Ainda faltam mais de R$ 22 bilhões de geração de riqueza no Grande ABC quando se considera o buraco deixado por Dilma Rousseff como presidente em 2016. Não me peçam para que escrever “presidenta” porque, independentemente de qualquer coisa, a fonética é horrível. Como se não bastasse o desempenho.
O montante, maior que tudo que Santo André produziu na temporada de 2021, é o balanço dos cinco últimos anos da economia da região (2017-2021), quando tomaram posse três dos atuais sete prefeitos.
A tradução numérica e temporal dessa equação é que o buraco em que Dilma Rousseff enfiou o Grande ABC automotivo ainda não foi superado. Houve melhora em cima dos escombros, mas os escombros seguem existindo.
Dilma Rousseff foi apeada do cargo de presidente em 2016. O Brasil de Dilma viveu em dois anos a maior recessão da história. Tudo a reboque de crise institucional e de políticas econômicas populistas de Lula da Silva.
Um cartão de crédito de gastança generalizada caiu no colo da sucessora de Lula da Silva, escondida no debate eleitoral desta temporada. Uma sucessora que recorreu à agiotagem de juros altíssimos, entre tranqueiras monetárias e fiscais, para pagar o cartão de crédito. Foi retirada do cargo, como se sabe, porque pedaladas fiscais viraram rotina.
ANTES E DEPOIS
Estão em análise os cinco anos precedentes e cinco anos seguintes à chegada dos então novos prefeitos de Santo André, São Bernardo e São Caetano .
Paulinho Serra (Santo André), Orlando Morando (São Bernardo) e José Auricchio Júnior (São Caetano) estão diretamente ligados aos números, mesmo que nenhum deles tenha aplicado políticas públicas específicas de recuperação econômica. Todos ( e os demais prefeitos) seguem no mesmo ritmo macroeconômico, ou seja, tocam a música que Brasília e outras praças determinam.
Estão nesse balanço cinco dos quase completos seis anos de mandatos já consumados por Paulinho Serra, Orlando Morando e José Auricchio Júnior.
Os dados desta temporada só serão conhecidos no ano que vem.
PERDAS E DANOS
Auricchio ficou todo o ano passado fora da Prefeitura por causa da Justiça Eleitoral, mas a máquina seguiu funcionando conforme orientação de seu grupo político.
Todos esses prefeitos, inclusive os demais que compõem os sete municípios da região, registram dados positivos.
Alguns até superaram os estragos de Dilma Rousseff no quinquênio anterior (2012-2016), mas no cômputo geral, sobretudo por conta de uma São Bernardo estraçalhada, o resultado geral é negativo no período de uma década que tem como base de avaliação o ano de 2011.
São Bernardo é um caso especial nesse balanço geral porque concentra grande parte do desastre econômico acumulado pelo Grande ABC na década que começa em 2011.
PIOR JÁ PASSOU?
A reação do Grande ABC nessa preliminar de PIB (Produto Interno Bruto) em forma de Valor Adicionado, sinaliza que possivelmente o pior já tenha passado neste começo de terceira década do novo século.
Mas não há indicativos seguros de que, quando nova década se encerrar, o resultado geral será diferentemente do que se registra desde 1990, quando a derrocada regional trilhou caminho irreversível com o combustível da desindustrialização centralizada no setor automotivo.
DOIS QUINQUÊNIOS
Comparar os dois quinquênios que formam a última década de dados do Valor Adicionado já apurados por CapitalSocial é essencial para entender o que significou a presidência de Dilma Rousseff.
O governo petista (assim como o governo de Fernando Henrique Cardoso que prescrutamos ao longo dos tempos) exige avaliações regionais despidas de partidarismos políticos.
Os oito anos de dois mandatos de Lula da Silva (como temos mostrado em série de análises) foram de reação consistente ante os oito anos anteriores de FHC, mas o que veio em seguida lançou o Grande ABC abaixo do antecessor tucano.
Pegar pelos chifres da racionalidade os 14 anos de PT na Presidência da República, especialmente com foco no Grande ABC, de onde emergiu a liderança de Lula da Silva e uma série de políticas públicas de gestores petistas, é essencial à compreensão do modelo aplicado em Brasília.
MUITO ABAIXO
O déficit regional do Valor Adicionado no período que compreende uma década dividida entre o governo Dilma Rousseff e seus sucessores no Palácio do Planalto (Michel Temer e Jair Bolsonaro) significa perda de 18,37% quando comparado à base da pesquisa, o ano de 2011.
Ou seja: de 2012 a 2021 o Grande ABC econômico viveu de oscilação pronunciada do período dilmista (perda de 27,53% entre 2012-2016) e recuperação relativamente expressiva de 12,65% no período subsequente (2017-2021).
A diferença negativa de 18,37% se dá na comparação ponta a ponta (2012-2021) tendo o IPCA como deflator. Ou seja: o valor do real é atualizado de acordo com a inflação do período. Sem mágicas de congelamentos numéricos que a mídia costuma produzir para engabelar o distinto público.
BILHÕES ABAIXO
Para que o Grande ABC no encerramento de 2021 (os números mais atualizados do Valor Adicionado) não acusasse perda alguma nesse pré-indicador do PIB tradicional, seria preciso que alcançasse o valor monetário de R$ 123.733.346 bilhões.
Ficamos longe disso. Foram R$ 101.006.622 bilhões. Uma diferença, portanto, de R$ 22.726.724 bilhões.
Para se ter ideia mais precisa do que tudo isso representa, basta dar uma espiada nos números individuais do Valor Adicionado dos municípios do Grande ABC na ponta da tabela, ou seja, em 2021.
São Caetano, que fica apenas abaixo de São Bernardo, registrou R$ 17.040.254 bilhões na temporada. Um pouco acima de Santo André. Se for acrescentado o Valor Adicionado de Ribeirão Pires (R$ 2,3 bilhões) e de Rio Grande da Serra (R$ 211 milhões) ainda não se completaria o estrago geral de quase R$ 23 bilhões).
CONTEXTO IMPORTANTE
Para evitar que o andar da carruagem do Valor Adicionado do Grande ABC seja subvertido de modo que os resultados dos últimos cinco anos sirvam de plataforma a triunfalismos, convém contextualizar a situação no período decenal.
Isso significa que não se deve comemorar entusiasticamente o fato de que sob a administração municipal de prefeitos que foram eleitos em 2016 o Grande ABC teria descoberta a pólvora da recuperação econômica.
Trata-se, até prova em contrário que o tempo cuidará, de recomposição parcial de gravíssimas perdas anteriores, ou seja, nos cinco anos de parte do período em que Dilma Rousseff e o PT ocuparam a presidência da República.
SÃO CAETANO REAGE
Entre 2017-2021 (o último quinquênio da década analisada), o Município que mais cresceu em Valor Adicionado foi São Caetano de José Auricchio.
Houve um avanço real, ou seja, descontara inflação do IPCA, de 56,79%. Esse é o resultado do crescimento nominal de 84,94% no período, ante inflação de 28,15%. Mesmo assim, São Caetano não zerou os estragos de Dilma Rousseff (2012-2016). Tanto que no balanço geral registra perda de 8,95% do Valor Adicionado em 10 anos.
Os cinco anos de Valor Adicionado contabilizados na gestão de Paulinho Serra também são positivos, mas menos intensos que os de São Caetano. Santo André cresceu em termos nominais 43,64%, ou 15,49 pontos percentuais acima da inflação do período de 2016-2021.
SÃO BERNARDO TAMBÉM
São Bernardo, mesmo com perdas pronunciadas com o fechamento bombástico da Ford, superou as dificuldades no período com crescimento nominal de 39,12%. O saldo nos cinco anos é de 10,90 pontos percentuais.
QUEDA SOBRE QUEDA
Na edição de amanhã vamos apresentar dados mais detalhados dessa década que pode ser considerada perdida para a economia do Grande ABC.
Ou alguém é capaz de argumentar que a queda do Valor Adicionado de 18,37% no período é algo que saia da bitola de um desastre?
Pior que isso: são dados de 10 anos que se sobrepõem a tantos outros períodos de 10 anos que levaram o Grande ABC a crise sistemicamente grave.
Os dados dessa década de dupla face são preocupantes. A reação que se dá no segundo período não configura redenção econômica.
AÇÃO COORDENADA
Os números seguem abaixo da base comparativa, em 2011. O rebaixamento da economia do Grande ABC na última década já apurada (e que os dados do PIB tradicional só confirmarão em 2023 por conta da defasagem) reforça a importância de ação coordenada.
O calcanhar de Aquiles da região está fixado principalmente em São Bernardo e em Diadema, cidadelas do setor automotivo.
São Caetano cresce e cai de acordo com a automotiva General Motors. Santo André e Mauá se salvam com a indústria petroquímica e química, que geram poucos empregos em relação às montadoras e autopeças.
Quem acreditar no conto da Carochinha de que solucionar os problemas econômicos do Grande ABC é uma obra simples e rápida cairá do cavalo da precipitação. O buraco é mais profundo.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC