Economia

Um exemplo para
Grande ABC copiar

DANIEL LIMA - 05/09/2002

A Bridgestone Firestone é espécie de estranho no ninho de complicações do setor industrial do Grande ABC -- setor que é corpo e alma de uma estrutura econômica e social que vive anos de chumbo de reorganização, evasão e esfacelamento. Provavelmente não se encontrará na indústria automotiva regional exemplo mais emblemático de comprometimento com Santo André, especificamente, e com o Grande ABC como um todo. E isso não é pouco, porque a cadeia de produção de veículos representa 70% do PIB da região e faz girar toda a economia. 

A Bridgestone Firestone está no setor mais competitivo do mundo, em que as montadoras de veículos têm poder até para decidir qual é a cor dos olhos dos executivos das autopeças fornecedoras. Nem por isso a BF deixou de associar responsabilidade social aos números dos balanços financeiros, que no ano passado registraram R$ 966 milhões de faturamento líquido. A empresa sediada há 61 anos em Santo André não se deixou seduzir pelas fartas vantagens da guerra fiscal. Investiu nos últimos cinco anos US$ 130 milhões em modernização de máquinas, equipamentos e processos, transformou três mil trabalhadores em aliados, os revendedores em extensão de seus interesses econômicos, financeiros e sociais e ainda dá de lambuja ao inserir um de seus principais executivos -- o diretor de relações corporativas José Batista Gusmão -- em importantes ações assistenciais, esportivas, sindicais e culturais. 

Essa Bridgestone Firestone emergiu há cinco anos, a partir de julho de 1997, quando o norte-americano Mark Emkes desembarcou em Santo André para mudar a essência da companhia com uma série de cirurgias de corte atualizado. Há exatamente um ano a BF é dirigida por Eugenio Deliberato, professor universitário, advogado, mestre e doutor em Direito Tributário. Réplica de Mark Emkes no cuidado com essa pérola industrial de Santo André, Eugenio Deliberato era diretor jurídico da BF quando se juntou a Mark Emkes na força de resistência ao canto da sereia de transferir a fábrica para qualquer lugar estrategicamente compatível com o nível da competição no mercado de pneus no Brasil.

Tributarista, Deliberato sabia que a diferença de até 20% nos custos da empresa instalada em Santo André era argumento consistente para transferir a planta e gozar de benefícios fiscais. O obsoletismo da fábrica que Mark Emkes encontrou há cinco anos facilitava a tarefa de transferência. Mas o entusiasmo do próprio Emkes com a planta de Santo André acabou prevalecendo. O tiro certeiro tinha fundamentação: a fábrica exibia possibilidades de eliminar a diferença tributária por meio de ganhos de competitividade de uma mão-de-obra com cultura de produzir pneus de qualidade. 

É nesse ponto, no ponto de resistência ao ataque em massa de prefeitos e governadores decididos a levar essa respeitada logomarca do mundo automotivo, que está uma das diferenças mais fundas da Bridgestone Firestone em relação não só às autopeças que escafederam do Grande ABC como também das que ficaram ou das que chegaram. Sim, porque enquanto a BF plantava os quatro pés em Santo André e deixava o recado curto e grosso de que daqui não sairia nem daqui ninguém a tiraria, muitas das que ficaram e as poucas que aqui chegaram o fizeram apenas, em larga escala, pela metade. 

Como assim? Muitas das que ficaram também pousaram em outras praças seduzidas pela guerra fiscal e pela necessidade de manterem-se próximas às montadoras do Grande ABC.  E das poucas que aqui chegaram, a maioria fez a escolha territorial pela simples razão de que necessitam tanto da proximidade com as montadoras que não se incomodam em dividir-se em várias partes produtivas. Para essas empresas, onde veículos de passeio ou de carga sair pelas linhas de produção cada vez mais atualizadas tecnologicamente, lá estarão todas fagueiras. É assim que se resume a competição internacional no mercado automobilístico. 

Nesse jogo em que só sobrevive um grupo cada vez mais seletivo de empresas, a Bridgestone Firestone dirigida por Mark Emkes e com o suporte de então diretores como Eugenio Deliberato e executivos como José Batista Gusmão conseguiu evitar uma trombose nas veias industriais de Santo André. A saída da BF teria sido catastrófica para o Município que mais Valor Adicionado perdeu no Estado de São Paulo nos últimos 30 anos. Valor Adicionado significa transformação de riqueza produtiva -- no caso específico do Grande ABC, predominantemente industrial. A BF coleciona há mais de 10 anos o título de campeã absoluta de Valor Adicionado em Santo André. 

Traduzindo em miúdos, a Bridgestone Firestone é a empresa sediada em Santo André que mais colabora para a arrecadação do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), que é um tributo estadual. O que significa isso? Significa que o ICMS é o imposto mais precioso para o orçamento das prefeituras brasileiras. Quanto mais transformação de riqueza em forma de Valor Adicionado, mais cada Município participa do bolo de distribuição do ICMS. Afinal, de todo o ICMS arrecadado, 25% o governo estadual transfere aos municípios e, desses, 75% são calculados de acordo com o VA. 

Se toda essa explicação parece complexa demais, o melhor mesmo é simplesmente traduzir que sem a Bridgestone Firestone a Prefeitura de Santo André -- que já anda atrapalhada com o esvaziamento dos cofres -- teria muito mais problemas. Essa vertente tributária torna a BF uma jóia preciosíssima na coleção de grandes geradores de riqueza industrial de Santo André. 


Trabalhador local -- Além do vetor tributário, a Bridgestone Firestone contempla outro, mais significativo para o equilíbrio social. Praticamente 90% do efetivo de trabalhadores residem no Grande ABC, 70% deles em Santo André. Contratar colaboradores que morem o mais próximo possível do trabalho não representa ganho sistêmico apenas para a empresa, que reduz os níveis de estresse numa Região Metropolitana de São Paulo que é passaporte para o inferno da qualidade de vida. A medida também representa a certeza de que os funcionários, no papel de consumidores e contribuintes, potencializam compromissos de cidadania com a região em que vivem. 

O diretor de assuntos corporativos da BF, José Batista Gusmão, que reside em Santo André e participa de diferentes atividades sociais, entre as quais, a mais recente, o comando do McDia Feliz, garante que a incidência de moradores de Santo André e da região nos quadros funcionais da empresa não é simples coincidência. É a política de Recursos Humanos aplicada de forma deliberadamente regional. "Entre dois candidatos a uma vaga e que tenham a mesma potencialidade, a preferência é por quem mora em Santo André" -- explica o executivo.

A recíproca da política de contratação de trabalhadores também é verdadeira: com o conhecimento prático do peso dos recursos humanos na estrutura socioeconômica de Santo André, principalmente, as medidas estratégicas tomadas pela cúpula da Bridgestone Firestone não acentuam desmesuradamente o peso relativo dos números financeiros, como é comum na carnificina em que se transformou o mercado globalizado e geralmente de pouco juízo social. É claro que longe está a BF de qualquer paternalismo de Madre Tereza das multinacionais, mas também não cai no extremo oposto de olímpico desprezo pelo conteúdo social que está por trás de cada trabalhador. 

Foi por essas e outras que, quando do ataque às torres gêmeas em Nova York e do natural refluxo das exportações para o mercado norte-americano, 100 trabalhadores foram deslocados à unidade de depósito localizada em Mauá, em vez de simplesmente demitidos. A direção da Bridgestone Firestone sabe aquilatar o valor dos ativos humanos treinados e reciclados nos últimos anos como jamais o foram em todas as décadas anteriores de mercado fechado, de competição regulada por burocratas de Brasília. 

Por estabelecer referenciais também sociais na trajetória de mais de 60 anos de instalação em Santo André, não ganhou forma automática de guilhotina a vertente de acionistas internacionais da BF que, há cinco anos, sugeriam acessibilidade às propostas de Estados e municípios propagadores da guerra fiscal. É verdade que a BF seria mais uma empresa a deixar o território regional se o peso potencial da capacidade produtiva da mão-de-obra não reagisse aos investimentos tecnológicos. Mas o peso relativo do comprometimento dos trabalhadores com a fábrica, por força dos benefícios salariais e extra-salariais, acabou contribuindo para a superação do buraco de custos adicionais em relação a outras praças. 

A obra de atualização tecnológica, de produtividade da mão-de-obra, de racionalidade administrativa, de dinamismo da cadeia de revendedores e também de inserção na comunidade foi iniciada por um Mark Emkes reverenciadíssimo, passou pelo curto e discreto mandado presidencial de Vito De Florio e recuperou a robustez já há um ano com Eugenio Deliberato. Diferentemente da maioria das multinacionais que ocuparam a geografia do Grande ABC e que foram submetidas nos últimos cinco anos às durezas da globalização combinada com as exigências administrativas e financeiras da estabilização monetária e o poder de fogo da guerra fiscal, a Bridgestone Firestone acentuou seu compromisso regional. Colabora para tanto, indisfarçavelmente, o olhar sempre atento e generoso de Mark Emkes, há dois anos um dos principais executivos da multinacional, baseado que está nos Estados Unidos. Sem contar o natural engajamento do presidente Deliberato. 

Não foi por acaso que, ao deixar a presidência da Bridgestone Firestone de Santo André, o sempre afável Mark Emkes viveu momentos inesquecíveis para um executivo que domesticou o português de forma a tornar-se inteligível com a mesma simplicidade com que reunia trabalhadores de chão de fábrica e sindicalistas em seu gabinete para falar de futebol, de família e até mesmo de produtividade como contraponto ao desafio da guerra fiscal. 

Mark Emkes recebeu da petista Câmara de Vereadores o título de Cidadão Andreense, ganhou festa de despedida dos revendedores nacionais em jantar em Santo André e foi saudado calorosamente pelos trabalhadores quando transpôs a portaria de acesso dos executivos da fábrica pela última vez como dirigente máximo da unidade, em novembro de 2000. Mark Emkes foi espécie de cometa de compromisso além dos resultados financeiros que o Grande ABC não soube seguir. Fosse uma região mais sensível à importância do capital social, Emkes teria feito escola e o Grande ABC poderia sair da zona cinzenta de uma institucionalidade frágil, que em nada se associa à ainda respeitada industrialização. Menos mal que Eugenio Deliberato sustente esse projeto que vai muito além dos resultados financeiros. 


Quadro intocável -- Qualquer pesquisa minimamente responsável que se faça no Grande ABC sobre o comportamento do setor industrial detectará comportamentos-padrão inexoráveis a esses tempos de competitividade. De maneira geral as empresas que permaneceram na região demitiram nos últimos cinco anos pelo menos um terço dos trabalhadores. Nos últimos 10 anos o facão decepou em média dois terços do efetivo. A combinação de investimentos tecnológicos, em processos e também na preparação e na reciclagem de trabalhadores resulta em redução de vagas. A Bridgestone Firestone rompeu com esse enredo e manteve seu quadro de três mil trabalhadores praticamente intocável.

Longe de qualquer resquício de paternalismo, a Bridgestone Firestone simplesmente fez a lição de casa. Primeiro, manteve a concentração de atividades em Santo André e, com isso, arrancou alguns pontos percentuais do chamado Custo ABC pelo caminho da racionalidade operacional. Até mesmo o Departamento de Vendas, antes sediado na Capital, foi transferido para Santo André. Obra de Mark Emkes, vendedor por vocação. 

Pesou também na sustentação do quadro de trabalhadores a relação com os revendedores. A padronização visual e técnico-operacional e a assessoria administrativa e de marketing dos mais de 650 pontos-de-venda espalhados por todo o território nacional são uma missão estratégica que Mark Emkes iniciou e que já ultrapassou mais de 70% do cronograma. 

Eugenio Deliberato fala sobre os revendedores com o mesmo entusiasmo do antecessor. "Os aparatos tecnológicos e os serviços que nossas lojas oferecem garantem padrão de qualidade similar ou, por vezes, superior aos encontrados nas melhores revendas, como as norte-americanas. Isso reforça nossa competitividade no mercado interno. Toda essa modernidade, sem dúvida, é resultado dos investimentos que realizamos nos últimos quatro anos em parceria com as revendas" -- explica o presidente da companhia. 

Não fossem os US$ 130 milhões investidos na fábrica desde 1997, seria impossível à Bridgestone Firestone manter a disputa acirradíssima com Pirelli e Goodyear pela liderança do mercado interno invadido por produtos importados e muito menos capacitar-se a conquistar o mercado norte-americano, responsável por 90% das exportações. O peso das exportações no mix de receitas brutas da BF atinge 25%, contra 50% do mercado de reposição e 25% das montadoras. Não fossem os contratos de abastecimento externo, reforçando a posição da multinacional nos Estados Unidos, a BF teria sérias dificuldades para equilibrar o jogo no mercado interno. 

O presidente Eugenio Deliberato explica sem rodeios por que exportar no caso da BF é decisivo: "As exportações são importantes do ponto de vista comercial, mas também porque 60% do custo das matérias-primas utilizadas no nosso processo de produção é em dólar. Ultimamente, temos vivenciado uma forte oscilação no câmbio. Assim, precisamos aumentar nossa renda na moeda americana para contrabalançar esse diferencial. É impossível repassar tudo aos preços dos produtos" -- afirma. 

Na corda bamba de compromissos com os acionistas internacionais e da responsabilidade comunitária com Santo André, a Bridgestone Firestone espera crescer 5% reais este ano. Mas o presidente Eugenio Deliberato reconhece que meta é extraordinariamente otimista. Primeiro, porque o mercado automotivo brasileiro está patinando. Depois de produzir 2,2 milhões de veículos em 1997, os 1,8 milhão do ano passado parecem entusiasmadores diante da perspectiva de números mais modestos em 2002. Junte-se a isso o mercado norte-americano ainda fora do prumo depois da derrubada binladeana em 11 de setembro do ano passado e também aos escândalos de manipulações contábeis de grandes empresas e se chega ao receituário de complicações complementada pela crise na Argentina. 

Entretanto, abriu-se uma vereda sobre a qual a Bridgestone Firestone está-se lançando firmemente. O México assinou acordo comercial com o Brasil que dá elasticidade à cota de exportação de 50 mil veículos e à tarifa de importação de 8%. Desde então, o acordo estipula cota de 140 mil veículos no primeiro ano de vigência, com tarifa de apenas 1,1%. Do segundo ano em diante a tarifa de importação será zero e o volume da cota será de 165 mil veículos. No terceiro ano, 185 mil veículos e no quarto 210 mil. 

O presidente Eugenio Deliberato participou do encontro que decidiu pelas mudanças, convidado pelo presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. Realizada pelo Conselho Mexicano de Comércio Exterior e pelo Conselho Empresarial da América Latina, a reunião que oficializou o acordo é considerada providencial pelo dirigente da BF: "Todas as vezes em que um acordo internacional quebra alíquotas, ocorre uma aceleração do processo de troca comercial entre as nações. O mundo hoje é globalizado. Portanto, existe a necessidade de interação internacional, principalmente para nós, cuja economia não cresce de acordo com as expectativas de mercado e que sofremos reflexos da crise na Argentina. Além disso, estamos perdendo as vendas para os Estados Unidos, pois a economia norte-americana está-se recuperando muito vagarosamente de toda a turbulência de 2001" -- avalia Deliberato.   


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