Depois de acompanhar atentamente o podcast do Diário do Grande ABC com o dirigente industrial de São Bernardo, Mauro Miaguti, decidi responder a pergunta que ele deixou a todos de forma enigmática, quando não perturbadora a si mesmo: qual será o perfil econômico de São Bernardo dentro de 10 anos. Uma operação que encontre uma cara sonhada que não tem nada a ver com a cara de fato será um blefe.
Ouso dizer, para em seguida explicar, que tanto a cara quanto a alma de São Bernardo continuarão ser a Doença Holandesa Automotiva, mais desbotada internamente e menos significativa externamente. Tradução? O PIB Industrial da Capital Econômica do Grande ABC, que ainda sustenta o restante da economia local, vai confirmar um paradoxo inevitável: seguirá muito importante em termos locais, mas cada vez menos relevante como fonte desenvolvimentista.
De fato e para valer, acho que a pergunta do dirigente do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo, braço civil da Fiesp) nem deveria ter sido feita. Por fazê-la, Miaguti armou uma arapuca.
DOIS PROBLEMAS
Primeiro, porque expôs publicamente a fragilidade estratégica da entidade local. Quem pergunta o que será amanhã não tem ideia do que o que é hoje na plenitude das possibilidades e impossibilidades. Ou se tem ideia não tem convicção da ideia.
Segundo, não é pergunta que se faça porque o setor automotivo é tão asfixiante em São Bernardo, com reflexos em toda a região, que poderia sugerir uma resposta metafísica, quando de fato lidamos com realidades postas e sobrepostas, quando não negligenciadas ao longo de décadas.
Não uso de graça e tampouco apenas para recreação jornalística a expressão “Doença Holandesa Automotiva”. É disso que São Bernardo sofre (com, de novo, rescaldos regionais). O dirigente do Ciesp reconhece isso, sem utilizar a expressão-chave que criei como corruptela da Doença Holandesa original.
Doença Holandesa Automotiva é a dependência excessiva de determinada atividade econômica. A Detroit à Brasileira é o rescaldo da Detroit Brasileira dos bons tempos. Aqui e nos Estados Unidos.
DOMÍNIO ECONÔMICO
Para se ter ideia do Valor de Transformação Industrial de São Bernardo, segundo dados de 2021 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), nada menos que 51,1% vinculam-se diretamente aos veículos automotores, reboques e carrocerias.
Quando se expande essa participação relativa, que também é participação dominativa, a outros setores correlacionados às montadoras e autopeças, a enfermidade é ainda mais pronunciada e exige muito mais cuidados cirúrgicos -- ou paliativos como tem parecido.
O PIB Industrial de São Bernardo depende, suplementarmente, de 9,5% do setor metalúrgico, 6,8% de máquinas e equipamentos, 3,2% de borracha e material de plástico, 1,3% de produtos de metais, entre outros. Pegue a maior parte desses setores, bote num liquidificador de transformações industriais e você encontrará tudo em forma de autopeças e veículos.
PASSADO INEBRIANTE
Mauro Miaguti colocou nos termos mencionados acima (“O que queremos ser dentro de 10 anos”) ao lembrar que São Bernardo já foi a Capital do Móvel e Capital do Automóvel. Esse refrão de autoestima nas nuvens marcou minha chegada ao Grande ABC em 1968.
Quando saltei da carroceria de caminhão de mudança que trouxe a mim e a minha família de Araçatuba, não tinha noção do que me esperava. Meu velho pai é que decidiu pela mudança. Ingressava então, naqueles dias, na segunda ruptura social. Primeiro da pequena Guararapes mudamos para a cidade média de Araçatuba. Agora estava numa metrópole.
Faço esse contexto apenas para dizer ou reafirmar, quando não desabafar, que mesmo não tendo nascido por estas bandas (embora carregue o título de Cidadão Honorário de Santo André e a Medalha João Ramalho de São Bernardo) sou apaixonado pelas sete cidades, mas não sou idiota para ignorar as iniquidades que aqui desfilam impunemente.
É MELHOR REZAR
Voltemos ao que interessa: 10 anos pode parecer uma eternidade para muita coisa (o que de fato não o é; basta pensar o quanto o tempo passa na catinga da fumaça) e no caso específico de eventual nova vocação de São Bernardo, o melhor é tirar o cavalo da chuva do enferrujamento da Detroit à Brasileira.
Por conta disso, acho que o melhor mesmo é rezar. O quadro local, regional, nacional e internacional é francamente desfavorável ao carro-chefe da economia do Grande ABC. Na melhor das hipóteses, se o setor automotivo bombar no Brasil, não encontrará ressonância equivalente em São Bernardo e na região. Isso se tem repetido há muito tempo. Já perdemos para a concorrência.
O que fazer então diante do que alguns podem rotular de fatalismo ou derrotismo deste jornalista, por mais que tenha cantado a bola do Desenvolvimento Econômico do Grande ABC nos últimos 35 anos desta publicação?
O melhor a fazer é colocar o corpo desgovernado da Economia do Grande ABC sob cuidados de especialistas com visão de competitividade internacional. Já cansei de escrever sobre isso. Essa força-tarefa não se limitaria ao campo técnico propriamente dito. É indispensável juntar peças de estrategistas, de complementaridades. Fora isso é observar o vasto terreno adiante com os olhos tapados pelo provincianismo resolutivo.
Revelou ainda o dirigente do Centro das Indústrias que o prefeito Marcelo Lima e o secretário Rafael Demarchi já se definiram por encontros trimestrais ou algo parecido para debater o futuro de São Bernardo com representantes industriais.
Não se tem notícia de que as montadoras e as autopeças mais expressivas vão participar, ou mesmo que isso venha a se consumar. Não se deve esperar um cavalo de pau que redirecione o futuro industrial de São Bernardo a um destino senão de quem colide com um muro. Como, aliás, tem colidido há muito tempo.
FATORES INTERNOS
Não quero ser repetitivo, mas para que não digam que estou aqui sem oferecer cardápio mesmo que sucinto de complicações para que se encontre algo no futuro que compense a gradativa evasão industrial de São Bernardo (e da região), faço uma primeira lista de alguns obstáculos locais:
1. Ambiente de criminalidade que afasta investimentos diante da quantidade até extravagante de ofertas muito melhores em regiões de qualidade de vida muito superior.
2. Inferno da mobilidade urbana, que transforma cada corredor viário em exercício de paciência e desperdício de recursos humanos e materiais.
3. Desbaratamento quase que total das cadeias de produção, transformando o setor automotivo na salvação da uma lavoura cada vez mais incendiada pela concorrência estadual e interestadual.
4. Médias salariais e conquistas trabalhistas ainda muito acima da concorrência.
5. Cultura de guerra de guerrilhas do sindicalismo, embora minimizada mas longe de ser compreendida por investidores ressabiados.
6. Logística abalroada pelo Rodoanel Mario Covas, especialmente os trechos Oeste e Sudeste, com perspectiva de novos tropeços com a chegada do trecho Norte, de Guarulhos do Aeroporto Internacional e vizinhança.
FATORES EXTERNOS
Agora, para completar o estrago de montagem de perspectivas descoladas da realidade, fruto do passado de imprevidências, eis alguns fatores externos que turvam a perspectiva de São Bernardo tanto manter o tônus industrial quanto buscar ao menos uma alternativa de valor agregado que possa fazer a diferença:
1. Ambiente internacional de grandes transformações veiculares, com o setor automotivo ganhando espaço quase autofágico de eletrificação, inovação liderada por chineses que deitam e rolam.
2. Descompromisso do governo federal de enxergar o Grande ABC como depositário de confiança a investimentos inovadores e transformadores diante da constatação de que forças politicas muito mais poderosas estão na disputa. A fábrica da BYD na Bahia, entre tantas outras, é exemplo disso. O ex-sindicalista Lula da Silva não faz cerimônia em oferecer aos chineses na Bahia o que no passado Juscelino Kubitschek entregou ao Grande ABC com o desbravador polo automotivo.
3. Estrangulamento orçamentário do governo federal por conta de crescimento das demandas sociais. O Estado brasileiro não tem capacidade de sustentar politicas de apoio a grandes inversões de recursos a companhias privadas que supostamente teriam interesse em se associarem à execução de plano de Distritalização de determinada atividade econômica.
4. Descentralização dos polos automotivos que se consolida como a melhor politica em busca de produtividade e competitividade, principalmente com unidades de porte médio. A Volkswagen de 40 mil trabalhadores ficou no passado, como bem lembrou Mauro Miaguti – por mais que abrandasse a situação de decadência de São Bernardo.
5. Macropolitica nacional incapaz de dar sustentação a planos revolucionários. O descontrole das contas públicas, que geram passivos fiscais que alimentam a fornalha de juros altos, é uma armadilha que não conhece desarme e, mais que isso, introduz nas engrenagens de investimentos uma trava insana. O suposto desafio à libertação não passa mesmo da obviedade de enxugamento do Estado gastador e incompetente.
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