Economia

Paixão platônica
pelo calçadão

WILSON SOUZA - 05/01/2001

Na literatura do empreendedorismo, há inúmeros exemplos de situações nas quais a visão apaixonada cegou a realidade e levou muitos empresários para o banco dos desiludidos. Mas como cantava aos enamorados o poeta Vinícius, ai de quem não rasga o coração: nunca vai ter nada, não. Por mais que estatísticas demonstrem que o comércio de rua nas grandes cidades perde a maratona para grandes redes e shoppings encantados e passa por fundas transformações, há os otimistas incorrigíveis. Na pregação de Milton Collavini, administrador comercial do Shopping Santo André, o comércio de rua vive retomada de desenvolvimento. Entretanto, as ações praticadas pelo empreendimento apontam busca incansável por uma tábua de salvação. O shopping precisou reduzir em quase a metade o valor do metro quadrado locado para atrair novos empreendedores. No início do ano 2000 somente 50% do espaço encontrava-se ocupado. O fantasma da ociosidade rondava o local. 

O Shopping Santo André foi inaugurado em 1990. São 16 mil metros quadrados de construção, com capacidade para instalação de 136 lojas. Hoje há somente 72, num total de 4,4 mil metros quadrados locados. O metro quadrado de loja custa R$ 40, mais R$ 16 de encargos. Há um ano os valores eram R$ 70 e R$ 26, respectivamente. Collavini atribui a redução à queda do poder aquisitivo da população e à necessidade de enfrentar a concorrência. Entretanto, o shopping convivia com elevada inadimplência dos comerciantes e com lojas encerrando atividades. Milton Collavini explica: "Expulsamos, paulatinamente, os inadimplentes e hoje, devido à locação atrativa, atraímos outro tipo de empreendedor. A inadimplência é quase zero". O novo perfil de lojista é formado por coreanos oriundos do Bom Retiro e lojistas de balcão provenientes da área do Brás, na Capital. "O Centro vive retomada em função desses novos empreendedores, que apostam na confecção feminina com qualidade e preços baixos" -- acredita.

A paixão pelo comércio de rua da Oliveira Lima e proximidades revelada no discurso de Collavini pode esconder a necessidade do shopping atrair um público que não é seu, mas que circula diariamente pelo calçadão. São cerca de 100 mil pessoas que transitam na rua mais conhecida da cidade e outrora o mais concorrido corredor comercial do Grande ABC. Por essa razão, o shopping construiu acesso diretamente ligado à via, a fim de atrair esse público. No dia 16 de dezembro último, por exemplo, circularam por essa entrada 42 mil pessoas das 11h às 16h, conforme medição feita pela administração do shopping.  Encravado no coração da cidade, o empreendimento tem pouca visibilidade e não conta com atrativos de lazer e entretenimento como os concorrentes mais glamorosos. Na tentativa de modificar a situação, a administração aposta em ações pontuais. A praça de alimentação subiu de 50% para 70% do espaço ocupado, resultado da instalação de autorama, boliche e brinquedos eletrônicos numa área de 730 metros quadrados inaugurada parcialmente em dezembro. Eufórico, Collavini comemora: "Tivemos crescimento de 25%" -- mesmo sabendo que a data foi atípica, devido aos festejos natalinos. 

Fidelizar clientes é um desafio para o centro de compras, que não possui cinema ou atividade de entretenimento com forte apelo. O estacionamento do shopping, de 270 lugares, que seria um dos chamarizes do empreendimento, não atrai. 70% dos frequentadores são pedestres. Por isso mesmo Milton Collavini aposta no público frequentador do calçadão. Usa, para isso, o mote de que é 20% mais barato fazer compra na região da Oliveira Lima com qualidade e quantidade de oferta. "São consumidores objetivos, formados principalmente por trabalhadores da área central e de gente que se desloca para o Centro em função dos serviços públicos e bancários" -- justifica. Mas o fiel público se modifica nos fins-de-semana. O sábado, que é o melhor dia para vendas e supera o desempenho da semana, é composto por consumidores sem tempo durante a semana e procura produtos mais baratos. O domingo é assustador. O consumidor desaparece totalmente do Centro. Para enfrentar o sumiço, a administração do shopping, em conjunto com a Sol (Sociedade Oliveira Lima) e Prefeitura buscam alternativas. Uma opção há muito em estudo é implantar atividades culturais e de lazer no calçadão e arredores. Outra aposta de Collavini é a parceria que firmou com a loja McDonalds da Oliveira Lima, que inaugura em março, dentro do shopping, salão de festas com 40 metros quadrados voltada ao público infanto-juvenil. 

Otimismo exagerado ou não, o comércio da Oliveira Lima e arredores busca meios de sobrevivência em meio a um público cada vez mais popular, perfil que deve se solidificar com a invasão de coreanos e comerciantes de banca. Mas o fantasma do futuro ainda assusta. Enquanto isso, resta uma pergunta: até quando dura uma paixão?


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