Pegue o mapa do Grande ABC e pinte da cor que entender 66,35% do território dos sete municípios. Pintou? Pois é esse o tamanho do saldo da participação relativa da Classe Média Precária restrita ao período de 29 anos de Plano Real. O Grande ABC, como se verá logo em seguida, ficou menos desigual e empobreceu nesse período. Está cada vez mais parecido com o retrato do Brasil. O que é péssimo, como se sabe.
A mobilidade social do Grande ABC foi para o espaço sideral. E a tendência para a próxima década é de piorar ainda mais. Você prefere esse tipo de análise ou gosta mesmo de ser ludibriado pelo noticiário cor-de-rosa?
O avanço da Classe Média Precária é preocupante. Um tamanho descomunal quando comparado aos 37,82% da mesma classe social em 1995, primeiro ano daquele plano econômico. O Grande ABC passou por uma hecatombe social. Perdemos para os resultados brasileiros. A média nacional de participação da Classe Média Precária foi menos agressiva.
Como já explicamos em análises anteriores, mas agora de forma mais específica, a Classe Média Precária é uma denominação deste jornalista para o que comumente chamam de Classe C. Houve quem na euforia dos anos dourados de Lula da Silva nos dois primeiros mandatos chamou esse estrato social de Nova Classe Média. Com a chegada e a saída de Dilma Rousseff da presidência, a derrocada principalmente no Grande ABC foi duríssima.
MAIS PRÓXIMO DA POBREZA
Em resumo, Classe Média Precária é um estrato social logo acima da Classe de Pobres e Miseráveis e bem abaixo da Classe Média Tradicional. A Classe Média Precária, que também poderia ser chamada de Classe Média Vulnerável, está com praticamente os dois pés na Classe de Pobres e Miseráveis e um restinho pouco provável de avanço na Classe Média Tradicional.
O Grande ABC e o Brasil já estiveram bem distantes entre si na participação da Classe Média Vulnerável. Em 1995, 37,85% das famílias do Grande ABC, constavam da lista de Classe Média Precária. No Brasil, a participação relativa era de 53,46%.
O resultado agregado de 29 anos pós-Plano Real é enganoso, mesmo que preocupante. O Grande ABC passou a contar em 2024 com 50,10% de residências de Classe Média Precária. O Brasil como um todo registou 47,79%. Ou seja: a situação da região ficou pior.
29 ANOS ESTRITOS
A contabilidade que aponta o Grande ABC com 66,35% moradias de Classe Média Precária, enquanto a média brasileira registrou 68,16%, leva em conta somente o saldo dos 29 anos. Enquanto o Grande ABC passou a contar com adicional de 432.409 moradias de todas as classes sociais, registrando total sem barreiras temporais de 1.006.397 residências, o Brasil registrou acrescimento de 32.204.203 novas moradias e passou a contar com 63.204.203 residências ocupadas.
Esse saldo exclusivo da diferença entre 1995 e 2024 é que pesa na conta geral. Nesse período, a participação relativa da Classe Média Precária deu um salto de mais de 10 pontos percentuais em relação aos dados de 1995. Nada menos que 286.921 residências passaram a ser ocupadas no total geral de 432.409 durante os 29 anos. Ou participação relativa de 66,35%. No Brasil como um todo, das 32.421.464 novas moradias, a Classe Média Precária ocupou 22.098.194 ou 68,16% do total.
Essa proximidade do saldo de ocupação de residências da Classe Média Precária no Grande ABC frente à média brasileira expõe com clareza o tamanho do choque provocado pelo Plano Real.. A participação relativa do PIB Industrial do Grande ABC em 1997 dava sustentação econômica e social, mesmo já acusando duros golpes de evasão do setor. Vinte e nove anos depois os estragos foram superlativos. Já escrevemos muito sobre isso.
O balanceamento ocupacional de residências no Grande ABC e em qualquer lugar do planeta se dá por conta da Economia. Não existe milagre. Onde falta Desenvolvimento Econômica, escasseia mobilidade social.
PROJEÇÕES ASSUSTADORAS
O que assusta quem não está apenas com os pés da inquietação no presente quando comparado ao passado e também com projeções para além de uma década, porque uma década passa rápido, é até que ponto a Classe Média Precária será ainda mais prevalecente na distribuição do PIB do Consumo no Grande ABC.
Considerando-se a média de perda nos últimos 29 anos, ao fim dos próximos 10 anos a situação seria mais catastrófica. Se houve perda de 28,53 pontos percentuais no período pós-Plano Real (era de 37,82% e passou para 66,35%) a média chega a 0,9838% a cada ano. Basta multiplicar por 10 novas temporadas para a Classe Média Precária representar 76,18% do total da população no que seria um período de 39 anos.
A prioridade de demarcar o empobrecimento do Grande ABC tendo também como base de cálculo a Classe Média Precária levando-se em conta a participação relativa é a melhor métrica para tomar o pulso da situação. O total de residências ocupadas no Grande ABC no período saltou de 573.988 para 1.006.397, ou seja, um crescimento de 75,35% no período.
No caso da Classe Média Precária, ao saltar de 217.090 moradias em 1995 para 504.011 em 2024, o inchaço foi da ordem de 132,17%. O crescimento de 286.921 moradias determinou a incidência líquida de 66,35% no período restrito de 29 anos.
CRESCIMENTO DE VALORES
As famílias de Classe Média Precária do Grande ABC no total de 217.090 unidades contavam em 1995 com PIB de Consumo no valor nominal, sem considerar a inflação, de R$ 2.508.690 bilhões do total geral de R$ 11.386.852, sempre segundo o coquetel de dados da Consultoria IPC do pesquisador Marcos Pazzini. O valor acumulado representava 22,03% de tudo que o Grande ABC reunia de PIB de Consumo em 1995.
Já em 2024, a Classe Média Precária do Grande ABC contava com R$ 40.006.553 bilhões para um total de 128.512.128 bilhões. A participação relativa do PIB da Classe Média Precária no total do PIB de Consumo do Grande ABC em 2024 aumentou para 31,13%. Um crescimento de nove pontos percentuais ante o resultado de 29 anos.
O PIB de Consumo do Grande ABC entre 1995 e 2024, ou seja, em percurso linear do tempo, sem o recorte restrito do saldo de 29 anos, apresentou crescimento nominal de 1.038,60%. Passou de R$ 11.386.852 bilhões para R$ 128.512.128713 bilhões. No mesmo período, o PIB de Consumo do Brasil registrou crescimento nominal de 1.853,35%. Ou seja: o PIB de Consumo do Brasil cresceu 78,44% mais que o do Grande ABC. O empobrecimento regional é incontestável.
Prova dessa superioridade do PIB de Consumo do Brasil sobre o PIB de Consumo do Grande ABC quando se consideram todas as classes sociais – o que também explica porque o jogo da Classe Média Precária está praticamente empatado quando se considera o período restrito do saldo de 29 anos – é que a participação geral da região no Índice de Participação Nacional caiu de 2.90400% de tudo que havia disponível em 1995 para 1,75706%. Nada menos que arredondados 65,27%.
Qual a tradução de tudo isso e diante da perspectiva de a situação se agravar ainda mais na próxima década? Chega-se à fácil conclusão de que seja qual for a cor escolhida pelo leitor para pintar a representação proporcional de ocupação do PIB de Consumo da Classe Média Precária a tomada de novos territórios parece irreversível.
Teremos provavelmente cada vez menos Classe Rica e menos Classe Média Tradicional. Talvez a Classe Média Precária não avance ainda mais no mapa de empobrecimento do Grande ABC caso a Classe Pobre e de Miseráveis perca o fôlego diante de possível esgotamento de programas sociais como o Bolsa Família e semelhantes.
No caso de arrefecimento dessa mobilidade social de baixa qualidade econômica, porque em direção da Classe Média Precária, os dois estratos sociais ganhem mais tração e eleve novos degraus de queda regional.
Não seria exagero sugerir que se observe atentamente o estoque de marcadores de novo declínio social do Grande ABC. As perspectivas econômicas não conduzem a outra sugestão que não seja o agravamento do quadro. O Grande ABC está cada vez mais distante de investidores sobretudo em atividades de valor agregado, que gera renda mais elevada. Insistimos em desprezar dados atualizados.
Vive-se do passado que já não tem a mesma carga de resistência. Prova disso é que o PIB de Consumo pôs-Plano Real atropelou o estoque de riqueza construído antes do Plano Real. Sobra cada vez menos craques de um time que tinha destaque nacional. Os reservas não suportam o ritmo de jogo.
DADOS COMPARADOS
Veja como se comportaram as diferentes classes sociais do Grande ABC em três diferentes períodos:
a) Em 1995, a distribuição social de classes econômicas no Grande ABC apontava 6,9% da Classe Rica, 30,71% da Classe Média Tradicional, 37,82% da Classe Média Precária e 24,57% da Classe de Pobres e Miseráveis.
b) Em 2024, a distribuição social de classes econômicas no Grande ABC apontava 4,05% de participação da Classe Rica, 28,16% da Classe Média Tradicional, 50,10% da Classe Média Precária e 17,70% da Classe de Pobres e Miseráveis.
c) O saldo da distribuição social de classes econômicas no Grande ABC apontava restritamente ao período de 29 anos pós-Plano Real, 0,26% de participação relativa da Classe Rica, 24,79% da Classe Média Tradicional, 66,35% da Classe Média Precária e 8,59% da Classe de Pobres e Miseráveis.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC