É uma briga de foice no escuro de argumentos e contra-argumentos de incompetências envolvendo o PSDB e o PT nos últimos 30 anos tendo como palco do espetáculo as repercussões econômicas no Grande ABC. Essa é uma constatação estritamente relacionada às duas agremiações no território regional, sem qualquer juízo de valor nas esferas estadual e federal. Não que não tenha já feito muito juízo de valor sobre a atuação estadual e federal, mas não o farei agora para não contaminar o ambiente doméstico.
O Grande ABC é que é, portanto, o foco exclusivo dessa disputa. Uma disputa que tem o mesmo Grande ABC como perdedor inequívoco. Tanto inequívoco quanto incompetente para reagir. Mas não tire conclusões precipitadas.
Não coloque as institucionalidades do Grande ABC (ou seja, o conjunto de organizações políticas, econômicas e sociais) como cordeirinhos levados a matadouros. A história real é outra coisa.
MUITO A DESEJAR
Como gosto de me desafiar, pego esse confronto pelo chifre da responsabilidade social e vou tentar destrinchar a questão. Não vai sobrar pedra sobre pedra. Petistas e tucanos deixaram mesmo muito a desejar nas últimas três décadas, período em que dominaram a política nacional de esquerda e centro-esquerda. A direita e a centro-direita jamais existiram para valer. Só acordaram pós-Bolsonaro.
Mas a bem da verdade e do bom-senso, quando não da justiça interpretativa, nem o governo federal nem o governo estadual têm em conjunto mais culpa no cartório de notas frias do que o Grande ABC repartido e dividido em meados do século passado.
SEPARATISMO CUSTOSO
Os separatistas de olhos nos próprios umbigos mal imaginaram que deixaram de legado um território arrasado naquilo que poderia ser chamado de principal dote: a integralidade e a sistemicidade de políticas públicas para enfrentar a competitividade além-fronteiras.
Somos uma regionalidade tão fajuta que não adianta tentar jogar a responsabilidade integralmente nas costas de tucanos e petistas graduados como gestores públicos federais (no caso do PT) e gestores públicos federais e estadual (no caso dos tucanos).
Como as chamadas forças político-partidárias do Grande ABC não passam de catados sem qualquer noção de coletivismo para valer, exceto quando distribuem vantagens mútuas a grupos de controle regional, o que tivemos nesse período foi uma barafunda mesmo. Não à toa que, contando somente este século, nosso PIB Tradicional corre à velocidade 77% inferior ao PIB Nacional que, todos sabem, é um PIB decepcionante.
REPETIÇÃO PEDAGÓGICA
Vou repetir à exaustão esse número, entre outros, porque somente assim é possível que se desperte o instinto de sobrevivência, já que a cidadania foi para o ralo dos absolutistas que comandam a política local.
Nossa Economia naufragou principalmente porque não tivemos capacidade organizacional e tampouco prática de entender que estávamos e continuamos em crise e que, portanto, a empáfia furada de quarto polo de consumo do País não passa de lorota de irresponsáveis para boi de alienação dormir. O conceito geoeconômico que valeria para o Grande ABC vale para dezenas de conglomerados urbanos brasileiros cada vez mais poderosos em relação à região.
Grande Campinas, Grande Sorocaba, Grande Vale do Paraíba, Grande Osasco, Grande Guarulhos, Grande Porto Alegre, Grandes Belo Horizonte, Grande Salvador. Não faltam concorrentes avalizados por conceitos territoriais além-fronteiras municipais próximas. Fomos ultrapassados. Comemos poeira, mas arrotamos arrogância.
Mas vamos ao que realmente interessa nessa altura desse campeonato que consiste em distribuir ônus de percalços do Grande ABC também ao governo do Estado e ao governo federal – sem que isso sirva de desculpa esfarrapada aos omissos ou incompetentes locais.
NACIONAL E ESTADUAL
Me impus ontem à tarde, num dos momentos em que a cabeça voa inesperadamente para fora da casinha da rotina, uma ordem a ser cumprida. Que ordem? Os tucanos no Estado de São Paulo e durante oito anos de Fernando Henrique Cardoso na presidência da República foram mais nocivos ou menos nocivos que os petistas em Brasília quando se trata de avaliar a situação econômica do Grande ABC?
Não custa lembrar que os petistas jamais governaram o Estado mais rico da Federação. Há certa incompatibilidade de gênero eleitoral, fruto ideológico, entre paulistas e petistas. Não sem razão. O espirito empreendedor dos paulistas não cabe no compartimento socialista do PT.
Há um lance na jogada que precisa ser atentamente observado. Não estou me referindo diretamente aos tucanos e aos petistas locais, nas administrações municipais, já que se revezaram ao longo dos anos, diretamente no caso do PT e com aliados à direita e ao centro do caso dos tucanos.
Traduzindo a equação: foi o comando petista fora das fronteiras da região ou foi o comando tucano também fora das fronteiras da região que mais influiu no desempenho regional nas três últimas décadas? Exatamente a partir da eleição de FHC em Brasília e de Mario Covas em São Paulo.
QUESTÕES ESTADUAIS
Inteiramente de improviso, sem qualquer anotação prévia, ou seja, em forma de autodesafio de testar a memória, vou colocar adiante os pontos mais negativos de cada agremiação, obedecendo-se, claro, o conceito exposto acima.
Por conta disso, veja quais foram os maiores buracos na gestão dos tucanos federais e dos tucanos estaduais no território regional:
1. Descaso completo em estabelecer prioridade à formação de uma região metropolitana do sudeste da Grande São Paulo, com participação efetiva do governo do Estado.
2. Passividade durante muitos anos ao enfrentamento da guerra fiscal. Faltou estabelecer medidas preventivas ou atuar nesse sentido para conter a debandada fraticida do Grande ABC e da Região Metropolitana de São Paulo.
3. Construção do trecho sul do Rodoanel com a adoção de restrições ambientais discricionárias que eliminaram qualquer possibilidade de proteger os interesses do Grande ABC. Com isso, transformou-se o território local em ambiente efervescente à debandada empresarial, principalmente na direção da Grande Oeste, de Osasco, Barueri e outros municípios.
4. Formação de um Conselho Metropolitano de Economia integrado por especialistas em competitividade. O grupamento trataria os 39 municípios de forma interdependente, definindo iniciativas e estratégias de acordo com as respectivas vocações ou potencialidades econômicas num processo de complementariedade competitiva.
5. Envolver-se na construção de um banco de dados que, a exemplo do que se reivindica na área de Segurança Pública, abriria as portas a um conjunto de informações sistematizadas que permitiria, com o suporte de Inteligência Artificial, reproduzir em telas a realidade econômica dos 39 municipais da Grande São Paulo, distribuídas nas respectivas áreas geográficas.
6. O ambiente criminal foi incentivado à degradação, mais tarde em refluxo, a partir do governo de Mario Covas num período interrompido com o assassinato de Celso Daniel. Explico: os indicadores criminais, ou mais precisamente o índice de homicídios, que é o mais relevante, dispararam durante a gestão de Mario Covas e a política de Direitos Humano (isso não é juízo de valor, é estatística). A partir da morte de Celso Daniel e do significado emblemático dos estragos midiáticos, mudou-se o comando da Secretaria de Segurança Pública e a metodologia aplicada. Aí veio o crime organizado como resultado de acordos de convivência menos letal, mas, como se sabe, de custo elevadíssimo em outros delitos.
QUESTÕE FEDERAIS
Agora, vamos aos pecados dos petistas no governo federal:
1. Criação da Universidade Federal do Grande ABC sem levar em conta a vocação industrial da região, terrivelmente abalada nos últimos 30 anos. Preferiu-se adotar um modelo típico de passarela internacional, com seus valores, mas distante das reais demandas econômicas dos sete municípios.
2. Desinteresse completo em adotar medidas compensatórias a duas catástrofes que abalaram o tecido econômico regional nos últimos 40 anos: a composição de uma força-tarefa que priorizasse o custo provocado pelo aprofundamento da Doença Holandesa Automotiva e uma representação regional tecnicamente distante de grupos políticos que atuasse no sentido de evitar que as cadeias produtivas fossem dizimadas nos rescaldos do ambiente de beligerância entre capital e trabalho.
3. Incorporar aos organismos regionais, principalmente ao Clube dos Prefeitos, um representante com a missão legal de atuar como interlocutor permanente das demandas locais junto ao governo federal. A iniciativa que ficaria a cargo de um técnico com amplo conhecimento da máquina pública federal, especialmente no Ministério de Economia, possibilitaria série de avaliações de políticas públicas que supostamente estariam no espectro de ações federais já deliberadas ou em estudos.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC