Economia

DÉCADA DESASTROSA: O
QUE SERÁ DA REGIÃO? (6)

DANIEL LIMA - 16/05/2023

Se a Capital Econômica do Grande ABC desabou no período de uma década como jamais havia desabado, como esperar outro resultado que não uma tragédia?  Por isso não deve ser esquecida a Década Desastrosa do Grande ABC, entre 2011 e 2020, tendo como base 2010, último ano do segundo mandato de Lula da Silva, passando por Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro. A Década Desastrosa deve sim servir de lição. E inspirar reação que ainda tarda e falha. Para variar, num Grande ABC sem cabeças pensantes e sem lideranças ativas no campo econômico de regionalidade compulsória.   

Neste capítulo desta série inédita, vamos mostrar o comportamento do PIB per capita dos Municípios do Grande ABC. Outros seis endereços do Estado de São Paulo, também muito pujantes economicamente, ficarão para uma próxima edição. Todos sofreram menos que o Grande ABC. 

A notícia conformista para quem mora na região é que somente um dos 13 municípios não perderam Produto Interno Bruto. Mas quem registrou saldo positivo representa apenas 0,2% do PIB do Grande ABC, no caso a pequenina Rio Grande da Serra. 

O MELHOR PIB  

Este capítulo não trata de um PIB qualquer. É o melhor de todos os PIBs e eventuais outros indicadores que sinalizam o comportamento econômico dos municípios. O PIB per capita, como se sabe, é diferente do PIB Geral.  

O PIB por morador retrata uma conta simples e terrivelmente contundente para quem teima em não se preocupar com o PIB per capita porque um PIB Geral elevadíssimo que desconsidera essa especificidade sinalizaria contundente força econômica. 

Não é, portanto, o caso do PIB per capita, simplificadamente a divisão do PIB Geral pelo total de habitantes. É nesse ponto, principalmente nas grandes cidades, que se observa mais atentamente o desempenho econômico. PIB per capita é a divisão do PIB total pelo total de habitantes, não se pode desconsiderar esse ponto. Repeti-lo não é exagero. 

UNIFORMIZAÇÃO  

A medida uniformiza todos os municípios e países. O PIB Geral chinês está cada vez mais próximo do PIB dos Estados Unidos, mas a diferença ainda é elevadíssima quando se compara o PIB per capita dos dois países. Os norte-americanos são muito mais ricos que os chineses.  

O PIB por habitante da Década Desastrosa do Grande ABC impactou mais duramente dois municípios dependentes demais da produção automotiva. São Bernardo e São Caetano empataram tecnicamente em desventura. São Bernardo perdeu 40,51% do PIB per capita nos 10 anos diagnosticados. São Caetano perdeu 39,29%.  

Quando dados como esses, profundamente estarrecedores para quem entende um mínimo de economia, salta de um dedilhar no computador, há sempre quem desconfie de erro de digitação. Não é o caso de São Bernardo nem de São Caetano.  

No caso de São Bernardo, a situação é mais grave não necessariamente porque a perda está um pouco acima de São Caetano. O problema de São Bernardo é a pior combinação possível de PIB per capita. Primeiro, a perda em valores absolutos de geração de riqueza em produtos e serviços. Segundo, o crescimento elevado da população.  

DEMOGRAFIA AJUDA  

No caso de São Caetano a situação também é péssima, mas há o consolo de que a perda do PIB per capita se dá quase que exclusivamente com a queda de riqueza em produtos e serviços, já que o crescimento demográfico foi ínfimo. 

Em capítulos anteriores mostramos o PIB Geral dos Municípios do Grande ABC e o comparamos igualmente com o PIB do G-3 Metropolitano, conjunto formado por Osasco, Guarulhos e Barueri, e também com o G-3 do Interior, integrado por Campinas, Sorocaba e São José dos Campos.  

O Grande ABC perdeu mais para esses dois conglomerados de municípios. E volta a perder também na métrica do PIB per capita.  

Não existe meio termo, não existe marketing, não existe nada capaz de convencer o distinto público de que o Grande ABC tenha deixado de viver os piores 10 anos de todos os tempos.  

CAPITAL DESTROÇADA  

A perda do PIB per capita estiola todos os municípios de porte da região. O resultado de Rio Grande da Serra nem deve ser considerado como coisa séria.  

Além de não ser quase nada em termos de PIB, Rio Grande da Serra sofreu o impacto de políticas públicas federais de repasse de recursos do Bolsa Família e outras fontes de renda dispensadas pelo Estado. Não é PIB propriamente dito, quando se considera que PIB é uma régua de produção. 

Quem mais perdeu PIB per capita, até porque também foi quem mais PIB Geral, é a Capital Econômica do Grande ABC.  

Os 10 anos foram terríveis. Os 40,51% têm um significado que se alastra por toda a região. O peso relativo da participação de São Bernardo no PIB Geral do Grande ABC é de 40%. Qualquer mexida para baixo em São Bernardo, é mexida para cima na queda regional.  

QUEDA DE 40% 

O PIB per capita de São Bernardo em 2010 registrou em valores nominais, sem considerar a inflação, R$ 55.615.87 mil.  Era o último ano presidencial de Lula da Silva. O PIB Geral do Brasil cresceu 7,5%, bombado por gastos acima de receitas.  

Para que não houvesse perda 10 anos depois, aplicando-se apenas a inflação do IPCA do período, o PIB per capita de São Bernardo deveria chegar a R$ 98.766,05 mil. O resultado foi R$ 57.566,99 mil. Ou seja: contra uma inflação do período de 73,99%, o PIB de São Bernardo cresceu apenas 3,51%.  

É claro que o resultado de São Bernardo, como mostramos em capítulos anteriores, está conectado ao mergulho da indústria automobilística. A Doença Holandesa Automotiva de São Bernardo é implacável. Quando o mercado cresce, o PIB avança. Quando o mercado retrocede, o PIB cai. E o PIB per capita cai mais quando o PIB Geral cai porque o crescimento da população é irrefreável.  

Nos 10 anos da Década Desastrosa São Bernardo absorveu novos 76 mil habitantes. Metade da população de São Caetano. É uma conta impagável.  

Também relevante na queda pronunciada do PIB Geral e PIB per capita de São Bernardo está a construção do Rodoanel. Que merecerá um capítulo específico.  

POUCO ABAIXO  

O segundo pior índice do Grande ABC no quesito do PIB por habitante é de São Caetano, com larga vantagem sobre Diadema, que ficou em terceiro lugar.  

São Caetano e Diadema também sofrem os efeitos da Doença Holandesa Automotiva. São menos dependentes que São Bernardo, mas são muito dependentes também. 

São Caetano perdeu 39,29% do PIB per capita porque em 2010 contava com R$ 81.600,94 mil e terminou 2020 com R$ 86.200,01. No meio do caminho da contabilidade tem o processo inflacionário. São Caetano deveria chegar em 2020 ao PIB per capita de R$ 141.975,84 mil para que não houvesse perda alguma. Como ficou longe disso, com crescimento nominal de 5,63% ante 73,99% do IPCA, acabou despencando.  

LÁ VEM DIADEMA  

Diadema vem a seguir como endereço sofrido da Década Desastrosa no PIB per capita. Em 2010, registrou em valores nominais 27.716,85 mil. Deveria chegar em 2020 com PIB per capita de R$ 48.224,55 mil para que não registrasse perda. Mas Diadema não passou de R$ 35.282,62 mil. Uma diferença, em termos reais, de 26,84%. 

Mesmo contando com perto de 40% de participação do Polo Petroquímico no PIB Geral, perdendo na região apenas para Mauá, com quem divide a Doença Holandesa do setor, Santo André também sofreu queda na Década Desastrosa.  

O PIB per capita caiu 17,92%. Em 2010, em valores nominais, o PIB per capita de Santo André registrou R$ 28.437,62 mil. Já em 2020, alcançou R$ 40.612,01 mil. Deveria ser R$ 49.478,61 mil. Um avanço nominal de 42,81%, abaixo da inflação de 53,99%. 

Mauá sofreu menos que Santo André porque o aumento de produção do Polo Petroquímico no período permitiu resistir mais aos efeitos destrutivos, principalmente do governo Dilma Rousseff.  

O ganho nominal do PIB per capita de Mauá no período foi de 60,52%, ante inflação de 73,99%. O PIB per capita de Mauá em 2010 registrou R$ 22.343,28 mil em valores nominais, ante R$ 35.864,96b mil em 2020. Para que não registrasse perda, considerando-se a inflação, o PIB per capita de Mauá deveria ser de R$ 38.875,07 mil.  

FRÁGEIS DEMAIS  

A soma de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra representa apenas 2,2% do PIB Geral do Grande ABC. Por isso, os resultados que envolvem os dois municípios não fazem verão. Para cima ou para baixo, tanto faz.  

Ribeirão Pires perdeu em termos reais na Década Desastrosa apenas 3,07% do PIB per capita. Eram R$ 15.956,76 mil em 2010 e deveria ser R$ 27.763,16 mil caso acompanhasse a inflação do período. Chegou a R$ 26.911,94 mil. 

Rio Grande da Serra registrou a única vitória do PIB per capita no Grande ABC e também quando se levam em conta os seis municípios selecionados para comparações com o Grande ABC, casos de Guarulhos, Osasco, Barueri, Campinas, Sorocaba e São José dos Campos.  

O PIB per capita de Rio Grande da Serra registrou R$ 8.772,33 mil em 2010 e passou para R$ 16.478,41 mil em 2020. Se crescesse conforme a inflação, registraria R$ 15.262,98 mil. 

Vamos deixar para o próximo capítulo os embates com os seis municípios de grande porte, os quais integram o G-22, o Clube dos Maiores Municípios do Estado de São Paulo. Nenhum escapou dos estragos de Dilma Rousseff, mas não podem ser catalogados como protagonistas da Década Desastrosa. Nos respectivos casos, viveram uma Década Perdida.  



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