Faço um desafio aos leitores, desafio que já está posto na manchetíssima de hoje: tente acertar a quanto se reduziu o PIB Automotivo do Grande ABC (montadoras e autopeças) nos últimos 14 anos medidos por duas profissionais da Fundação Seade. Faça um teste. Para ser mais direto: qual é a participação do PIB Automotivo do Grande ABC no Estado de São Paulo? Vamos mais longe ainda, e é o que vale para o que segue: a quanto se reduziu o bolo regional no PIB Automotivo do País?
Se querem saber mesmo, nem o amplo, detalhado, profundo estudo das duas especialistas da Fundação Seade chegou à parcela regional no âmbito nacional.
O estudo limitou-se -- no bem sentido do termo -- à fatia regional no Estado de São Paulo. Mas como consumi o material de 36 páginas no fim de semana, e fiz alguns cálculos, cheguei à referência nacional. Que é uma tragédia regional. Nossa Doença Holandesa, ou seja, a dependência do setor automotivo, é nosso cadafalso econômico.
Trata-se de tragédia que alguns ainda insistem em negar porque entendem que redução de participação relativa não significa redução da participação absoluta. No caso do Grande ABC, são as duas coisas. Irmãos siameses.
Participação relativa condicionada à preservação da participação absoluta significa que o tamanho de produção física do setor automotivo do Grande ABC poderia ter sido mantido ou mesmo aumentado no período anunciado. Teria sofrido apenas perda relativa se outras localidades nacionais tivessem elevado a riqueza sobrerrodas a patamares mais elevados. Não foi isso que ocorreu.
O que ocorreu com o PIB Automotivo do Grande ABC é que perdemos participação relativa (os demais endereços nacionais ganharam fatias de geração de riqueza) e perdemos participação absoluta (produzimos menos riqueza do que anteriormente).
Vamos então ao teste da verdade? Afinal, qual é a participação do PIB Automotivo do Grande ABC no PIB Automotivo Brasileiro?
1. Mais de 30%.
2. Entre 21% e 30%.
3. Entre 15% e 20%
4. Entre 10% e 15%.
5. Menos de 10%.
Errou redondamente quem fez qualquer opção que não fosse o enunciado “e”. Isso mesmo: o PIB Automotivo do Grande ABC que já foi praticamente 100% do PIB Automotivo do Brasil nas primeiras décadas do século passado, hoje não passa de 9,16%. Se você está surpreso, não roa as unhas, porque também estou. Fiz os cálculos três vezes, desconfiado de que pudesse estar equivocado. Lamentavelmente, estou certo.
Porteira da curiosidade
Não pretendo esgotar hoje a abordagem do setor automotivo analisado por Margret Althuon e Mônica Landi, da Fundação Seade. Há material de sobra a outras incursões. O que interessa hoje é soltar os demônios de participação.
O estudo não contempla números absolutos, mas não há como sustentar a irredutibilidade da desindustrialização do setor na região quando se colocam outras peças no tabuleiro de informações, casos de empregos formais nas montadoras, nas autopeças e queda do PIB Industrial. Não vou me referir a tudo isso hoje. A queda relativa é suficiente como porta de entrada ao desastre.
Quem abriu a porteira da curiosidade sobre os estudos da Fundação Seade foi o jornalista Anderson Amaral, do Diário Regional. Anderson é um profissional que trata a economia do Grande ABC com seriedade. Não faz parte da turma triunfalista que sempre aparece no mercado de conveniências. Turma de triunfalista e de convenientes formada principalmente por acadêmicos vinculados ao setor público – há exceções, claro.
Procurando a região
Anderson Amaral me levou a buscar o que as mulheres da Fundação Seade não expuseram somente porque o foco era o Estado de São Paulo. Por isso procurei como avidez em cada uma das 36 páginas dados que pudessem me conduzir à participação nacional do PIB Automotivo do Grande ABC. E encontrei.
Diz o estudo da Fundação Seade que a fatia da região no PIB Automotivo (chamado de VTI automotivo pelas autoras do trabalho) caiu de 33,3% em 2003 para 22,9% em 2017.
Anderson Amaral, do Diário Regional, explica na reportagem publicada semana passada que VTI é um indicador semelhante ao valor adicionado, espécie de Produto Interno Bruto (PIB) fabril. Daí, decidi pela expressão “PIB Automotivo”.
A reportagem publicada informa que, paralelamente à perda do PIB Automotivo, o Grande ABC também perdeu empregos, tanto nas montadoras quanto nas autopeças. Trataremos disso em outra análise.
Fazendo as contas
Para chegar ao tanto indispensável do PIB Automotivo Nacional encontrei o fio da meada logo na primeira página do estudo “Evolução do setor automobilístico no Estado de São Paulo”. O trecho específico é reproduzido em seguida:
A expansão das montadoras no Brasil, em curso desde final dos anos 1990, se deu a partir de processo de desconcentração espacial das unidades fabris, alterando substancialmente a distribuição das participações da produção de autoveículos entre as unidades federativas. A região Sudeste perdeu participação passando de 99,3% em 1990, para 57,5% em 2019, enquanto o Sul e Nordeste ampliaram sua presença para 26% e 15%, respectivamente. O Estado de São Paulo, apesar de manter a liderança em termos de produção do setor automobilístico, respondendo por 40% do total nacional, perdeu espaço na últimas três décadas, uma vez que em 1990 detinha 75% da produção de autoveículos no país. Entre 2000 e 2010, verificou-se um processo de interiorização do setor automobilístico no Estado, expresso na evolução da participação dos municípios paulistas no valor de transformação industrial (VTI) do setor automobilístico estadual. De 2003 a 2017, houve queda de 33,3% para 22,9% na participação no VTI do setor automobilístico dos municípios que compõem a região tradicional do ABC (São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema), enquanto Piracicaba, Sumaré e Sorocaba ampliaram sua participação de 5,5% para 21,1%.
Chegando ao percentual
Agora, de volta às considerações. Cheguei aos 9,16% de participação relativa do PIB Automotivo do Grande ABC em relação a tudo que é produzido no setor no País com uma conta simples: se o Estado de São Paulo participa com 40% da riqueza sobrerrodas e o Grande ABC detém 22,9% desse montante, logo a fatia nacional que nos pertence é de menos da metade dos paulistas.
Mas é preciso alertar que a participação relativa pode ser inferior à anunciada. Afinal, a constatação da perda de 33% do PIB Automotivo do Grande ABC frente a 2003 se refere ao topo de 2017, ou seja, o limite dos dados. Por outro lado, a participação relativa do Estado de São Paulo no PIB Automobilístico Nacional, de 40%, refere-se ao limite de 2019. Nos dois anos que separam uma coisa da outra é possível, quando não provável, que a participação relativa do Grande ABC tenha diminuído ainda mais porque tem sido essa a rotina no século.
Tenho em mãos mais números e análises a fazer. E o farei na medida do possível. Há muita pauta na minha agenda e não tenho dado conta porque, para escrever, é preciso domar as dores do prélio.
No fundo, no fundo, estamos apenas dando sequência a uma das agendas mais profícuas, continuadas e desafiadoras que impusemos tanto na revista de papel LivreMercado como desta revista digital, que acumulam 30 anos de circulação e audiência.
O setor automotivo, Doença Holandesa do Grande ABC, mais pronunciadamente em São Bernardo, é pauta obrigatória de densidade, responsabilidade e independência analítica. O futuro do Grande ABC depende do que as montadoras e as autopeças fazem. E fazem cada vez menos no sentido absoluto e relativo.
O Brasil da guerra fiscal acordou para uma atividade enriquecedora e protegida. Jogamos durante muito tempo um jogo praticamente sem adversário. Quando a biruta virou, dançamos.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC