O que era meia-verdade envergonhada virou mentira-inteira descarada. O que que é mentira-inteira virou abuso reiterado. O Grande ABC em formato falseado de Pasárgada é uma lastima para quem leva a vida profissional a sério. Se desse uma vasculhadinha no acervo desta publicação, ficaria ainda mais estarrecido. A minuciosidade investigativa superaria largamente a memória cognitiva.
À falta de capacitação empírica para transmitir à sociedade consumidora de informações um mínimo de compromisso social, os agentes públicos, principalmente, mas alguns do campo privado, também, não fazem cerimônia: tascam ilusão noticiosa com o despudor dos sádicos, quando não dos mercantilistas, quando não dos oportunistas.
Vamos aos fatos? Ainda outro dia o Secretário de Desenvolvimento Econômico de São Bernardo, Rafael Demarchi, declarou alto e bom som que o centro logístico que será construído no terreno abandonado pela Ford reunirá empreendimentos que somarão 25 mil novos empregos. Mais que isso: garantiu que nos quatro anos de mandado de Marcelo Lima serão acrescentados 100 mil empregos.
MARKETING POLÍTICO
Ontem foi a vez do prefeito de Santo André, Gilvan Júnior, o mesmo que surrupiou do então prefeito Aidan Ravin o conceito -- e a operacionalização temporária -- do Poupatempo da Saúde. Ele disse em manchetíssima do Diário do Grande ABC que um centro de negócios de alimentação e outros investimentos comerciais nas antigas instalações do Craisa gerarão 32 mil empregos, agora com o adendo de que o acréscimo incorporaria também empregos indiretos.
Tanto numa situação quanto na outra, não há bases sólidas que retirem os empregos anunciados da bitola de uma engrenagem que não passa de marketing político-administrativo com fundo eleitoral permanente.
Menos mal que desta vez o prefeito de Santo André não declarou que o empreendimento vai acrescentar 10% no PIB da cidade no ano seguinte, como o fez o antecessor Paulinho Serra ao anunciar o mesmo negócio em 2019. O atraso no cronograma do empreendimento, segundo o noticiário, se deve a embaralhamentos legais que somente agora teriam sido superados.
AEROPORTOZÃO
Lembro-me de memória que nem o tiro no rosto conseguiu apagar que em 2011 o Diário do Grande ABC anunciou em manchetíssima de primeira página (manchetíssima é a manchete das manchetes) que o prefeito Luiz Marinho iria construir um aeroporto internacional nas áreas de mananciais de São Bernardo. Escrevi muito sobre essa barbaridade econômica, ambiental, empresarial e tudo o mais. Qualquer idiota sacaria que se tratava de uma estupidez.
Sei que sei que ao longo de 35 anos desta publicação não foram poucas as intervenções para recolocar ordem no coreto de triunfalistas sempre em busca de holofotes, quando não de aceitação ou negociação de cargos e vantagens.
Parece haver um concurso público subterrâneo cujos pressupostos à aprovação contempla como critério de valência máxima a imaginação mais criativa possível. Intui-se que não haveria limites. Do outro lado do balcão de assimilação estaria um povo analfabeto social de pai e mãe.
O mais lamentável de tudo isso é que o Grande ABC composto de uma sociedade servil e desorganizada parece ter a vocação estúpida de, diante da realidade duríssima que o abate há muitos anos, deixa-se dominar pelo ambiente de mentiras completas ou não.
MILITANTES EM SILÊNCIO
Tanto que uma minoria barulhenta, formada principalmente por militantes oficiais dos Paços Municipais, sobretudo de Santo André, e regiamente paga, esmera-se em silenciar ou tergiversar quando notícias que não agradam e inapelavelmente surgem com força de documentos sólidos. Como foi o caso, por exemplo, da edição de ontem desta publicação.
Que caso? Ora, enquanto a manchetíssima do Diário do Grande ABC dava conta dos pretensos 32 mil empregos que saltariam das planilhas do empreendimento na Avenida do Estados, o hortifrutigranjeiro que Paulinho Serra deixou de herança para Gilvan Júnior, os dados revelados neste espaço, sobre a queda brutal do PIB de Consumo de Santo André, e também do Grande ABC, caíram como uma bomba. Houve apenas uma coincidência de data entre a realidade exposta pela Consultoria IPC e a especulação manifestada desta vez pelo prefeito Gilvan Júnior.
Para surpresa de ninguém, eis que vejo no dia seguinte, no caso hoje, que, mesmo sabedores do quanto o Grande ABC segue a trilha de novas quedas, os jornais de papel e virtuais fazem de conta que nada disso é relevante. A relevância mesmo é encher a bola furada de políticos carreiristas.
PARADOXO DA PAUTA
Diante de tanto que escrevo seguidamente sobre a Economia do Grande ABC, enquanto a quase totalidade da mídia local faz cara de paisagem, porque escrever sobre a derrocada regional sinalizaria suposta oposição aos atuais mandatários, não preciso repetir neste texto as razões pelas quais os empregos prometidos em São Bernardo e em Santo André não passam mesmo de abuso à cidadania informativa.
A bem da verdade e da justiça, apenas o jornal Repórter Diário se manteve distante do oba-oba do prefeito Gilvan Júnior. A publicação noticiou o investimento na Avenida ados Estados, detalhou o empreendimento, mas descartou o enunciar de milhares de empregos oficialmente divulgados.
Para sorte profissional, o paradoxo incrustrado permanentemente como dogma no noticiário da mídia é minha salvação. Existisse na região o predomínio de jornalismo que não fosse levado no bico a propagar tantas imprecisões, possivelmente redirecionaria na medida do possível a pauta diária a outros assuntos que até poderiam fugir da geografia regional.
Mas como as fontes de informações principalmente dos paços municipais seguem o mesmo manual de orientação de marqueteiros de plantão, não faltam opções temáticas ao destrinchamento.
Tanto é verdade que tenho uma lista enorme de assuntos dos quais não me desvencilho. A enxurrada que chega transborda o reservatório.
SEM CONTESTAÇÃO
Pior do que observo nas mídias em combinação com fontes oficiais das prefeituras é a completa ausência de vozes contestatórias. Chegamos ao fundo do poço mesmo. Há três décadas o inconformismo com o quadro regional levou à formação do Fórum da Cidadania.
Pecados aqui e ali à parte, natural num movimento pioneiro envolvendo lideranças sociais e econômicas da região, o fato é que o Fórum da Cidadania tornou o jogo jogado por terceiros atentamente investigado. Foi graças ao Fórum da Cidadania que Celso Daniel se transformou no que se transformou -- o maior, quando não único, prefeito regional.
E o Grande ABC ganhou dinamismo impressionante nos embates de retóricas contraditórias e por isso mesmo evolutivas como ferramenta de conhecimento geral da situação em que nos encontrávamos. Era difícil mentir e ficar a salvo, quando não ser glorificado por séquitos de abutres.
Sem o que chamaria de sociedade organizada daquela segunda metade dos anos 1990, considerando no caso sociedade organizada uma parcela bastante razoável de participantes daquele movimento, o que temos no Grande ABC desde muitos anos é o caradurismo do reverso.
TERRITORIALISTAS E AÇÃO
Há mesmo um movimento liderado por forças políticas e econômicas de Santo André (como tenho alertado há muito tempo) em plena guerra santa. O objetivo disfarçado mas capturado é dar maior elasticidade aos territórios vizinhos a serem dominados como também a centralizar a agenda para beneficiar os seletivamente escolhidos.
Trata-se de uma turma que se beneficiaria do que chamo de territorialismo em forma de falso regionalismo. Reparem que a patota de territorialistas está a pleno vapor. Há uma combinação pública de interesses privilegiadores que salta nas mídias. Não há como esconder o que se organiza nos bastidores porque poder político implica em publicizar as manobras.
A grandiloquência do secretário Rafael Demarchi e o arroubo de grandeza do prefeito Gilvan Júnior são as portas de entrada da casa do terror da impunidade declaratória em forma de silenciamento programado da mídia controlada. Muito mais vem por ai.
TUDO BLINDADO
Os agentes públicos e privados que se lambuzam na orquestração do territorialismo são cada vez mais conhecidos. Eles estão imunes a críticas. Mais que isso: eles dominam o noticiário cor de rosa. Podem mentir em profusão, podem influenciar investimentos de consumidores incautos. Nada lhes acontecerá.
Quem acredita que uma coisa (a mentira em forma de especulação desassombrada) não tem nada a ver com a outra (o drible da vaca em quem decide transformar poupança e salários em decisões de compra) não viveu a segunda década deste século.
O mercado imobiliário foi tomado por bandidos sociais que exploraram o quanto puderam um espasmo artificial de demanda incentivada e mal-informada, quando não ludibriada. Consequência? Os bancos comerciais viraram imobiliárias diante da avalanche de inadimplentes.
EFEITOS COLATERAIS
O que quero dizer com isso é que um anúncio como o de ontem na Avenida dos Estados, endereço complexo como garantia de contratação de milhares de trabalhadores, pode provocar avaliações precipitadas que culminariam no distanciamento entre recursos empenhados e retornos obtidos. Mas essa é uma questão suplementar e privativa dos investidores. Lá atrás, na mesma Avenida do Estados, o Shopping Global que virou realidade é muito distinto do que foi anunciado freneticamente.
A base da arbitrariedade indutora a falsas expectativas é a ausência de dados sustentáveis às declarações de gente que goza de autoridade social como força de indução. O gigantismo do investimento requereria a pormenorização de dados de modo a retirar o anúncio da plataforma de desconfiança.
E também requereria a exposição do outro lado da moeda do investimento milionário: qual seria o impacto de vizinhança no tecido econômico de Santo André? A contratação de 32 mil funcionários para o complexo comercial e de serviços levaria em conta, também, o aniquilamento de pequenos negócios sob a influência do empreendimento?
Nada disso interessa aos predadores travestidos de salvadores da pátria. Há pesquisas consolidadas que provam os danos provocados por empreendimentos semelhantes, com o fechamento de pequenos estabelecimentos. Nada disso é levado em conta no tratamento midiático. O que interessa é a barulheira eleitoral.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC