Parece que não existe nenhum estudo científico razoavelmente sério que dê resposta à seguinte pergunta: qual é a diferença quantificada entre correr nas ruas com os pés nas ruas e correr numa bicicleta ergométrica com os pés longe do solo? Acho que tenho uma boa pista.
Não há a menor sombra de dúvida de que correr na rua exige e reproduz maior capacitação física do que correr numa bicicleta ergométrica ou mesmo numa esteira.
Já escrevi sobre isso. Mais que escrever sobre isso, organizei minha recuperação física sobre cinco pilares:
1. Andar.
2. Caminhar.
3. Bicicletar.
4. Esteirar.
5. Correr.
Percorri nos últimos dois anos e cinco meses todos esses estágios. E ainda me dei ao luxo de esnobar durante alguns dias, indo além de correr, ao adotar o que chamei de atirar, que consiste em corridas curtas à velocidade muito maior que o ritmo médio de uma corrida-corrida.
BICICLETAR OU CORRER?
Devo confessar que desativei a extravagância. Senti dores nos joelhos ainda ressentidos de uma inatividade de ruas que durou mais de dois anos.
Ainda não tenho confiança suficiente para, pós-corrida, voltar a dar alguns tiros curtos. Mas vou chegar lá.
Mas voltemos ao que interessa. E o que interessa é tentar mostrar o quanto se perde em efetividade física quando, por alguma situação, a gente se vê obrigado a deixar de correr e recua ao bicicletamento. Parece que o vernáculo não comporta a palavra “bicicletamento”, mas vou mantê-la porque é autoexplicativa.
Confesso que há muito tempo queria mesmo tirar a dúvida que insistia em me incomodar. Qual dúvida? Quanto em matéria de volume decifrável haveria de distinção entre bicicletar e correr?
BASE GARANTIDA
Claro que a experiência de retomar a corrida de rua nos últimos 120 dias seguidos já garantia insumos suficientes para a empreitada de buscar resposta. E a oportunidade surgiu nos dois dias chuvosos no final de semana.
Chuva e garoa insistentes me impediram de ir às ruas no entorno da Cidade da Criança, em São Bernardo, onde moro.
Desde aquele dia primeiro de fevereiro tomo todos os cuidados possíveis e imagináveis no processo de recuperação a que me submeto diligentemente. Para ler e para correr, paciência e tolerância haveremos de ter.
A recuperação física e corporal em busca dos melhores dias anteriores ao primeiro de fevereiro é uma de minhas prioridades. Ainda estou longe da meta porque a meta tem uma bala no meio do caminho.
Os cuidados essenciais não podem ser negligenciados. Só voltei às ruas depois de mais de dois anos de andar, caminhar, bicicletar e esteirar – exatamente nessa dinâmica.
MEDO DE CAIR
Foram longos meses de expectativa à retomada da normalidade físico-corporal de pretenso atleta que não busca recorde algum, exceto colocar mais vida nos anos a viver.
Voltar à ergométrica, portanto, foi o imperativo que me fez retroceder por conta do tempo chuvoso e, principalmente, do asfalto escorregadio.
Tenho medo terrível de cair em qualquer circunstância, principalmente quando estou correndo. Mas já cai em casa de bobeira durante alongamento das pernas.
O piso escorregadio e o calçado inapropriado me transformaram em saco de batatas. Quebrei a cara no piso frio. Por sorte, não se acrescentou a quebra de nenhum dente depois dos dentes que perdi por causa do primeiro de fevereiro. Mas o impacto foi atordoante.
MARGEM DE MANOBRA
O leitor vai desconfiar que que o esteja enrolando porque não conto logo qual é a diferença em termos de correr em cima de uma ergométrica no ambiente doméstico e em cima de um tênis em algumas ruas com segurança. São ruas de baixa incidência de esquinas traiçoeiras – como é o caso do circuito no entorno da Cidade da Criança, mas de dois trechos de subida íngreme e outros dois de descida incômoda e nada produtiva.
Então vou revelar o que ocorreu para que o leitor pense a respeito sobre vantagens e desvantagens de trocar uma ergométrica por um tênis no chão duro de ruas íngremes.
Nos 120 dias de corridas diárias na rua, aumentei minha capacidade de resistência em 17,50% em relação ao estágio em que me encontrava dois anos depois do tiro quase fatal. Parece pouco? Experimente correr hoje e confira em quatro meses o quanto foi possível rebaixar em termos de cronometragem.
SEM LOUCURAS
Devo lembrar que o rebaixamento de 17,50% do tempo despendido no mesmo circuito se deu sem forçar demais a barra. O que isso significa? Que corri dentro de um padrão senão de conforto físico, porque assim não seria interessante à evolução, mas longe de imaginar que dividia a companhia com alguém a quem precisava superar de todas as maneiras porque estaria no horizonte uma disputa de maratona.
Ou seja: corri dentro de uma margem de competitividade comigo mesmo que não contrariasse o bom-senso de quem carrega um histórico recente de complicações muito além do físico propriamente dito, mas de um quadro clínico de anormalidades a superar.
Para que pudesse revelar agora com segurança absoluta o quanto é provável que se perde numa corrida ergométrica em relação a uma corrida na rua, seria necessário que emendasse pelo menos 30 dias seguidos de experiência. Depois de 30 dias de ergométrica seguidos, voltaria ao circuito de pés no chão e avaliaria com mais precisão.
INTERVALO COMPROMETEDOR
Como não estou disposto a fugir das ruas porque as ruas são meu tratamento físico e mental indescartáveis, e como os dois dias seguidos de ergométrica já estão consumados, decidi conferir ontem o tempo com os pés nas ruas e compará-los com o tempo de dois dias antes, antes da ergométrica. O leitor entendeu o que quer dizer?
Vou tentar ser mais didático. Para saber o quanto perdi de capacitação física em dois dias seguidos de ergométrica e, portanto, de abstinência compulsória de corrida na rua, comparei a média dos últimos tempos cronometrados nas ruas com o tempo de novo cronometrado nas ruas, só que agora após os dois dias de intervalo de ergométrica.
É um ensaio com algum grau de empirismo, por assim dizer, para ter alguma resposta que então jamais obtive, embora não me tenha faltado e não falte curiosidade em saber.
PERDA REGISTRADA
Sabe o leitor qual é o resultado da equação? Se após 120 dias de corridas diárias de rua rebaixei em 17,50% o tempo consumido a partir do marco inicial de mais de dois anos de ergométrica (e também de esteira), desta vez, em apenas dois dias de ausência nas ruas, perdi cumulativamente 3,66% da capacitação física, ou algo como 1,80% ao dia.
O resultado que o cronômetro marcou quando o congelei assim que encerrei o circuito não me surpreendeu. Senti já nos primeiros 200 metros de corrida na rua que a corrida na ergométrica comprometera o ritmo anterior obtido nas ruas.
Por isso, quando completei o circuito das três voltas, e ao consultar o cronômetro, estava preparado para algo que poderia ser decepcionante: meu corpo não ofereceu a mesma resistência de antes da ergométrica de dois dias.
VAMOS LÁ, CIENTISTAS
Acho que a ciência precisaria desenvolver um projeto para estabelecer as respectivas equivalências de capacitação física envolvendo as cinco fases mais comuns de preparação de milhões de pessoas que fogem do sedentarismo.
Andar, caminhar, ergometrizar, esteirar e correr são fases distintas, mas complementares que poderiam ser referenciadas entre si como ferramentas desafiadoras aos praticantes.
Francamente, não sei nem quero saber quais seriam os efeitos sobre o estágio a que cheguei correndo nas ruas, caso decidisse me plantar 30 dias seguidos numa ergométrica.
Partindo do princípio reverso de que só fui às ruas depois de dois anos e em 120 dias elevei minha capacidade físico-motora em 17,5%, suponho que o processo e os resultados seriam mais ou menos esse. Ou seja: voltaria ao estágio anterior de recuperação, quando, de fato, estava um bagaço.
Não tenho interesse algum em voltar no tempo, seja qual for o motivo. Principalmente aquele. Quero respirar o ar puro das ruas, elevando a cada dia a capacidade pulmonar e os músculos das pernas. Sem contar o principal: correr me coloca em contado com a rede neural que neutraliza ou mitiga o estresse nosso de cada dia.
Pernas pra que te quero. Ergométrica só quando não houver ruas a desbravar.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS