Sociedade

Quem é quem?

DANIEL LIMA - 27/08/2009

Vamos direto ao ponto, sem ensebação: o que você faz quando percebe que aquela pessoa que apresentou a outra pessoa não é a pessoa que você pensava que fosse?


Ou o que você faz quando descobre que aquela pessoa que mal conhece e da qual você fala mal para outra pessoa não é a pessoa sobre a qual falou?


Parece complicado, mas não é.


Tenho certeza que todos os leitores já viveram ou vivem uma ou mesmo as duas situações. Quem vive em sociedade está aberto a novas e antigas experiências. O relacionamento interpessoal não é uma estrada larga e bem iluminada. Pelo contrário: é um túnel comprido, escuro, com alguns fachos de luzes que indicam apenas por onde devemos trafegar, mas não se tem a garantia de que se alcançará o outro lado sem percalços.


E é com a experiência de quem vive e já viveu, e que certamente viverá novas situações como as desenhadas, que vou procurar traduzir em letra de fôrma a experiência.


Talvez o melhor antídoto para evitar a ingenuidade de apresentar com loas quem não merece mais que bofetões seja a cautela.


Talvez a melhor maneira de lidar com a frustração de ter cometido a injustiça de desclassificar quem mereceria pelo menos a dúvida do aprofundamento de informações é evitar a contaminação por terceiros maledicentes, especialistas em intrigas, elos de corrente do mal-dizer.


Apresentar alguém que não passa de trambiqueiro é equívoco a que todos corremos o risco, porque há gente sedutora em cada esquina, tanto quanto há vazios existenciais momentâneos ou prolongados que nos levam a acreditar em Papai Noel.


Pior que apresentar alguém que, mais tarde, ou imediatamente após, descobrimos tratar-se de farsante, é deixar de alertar aqueles aos quais o engano foi repassado. A possibilidade de novas vítimas se contabilizarem como corrente da felicidade é tão certa quanto à elasticidade da goma de mascar que reduzimos a uma bolota quase insignificante entre os dentes.


Só existe, portanto, algo pior do que apresentar alguém que não é o alguém que supúnhamos que fosse: é omitir-se no conserto. Quando apresentamos alguém num gesto que vai além da cordialidade circunstancial de um encontro rápido, estamos expandindo uma parte de nossa credibilidade. Estamos transferindo responsabilidade a terceiros. Silenciar-se depois de emergirem mais que entornos do apresentado, mas a própria essência do apresentado, é deslealdade e irresponsabilidade.


Incidir na estupidez de preparar armadilhas no caminho de quem por alguma razão subjetiva, apenas subjetiva, não gostamos, só pelo prazer de acreditar que assim se acautelará diante de suposto dissabor de terceiros que prezamos é sugerir que Deus anda distribuindo poderes de clarividência a torto e a direito.


Não sei qual é a maior desfaçatez que cometemos: julgar alguém bondoso demais por conta do que mal conhecemos ou considerar alguém demoníaco por causa da influência de um ou outro comentário de gente sobre a qual, quando examinamos detalhadamente a performance de julgamento, não passa mesmo de assassinos de reputação.


Em situação de equilíbrio pessoal e profissional, as precipitações são raras. A base familiar e a satisfação profissional são obstáculos naturais à aceleração intempestiva de apreciação ou desapreciação comportamental.


Mas essa regra também carrega fragilidade. Não faltam pessoas com as quais convivemos anos a fio e que, pasmos, constatamos que acenderam o tempo todo o pavio de trambicagens, movidas pela ganância material, pelo desequilíbrio emocional, pela tortuosidade psicológica. Há mais psicopatas soltos na praça do que imagina a autora da telenovela das nove.


Quem já não passou pela experiência de receber em casa pessoas que lhe pareciam companheiras e deu com os burros nágua ao se descobrir vítima de traquinagens, de deslealdades?


E no trabalho, então, quem não caiu do cavalo da confiança de longos anos ao se ver passado para trás nas mais distintas formas de irregularidades, desde superfaturamento de despesas como na assinatura apressada de cheques cujos destinatários não eram exatamente os relacionados, transformando-se em rombos corporativos e familiares?


Quantas falsas solidariedades em momentos de extrema dor não são a porta de entrada oportunista da confiança irrestrita e a porta de saída à francesa de desfalques materiais e emocionais imensuráveis?


Provavelmente por obra do demônio, os espertalhões de plantão aparecem quando mais nos sentimos fragilizados ou descuidados. Quando se descobre, por exemplo, que os números da empresa da qual se faz parte estão longe daquilo que se imaginava, sempre emergem salvadores externos prometendo mundos e fundos. Geralmente são agradáveis, falantes, educadíssimos, elegantes.


Os malandros sociais dificilmente são desagradáveis. Eles falam com suavidade de soluções que o desespero do outro lado quer ouvir. De vez em quando, é verdade, cai a máscara da trapaça, mas são deslizes circunstanciais que a vítima despreza porque não tem muito tempo para ser pessimista, porque o cenário que se descortina, mesmo com eventual nebulosidade, é muito melhor do que a realidade. Os malandros sociais são o ópio que as vítimas inconscientemente desejam curtir.


Os injustiçados sociais geralmente não têm preocupação alguma com os organizados enganadores. São pessoas mais simples, mais diretas, menos rebuscadas. Sobre elas pesam detratores que levam a sério requisitos de civilidade postiça, falsa, impostora, de usos e costumes ditos modernos mas que não passam mesmo de indumentárias da traição.


Quem já não cometeu o crime da discriminação pelo simples fato de ter ouvido e dar credibilidade a críticas contra alguém? Frases desclassificatórias sem investigações viram verdades monolíticas. Colocam-se etiquetas sem a menor preocupação em descobrir as raízes. Versões fraudulentas, mal-acabadas, editadas ao sabor de juízos de valor enviesados, sobrepõem-se a fatos e à realidade.


A sociedade como a conhecemos é muito cruel com a autenticidade que insiste em manter-se fora do padrão convencional, enquanto é muito benevolente com o que lhe parece ajustado ao modelo desejado mas que, de fato, não passa de teatralização.


Trocando em miúdos, prevalece o conceito de que devemos aparentar ser o que os outros querem que sejamos porque eles são assim também e não aceitam que terceiros sejam diferentes porque acreditam que correm o risco de ser desmascarados.


Parece complicado, mas o que fazer se o ser humano é complexo por excelência?


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