Economia

Dois anéis de uma
vez para a região?

WALTER VENTURINI - 05/11/2003

A necessidade de modernizar os corredores de exportação faz o governo federal colocar o Ferroanel na alça de mira e deixar menos distante a possibilidade de o projeto do Rodoanel no Grande ABC sair do papel até o final do ano que vem a ser concluído até 2007. A busca de superávits na balança comercial aproximou os governos Lula e Geraldo Alckmin, que começam a se entender para viabilizar o trecho sul do anel rodoviário metropolitano que tangencia a região.

O início das obras do Rodoanel estava comprometido até setembro pelos desencontros entre Estado e União: o governo Lula destinava em seu PPA (Plano Plurianual) apenas R$ 35 milhões para o projeto, enquanto a administração Alckmin definia outros R$ 762 milhões. Esse total de recursos correspondia a cerca de 40% do volume necessário para a alça sul. No congresso tramita emenda que complementa em R$ 200 milhões o orçamento da União de 2004 para as obras. A proposta é apoiada pelos sete prefeitos da região e pelo governador. Mas o impasse pode ter sido superado em 6 de outubro último, com a assinatura do protocolo de intenções pelo ministro dos Transportes, Anderson Adauto, e o governador de São Paulo. O compromisso cria um grupo de trabalho com técnicos das duas esferas administrativas para definir critérios para a construção de outro anel, o ferroviário.

"A idéia é fazer o Ferroanel e o Rodoanel juntos, na mesma desapropriação, um ao lado do outro. Com isso, ganhamos em velocidade e custo, já que se trata de uma obra que não é barata e precisa da iniciativa privada, além dos governos federal e estadual" -- explicou o governador Geraldo Alckmin ao assinar o protocolo. O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) também estuda financiamento para o Ferroanel, estimado em R$ 900 milhões.

"A obra do Ferroanel deve começar em meados de 2005. Um grande trunfo que temos para o tramo sul é o próprio Rodoanel" -- aposta Renato Maués, assessor executivo para a área de transporte do Consórcio de Prefeitos do Grande ABC. Os interesses se aproximam quando o governo estadual prioriza a construção do traçado sul do Ferroanel, de 38 quilômetros entre a zona sul da Capital e Mauá, na região. A obra criaria acesso adicional ao Porto de Santos e liberaria a malha ferroviária da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) para o transporte de passageiros.

Após a assinatura do protocolo, o secretário estadual dos Transportes, Dario Rais Lopes, mudou o tom crítico que adotava em relação à reduzida verba federal destinada ao Rodoanel e previu que as obras dos 53,7 quilômetros do trecho sul do anel rodoviário devem começar até o final de 2004. "Acredito que no começo não exista a necessidade de grandes recursos, que serão investidos ao longo dos outros anos" -- pondera Milton Xavier, superintendente de planejamento de transportes da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S/A), executivo público que hoje responde pelo projeto do Rodoanel, uma circunferência de 170 quilômetros que une todas as rodovias estaduais ao redor da Grande São Paulo.

Outro passo dado pelo governo do Estado para viabilizar a rodovia é o desmembramento do licenciamento ambiental do trecho sul do Rodoanel dos segmentos norte e leste. "Com os problemas financeiros do País, os trechos leste e norte não serão implantados antes de 2008. Só que o prazo de validade do licenciamento ambiental é de cinco anos. Portanto, não faz sentido licenciar já todas as três etapas. Além disso, o que mais atrapalhou as audiências públicas feitas até agora foi a questão da Serra da Cantareira, cortada pelo trecho norte" -- lamenta Renato Maués.

Obras do Rodoanel em 2004 e do Ferroanel em 2005 comporiam um cenário ideal para o Grande ABC. Mas todas as operações, embora necessárias, acontecem em ritmo muito mais lento do que requer a economia da região. Caso os cronogramas sofram novos adiamentos, o risco é o investimento privado que seria atraído migrar para o Interior e outros Estados.


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