Economia

Região perde 291 fábricas da
Toyota de empregos desde 85

DANIEL LIMA - 20/03/2023

Metáforas que expressem o dilúvio do emprego industrial no Grande ABC desde a redemocratização do País não faltam. Peguei a via mais fácil e recente: os 550 empregos formais que se escafederam de São Bernardo com a retirada da fábrica de autopeças da Toyota.  

Multiplique isso por 291 unidades semelhantes e você terá o estoque de empregos formais do setor industrial que viraram pó nos últimos 37 anos -- ou seja, a partir de 1985. 

O resultado é esse mesmo. Emprego industrial, o sonho de consumo de qualquer trabalhador, porque paga 35% mais que a média dos demais, virou raridade na região.  

O Grande ABC perdeu 160.406 empregos formais industriais nos últimos 37 anos. Não há perspectiva de recuperação de pelo menos 10% disso. Se bobear, aumenta o prejuízo. Nos dois anos tenebrosos de Dilma Rousseff, 80 mil (em números redondos) trabalhadores foram decepados.  

MAIS COMPARAÇÃO  

Estava com a cabeça em outra metáfora, mas resolvi mudar em cima da hora. Iria escrever que o Grande ABC perdeu uma população inteira de São Caetano de empregos industriais de 1985 a dezembro do ano passado, enquanto, no campo demográfico, no mesmo período, ganhou o equivalente (e um pouco mais) da população de São Bernardo. 

Esse é o pior do mundo possível a qualquer endereço tão dependente do setor de transformação de produto. Ganhar uma São Caetano de população a ser atendida com demandas variadas no campo público, por exemplo, e perder uma São Bernardo inteira no campo de emprego industrial, ninguém merece.  

Acho que do ponto de vista sociológico, por assim dizer, a segunda metáfora é mais interessante.  

Sabe lá o que é ganhar em 37 anos uma população adicional de 892.620 habitantes e, na outra ponta, da desidratação0 industrial, que também pode ser chamada ou deve ser chamada de desindustrialização, se perdeu  praticamente uma São Caetano: 160.406 ante população de 166.847 empregos formais que desapareceram? 

MUITA ENGANAÇÃO  

É uma pena que números de passado tão remotos são quase inescrutáveis. Tenho nos meus arquivos desde muito tempo mas se referem apenas ao Grande ABC. Não há outros municípios disponíveis para comprar ações mais completas. Nada, entretanto, sequer faz cócegas ao Grande ABC. Muito pelo contrário: enquanto esvaziávamos os chãos e os escritórios de fábricas, outras localidades se beneficiavam da guerra fiscal.  

De qualquer maneira, esta que é uma nova edição do Observatório do Emprego no G-7, não perderá a oportunidade de mostrar alguns pontos relevantes no mercado de trabalho do Grande ABC.  

Há quem já tenha tratado a desgraceira do emprego formal no Grande ABC como um circuito ocasional, superado aqui e ali por novos fluxos de trabalhadores. Tudo não passa de oportunismo misturado com ideologismo acrescentado de sindicalismo com uma pitada de partidarismo. Um coquetel diabólico.  

EXCEÇÃO À REGRA  

É claro que durante essa trajetória de quase quatro décadas houve circunstâncias macroeconômicas mescladas de irresponsabilidade fiscal que contribuíram não só para arrefecer o ritmo da chuva ácida de desemprego continuado como também promoveu reviravoltas parciais, logo estancadas e em seguida novamente subvertidas pela força da natureza dos negócios concorrenciais.  

Apenas durante os oito anos de dois mandatos do presidente Lula da Silva o Grande ABC recuperou parte dos empregos formais da indústria perdidos durante os desastrosos (para o Grande ABC) oito anos do presidente Fernando Henrique Cardoso. Trataremos disso de forma mais detalhada num texto específico.  

Entretanto, a farra do boi do governo Lula da Silva, de gastanças sem fim que deu no que deu no governo da sucessora Dilma Rousseff, o retrocesso numérico foi gigantesco.  

Não recuperamos os empregos perdidos na recessão brutal de 2015-2016 até hoje. Também daremos conta desse tema em ocasião apropriada. O fato é que temos hoje menos empregos formais na indústria do que tivemos quando FHC deixou a presidência após o segundo mandato. Ou seja: este século está terrivelmente cruel para a região. 

QUEM LIDERA?  

A disputa para saber quem mais perdeu participação relativa no emprego industrial com carteira assinada quando comparado com a população, entre 1985 e 2022, exige tecnologia de ponta porque há praticamente um empate técnico.  

O que pergunto ao leitor em tempo real é o seguinte: qual foi o Município do Grande ABC, entre os sete, que perdeu mais trabalhadores industriais em relação à população? Vamos, tente acertar.  

Teria sido São Bernardo de montadoras e autopeças? Ou Santo André de pequenas indústrias que ficaram pelo caminho entre outras razões porque os sindicalistas que surgiram no horizonte regional no fim dos anos 1970 botaram empresas de tamanhos diferentes no mesmo saco de reivindicações e exigências?  

Sem contar que tanto num caso quanto no outro veio o governo Fernando Henrique Cardoso e ajudou a dinamitar as pequenas indústrias ao rebaixar alíquotas de importação favorecendo as montadoras e aniquilando as autopeças. 

MAIS MUNICÍPIOS  

Como retirar Diadema da lista de suspeitas de grandes perdas de emprego industrial tanto em termos absolutos quanto relativamente à população se o Partido dos Trabalhadores e semelhantes que ocuparam o Paço Municipal raramente deram bola aos empreendedores que se instalaram em seu território crentes de que bastaria a logística da Rodovia dos Imigrantes, da Rodovia Anchieta e em seguida do Rodoanel Sul para mergulharem nas águas do sucesso?  

Também não se pode deixar de lado a probabilidade de São Caetano então  automotiva e de autopeças estar no topo da lista de perdas de emprego industrial formal quanto confrontado com o estoque populacional. 

Para facilitar a vida do leitor de modo que não aposte em barco furado, tire Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra das primeiras colocações de déficit do emprego industrial com carteira assinada. Não seria aconselhável apostar em time que não é tão expressivo na atividade.  

SANTO ANDRÉ LIDERA  

Quem lidera com margem escassa é Santo André. Em 1985 o então “Viveiro Industrial” contava com 11,07% dos trabalhadores com carteira assinada na área industrial, enquanto agora, em 2022, não passa de 2,97%. Eram 64.491 carteiras assinadas no setor de transformação industrial em dezembro de 1984 para uma população de 582.103 pessoas e passou para 23.054 em dezembro passado paras uma população de 776.640.  

A perda líquida de 41.437 carteiras assinadas representa queda de 64,25% quando se considera apenas o universo industrial. Menos, portanto, que a perda de 73,17% quando se leva em conta a participação relativa do emprego industrial frente às demais atividades.  

Falta pouco para São Bernardo tirar de Santo André o título de maior perdedora relativa de empregos industriais em 37 anos no confronto com a população. Em 1985 eram 30,17% de participação ante 8,44% agora em dezembro. Uma queda de 72,03% -- indicador-chave da equação confrontadora.  

SÃO BERNARDO  

Em termos especificamente do setor industrial, São Bernardo contava em 1985 com 147.781 trabalhadores industriais para uma população de 489.774 pessoas. Agora em dezembro de 2022 são 832.347 moradores e 70.227 trabalhadores industriais. A perda líquida de trabalhadores do setor chega a 77.554 profissionais. Uma queda de 52,48%. Menos que Santo André, portanto, que registrou 64,25% de derrocada.   

A situação de São Caetano só não é tão grave quanto a de Santo André e de São Bernardo porque cresceu demograficamente menos. Em 1985 eram 156.922 pessoas ante 166.847 em dezembro do ano passado. Um avanço de apenas 6,00%, ante 25,05% de Santo André e 41,16% de São Bernardo. 

Mesmo assim, São Caetano registrou queda relativa do emprego industrial ante o total da população de 52,20%. Em 1985 eram 37.128 carteiras assinadas no setor industrial ante população de 156.922, o que representava 23,66% de ocupação de formalidade do setor produtivo. Em dezembro do ano passado, com população de 166.847 pessoas, São Caetano registrava 18.879 profissionais no setor industrial, o que significa participação relativa de 11,31%.  

Com isso, o arrefecimento de participação do emprego industrial no universo de empregos em geral com carteira assinada chegou a 52,20%.   

Num comparação exclusivamente setorial, tendo como base o ativo de carteiras assinadas no setor industrial em 1985 e em 2022, São Caetano perdeu o equivalente a 50,84%. Os 37.128 viraram 18.879 carteiras assinadas.  

DEMAIS MUNICÍPIOS  

Os demais municípios do Grande ABC tiveram comportamento semelhante ao de São Caetano sempre no confronto que mede a participação relativa do emprego formal industrial frente ao total de empregos formais nos demais setores. 

Diadema perdeu 58,03% de empregos industriais nessa condição. Em 1985, com 263.463 habitantes, Diadema contava com 61.531 trabalhadores formais. Uma participação relativa de 23,35%. Em dezembro do ano passado eram 39.696 trabalhadores industriais para uma população de 404.738. A participação relativa caiu para 9,80%. Quando vista a situação apenas sob o vetor industrial, Diadema perdeu no período 21.835 carteiras assinadas industriais. Uma queda de 35,49%. 

Mauá sofreu menos que os demais municípios do Grande ABC no período de 37 anos porque contou com o reforço da indústria química e petroquímica. Mesmo assim, a participação relativa do emprego industrial frente ao conjunto de moradores sofreu queda de 31,44% -- de 8,08% para 5,54%. Em 1985 Mauá contava com população de 246.279 enquanto registrava 16.287 trabalhadores industriais. Em 2022, a população chegou a 383.280 enquanto os trabalhadores industriais registravam 19.918 ativos. Ou seja: mesmo com acréscimo do estoque de trabalhadores industriais, Mauá registrou queda da participação relativa do emprego da atividade. Já quando se compara o efetivo de trabalhadores nas quatro décadas incompletas, Mauá apresenta saldo positivo de 18,23%.   

RIBEIRÃO E RIO GRANDE  

Em Ribeirão Pires, a queda relativa do emprego industrial formal frente o total de empregos formais chegou a 52,78% em 37 anos. Em 1985 a população de Ribeirão Pires registrava 69.500 pessoas ante 9.130 trabalhadores industriais, com participação relativa de 13,13%. Em 2022, a participação relativa do emprego industrial caiu para 6,20% como consequência de uma população de 116.174 ante 7.207 trabalhadores industriais. Quando se confere apenas os números de trabalhadores industriais, Ribeirão Pires registrava baixa de 21,06%.  

Completando o G-7 do Observatório do Emprego, Rio Grande da Serra sofreu queda relativa do emprego industrial frente aos demais de 53,05% no período. Em 1985 eram 24.548 habitantes e um total de 1.286 trabalhadores industriais. Em dezembro do ano passado eram 45.183 moradores e um total de 1.111 empregos industriais. A participação relativa caiu de 5,24% para 2,46%. A mais baixa do Grande ABC e um pouco acima de Santo André. Em termos exclusivamente industrial, Rio Grande da Serra perdeu o equivalente a apenas 175 empregos formais no período, ou 13,61% do estoque. 



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