional para o qual não há mais espaço pela diversidade das formas e necessidades de comprar? Ou será o pequeno comércio localizado em área urbana de baixa atratividade pela insegurança, pela falta de espaços culturais e de lazer, pela baixa oferta de comodidades como estacionamento seguro e barato?

Há que se entender também que o próprio Poder Público às vezes é responsável pela deterioração de áreas de pequenos comércios.

Exemplifiquemos com a Avenida Cel. Alfredo Fláquer em Santo André. A intervenção pública com a implantação da Perimetral, necessária é lógico, mas sem considerar o comércio no seu planejamento, acabou com a atividade na área. A necessidade de criar uma via expressa, de trânsito rápido, afugentou o consumidor, que não tem facilidades para acessar as lojas locais.

O exposto é somente para diversificar a discussão, ver os problemas de outras formas e questionar se a solução seria mesmo a de regulamentar e proteger, ou se não deveríamos ajudar os comerciantes tradicionais a se equiparem de conhecimento e competências mais modernas diante do consumidor. Afinal, também se trata de competência empresarial saber se o ramo de atividade atual está ou não adequado aos novos tempos, se não há necessidade de modificar a forma de expor, o local da loja, o atendimento ao cliente e o produto que se comercializa. O pequeno comerciante também precisa fazer sua parte: sair da toca, procurar entidades de classe que o representam e buscar formação, gestões junto ao Poder Público e organizar-se nos bairros e centros comerciais.

Por fim uma pergunta importante a fazer para se descobrir se está no ramo certo ou não: se amanhã fechar as portas, meu cliente vai sentir minha falta?.

* Luís Antonio Sampaio da Cruz é membro do Conselho Consultivo de LivreMercado, consultor de empresas e gerente executivo da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André).



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