Economia

Evasão continua. Quando
vamos reagir de fato?

ANDRE MARCEL DE LIMA e DANIEL LIMA - 05/10/2001

Uma proposta para a sociedade regional: vamos reduzir a evasão industrial e salvar o Grande ABC do esvaziamento econômico que se acentua a cada ano. Evasão industrial é realidade que precisa deixar de ser lançada para debaixo do tapete do comodismo, da dissimulação e mesmo da negação. Negar o inegável é incorrer no pior dos desatinos. Por isso, a Editora Livre Mercado decidiu lançar a campanha Chega de Evasão, É Hora de Mobilização como um dos pilares do programa Construindo o Futuro.

A decisão se prende a informações preocupantes: uma única empresa especializada em terrenos virgens ou desocupados, galpões abandonados e fábricas instaladas no Grande ABC contabiliza 2,5 milhões de metros quadrados à venda na região. Desse total, 400 mil metros quadrados são de 40 indústrias de médio porte que estão em atividade mas se preparam para bater asas. Isso mesmo: querem ganhar mais competitividade e para isso consideram o Grande ABC inviável. 

Esses números devem chamar a atenção de lideranças públicas, trabalhadores e comunidade porque, sem fazer alarde, mais 40 indústrias de porte instaladas em Santo André, São Bernardo, São Caetano e Diadema estão com imóveis à venda. A informação parte de uma logomarca respeitável no mundo dos negócios imobiliários. É a Bamberg, uma das maiores consultorias de imóveis industriais, comerciais e residenciais de São Paulo. A contabilidade histórica da empresa registra mais de três milhões de metros quadrados negociados em 15 anos de atividades. 

A falta de dados confiáveis nas prefeituras e também nas inúmeras imobiliárias sediadas no Grande ABC é um dos nós górdios do planejamento ocupacional da região. Como propor políticas de desenvolvimento econômico sustentável sem ter às mãos -- livre de interesses políticos, institucionais e também privados -- um desenho bem acabado do mapa regional de deserções industriais e também de terrenos que jamais foram ocupados produtivamente, entre outros motivos, por causa de leis restritivas demais? 

O balanço da Bamberg, jamais detalhado ou mesmo dimensionado publicamente pela empresa, deve ser interpretado como espécie de abertura de uma fresta que pode levar a constatações mais desagradáveis. Isso porque envolve praticamente apenas empreendimentos de médio porte cujos dirigentes recorrem com mais frequência a empresas de consultoria imobiliária mais renomadas. A raia miúda de pequenas indústrias que desapareceram do cenário do Grande ABC nas duas últimas décadas está pulverizada por dezenas de imobiliárias locais. 

Por isso, qualquer diagnóstico sobre o universo de espaços disponíveis na região pode ser exercício incompleto, embora importante. Certo mesmo é que a Bamberg tem 2,5 milhões de metros quadrados disponíveis ou potencialmente disponíveis no Grande ABC. Para se ter idéia do tamanho desse negócio para a empresa, enfileire 625 quarteirões de tamanho padrão e encontrará o resultado espacial mais facilmente identificável. Se ainda tiver dúvida, experimente correlacionar o estoque da Bamberg a 6,25 quilômetros de quarteirões seguidos. Ou a 25 áreas ocupadas pelo Clube Atlético Aramaçan, em Santo André. 

Michael Bamberg, arquiteto e engenheiro civil nascido em Bremem, na Alemanha, explica que os 400 mil metros quadrados de imóveis ocupados fazem parte da carteira de ofertas. "Temos carta branca das 40 indústrias para comercializá-los" -- afirma. Ele criou a empresa em 1986, depois de trabalhar no Departamento de Desenvolvimento Urbano de Hamburgo e também como diretor-geral da subsidiária brasileira da incorporadora alemã Neue Heimat. A Bamberg tem escritórios no Morumbi, nos Jardins e na Zona Sul de São Paulo.   

Michael Bamberg explica que o processo de venda é trabalhado sigilosamente porque a divulgação precoce da intenção de deixar o imóvel comprometeria a imagem corporativa junto à comunidade e provocaria problemas de relacionamento com trabalhadores em larga escala sindicalizados. "Não há placas de venda na fachada, como nos galpões desocupados" -- observa o especialista. A intenção de vender é consequência do anseio de se transferir. A maioria das empresas pretende adquirir imóveis em outras regiões com os recursos levantados na venda dos galpões no Grande ABC. "É o que chamamos de processo vinculado" -- explica o consultor Wilson Barbosa de Oliveira Júnior, diretor comercial da Bamberg do escritório dos Jardins. "O processo de transição é lento. Leva geralmente de um a três anos" -- comenta Michael Bamberg. 

A consultoria prestada para a ZF Sistemas de Direção -- que trocou São Caetano por Sorocaba -- é exemplo de processo vinculado.  A Bamberg detectou área no Interior de São Paulo e ainda encontrou comprador para o imóvel remanescente no Grande ABC. O Grupo Pão de Açúcar criou unidade do Hipermercado Extra no prédio de 70 mil metros quadrados. "O prédio foi vendido por US$ 10 milhões na época" -- recorda Michael Bamberg.

A reação natural dos consultores da Bamberg para ocupar o imóvel deixado pela ZF em São Caetano foi buscar interessados no ramo de autopeças, com base na suposição de que a proximidade de pouquíssimos quilômetros da planta da General Motors serviria de poderoso atrativo. Mas o foco foi corrigido para o comércio varejista ao se constatar que o preço do terreno, próximo ao Centro de São Caetano, tornara-se elevado demais na comparação com vizinhos do Interior Paulista. "O custo do terreno afastou indústrias" -- lembra o consultor Antonio Mendonça. 

"O metro quadrado de terreno no Grande ABC gira em torno de R$ 80 a R$ 100, enquanto nas zonas industriais de Campinas e Sorocaba oscila entre R$ 20 e R$ 30" -- compara o diretor comercial Wilson Barbosa de Oliveira Júnior. "Além disso, existe a questão logística. Deslocar-se para o Rio de Janeiro ou Minas Gerais a partir de Campinas ficou mais rápido e econômico do que a partir do Grande ABC porque não é necessário atravessar o trânsito de São Paulo" -- observa o consultor, sem mencionar um dado a mais que coloca a desindustrialização da região em permanente fervura: a construção do eixo oeste do Rodoanel estabelecerá novas relações de logística para empresas que estão instaladas ou vão se instalar do lado oposto ao que se encontram os sete municípios do Grande ABC. 


Desafio regional -- Chega de Evasão, É Hora de Mobilização é um desafio regional que será lançado oficialmente quando esta edição chegar às bancas, aos estabelecimentos de negócios e às residências. O lançamento será através do boletim eletrônico Capital Social, ferramenta de comunicação enviada de segunda a sexta-feira para mais de cinco mil influentes internautas do Grande ABC. A partir daí será detonado o processo. A Editora Livre Mercado espera reação da sociedade. Prefeitos, deputados estaduais e federais, secretários municipais, vereadores, lideranças empresariais, lideranças sociais e mídia, todos deverão compartilhar responsabilidades porque se vai dar um tratamento de choque na desindustrialização. 

A decisão de lançar a campanha dentro do programa Construindo o Futuro decorreu da dupla constatação de que o Grande ABC não só continua perdendo nacos importantes de sua principal porção de desenvolvimento econômico -- indústrias geradoras de riqueza agregada -- como também não promove qualquer reação coordenada para reverter a situação. A missão de estancar a sangria industrial não é suave. Pelo contrário: vai exigir engenhosidade, parcerias, dedicação. 

O que poderá ser feito para paralisar ou reduzir o ritmo de debandada industrial da região? É isso que a Editora Livre Mercado vai colocar em discussão através do braço on-line Capital Social e de eventuais desdobramentos da campanha. Evasão e Mobilização contrastam mas devem dar mais que rima. O discurso fatalista e conformista de que a fuga de indústrias do Grande ABC é inexorável e impossível de ser brecada é uma maneira de lavar as mãos. Utilizar a descentralização produtiva como argumento de suposto equilíbrio espacial do Estado também é uma forma de artificializar a pretensa redução de disparidades sociais, porque ao Grande ABC sobra o ônus de imensos universos alijados do mercado de trabalho. 

O fato é que cada indústria que deixa o Grande ABC ou que está em situação econômica ou financeira delicada, a ponto de registrar novo caso de óbito empresarial, precisa ser descoberta a tempo. Pelo menos para que tentativas de salvamento sejam operacionalizadas. O envolvimento dos trabalhadores também é decisivo para a campanha Chega de Evasão, É Hora de Mobilização. Mais do que ninguém, eles sabem quando a empresa nas quais trabalham se prepara para cerrar as portas ou deixar a região. Os acordes dessa sinfonia de fragmentação da economia regional são múltiplos e por isso exigem respostas.  

É até possível que boa parte das tentativas de preservação de empresas empenhadas em deixar o Grande ABC seja frustrante numa primeira etapa. Afinal, a decisão pode ser irreversível depois que as instalações são colocadas discretamente à venda, como registra a consultoria especializada ouvida por LivreMercado. Mas não custa nada agir com rapidez. A força-tarefa que seria montada com representantes de diferentes segmentos econômicos e sociais tem potencial para mudar o curso dos negócios e, principalmente, agir preventivamente em relação a outros empreendedores que ainda não se decidiram a debandar. 

O Grande ABC precisa espantar um fantasma que o persegue há décadas. Que fantasma é esse? O maniqueísmo que ainda trata empreendedores com desdém. Enquanto a região insiste em minimizar a importância da livre iniciativa valorizando-a apenas como manancial de arrecadação de tributos, cidades do Interior paulista organizam-se para recepcionar investimentos. Até bandas de música são mobilizadas para saudar as novas fábricas. 

O fato é que o quase desprezo que os administradores e legisladores públicos dispensam aos empreendimentos industriais só se compara à escassez de articulações conjuntas da própria classe empresarial. O Grande ABC foi forjado economicamente sob o signo da individualidade competitiva para atender principalmente às montadoras de veículos. Parceria, cooperativismo e coopetição são práticas desconhecidas. Mas os tempos são outros. A vaca leiteira já não tem a mesma musculatura e não convém assistir passivamente o definhamento nem acreditar em semânticas que colocam o termo desindustrialização em blindagem contra o bom senso e o pragmatismo. 


Falsa prosperidade -- O fato inexorável é que o Grande ABC tem perdido força industrial simplesmente porque não tem feito praticamente nada de forma sistemática, efetiva e articulada para impedir novas debandadas. E, numa prática suicida, canta aos quatro cantos a chegada esporádica de novos investimentos que, além de geralmente canibalizarem os negócios já instalados, transmitem a falsa impressão de que há um novo mundo de desenvolvimento sustentado a ser comemorado. 

Para se ter idéia do quadro econômico da região, uma comparação ponta-a-ponta da geração de riquezas entre 1980 e 2000 indica que o Grande ABC perdeu praticamente um terço (32,7%) de participação no Valor Adicionado do Estado. A região tinha 13,89% de participação na produção de riquezas e impostos em 1980, contra 9,35% no ano 2000. Em reais, isso significa que em vez de gerar apenas R$ 21,2 bilhões em 2000, deveria ter gerado R$ 31,6 bilhões. 

Diferentemente dos sete municípios do Grande ABC, os cinco primeiros municípios do Interior do Estado de São Paulo no bolo do Valor Adicionado cresceram no mesmo período pesquisado, sempre tomando dados oficiais da Secretaria da Fazenda do Estado. Em 1980, Campinas, Paulínia, São José dos Campos, Jundiaí e Sorocaba totalizavam 8,12% de participação no Valor Adicionado do Estado, contra 13,89% do Grande ABC. No ano 2000, depois de apresentar curva sempre ascendente a cada cinco anos, comparado pelo critério ponta-a-ponta, esses cinco municípios do Interior do Estado registravam 16% de Valor Adicionado, contra 9,35% do Grande ABC. 

Esses números históricos revelam uma dura realidade. O fortalecimento da economia do Interior é resultado de uma série de razões, entre as quais, sobretudo, a guerra fiscal incentivada pelo próprio governo estadual. Pesa também a própria decadência da economia da região. A queda do Grande ABC é maior que a dos cinco principais municípios de uma região formada pela Grande São Paulo e Baixada Santista. Guarulhos, São Paulo, Barueri, Cubatão e Osasco detinham 44,69% do Valor Adicionado do Estado em 1980. Vinte anos depois de todas as transformações pelas quais passou a economia brasileira, esses cinco municípios reuniam 34,69% do Valor Adicionado. Uma queda de 22,3%. Portanto, mais suave que o tombo de 32,7% do Grande ABC. 

A maior hecatombe do Grande ABC se deu depois da implantação do Plano Real, que estabilizou a moeda e escancarou de vez a economia para o jogo da globalização. Se anteriormente, a partir do início dos anos 90, com a abertura dos portos, a inflação ainda mistificava a competitividade, com a estabilidade da moeda as transformações foram intensas. Em 1994, primeiro ano do Plano Real, o Grande ABC beneficiou-se da euforia da demanda por veículos e totalizou 13,86% do Valor Adicionado do Estado. Passados sete anos, em dezembro de 2000, o Grande ABC registrava apenas 9,35% de participação. 

Para se ter idéia em valores monetários do que significam as perdas com o Valor Adicionado, um exemplo é sintomático: em 1995, segundo dados oficiais do Seade (Sistema Estadual de Análises de Dados e Estatísticas), órgão do governo do Estado, o Grande ABC gerou R$ 24,4 bilhões de Valor Adicionado, contra R$ 19,6 bilhões de 1999, sempre em moeda atualizada. A diferença de R$ 4,7 bilhões significa que o Grande ABC deixou de gerar riquezas, salários e impostos equivalentes a dois municípios de grande porte do Estado -- casos de Osasco e Ribeirão Preto. 

Se a comparação for mais abrangente no tempo, entre 1980 e 2000, a perda do Valor Adicionado do Grande ABC, de 4.54 pontos percentuais, é o somatório dos VAs atuais de Osasco, Sorocaba, Jundiaí, Franca, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra juntos. Per capita, nesse mesmo período, o Grande ABC caiu de R$ 17,5 mil para R$ 9 mil de Valor Adicionado por habitante. É por essas e outras razões que Chega de Evasão, É Hora de Mobilização é muito mais que um slogan. É, exclusivamente, uma saída para o Grande ABC acordar para realidade que poucos ainda negam. Certamente porque não querem pôr a mão na massa dentro da tentativa de sedução dos empreendimentos que ainda estão na região. 


Adeus Diadema -- A BYK Química é exemplo de indústria que troca o Grande ABC por outra localidade com a consultoria da Bamberg e o caso só vem a público porque a mudança está praticamente consumada. A multinacional alemã fabricante de medicamentos está deixando Diadema para instalar-se em Jaguariúna, na próspera Grande Campinas. A transferência começa no próximo mês e termina em março de 2002, quando as atividades industriais estarão completamente concentradas no novo complexo fabril de 33 mil metros quadrados construídos em área de 218 mil metros quadrados. Os investimentos somam US$ 57 milhões entre terreno, construção e novos equipamentos. "Só a área edificada de Jaguariúna é maior que o espaço total de 30 mil metros quadrados de Diadema, dos quais 11 mil metros quadrados são construídos" -- compara o diretor David Zimath.

Fabricante de medicamentos conhecidos do grande público como Dramin, indicado para náuseas e enjôos, e Eparema, para distúrbios gastrointestinais, a BYQ Química está saindo porque precisa adotar figurino industrial mais competitivo, incompatível com a limitação espacial e as improvisações estruturais do endereço que ocupa desde 1984. "A partir do momento em que decidimos construir fábrica maior e mais moderna, não havia razão objetiva para ficar em Diadema. A única referência espacial era a necessidade de situar-se na região Sul ou Sudeste do País, compatível com os planos para expansão de exportações no Mercosul" -- conta o executivo. 

A planta de Jaguariúna absorverá apenas 20% dos 250 funcionários de Diadema. A cidade também perde grande fonte de impostos. O faturamento atingiu US$ 120 milhões em 2000, com venda de 30 milhões de unidades de 35 produtos em 105 apresentações comerciais. David Zimath explica que a escolha de Jaguariúna de deve a uma conjunção de fatores de competitividade: qualidade de vida, boa oferta de água e recursos energéticos, além de mão-de-obra com cultura industrial. Um dos aspectos mais relevantes foi a proximidade de 20 quilômetros de Viracopos, maior aeroporto de cargas da América Latina, já que 70% das matérias-primas utilizadas pelo setor farmacêutico são importadas. "Só ficamos um pouco mais distantes do Porto de Santos, impacto logístico compensado por outras vantagens" -- completa. 

Outra empresa que se prepara para levantar vôo do Grande ABC é a LucArt, fabricante de móveis que produz 2,5 mil cômodas de dormitório por mês e emprega 20 funcionários em Diadema. Embora não conste do portfólio de negócios da Bamberg, a LucArt configura caso clássico para análise da competitividade regional porque diz respeito ao propalado pólo moveleiro do Grande ABC. A LucArt projeta se mudar para Mirassol até o final de 2002 de olho na sinergia do pólo moveleiro de Votuporanga. 

"O perfil das empresas daquela região é atacadista como o da LucArt, o que permitirá fabricação e até exportação em pool" -- vislumbra a proprietária e gerente comercial Viviane Lea Lucilio.  "O Grande ABC tornou-se pólo de varejo, pois os produtos são feitos para abastecer lojas próprias que concorrem entre si" -- observa. 

O Noroeste Paulista magnetiza a LucArt por outras razões. Viviane Lucilio destaca o apoio institucional e tecnológico proporcionado pelo Cemad (Centro Tecnológico de Formação Profissional da Madeira e do Mobiliário), montado há poucos meses para dar suporte em gestão, design e profissionalização de mão-de-obra específica, além de disponibilizar assessoria técnica em maquinários. A mobilização observada em Votuporanga caminha lentamente no Grande ABC, a ponto de continuar no papel o necessário Centro de Apoio & Difusão Tecnológica do setor.

Viviane também reclama de marketing mais agressivo dos moveleiros do Grande ABC. Argumenta que os fabricantes da região de Votuporanga souberam trabalhar essa lacuna erguendo o Pavilhão de Exposições de Mirassol como vitrine de produtores de móveis e de máquinas, que se alternam em grandes feiras anuais. "Já coloquei na agenda minha participação na Movinter 2002" -- afirma. A diretora da LucArt também quer fugir do Custo ABC. Gasta R$ 1,4 mil para transporte de funcionários mensalmente, além de R$ 500 para descartar lixo industrial. "Em Mirassol, se vai ao trabalho de bicicleta. É menos despesa e há qualidade de vida muito superior" -- almeja a empreendedora.


Nada chocante -- A informação de que 40 indústrias de porte considerável pretendem sair do Grande ABC não choca quem está informado sobre o processo de desindustrialização que a região atravessa há pelo menos 20 anos. Análises sistemáticas realizadas por LivreMercado com base em indicadores como Valor Adicionado, ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), consumo de energia elétrica industrial e índice de potencial de consumo, entre outros, demonstram os duros golpes sofridos pela economia regional fortemente lastreada na cada vez mais globalizada e vulnerável indústria automotiva. 

Não é preciso sequer se debruçar sobre números oficiais da Secretaria da Fazenda do Estado para testemunhar as alarmantes perdas industriais e econômicas da região que foi berço da indústria automotiva nacional nas décadas de 50 e 60. Basta usar o bom senso para identificar as lacunas deixadas pelas fábricas que trocaram o Grande ABC por outras regiões ou que reduziram drasticamente operações na região para concentrar atividades longe daqui.

Da lista de deserções totais, parciais ou falências constam organizações como Eaton, KS Pistões, Cima/Mahle, Brastemp, EMS, Black & Decker, Toyota, Aços Villares, Fertilizantes Copas, Metagal, Cortiris, IAP, Fichet, Randi, Confab, Ruzzi, Mapa, Molins, Cristais Mauá, Proton, Bobst, Cemisa, Carfriz, Humaitá, Imesca, Tratec, Brosol, Brasinca, Volks Caminhões, Motores Perkins, Rhodia, Festo, Máquinas MG, Matarazzo, Coferraz, Trol, Dulcora, Faé, Móveis Lafer, Tecelagem Kowarich, Refrigeração Platzer e Indústrias Saad, além de dezenas de autopeças de pequeno porte varridas do mapa produtivo regional pelo furacão da globalização.

Embora contextualizadas no cenário histórico de perdas econômicas, as informações da Bamberg surpreendem na medida em que explicitam a face oculta da deserção industrial. Ou seja, empresas instaladas na região que estão vendendo instalações em operação casada para ganhar novo endereço fora compõem espécie de mercado futuro da desindustrialização regional. 

Além das perdas flagrantes de centenas de galpões encalhados e mal cuidados, cujas dimensões em milhões de metros quadrados são frequentemente desprezadas ou escondidas por lideranças públicas e institucionais preocupadas em amenizar fraturas expostas de negligências históricas, constata-se o agravante de que há 40 indústrias em atividade preparadas para sair do Grande ABC. A situação é de causar inquietação sob o ponto de vista socioeconômico, já que não se sabe precisamente onde nem quando, mas é líquido e certo que outros milhares de empregos virarão pó na região que teve mais de 120 mil postos de trabalho ceifados nos últimos 10 anos.   


Informação valiosa -- O que transforma a Bamberg em consultoria respeitável e de sucesso, em vez de corretora de imóveis convencionais, é a prestação de serviços baseada em análises de competitividade empresarial sob o ponto de vista imobiliário. Michael Bamberg explica que o trabalho não se restringe a avaliação pura e simples das condições dos imóveis, mas envolve pesquisa criteriosa e personalizada das peculiaridades micro e macrorregionais com vistas à viabilidade empresarial. 

Condições logísticas, perfil da mão-de-obra, infra-estrutura, qualidade de vida, custo de terreno e oferta de benefícios fiscais são informações básicas para essa organização que tem a responsabilidade de mostrar o mapa da mina para investimentos industriais e comerciais. Por isso, a Bamberg conta com um exército de 150 consultores em três escritórios. 

Na lista de clientes figuram organizações como Asea Brown Boveri, Basf, Bayer, Brazil Realty, Cargill, Dow Química, Ford, Fundação Previ, General Motors, Heidelberg, Hoescht, Kodak, Kolynos, Lucent Technologies, Lufthansa, Mercedes-Benz, Método Engenharia, Motorola, Natura, Nestlé, Novartis, Odebrecht, Philips, Pirelli, Procter & Gamble, Rhodia, Scania, Vésper, Volkswagen e Xerox. No setor terciário constam redes varejistas e vários bancos de expressão internacional, como ABN Amro Bank e Santander.   

Michael Bamberg evita particularizar regiões que estão em ascensão ou decadência no cenário paulista de atratividade industrial. Até porque, informações emitidas por alguém que conhece como poucos os bastidores da movimentação de peças no tabuleiro da indústria de transformação valem ouro e certamente causariam ruídos da mesma forma que o ponto de vista do presidente do Banco Central influencia o mercado de câmbio e a orientação de um megainvestidor sugestiona o mercado de capitais. 

Entretanto, com boa dose de insistência é possível chegar a algumas dicas desse doutor em Planejamento e Desenvolvimento Urbano que, além de administrar uma das maiores consultorias imobiliárias do País, é diretor da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha e membro da Câmara Americana de Comércio. E o que ele diz é uma forma diplomática de argumentar que é melhor o Grande ABC se preparar para mais baixas industriais: 

"A vocação do Grande ABC está mudando de mono-industrial baseada no segmento automotivo rumo a um maior equilíbrio com comércio e prestação de serviços. Essa mudança representa um desafio para os profissionais da Bamberg: precisamos usar criatividade e versatilidade para adaptar os imóveis industriais remanescentes na região, como ocorreu na substituição da ZF pelo Hipermercado Extra" -- diz. "Já regiões do Interior Paulista na órbita da Capital, como Campinas, São José dos Campos e Sorocaba, se industrializam cada vez mais" -- observa, com português carregado de sotaque alemão e conhecimentos sintonizados com LivreMercado. Tanto que a Edição Estadual de LM de setembro identificou que 10% dos municípios paulistas centralizam 82% da produção de riquezas medida pelo Valor Adicionado e, desse total, grande parte está nas regiões administrativas de Campinas, Sorocaba e Vale do Paraíba, além da Grande São Paulo e Baixada Santista. 

Além da autopeças ZF, outros dois exemplos ilustram a alteração de perfil econômico do Grande ABC mencionada por Michael Bamberg. O primeiro é que a Elevadores Otis chegou a ter ociosa praticamente metade da área construída de 45 mil metros quadrados por conta de enxugamento estrutural ditado pela globalização. Custos da área sobressalente e incentivos fiscais acenados pelo governo do Paraná quase tiraram a empresa de São Bernardo. A capitalização imobiliária possibilitada pela locação do espaço ocioso para um centro de distribuição das Lojas Renner e a redução da carga tributária do ICMS estadual contribuíram para manter na região a fabricante de elevadores e escadas rolantes. O segundo caso envolve parte da área que já foi ocupada pela metalúrgica Nordon na Avenida Industrial, em Santo André, que se transformou em estacionamento de veículos estrategicamente ao lado do campus da UniABC. 

Consta do estoque imobiliário da Bamberg no Grande ABC o terreno das demolidas instalações industriais da Volks Caminhões, em São Bernardo. Quem vai querer? O Grande ABC agradeceria muito se suas terras virgens ou manchadas pela desindustrialização e seus galpões que testemunham fugas e falências industriais não estivessem registrados nos computadores corporativos e pessoais dos consultores especializados da Bamberg. E muito menos as 40 empresas que a qualquer momento podem providenciar mudanças cadastrais a partir de novo e distante endereço da região. A tormenta ainda não acabou.  


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