Uma pergunta: o que existe de correlação diabólica entre a anunciada chegada de um conglomerado de fábrica chinesa de veículos na Bahia e a peregrinação de representantes do ABC Paulista (especialmente petistas, mas não só petistas) em Brasília, em busca de dinheiros públicos federais?
Resposta: o presente econômico e social da região (que não é nem sombra do que foi no passado) vai se tornar ainda mais sombrio e desafiador no futuro.
A ironia dessa equação é que as circunstâncias podem até ser outras, o contexto também, mas o desenlace parece semelhante.
Se Lula da Silva, então como liderança metalúrgica, colocou São Bernardo e o ABC Paulista no mapa político-institucional do País, com greves que redundaram, entre outros eventos, no marco inicial da desindustrialização da região (na onda da guerra fiscal), agora como presidente da República protetor de asiáticos tem tudo para ganhar a forma de pá de cal e comprometer a economia regional, com efeitos nefastos a uma população de quase três milhões.
SILÊNCIO GERAL
Uma economia regional que Lula e o PT, durante os 14 anos de Brasília, sobremodo com Dilma Rousseff, colocaram a nocaute.
Até hoje o ABC Paulista não se recuperou dos estragos no mercado de trabalho e tampouco haveria luz no horizonte da desindustrialização que não cessa. Já escrevi dezenas de matérias sobre isso.
O silêncio das instituições e da mídia em geral só comprova a que ponto chegamos em matéria de cumplicidades, medos, terrores, negligência e tudo o mais.
Ou seja: o ABC Paulista, além de perder a viscosidade econômica, e salvo raras exceções que confirmam a regra de esculhambação geral, tornou-se reduto de covardes e oportunistas. Creio piedoso que os desesperançosos são em maior número.
DIÁRIO, PRIMEIRO
Vamos aos fatos do dia, como repercussão no futuro e explicações sólidas no passado.
Está no noticiário de hoje, especialmente numa das páginas do Diário do Grande ABC, sob o título apenas aparentemente lacrimejante (“Prefeitos do Grande ABC peregrinam em Brasília), mais um capítulo do que se vem observando desde que Lula da Silva voltou a Brasília. Alguns trechos da reportagem:
A semana foi de intensas reuniões de prefeitos do Grande ABC com ministros e deputados federais em Brasília. Os prefeitos de Diadema, José de Filippi Júnior (PT), de Mauá, Marcelo de Oliveira, e de Rio Grande da Serra, Penha Fumagalli (PSD), tiveram série de encontros em busca de recursos para a região. Filippi se encontrou com o ministro da Casa Civil e com a ministra Nísia Trindade. (...) O sonho de consumo do prefeito de Diadema é obter aporte federal para a construção do novo hospital, que funcionará onde hoje está instalado o Paço Municipal (...). Marcelo Oliveira destacou a reunião que teve com a bancada e deputados federais do PT. “Pude fazer um panorama de como encontramos a cidade, completamente quebrada e com mais de R$ 600 milhões em dívidas de curto prazo (...) Outro assunto de Marcelo Oliveira tratado no Ministério da Casa Civil, a respeito de investimento de R$ 39 milhões para obras de contenção de encostas em diversos bairros de Mauá. (...) Penha Fumagalli também contou com agendas ministeriais e parlamentares. Entre os deputados, ela destacou os encontros com os petistas (...) Penha também se reuniu com o ministro do Trabalho, Luiz Marinho – escreveu o Diário do Grande ABC.
ESTADÃO, AGORA
Corte rápido. Vamos saltar do Diário do Grande ABC para o Estadão, também de hoje. Preparem-se:
Um artigo inserido na última hora na Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da reforma tributária ganhou o apelido, nos bastidores da votação, na Câmara dos Deputados, de “emenda Lula”. Isso porque vai possibilitar que a montadora chinesa BYD, que se comprometeu em assumir a fábrica da Ford em Camaçari, na Bahia, usufrua de benefícios fiscais até 2032. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o garoto-propaganda do negócio, formalizado em reunião no Palácio do Planalto no último dia 28. Na ocasião, ele tirou foto ao lado da presidente da BYD para as Américas, Stella Li, e ainda com o vice-presidente Geraldo Alckmin e o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT). A inclusão do benefício na reforma foi um pedido feito pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, durante as negociações do texto. Rodrigo também procurou parlamentares para defender a inclusão do benefício no relatório que, até a penúltima versão, divulgado na quarta-feira, 5, não previa a vantagem à montadora. O trecho, portanto, foi incluído no dia da votação da reforma na Câmara, na quinta-feira, 6 – escreveu o Estadão.
PODERES FRÁGEIS
Já tenho engatilhada, desde o começo da semana, análise do impacto futuro da eletrificação de veículos no País, tendo como base a chegada dos chineses a Camaçari, principalmente, e o contraponto da situação regional. Por isso não vou ingressar nessa seara hoje.
O que temos no cardápio é o que os leitores atentos observaram no que está acima. Há distância enorme entre o poder político e econômico do ABC Paulista antes incensado como pátria de revolução sindical e, do outro lado, os Estados do Nordeste, onde o PT de Lula da Silva tem domínio de mercado do Bolsa Família e dos votos presidenciais.
Cada voto do ABC Paulista é quase nada frente ao voto nordestino. Lá é vermelho na proporção de 70% dos válidos. Aqui, não passou de 51% nas últimas eleições. Lá são mais de 40 milhões de eleitores. Aqui, não mais que 2,1 milhões.
Como não temos capital político e estamos cada vez mais afundando em capital econômico, o resultado provocado pela conexão das duas matérias acima não parece deixar dúvida.
FUNDILHOS SUJOS
Quanto mais pedirmos e festejarmos migalhas de repasses ao governo federal petista, mais exibiremos os fundilhos sujos de nossa incapacidade de reagir coordenadamente em busca de recuperação econômica que já dura no mínimo três décadas.
Esperar que o ex-sindicalista Lula da Silva e seus assessores mesmo locais tenham compaixão do ABC Paulista, o berço que embalou o PT rumo ao governo federal, seria demais.
E é natural que assim seja. Lula e PT são a expressão de um universo muito mais amplo e importante.
O que falta ao ABC Paulista é o que estou cansado de lembrar. Legitimidade, representatividade, empenho e tudo o mais no que se refere à regionalidade para valer, não a regionalidade de cartas marcadas e de caráter político-partidário que o grupo do prefeito de Santo André, Paulinho Serra, instaurou no Clube dos Prefeitos – como se o passado inútil da entidade já não fosse suficiente como prova de desperdícios institucionais.
DESTRUIÇÃO CONTÍNUA
O que parece inexorável, provincianismo à parte de imaginar Lula da Silva patrimônio político regional (ou grande passivo político regional) como se interpreta a carreira do ex-metalúrgico numa região e num País dividido, é que se caminha mais e mais para nova etapa de destruição do setor automotivo na região.
Uma destruição que tem como centro de operações São Bernardo, ironicamente onde Lula da Silva saltou à ribalta nacional.
Temos desfilado ao longo dos anos (desde que a revista LivreMercado de papel virou referência editorial a partir de março de 1990) uma incansável luta contra a desindustrialização do ABC Paulista.
E ao contrário do que ainda se manifestam alguns dinossauros da comunicação e os interesseiros de sempre na área sindical, o desfiladeiro está longe de acabar.
Com os chineses protegidos pelo PT na parada, a extrema-unção de capacidade competitiva das fábricas do ABC Paulista não é uma projeção catastrófica. É realismo puro.
MUITA HISTÓRIA
Nunca é demais lembrar que somente o verbete “desindustrialização” consta de 955 textos desta publicação digital. Quase mil vezes desindustrialização, para ser preciso. Fossem contabilizados sinônimos desse palavrão insidioso, casos de “descentralização, evasão industrial” e tanto outros, a conta salgadíssima ganharia impulso quântico.
Afinal, é impossível produzir qualquer análise do comportamento econômico e social do ABC Paulista sem a abordagem do esfacelamento industrial.
DESASTRE PETISTA
E é exatamente isso que continuaremos a vivenciar porque o governo federal petista, sempre em convescote protecionista com as montadoras de veículos, à custa dos contribuintes em geral, traveste-se de mecanismos de multiplicação de interesses setoriais que, geralmente, são a dano da região.
Mesmo quando, vejam só, supostamente beneficiam os trabalhadores e as empresas do setor na região.
Basta lembrar o dia seguinte dos dois anos do governo Dilma Rousseff, na maior recessão da região em toda a história, quando perdemos 22% do PIB, enquanto o País como um todo não passou de desastrosos 8%.
O governo petista de Lula de dois mandados apenas mascarou a realidade regional, de decadência insidiosa a partir dos anos 1980, enquanto o governo Dilma Rousseff foi incapaz de segurar o rojão, porque as complicações foram plantadas pelo antecessor. Todos sabem disso. Menos os fanáticos, claro.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC