Economia

Troca-troca só
favorece Mauá

VERA GUAZZELLI - 05/02/2001

Não há como brigar com os fatos. Espécie de falha nossa declarada pode ser acrescentada ao desempenho da Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Mauá nos últimos quatro anos. Quem faz o mea culpa é o próprio titular da pasta, Paulo Eugênio Pereira, que vai ocupar o cargo por mais um mandato. Injusto negar que o esforço de atrair anunciadas 37 indústrias para o Pólo de Sertãozinho rendeu ao Município bem mais que holofotes. Mauá aumentou a arrecadação, mas ainda sobrou lacuna a preencher. Cerca de 70% das novas empresas deslocaram-se de outros Municípios da região, ou seja, trocaram o Grande ABC pelo próprio Grande ABC. Empreendimentos novos, que agregam valor e empregos à economia regional, ficarão, quem sabe, para a próxima etapa.   

A mudança de endereço é relevante para Mauá. Mas a análise dos números e estatísticas gerados nem sempre com clareza por toda a movimentação requer cuidado. Caso contrário, corre-se o risco de incorporar índices fictícios ao quadro econômico regional. Também soaria hipócrita crucificar Mauá pelo fato de ter absorvido empresas de municípios vizinhos. Que atire a primeira pedra a cidade que priorizou problemas regionais em detrimento dos interesses do próprio quintal. E quando se tem a maior dívida per capita do Brasil -- cerca de R$ 2 mil por habitante ou R$ 800 milhões no total --, é impossível a Mauá deixar para amanhã qualquer oportunidade de aumentar a arrecadação. A sobrevivência de 390 mil moradores está em jogo.

Talvez por isso a Secretaria de Desenvolvimento Econômico tenha se preocupado mais em atrair e manter indústrias do que em criar novas. O tripé atração/manutenção/criação foi estabelecido à época em que a pasta ainda tinha status de diretoria, mas não pôde ser cumprido à risca por diversos fatores, um dos quais o próprio orçamento minguado que inviabilizou projetos mais ambiciosos. Para 2001, residuais 0,36% dos R$ 172,6 milhões do orçamento de Mauá serão destinados ao Desenvolvimento Econômico. A conta dá exatamente R$ 621 mil. 

"Alguns projetos foram incluídos no orçamento de 2001" -- garante Paulo Eugênio Pereira. "A incubadora de empresas deve deslanchar a partir de abril e o Banco do Povo ainda no primeiro semestre" -- planeja.  Até agora o saldo positivo ficou para as finanças da cidade. O repasse de ICMS vai engordar aproximadamente R$ 8 milhões em 2001, valor equivalente a quase um 13º em impostos, levada em conta a média de R$ 12 milhões arrecadados mensalmente. A perspectiva se estende também para os próximos anos porque o ICMS chega aos municípios sempre com base nas atividades de dois anos anteriores.  

Mauá não ofereceu isenção de impostos para que as empresas optassem pelo Município. Por isso, pode fazer projeções favoráveis. O único empreendimento que chega à cidade isento de tributos por 10 anos é o Mauá Plaza Shopping. O centro de compras do Grupo Peralta, com inauguração prevista para outubro, mereceu lei específica porque envolveu doação de área pública, readequação do sistema viário e remodelação urbana do Centro. O investimento total beira R$ 40 milhões.

O efeito dos impostos não se repetiu no quesito geração de empregos. Como a quase totalidade das 37 empresas que chegaram ao Pólo do Sertãozinho migrou de cidades vizinhas, as 6,5 mil vagas anunciadas contribuíram muito pouco para diminuir o desemprego regional, que ainda bate na casa dos 17%. Saber efetivamente quantas vagas foram criadas foge da simplicidade de uma equação onde as variáveis x mais y resultam em z. A Basf Poliuretanos manteve o número de vagas quando desfez a joint-venture com a Cofap e se instalou no Sertãozinho. O mesmo raciocínio vale para a Polarfix, que trocou Ribeirão Pires por Mauá, ou para a Garden Life, ex-Zona Leste da Capital. Não se sabe exatamente quantos funcionários foram transferidos, eliminados ou contratados nas idas e vindas.

Mauá desconhece, aliás, números detalhados da própria economia. Não possui censo econômico, sabe que precisa de um e já fez orçamento do estudo: R$ 240 mil. É mais uma das metas para os próximos quatro anos se houver dinheiro ou alguma instituição disposta a financiar o projeto. Certeza mesmo só uma: a transferência das empresas beneficiou os funcionários que residem em Mauá.  Paulo Eugênio Pereira acredita que, com tanta mudança de endereço empresarial, 50% da PEA (População Economicamente Ativa) já trabalhe na cidade. "Acho que estamos deixando de ser uma cidade-dormitório" -- torce. 

O Pólo de Sertãozinho também nutre expectativas com relação ao primeiro condomínio empresarial da cidade. As 28 empresas instaladas em 1,5 milhão de metros quadrados do loteamento Coral fundaram a Acibam (Associação Condomínio Industrial Barão de Mauá). Com o início das obras da portaria e da sede administrativa foi dado o primeiro passo para o fechamento da área e a consequente busca de otimização de serviços comuns, como segurança.


Incubadoras -- O fato de a maioria dos projetos da Secretaria de Desenvolvimento Econômico para 2001 constar do orçamento não significa que existam recursos garantidos para todos. As prioridades ficam para a incubadora de empresas e o Banco do Povo. A primeira já tem conselho gestor formado por Senai, FEI (Faculdade de Engenharia Industrial), Faculdade de Desenho Industrial, Fama (Faculdade de Mauá), Petrobras, Basf e Resinor, além de Prefeitura, Sebrae, Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC e Banco do Brasil.

O espaço para a instalação não está definido, mas o projeto prevê dois mil metros quadrados de área com no mínimo 12 e no máximo 24 empresas incubadas. A Prefeitura investe R$ 120 mil e o Sebrae, valor idêntico. Em visão sinérgica e estratégica, Paulo Eugênio Pereira gostaria que a sede fosse no Pólo de Sertãozinho, local considerado ideal para fazer emergir novas empresas ligadas à cadeia do plástico. Com 57% do ICMS proveniente da indústria petroquímica e de transformação plástica, não dá para negar a vocação do Município. A maioria das empresas do Pólo de Sertãozinho já está ligada à cadeia produtiva plástica e se instalou no local para estar próxima dos fornecedores de matéria-prima do Pólo de Capuava.  

O Banco do Povo também integra a lista de projetos dos próximos quatro anos. A questão ainda é embrionária porque a Prefeitura terá de decidir se adota o modelo do Estado ou o da Prefeitura de Santo André. O Banco do Povo de Santo André é uma ONG (Organização Não-Governamental) auto-sustentável que desburocratiza o acesso ao crédito, mas trabalha com juros de mercados. No banco estatal os juros são menores, mas os critérios de acesso aos empréstimos são mais rígidos. O Estado financia 90% do crédito e a Prefeitura 10%, além de arcar mensalmente com gastos de infra-estrutura, como ocorre em São Bernardo e prevê-se para Diadema.

Apesar da oferta de galpões vazios em toda a região, a movimentação de empresas em direção ao Pólo de Sertãozinho provoca valorização imobiliária da área. O preço médio do metro quadrado saltou de R$ 30 para R$ 50 nos últimos dois anos. Também a expectativa de que o trecho sul do Rodoanel passe a aproximadamente dois quilômetros da avenida Papa João XXIII, principal via local, infla o preço dos terrenos, até agora propagados como mais atrativos do Grande ABC. O governo do Estado anunciou que vai licitar o trecho sul do Rodoanel até outubro deste ano.

O Pólo de Sertãozinho é considerado última reserva de área para uso industrial no Grande ABC. São cinco quilômetros quadrados ainda disponíveis, cuja ocupação foi facilitada pelo Plano Diretor e pela Lei de Zoneamento aprovadas ano passado pela Câmara de Mauá. Dentro de 90 dias a Prefeitura deve concluir o Plano de Ocupação Sustentada, espécie de compêndio que reúne todas as exigências legais para a instalação de indústrias. Dessa forma, será possível identificar terrenos propícios a cada projeto, agilizar a documentação e garantir a preservação de mata virgem ainda existente no local.  


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