Seis em cada 10 microempreendedores individuais metidos a besta na santa esperança de que poderiam mudar de vida estão decepcionados nestes primeiros 11 meses do ano. Eles quebraram a cara. Fecharam o negócio. O negócio do microempreendedor é praticamente ele mesmo em corpo, alma e expectativas. Quer situação pior do que essa? Os quatro que sobraram a cada 10 dessa carnificina podem ser abatidos mais adiante no tempo e engrossarem as estatísticas fúnebres. Isso não é chute. É realidade comprovada.
O capitalismo de sobrevivência segue massacrado no Grande ABC e no Brasil como um todo. Microempreendedores Individuais (MEIs) proliferam num País em que o PIB teima em correr erraticamente apenas um pouco acima do crescimento populacional, com oscilações para cima e para baixa que destroem qualquer planejamento.
É impossível ao capitalismo resistir e se fortalecer onde impera um Estado tão guloso, dispendioso e festejado como fonte de transformações sociais. O Estado bom de governo é exceção num País de contínuos desgovernos municipais, estaduais e federal. A incompetência é metástase insidiosa.
OU VAI OU RACHA
No ritmo de frustrações que o País imprime continuadamente, o empreendedorismo privado, com taxa de reincidência letal tão elevada, poderá virar um bolo indigesto de consequências. Ou seja: despertar mais transformações políticas e sociais do que poderia supor o mais imaginativo cientista social.
Algo que poderia ser resumido numa frase determinista: “ou vai, ou racha”. Fica a critério do leitor o sentido filosófico de uma coisa ou outra coisa. É melhor pensar na outra coisa, que não é a primeira coisa. Paciência sempre acaba.
O balanço desta temporada na região (e no País como um todo) é tão alarmante quanto em temporadas anteriores: de cada 10 novos microempreendedores Individuais, seis entram na contabilidade do vermelho de descarte. Fecham as portas, literalmente ou não.
Microempreendedores podem ter pequenos negócios ou eles mesmos são os negócios. Fechar as portas, em muitos casos, é apenas metáfora. Eles são as portas, as janelas e o piso do que colocam no mercado para consumo de produtos e serviços. Geralmente produtos e serviços de baixo valor agregado no sentido monetário de ser. São conhecimentos pessoais postos à venda. Tecnologia, em geral, não é o forte dos microeempreendedores individuais. Mais que isso: muitos dos microempreendedores individuais são disfarces impostos pela empregabilidade reduzida por inúmeros fatores. É capitalismo de sobrevivência. Como os pequenos negócios fora da bitola do microempreendedorismo individual. Trataremos desse universo na edição de amanhã.
SITUAÇÃO GENERALIZADA
Na média nacional e do Estado de São Paulo nada é diferente no empreendedorismo individual. O índice de mortalidade é subestimado como complemento de informação midiática. De maneira geral, a mídia se limita à quantidade de novos empreendedores. Não falta quem comemore com manchetes de primeira página. O outro lado do mundo empresarial de larga margem de sobrevivência é subestimado.
Nem sempre se trata de estrabismo editorial. É mesmo filosofia ou oportunismo editorial. É preciso vender boas notícias, principalmente quando quem as fornece é gente ligada ao Poder Público Municipal ou alinhada ideologicamente ao editor de plantão. Há fartos exemplos em Santo André, da Prefeitura de Santo André, a Prefeitura mais inventiva da região, a transformar números em mágicas programadas para vender ilusão. Os números não combinam com os fatos. Santo André despenca a cada temporada num medidor implacável, entre muitos igualmente rigorosos: o PIB per capita.
Desde o século passado com a revista de papel LivreMercado, o pequeno negócio (e aí há um alargamento de conceito e da realidade, porque as preocupações se dirigiam além do universo restrito de microeempreendedores) sempre foi colocado em situação de vulnerabilidade. Confundiam-se as bolas ao colocar na mesa de debate o número de empreendimentos. Mais empresas (independentemente da avalanche de microempreendedores individuais) não significam mais crescimento. Geralmente é o contrário – é o agravamento de um quadro por força do canibalismo.
MAIS É MENOS
No caso do Grande ABC, por exemplo, empresas comerciais e de serviços ao longo de décadas de desindustrialização proliferaram em todos os cantos, principalmente nas periferias. Chamei o fenômeno de nordestinização, em referência ao que, principalmente o Nordeste, sempre revelou na paisagem urbana. Foi um neologismo adequado ao mundo dos negócios. Nordestinação é um verbete mais relacionado ao campo político. O resumo da ópera é simples: quanto mais se divide um bolo que além de não crescer, recua em termos de PIB, mais se eleva O nível de fracassos. O Grande ABC, de fato, sofreu duplo bullying econômico a partir dos anos 1990: a desindustrialização desempregadora e a chegada de grandes empreendimentos comerciais, casos dos shoppings, aumentaram o nível de competição nas áreas de comércio e serviços.
Até novembro último, o Grande ABC contava com o total de 227.684 microeempreendedores individuais considerados ativos. Esse resultado é líquido ao longo dos anos, acrescido do saldo desta temporada.
Nos onze meses já contabilizados, as sete cidades da região registraram 52.189 novos microempreendedores individuais e descarte de 32.276. Um saldo, portanto, de 19.913. A taxa de letalidade da temporada é de 61,84%. Nesse caso, é preciso considerar que não há informações oficiais sobre a incidência de baixas de microempreendedores aprovados nesta temporada.
Ou seja: a quebra pode envolver empreendimentos individuais criados em temporadas anteriores. Nada que altere a ordem catastrófica dos resultados gerais. Também não há informações que deem conta de que microempreendedores ativos são microempreendedores efetivamente em atividade. Pode haver um buraco negro de atividade formal e inatividade prática, antes portanto do processo de baixa.
SITUAÇÃO NUMÉRICA
Vejam os números de Microempreendedores Individuais nas sete cidades da região:
a) Santo André conta com estoque de 66.763 microempreendedores individuais, dos quais 15.018 registrados até novembro deste ano. No mesmo período houve 9.444 fechamentos. Saldo da temporada de 5.574 empreendedores. Taxa de mortalidade: 62,88%.
b) São Bernardo conta com estoque de 70.120 microempreendedores individuais, dos quais 15.564 foram registrados até novembro deste ano. No mesmo período houve 9.920 fechamentos. Saldo da temporada de 5.644 empreendimentos. Taxa de mortalidade de 63,74%.
c) São Caetano conta com estoque de 16.976 microeempreendedores individuais, dos quais 3.096 foram registrados até novembro último. Neste ano houve 2.271 fechamentos. Saldo da temporada de 825 empreendimentos. Taxa de mortalidade de 73,35%.
d) Diadema conta com estoque de 31.561 microempreendedores individuais, dos quais 7.924 foram registrados neste ano. Também neste ano foram fechados 4.394 empreendimentos. Saldo da temporada de 3.530 empreendimentos. Taxa de mortalidade de 55,45%.
e) Mauá conta com estoque de 30.264 microeempreendedores individuais, dos quais 7.786 foram registrados neste ano. Também neste ano foram fechados 4.501 empreendimentos. Saldo da temporada de 3.285 empreendimentos. Taxa de mortalidade de 57,80%.
f) Ribeirão Pires conta com estoque de 9.254 microeempreendedores individuais, dos quais 2.017 foram registrados neste ano, até novembro. Também neste ano foram fechados 1.311 empreendimentos. Saldo da temporada de 706 empreendimentos. Taxa de mortalidade de 65,00%.
g) Rio Grande da Serra conta com estoque de 2.836 microempreendedores individuais, dos quais 784 foram registrados neste ano, até novembro. Também neste ano foram fechados 435 empreendimentos. Saldo da temporada de 349 negócios. Taxa de mortalidade de 55,48%.
h) Brasil conta com estoque de 14.336.920 microempreendedores individuais, dos quais 3.089.530 milhões foram abertos até novembro deste ano. Também neste ano foram fechados 1.911.145 milhão de microempreendedores. Saldo da temporada de 1.178.385 milhão. Taxa de mortalidade de 61,86%.
i) Estado de São Paulo conta com estoque de 4.136.947 milhões de microempreendedores individuais, dos quais 918.348 foram abertos até novembro deste ano. Também neste ano foram fechados 554.878 microempreendedores individuais. Saldo da temporada de 363.470 empreendimentos. Taxa de mortalidade de 60,42%.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC