Estaria o Grande ABC preparado para dar salto de qualidade em ações institucionais e práticas que possam arremeter o desenvolvimento regional para patamar que gere mais confiança e auto-estima? Depois de longa década atingido pela avalanche da globalização e pelo terremoto da estabilidade monetária, situação agravada com os desfalques provocados pela guerra fiscal a partir dos anos 70, quando municípios de São Paulo e de outros Estados utilizaram armamento pesado por investimentos industriais, como estará a competitividade do Grande ABC?
Se o economista e escritor norte-americano Michael Porter fosse convocado para estudar o caso Grande ABC, certamente a resposta para as duas questões seria a mesma de LIVRE MERCADO. Não e não! O Grande ABC ainda não consegue reunir todos os pressupostos para reverter o desequilíbrio econômico -- um desequilíbrio que pode ser resumido na perda de 45% no bolo do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) nos últimos 25 anos. Como se sabe, grande parte do ICMS regional é o resultado direto da produção agregada da indústria de transformação.
Mais tombos do Grande ABC? Os 23,5% de queda no IPC (Índice de Potencial de Consumo) medido pela Target Marketing e Pesquisas no período de 1991 a 2001. Ou os 43% de rebaixamento do Valor Adicionado, que é produção de riquezas, entre 1995 e 1999, segundo dados oficiais da Secretaria da Fazenda do Estado. Indicadores circunstanciais do mercado de trabalho oferecem a ilusão de que o mergulho econômico já foi superado. É um equívoco, porque os dados têm a consistência de nuvem passageira. O imbróglio da região é estrutural, como revelam sem sofismas as estatísticas de Valor Adicionado. A evasão definitiva da Multibrás, ex-fabricante de Consul e Brastemp em São Bernardo, não é fato isolado a ser lamentado. É sintomaticamente o resultado de omissões históricas do Poder Público de administrar mesmo em território municipal, quanto mais regional, as nuances do desenvolvimento econômico acima das especificidades macroestaduais e macronacional. Além disso, não pode ser desconsiderada a dificuldade que o sindicalismo apresentou para recalibrar ações reivindicatórias tendo em vista os novos parâmetros de competitividade.
A realidade dói, irrita triunfalistas de ocasião, mas o Grande ABC envelheceu, tornou-se obsoleto e dispendioso para a conjuntura internacional que se iniciou com a abertura dos portos nos anos 90 e se consolidou com a estabilidade monetária implantada com o Plano Real. Para se adequar às novas referências de preços relativos internacionais, agravados com a sobrevalorização da moeda durante anos seguidos, exercitou-se no País uma reestruturação inadvertidamente insana por causa da macroeconomia internacional.
Do envelhecimento de máquinas, equipamentos e processos, o Grande ABC internacionalizado saltou para o rejuvenescimento a toque de caixa. Deixaram-se no caminho marcas fundas de mais de uma centena de milhares de empregos industriais formais ao longo dos anos 90. O que isso representou de fato para a comunidade regional?
Experimente o leitor acompanhar as doutrinas de Michael Porter expostas no livro A Vantagem Competitiva das Nações. Nem de longe se pode afirmar que alguém quebraria a cara se transferisse os fundamentos teóricos desse norte-americano para o momento do Grande ABC.
Professor da Harvard Business School e conselheiro de importantes empresas em todo o mundo, Michael Porter foi membro da Comissão Presidencial sobre Competitividade Industrial nos Estados Unidos. Especialista em desenvolvimento regional e nacional, Michael Porter estudou mais de 100 diferentes negócios em oito países desenvolvidos e dois emergentes. Com base nessa longa experiência, estruturou a teoria das vantagens competitivas e notabilizou-se pela rigorosa conceituação sobre clusters. Procure o leitor enquadrar a capacidade de competitividade do desenvolvimento regional aos mandamentos de Michael Porter em relação à interpretação de LM e tire as próprias conclusões sobre o estágio econômico e social do Grande ABC.
O Grande ABC é um barril de pólvora de criminalidade, desemprego e exclusão social. O velho orgulho regional foi-se pelo ralo do esgarçamento econômico de uma população que está viúva do cada vez mais escasso emprego industrial de primeira classe. O agravante é que não consegue alternativas depois que o comércio e os serviços tiveram vagas exauridas na mesma proporção do rebaixamento da remuneração, tradicionalmente muito aquém da riqueza manufatureira. A crescente informalidade dos negócios que predomina em um terço da economia regional, no que chamamos de Capitalismo de Terceira Classe, coloca a região numa evidente barricada de proteção contra o peso descomunal dos impostos federais, estaduais e municipais. Desde 1994 o peso do Estado abusado saltou de 24% para 32% do PIB (Produto Interno Bruto). A informalidade também é uma espécie de tentativa de sobrevivência diante da avalanche dos grandes conglomerados de comércio e serviços que desembarcaram na região sem a menor cerimônia e disciplina ocupacional.
Há um acordar excessivamente seletivo da sociedade quanto à perda de qualidade de vida. Os movimentos de reação são esparsos, individuais e defensivos. No momento, nem mesmo o Fórum da Cidadania representa esperança de reação. O bom senso indica que não se deve exagerar nas expectativas. O Fórum da Cidadania continua sem estrutura profissional e rigorosamente com foco distorcido pela gulodice de agarrar o todo sem se dar conta das partes.
O decadente voluntarismo de representantes do Fórum da Cidadania é prova de que há especialistas das mais diferentes áreas dispostos a colaborar cada vez menos, depois da constatação de desencantos a bordo de resultados práticos sofríveis. A tarefa de reformatação do organismo não é simples.
O buraco em que o Fórum da Cidadania se meteu é conceitual e também estrutural. Conceitual porque ainda se perde na capilarização temática, quando a situação emergencial da região exige a definição de um grupo seletivo de ações cujas repercussões sejam abrangentes, não o inverso, isto é, uma abrangência de abordagens com resultados pulverizados. O buraco estrutural decorre do fato de o Fórum ser um saco de gatos de representantes das mais variadas entidades que se digladiam na tentativa de transformar em carros-chefes os problemas específicos com os quais se defrontam corporativamente.
Como se não bastasse esse erro estratégico, a sequência é ainda mais comprometedora porque a entidade não consegue dar fluência prática às demandas. Daí à desmobilização é um passo. Tanto que o Fórum da Cidadania esvaziou-se ao longo dos anos a partir do ressurgimento do Consórcio de Prefeitos e da criação da Câmara Regional do ABC, que lhe retiraram boa parte da pregação reformista. Ao desconsiderar a lógica de que o Conselho Consultivo deveria definir a estratégia e as plenárias se dedicariam à operacionalidade tática, o Fórum da Cidadania subverteu os princípios de produtividade de resultados.
Para piorar ainda mais o quadro, o Fórum da Cidadania também não teve capacidade de entender que o conceito que fixou as bases do chamamento dos voluntários era produto com data de validade precária. Afinal, consenso é insumo que se constrói basicamente como pronto-socorro de situações emergenciais, como foi o caso do Fórum que, mesmo sem enraizamento popular, balançou as estruturas institucionais governamentais a partir de 1994. O equívoco foi não ter-se dado conta de que, a partir de determinada altitude, o vôo exigia mudança de rota. O Fórum insistiu no consenso absoluto até mesmo com a improdutiva substituição do critério da unanimidade pela leve mitigação do conceito -- isto é, que 90% já seriam suficientes para as decisões. Suas lideranças não observaram que o modelo de convergência praticamente absoluta do temário estrangulava a mobilidade de ações mais prementes.
Sem o reposicionamento do Fórum da Cidadania, as dificuldades de o Grande ABC contar com uma contraface às forças governamentais serão sentidas em larga escala. Até porque, com exceção da Prefeitura de Santo André e seu projeto Santo André Cidade Futuro, que conta com participação de parte da comunidade, nenhuma administração pública local está interagindo efetivamente e de forma permanente com lideranças comunitárias. A perspectiva é a de que os próximos anos serão intensamente fortes na agenda política. A disputa pelas prefeituras da região se intensificará na exata proporção do fato de que os principais bichos-papões eleitorais, casos dos prefeitos Celso Daniel, Maurício Soares e Luiz Tortorello, estarão fora do páreo. As cadeiras de chefes de Executivos estão, portanto, praticamente disponíveis no mercado eleitoral, com as consequências que isso pode gerar.
Apenas individualmente em alguns municípios, e mesmo assim de forma superficial, é possível dizer que o Grande ABC se conhece estatisticamente e reúna instrumentos práticos de reação. Só mais recentemente a Agência de Desenvolvimento Econômico, braço estratégico da Câmara Regional, conseguiu reunir em dois cadernos resultados preliminares de pesquisas contratadas à Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados), do governo estadual. Mesmo assim, além de pouco profundo, o trabalho não foi destrinchado no todo e praticamente não auxilia em nada a prospecção de oportunidades de negócios. Tanto que representantes empresariais, liderados por Fausto Cestari Filho, do conglomerado Fiesp/Ciesp, distribuíram uma série de golpes contra o reduzido conteúdo empreendedor dos trabalhos da Agência.
Nas duas primeiras reuniões para debater os indicadores preliminares, não escapou a tentativa de dourar a pílula. Alguns executivos ligados direta ou indiretamente ao organismo, um dos quais João Batista Pamplona, que carrega o título de professor doutor da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, mas teria dificuldades de citar 10 nomes de indústrias da região, reagiram à pesquisa como se fossem parteiras da felicidade em meio à guerra.
Entretanto, por mais que venha a ser esmiuçado, esse trabalho não conduzirá isoladamente a soluções. Mais recentemente, novo estudo da Agência, agora sobre o que foi denominado imprecisamente como Economia Informal do Grande ABC, revelou toda a face de depauperação. O Capitalismo de Terceira Classe, como pode ser chamada essa parcela representativa da População Economicamente Ativa da região, é um anacronismo que ultrapassa as relações exclusivamente econômicas. Afinal, quando um terço da PEA está praticamente marginalizada do processo econômico formal, o resultado invade o terreno social.
Desdobramentos teóricos de trabalhos encomendados pelas administrações municipais e regionais são tão importantes quanto a vontade política de promover ações. Entretanto, ter disponibilidade de dados não significa praticamente nada aos olhos, ouvidos e bolsos de investidores privados, que costumam pensar com a cabeça e não com o coração. Aulas teóricas podem transformar qualquer candidato em especialista em navegação aérea, mas daí a garantir que basta acionar o manche para que se tenha vôo com segurança é outra história.
Os especialistas em números macrorregionais do Grande ABC estão na mesma situação. Eles interpretam informações com vícios de triunfalismo barato, mas não conseguem traduzi-las em projetos efetivos de ações. Primeiro, porque são teóricos, simplesmente teóricos. Segundo, porque suas teorias são desacreditadas pelos fatos. Está cada vez mais difícil vender gato por lebre num País onde a competitividade interna e externa por plantas industriais está cercada por rede cada vez mais densa e emaranhada de informações.
O questionamento das ações da Agência de Desenvolvimento Econômico por lideranças do empresariado, à frente Fausto Cestari Filho, é fato novo no relacionamento entre governo e comunidade na região. O recente debate diplomático mas incisivo entre Fausto Cestari e Celso Daniel, prefeito de Santo André e diretor-titular da Agência, revelou o fim da governança regional com base no consenso improdutivo que permeou as relações entre os mais diferentes agentes nos últimos anos, sempre como extensas ramificações conceituais do Fórum da Cidadania.
Também aqui a roda pega. As lideranças privadas são caso à parte, porque praticamente não existem como protagonistas de costuras regionais tanto quanto de intervenções extracorporação. É possível que a morte matada do consenso registrada na reunião da Agência de Desenvolvimento Econômico coloque fogo na canjica dos empreendedores e eles resolvam, finalmente, mostrar que o Grande ABC conseguiu eliminar um paradoxo histórico de ter capitalistas mas não dispor de representatividade empresarial. Para isso, é preciso sair da retórica.
A oxigenação das entidades empresariais é um dos passos inadiáveis nesse sentido, mas até agora o imobilismo prevalece. O Grande ABC empresarial sofre com a falta de mobilização porque, entre outros motivos, está a antiga subserviência estrutural a entidades sediadas na Capital. É o complexo de periferia que se manifesta em vários campos, e na economia não é exceção.
Já as autoridades públicas, de maneira geral, exibem o mesmo empenho individual de torcedores que se engalfinham nas filas em busca dos últimos ingressos de futebol em dia de decisão: todos querem garantir bilhete para assistir ao espetáculo, mas individualmente se darão por satisfeitos se conseguirem se acomodar para torcer, independente do sucesso ou da frustração de acesso dos demais. Gestores públicos ainda não caíram na real de que não adianta cuidar apenas do próprio quintal. Os sete municípios locais formam vasos comunicantes. O que afeta um, provavelmente afetará a todos. É só questão de tempo. E o tempo não costuma perdoar equívocos.
Também nesse ponto o Grande ABC está distante do ideal. Por mais que tenha havido avanços institucionais nos últimos cinco anos, com a criação, crescimento e queda do Fórum da Cidadania, a recuperação seguida de contração do Consórcio de Prefeitos e o surgimento, embalo e recolhimento da Câmara Regional, está-se muito longe do necessário. Há, por exemplo, disputa encarniçada por investimentos que ajudem a melhorar os cofres públicos. Pequenos negócios, despreparados na maioria dos casos para a competitividade com grandes conglomerados, não encontram respaldo dos administradores públicos e também não se organizam com força suficiente nas entidades de classe. Agora até o Sindicato dos Trabalhadores no Comércio anuncia que está disposto a aliar-se aos pequenos comerciantes. Quando capital e trabalho se juntam, é sinal de que a situação está mais complicada do que as estatísticas eventualmente tentam traduzir -- principalmente estatísticas manipuladas por cenografistas de plantão travestidos de cenaristas de prontidão.
Há pontos em comum entre os diversos agentes econômicos e sociais da região? Sim, desde que interesses específicos não sejam contrariados. Até a histórica reunião na Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André) para definir a diretoria que comandaria a Agência de Desenvolvimento Econômico, consenso se tornou palavra-chave. Até então, decisões compartilhadas eram epidemia numa região que se notabilizou pela rebeldia da classe operária e pela paixão ao contraditório. Chegou-se até então à conclusão inconsciente de que o Grande ABC estava tão debilitado institucionalmente que não suportaria posicionamentos independentes que eventualmente contrariassem a maioria mais cômoda. O problema é que a terapêutica não amenizava as dores do doente. Agravava-as. Daí a explicação para a insurreição empresarial liderada por Fausto Cestari.
Mexer no Custo ABC incrustado nas relações trabalhistas é exemplo de heresia. Lideranças sindicais dizem que não existe justificativa para essa expressão endemoniada que exorcizam com discursos inflamados. Mas caem em contradição quando exigem a padronização salarial no setor automotivo, ao acusarem montadoras e autopeças de pagar salários ditos miseráveis nas novas unidades construídas em outros territórios. A realidade é que o Grande ABC é um paraíso para o capitalismo de primeira classe, formado pelos trabalhadores das montadoras e autopeças, mas o inferno para investimentos que estão com um olho na competitividade internacional provocada pela globalização e outro nas vantagens oferecidas por outras regiões sedentas por indústrias.
O século virou, o milênio terminou e o Grande ABC vive estado de letargia, embevecido pelo histórico desenvolvimento econômico a partir dos anos 50, a bordo das montadoras de veículos, e embriagado pelo reconhecimento mundial de que o relacionamento capital versus trabalho ganhou novas configurações a partir da revolução de Lula e companhia no chão de fábrica das automotivas de São Bernardo. Politicamente frágil, com representação estadual e nacional assimétrica quando comparada à sua ainda pujante economia, culturalmente obstruído pela feérica atividade da vizinha Capital do Estado e institucionalmente fragmentado em sete partes que insistem em se observar como antagonistas, o Grande ABC vive da ilusão de que é monolítico só porque seus municípios são territorialmente complementares e suas autoridades públicas, especialistas em dissimulação, ocupam espaços na mídia como garotos-propaganda da regionalidade. Pena que nos bastidores organizam-se para a guerra de guerrilhas municipais.
No âmbito privado, a representatividade dos empreendedores da região sempre sofreu do mal que atinge os pára-brisas de veículos que batem de frente contra um poste: está estilhaçada pelo divisionismo geográfico, corporativo e filosófico, fatores que ganham lente de aumento quando se retrocede ao histórico de dependência das organizações sediadas na Capital.
Gol contra -- Como se observa, de todos os pressupostos para o Grande ABC enfrentar os desafios que a globalização impõe, somente o primeiro, que trata do estado de ânimo da população sobre o quadro socioeconômico, pode ser considerado seguramente favorável. Mas que se dilui devido ao baixíssimo grau de coalização.
Para complicar ainda mais o quadro de dispersão, de vez em quando aparece alguém para fazer com platéia de palestras ou com leitores de jornais e revistas o mesmo que Romário costuma repetir a cada gol que marca com a maestria de quem é especialista na arte de tornar a bola extensão da própria perna. A diferença é que Romário comemora gols a favor, enquanto protagonistas do Grande ABC róseo costumam marcar contra as próprias redes porque induzem ouvintes e leitores incautos a interpretações seletivamente tranquilizadoras.
Há mecanismos de variados matizes que especialistas em tergiversar utilizam com despudor dos estelionatários. O mais comum dos truques é mostrar o acessório e esconder o principal, espécie de efeito-biquíni, como o economista Roberto Campos definiu citando essa ínfima peça da vaidade feminina. Há outros que caem no discurso conformista e semântico de que não houve esvaziamento econômico e sim desconcentração econômica saudável para a qualidade de vida, como se o Grande ABC não fosse uma ilha de incluídos cada vez mais cercada de excluídos. Alguns chegam mesmo a acreditar -- ou tentam fazer com que acreditem -- que o refluxo industrial das duas últimas décadas não resultou em recuo semelhante na capacidade de gerar riquezas. Uma negação absolutamente sem nexo, porque levaria à analogia recíproca de que não foi a ocupação industrial do Grande ABC que determinou a transformação socioeconômica desse território até então perdido na periferia da Capital.
A impressão que esses Romários ao avesso transmitem é de que passam horas e horas mergulhados em masturbações econômicas para tentar dar a cada diagnóstico de ocasião solidez comparável à casca de ovo.
Embora seja crescente entre os chamados formadores de opinião e tomadores de decisão a constatação de que o Grande ABC já não está com a bola toda de outros tempos, é recorrente a presença na mídia e em palestras de trapalhões dispostos a provar o impossível. E nem se pode dizer que os leitores e as platéias sejam invioláveis a esses pregadores de fantasias. Por mais que a realidade piore a cada dia, por mais que os empregos escasseiem, por mais que cada esquina se transforme em ponto de assalto, por mais que as indústrias de segurança cresçam na mesma proporção dos barracos que sobem os morros, por mais que a exclusão social rime com exclusão empresarial, um falso propagador de desenvolvimento econômico sustentado sempre tem currículo universitário. Como tal, gera credibilidade, porque memória curta e deslumbramento a títulos acadêmicos são especialidades nacionais.
É verdade que a temporalidade dessa manipulação é volátil como o mercado financeiro, mas sempre atrapalha o processo tático e estratégico que visa despertar a cidadania para as efetivas transformações que o Grande ABC exige.
Michael Porter não precisa conhecer fisicamente a região para que os preceitos de competitividade consolidados como consultor consagrado sejam analisados com razoável competência. Além disso, é melhor mesmo que não conheça a personalidade contraditória de alguns estudiosos que se dizem seus discípulos: eles vivem drama freudiano de contestar a realidade regional, negando a enfermidade de problemas inquestionáveis, enquanto propagandeiam as virtudes do especialista no tratamento. É uma gigantesca contradição, porque não teria sentido chamar o reforço teórico de Michael Porter se o Grande ABC não estivesse de calças arriadas por causa do esvaziamento econômico e, principalmente, da orfandade de alternativas para reencontrar a trilha do desenvolvimento trazido pelo setor automotivo que, como se sabe, será menos intensivo de mão-de-obra e cada vez mais restritivo de parceiros da cadeia de produção.
Pelo menos no curto prazo não se observa no horizonte regional nada que indique com segurança que o Grande ABC reencontrou o norte do desenvolvimento econômico. Simplesmente porque do ponto de vista regional não se produziu absolutamente nada que possa ser catalogado como expressivamente representativo de grande reviravolta. Há mais fogos de artifício do que argamassa. Mais marketing pessoal do que ações conjuntas. Ou mais eventos do que ações, como definiu ainda recentemente o empresário Fausto Cestari Filho.
Basta perguntar a qualquer homem público local qual é o grande projeto alternativo para a região sair da encruzilhada em que se meteu por falta de planejamento estratégico e todos dirão, ou serão obrigados a dizer, que estão carregados de interrogações. Alguns tentarão enrolar, tergiversar, e se tornarão ridículos. Sabem por quê? Porque como seus antecessores, representantes dos governos municipais do Grande ABC jamais lançaram olhos além das fronteiras municipais. Uma desfaçatez estratégica quando se sabe que o mundo inteiro se entrincheira em blocos econômicos regionais, insuperavelmente mais complexos de estruturação.
Enquanto as secretarias municipais de Desenvolvimento Econômico continuarem apenas como acessórios no organograma das prefeituras, não se deve esperar pela regionalidade produtiva. A constatação de que o conjunto dos administradores públicos locais reservou em 2001 apenas um terço dos recursos que a Prefeitura de Guarulhos destinou a sua pasta de Desenvolvimento Econômico é emblemática do descaso.
A omissão é muito mais que uma simples cochilada coletiva. Trata-se de algo mais complexo: os governos municipais dormem sob a anestesia da falta de interesse desenvolvimentista. Vivem a vocação de terem o coração e a mente socialistas, de respirarem programas sociais. Por isso, estão mais sensíveis às benesses da arrecadação de impostos do que à transpiração e à inspiração de contribuir para a produção de riquezas, que, em última instância, assegurarão maré montante de novos impostos.
O Grande ABC tem insistido em viver das heranças do passado que o colocam como um dos principais pólos de potencial de consumo do País, resultado direto do acumulado de riqueza de um parque industrial que há muito tempo não é o mesmo. O problema todo é que a cada dia que passa a conta da caderneta de poupança de prosperidade regional alimentada durante anos enfrenta a dura realidade de saques sistemáticos. Poupador inteligente trataria de se reorganizar para evitar a sangria. O Grande ABC ainda não se deu conta disso na dimensão desejada. Por isso, as administrações públicas estão se especializando no enxugar de gelo de programas assistenciais que deslumbram jurados de premiações mundo afora, mas não conseguem acertar o passo econômico interno. Não só não acertam como tropeçam e atropelam a vizinhança mais próxima.
Total de 1995 matérias | Página 1
04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC