Economia

É melhor não acreditar em
picanha automotiva regional

DANIEL LIMA - 16/05/2023

É melhor o Grande ABC não acreditar que participará de eventual festival de picanha automotiva, em forma de incremento de carros populares, como promete o governo Lula da Silva para supostamente dinamizar a economia sobrerrodas superestimada em tempos passados. 

Por conta disso, é melhor não acreditar mesmo que o ministro de Desenvolvimento Econômico Geraldo Alckmin, que ontem esteve em São Bernardo com lideranças de três montadoras e o prefeito Orlando Morando, será capaz de contemplar o que seria potencial reoxigenação da principal atividade econômica da região. 

A ideia do governo federal quando transplantada ao ambiente regional lembra uma criança que, ao se encantar com um gorila num circo, chora que chora para que os pais levem o animal para casa. E fica ainda mais atiçado a novas aventuras depois do show de leões amestrados.  

DEPENDÊNCIA DEMAIS  

Como mostra mais um capítulo da série “Década Desastrosa”, o Grande ABC depende tormentosamente da Doença Holandesa Automotiva. Nada pior para o futuro. O período de bônus já se esgotou há muito tempo. Desindustrialização é o nome do jogo macroeconômico com fundas preocupações sociais.  

No período de 2011-2020, o PIB Geral do Grande ABC caiu recordistas 23%. O PIB per capita,  medida mais bem apetrechada, apontou que São Bernardo, a Capital Econômica da região, perdeu 40%. É muito, mas muito mais que muito. Perder geração de riqueza em média de 2% ao ano durante 10 anos é uma calamidade.   

REZA E TRABALHO 

Esperar que o Grande ABC produza carros populares em volume suficiente para sair da pasmaceira econômica em que se meteu nos dois anos destruidores de Dilma Rousseff é o mesmo que sugerir padre em culto de candomblé.  

O Grande ABC precisa de muita rezadeira, não interessa o credo, mas tem que botar a mão da massa.  

E a mão na massa econômica não virá do governo federal em forma de carros populares. Há incompatibilidade de gênero produtivo impossível de ser contornada: o custo de produção automotiva no Grande ABC, por força do pioneirismo e das conquistas sindicais, entre um monte de razões, não faz parceria com a necessidade de rebaixar o valor dos veículos.  

Sem contar que a concorrência nacional e internacional numa atividade sem limites geográficos e de moedas prevalece em nome da produtividade.  

BAIXA PARTICIPAÇÃO  

A indústria automotiva é essencial ao equilíbrio econômico e social do Grande ABC, mas não representa mais que 10% de participação no bolo nacional do setor.  

Ou seja: o que é decisivo para o Grande ABC é menos problemático para o País como um todo, ou mais precisamente aos municípios que aparecem no mapa automotivo nacional. 

Não há, portanto, alquimia de Geraldo Alckmin dotada de sustentabilidade macroeconômica e macrofiscal que possa tirar o Grande ABC do encalacramento produtivo.  

Exceto, claro, se o ex-governador decidir lançar mão de alguma carta da manga. 

PRESENTE DE GREGO 

Se o fizer, menos mal porque Alckmin presenteou o Grande ABC com um legado de amigo da onça, ou presente de grego. Trata-se do traçado autofágico do Rodoanel Mário Covas que, com peculiaridades exaustivamente apontadas nesta revista digital, deslocou a produção de inúmeras atividades à vizinhança da região da Grande Oeste, integrada por Osasco, Barueri e outros municípios.   

Por conta disso, ao invés de ficar apegar-se a uma promessa que Geraldo Alckmin jamais entregaria na dimensão necessária se o ritual de responsabilidade fiscal for minimamente respeitado, o que as lideranças do Grande ABC precisam fazer é ter objetividade nas relações com o governo federal.  

Do mato da picanha automotiva que o governo Lula da Silva pretende presentear a indústria nacional no próximo dia 25 não sai coelho de regionalidade transformadora. Talvez saia na área de ônibus e caminhões, mas aí não se trata mais de picanha, de efeito popular de consumo. São nichos específicos.  

DÍVIDA FEDERAL  

Poderá parecer absurda a ideia de que o governo federal deve mais que explicações ao Grande ABC. Deve mesmo indenização ao Grande ABC por conta dos estragos de Dilma Rousseff. E também do traçado do Rodoanel.  

São Bernardo principalmente e os demais municípios por consequência deveriam reivindicar junto ao governo federal medidas compensatórias ao desastre chamado Dilma Rousseff.  

Essa conta não poderia deixar de ser mitigada. E não será a picanha do carro popular que o fará, porque, repita-se, São Bernardo só fabrica veículos de maior valor agregado para ter rentabilidade nos negócios automotivos. São Caetano da General Motors também.  

Só existiria uma possibilidade de o Grande ABC locupletar-se de eventual política pública federal de produção em massa de um novo modelo conceitual de carro popular. Seria a criação de uma espécie de reserva de mercado, uma Zona Franca do Grande ABC.  

A medida consistiria em favorecer o renascimento do carro popular e restringir a produção, ou favorecer a produção à base de incentivos fiscais, exclusivamente ou preferencialmente às montadoras locais. Seria sonhar demais, claro. Outros territórios nacionais contam com maior força de pressão política.  

CORDA BAMBA  

O governo federal está cada vez mais na corda bamba de relações incômodas com o Congresso Nacional, pressionado, por sua vez, pelas redes sociais. Acabou o tempo de a Velha Imprensa ditar o ritmo político-institucional do País.  

Os políticos que sabem usar artimanhas para pedir muito sempre tendo como premissa obter o indispensável bem que poderiam se unir e exercer pressão para modular os preceitos de novo carro popular tendo como base a defesa do Grande ABC.  

Entretanto, por mais que eventualmente se juntassem, o que é bastante improvável, e criassem um redesenho dessa faixa de mercado automotivo, é improvável que obtivessem sucesso.  

O mundo globalizado não permite devaneios, exceto como forma de explicitar o quanto é bobagem imaginar saídas mágicas. O Grande ABC está mesmo encalacrado.  

MUITO DIVISIONISMO 

Da mesma forma que um time campeão é o resultado de planejamento e execução com critérios cada vez mais profissionais, uma cidade ou especialmente uma região como o Grande ABC só vai sair do estágio de insolvência institucional com consequências deletérias quando jogar no lixo as armas de uma política divisionista no campo partidário. 

Mais que isso: o Grande ABC é dividido e subdividido em várias temáticas, além da política partidária propriamente dita.  

Ainda viceja na região um embate surdo e barulhento que coloca a livre-iniciativa e o estatismo como forças antagônicas e autofágicas.  

Esperar que sindicalistas enxerguem o mundo produtivo regional sem o aparato do governo federal, principalmente, é ilusão. Enquanto isso, a livre-iniciativa só contabiliza prejuízos porque é desunida, fragilizada e inconstante. Os pequenos e médios empreendimentos não têm relações reformistas que os aproximem.  

Por essas e outras uma promessa como a do ex-governador Geraldo Alckmin, que acena para um novo modelo automotivo a partir do Dia da Indústria, deve ser avaliada como, até prova em contrário, blefe histórico.  

FALAÇÃO DEMAIS 

O governo federal não tem margem de manobra fiscal responsável para beneficiar determinados setores, principalmente setores globalizados. 

Geraldo Alckmin é um ministro de conhecimentos parcos sobre economia. Está na praça para fazer coro triunfalista sem bases práticas e acadêmicas. Fala sobre a taxa de juros como mero repetidor do ministro da Fazenda Fernando Haddad, que, também pouco apetrechado na área, segue um grupo de acadêmicos de viés estatista e populista.  

Resumo da ópera: quem no Grande ABC já estiver sonhando com recorde de produção automotiva precisa ser chamado à realidade. Nem mesmo –e esse é o extremo da concessão – se tudo for levado a cabo, nem assim a resolução permitiria à região dar um salto em direção ao passado de produção elevada. Os tempos são outros e as opções produtivas não passam da Volkswagen e da General Motors – isso com muito boa vontade.  

Restaria saber se alguém vai admitir que se mexa no queijo da remuneração dos trabalhadores para que a equação de produtividade dê um salto mínimo sincronizado com outros custos operacionais numa atividade que vive uma encruzilhada.  

Que encruzilhada? Precisa e está investindo os tubos em novas fórmulas de energia para baixar a bola dos combustíveis fósseis.  



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