Economia

Holofotes aqui,
mais trabalho lá

ANDRE MARCEL DE LIMA - 05/10/2002

A complexidade das relações na cadeia produtiva do setor automotivo requer análises bem apuradas para que a realidade não seja distorcida com interpretações tão profundas quanto uma piscina infantil. A nova fábrica de câmbios que a DaimlerChrysler inaugurou no início de setembro é exemplar. A princípio, a decisão de centralizar a produção de câmbios médios na planta de São Bernardo é boa notícia, mas daí a conferir atestado de competitividade para uma região que não se desvencilha das agruras da desindustrialização vai distância tão grande quanto a que separa a GM de São Caetano da de Gravataí, no Rio Grande do Sul, ou a Ford São Bernardo da baiana Camaçari. 

Conforme antecipado pela newsletter Capital Social, a fábrica de câmbios médios não gerou uma contratação sequer porque os 90 empregados da unidade não foram resgatados do mercado de trabalho, mas transferidos de divisões internas que passaram por enxugamento. "Não houve admissões. Apenas realocações" -- explicou com clareza o presidente Ben Van Schaik. 

Pior do que constatar que novidades no setor automotivo podem não gerar novos postos de trabalho no Grande ABC é saber que, devido à lógica suprageográfica que impera na relação entre montadoras, sistemistas e demais fornecedores, novos negócios geram empregos bem longe do Grande ABC mesmo que os holofotes estejam voltados para a região. Foi o que aconteceu com a fábrica de câmbios médios da DaimlerChrysler. A divulgação dos 260 empregos gerados na cadeia de suprimentos diz respeito a postos de trabalho criados em Mogi-Mirim, mais precisamente na nova fábrica que a montadora ergueu em parceria com a Eaton para abastecer com kits de componentes de câmbio a planta de São Bernardo. 

A produção propriamente dita dos câmbios é realizada no Interior paulista. À São Bernardo cabe apenas a montagem final, como, aliás, revela a disparidade do número de colaboradores diretamente envolvidos: 90 em São Bernardo e 260 em Mogi-Mirim. "Como as atividades são de montagem, não há necessidade de muitos profissionais envolvidos" -- explica Ben Van Schaik.

Não é preciso encostar os executivos da DaimlerChrysler na parede para descobrir porque a fábrica de kits para câmbio foi criada em Mogi-Mirim e não nas proximidades da montadora. Trata-se de mais um capítulo da baixa atratividade do Grande ABC em relação a regiões do Interior que oferecem custos de produção bastante mais econômicos. Como a maior parte das pequenas autopeças criadas no Grande ABC em tempos de mercado fechado sucumbiu à globalização, e como a maior parte das gigantes internacionais do setor que aportaram no País depois da globalização optou por se instalar em regiões mais baratas e tranquilas sob o ponto de vista sindical, o que se observa na prática é a ruptura da cadeia automotiva como a exemplificada na nova fábrica de câmbios da DaimlerChrysler: para fugir de custos elevados, fornecedores instalam-se à distância da região para a qual destinam parte da produção.


GM respira -- Logo após a alteração do IPI (Imposto Sobre Produtos Industrializados), LivreMercado publicou análise exclusiva sobre os prováveis efeitos positivos da medida no Grande ABC, que centraliza produção de automóveis mais potentes e com maior valor agregado -- os beneficiados pela mexida tributária. A expectativa já se confirmou na General Motors de São Caetano: a fábrica anunciou a retomada da jornada normal de trabalho e incremento na produção da planta que monta modelos Astra, Vectra, Corsa clássico 1.0 e 1.6, além da picape Corsa com motor 1.6, cuja produção retorna a São Caetano depois de transferida para São José dos Campos. 

O alívio tributário para automóveis médios abaixo de 2.0 litros favorece as vendas brasileiras sobretudo no mercado externo. Por isso a GM se debruça mais do que nunca sobre novos contratos de exportação. Como o vice-presidente José Carlos Pinheiro Neto cansou de alertar antes da alteração do IPI, o regime que favorecia os populares não só sugestionava a escolha dos consumidores por produtos mais simples e baratos como comprometia a balança comercial do País, uma vez que automóveis 1.0 não têm mercado internacional. 


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