Economia

DOS DESTROÇOS DE DILMA
AO TARIFAÇO DE TRUMP

DANIEL LIMA - 22/07/2025

Os metalúrgicos de São Bernardo despertaram de um sono profundo. Deram-se conta, segundo estudos do Dieese, de que o tarifaço prometido pelo governo Donald Trump vai ganhar forma de vendaval que atingiria em cheio a Economia da região. Só esqueceram que nada é comparável ao furacão de Dilma Rousseff, silenciosamente acompanhado pelos representantes do setor.

A manifestação dos metalúrgicos ganhou a manchetíssima do Diário do Grande ABC de hoje. Manchetíssima é manchete das manchetes de primeira página. O neologismo “manchetíssima” é deste jornalista. Desde três de setembro de 2013, e já com 465 registros, decidi qualificar o espaço mais nobre de um jornal. A matéria não faz qualquer referência ao passado de acovardamento, quando não de cumplicidade, daquela representação dos trabalhadores. Nenhuma novidade, como se sabe.

Versão unilateral não é propriedade exclusiva da maioria dos jornais. Aliás, os sindicalistas dominam essa prática desde sempre.  

CONTAS FEITAS

Vamos ao que mais interessa: o Diário do Grande ABC publicou que a região obteve superavit comercial de US$ 150 milhões (R$ 828 milhões na cotação de ontem) nas transações com os Estados Unidos em 2024. Foram exportados US$ 750 milhões (R$ 4,14 bilhões) e importados US$ 600 milhões (R$ 3,31 bilhões) no período. O total enviado ao país norte-americano representa 13,4% dos US$ 5 bilhões (R$ 27,6 bilhões) que a região destinou para todo o planeta no ano passado. Quase nada, portanto. Quase nada para os outros, claro.

Esses dados – ainda segundo o jornal – dão a dimensão de como a região pode ser afetada caso se confirme a sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros a partir de 1º de agosto, conforme foi anunciado por Donald Trump.

Ainda segundo o Diário do Grande ABC, com base nos dados divulgados pelo Dieese, do total enviado pela região aos Estados Unidos, US$ 600 milhões (R$ 3,31 bilhões), ou 78%, estão ligados à indústria metalúrgica.

REAÇÃO SINDICAL

Sigo adiante com a reportagem do Diário do Grande ABC para, em seguida, dar vazão à lógica da manchetíssima de CapitalSocial, que versa fatos consumados em contraposição a potenciais projeções. Veja o parágrafo seguinte da reportagem:

“Estamos diante de uma ofensiva externa que ameaça diretamente a nossa indústria, os empregos do nosso povo e a soberania nacional. A guerra comercial iniciada pelo governo Trump não pode ser enfrentada com omissão. O Grande ABC, berço da luta operária e da produção de alto valor agregado, está na linha de frente desses impactos. É inadmissível que medidas unilaterais tomadas lá fora ditem o futuro de nosso desenvolvimento”, alerta o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São  Bernardo, Moisés Selerges.

Na sequência, o Diário do Grande ABC, sempre seguindo o boletim emitido pelo Dieese, discrimina os valores envolvidos com subjacentes impactos que poderiam advir do tarifaço norte-americano.

O posicionamento dos metalúrgicos é mais que providencial e justo, na medida em que a liberdade de expressão deve e precisa ser respeitada. Feita essa observação, convém examinar detalhadamente o comportamento dos herdeiros de Lula da Silva na entidade que para o bem e para o mal ajudou a transformar a geoeconomia do Grande ABC ao longo de pelo menos três décadas. Eram outro tempos, como se sabe.

CAPITALISMO PREDADOR

Não há possibilidade alguma dos metalúrgicos cutistas fugirem de uma confissão subliminar: eles atuam dentro das quatro linhas de um alinhamento político-ideológico. E que têm muito a explicar. Afinal, ainda outro dia estavam bajulando os chineses que maltratam os trabalhadores da indústria de transformação. A mão de obra chinesa é espécie de tarifaço no custo de produção que vulnerabiliza o mercado de trabalho mundial.

O capitalismo de Estado chinês, controlado pelo Partido Comunista, não é outra coisa senão Estado de capitalismo predatório. À parte todos os avanços tecnológicos de um País determinadíssimo a bagunçar o coreto  macroeconômico Ocidental.

Uma comitiva dos metalúrgicos de São Bernardo esteve na China e voltou eufórica com a possibilidade de contar com investimentos asiáticos na região. Uma cegueira sem limites. Basta ver, como exemplo irrefutável, que a BYD, maior montadora chinesa, está-se instalando na Bahia, na antiga planta da Ford, e de lá vai disseminar o vírus da competitividade desleal no mercado automotivo.

MONTADORAS AMEAÇADAS

Tanto é verdade estruturada em inúmeras planilhas que a Anfavea, o Clube das Montadoras de Veículos, vive em estado de tensão. Somente as autoridades públicas da região não se dão conta dessa ameaça. Mas isso é outra história.

O que pergunto com a singeleza de um idiota juramentado é o seguinte: qual é a posição oficial do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo quanto à invasão chinesa que já se faz realidade no País, com importações em massa e que já tomou quase 10% das vendas de veículos de passeio?

Será que os chineses, convidados a estacionarem seu modelo desleal,  manteriam os chamadas conquistas históricas dos metalúrgicos e de outros trabalhadores da indústria regional?

Essa observação poderia soar como fuga do assunto principal, mas, como se verá, é apenas uma camada de agravamento às incoerências de lideranças sindicais. Vamos seguir com o que consta da manchetíssima desta análise: os destroços de Dilma Rousseff. 

ESTRAGO  MONUMENTAL

Como já cansamos de analisar (enquanto as demais mídias da região simplesmente se calaram), os dois últimos anos do governo de Dilma Rousseff, entre 2015 e 2016, representam o período mais nefasto da Economia do Grande ABC. O PIB da região foi mesmo destroçado. Qual foi a reação dos sindicalistas em defesa da competitividade econômica do Grande ABC? Não mais que um prolongado silêncio que rompe o tempo e segue ativo. Parece um tema proibido. É mais fácil, como se observa, e juízo de valor à parte, espernear contra eventuais arroubos norte-americanos do que enfrentar os próprios fantasmas.

O uso da linguagem do dirigente dos Metalúrgicos é autodenunciador do proselitismo mais que conhecido do sindicalismo velho de guerra.

Para completar (e deixamos para o desfecho a cereja de argumentação e dados devastadores)  vamos aos estragos de Dilma Rousseff durante 24 meses finais de um mandato desastroso para todo o País – diferentemente, portanto, dos quatro anos do segundo mandato de Lula da Silva,   gastança desordenada à parte.

OLHA A CATÁSTROFE!

Sabem os leitores quanto o Grande ABC perdeu de PIB (Produto Interno Bruto) entre janeiro de 2015 e dezembro de 2016? Nada menos que R$ 40.222.031 bilhões,  valor atualizado a dezembro do ano passado. O que significam esses R$ 40 bilhões? Nada menos que 24,14% do PIB projetado para o mesmo 2024.

Vou explicar, com base em dados já consumados. Entre 2015 e 2016, tendo como plataforma de comparação 2014, o PIB do Grande ABC, em valores nominais, sem considerar a inflação, passou de R$ 118.248.125 bilhões para R$ 112.048.654 bilhões. Ou seja: houve retrocesso, perda, prejuízo. Caso seguisse a inflação do período, de 17,63%, o PIB de 2016 do Grande ABC deveria alcançar R$ 139.095.269 bilhões. Ou seja: consumou-se perda real de R$ 27.046.615 bilhões – ou 24,39%.

Faço o contraponto às projetadas perdas da região por conta do tarifaço norte-americano também com uma projeção, agora chegando ao ano de 2024, conhecido como ano passado.

R$ CONTA SALGADÍSSIMA

Ao meter a inflação do IPCA na jogada, os R$ 118.348.125 nominais do PIB de 2014 viram R$ 206.815.970 bilhões. E ao meter o IPCA nos valores consumados de 2016, de R$ 112.048.654 bilhões, chega-se ao valor de R$ 166.593.939. Quando se faz a conta, a diferença chega ao valor de R$ 40.222.031 .

Estudos econométricos nada fáceis poderiam decifrar a quantidade de PIB que seria descartado no Grande ABC com a reação de Donald Trump ao ambiente político e econômico nacional.

Sabe-se que os dados de importação e exportação e os respectivo saldos não devem ser automaticamente traduzidos em PIB. Mas, entretanto, porém e todavia,  não há nada que possa sequer ser objeto de restrição na comparação que faço nesta análise. A destruição de um quarto do PIB regional em duas temporadas seguidas jamais teria o tarifaço como concorrente em forma de impactos  econômicos e sociais.

Não custa lembrar que naqueles dois anos de terror de Dilma Rousseff, os mesmos dois anos que o PT  descarta em qualquer análise sobre o desempenho à frente da República neste século, foram destruídos quase 100 mil empregos formais, com carteira assinada, mais da metade dos quais do setor industrial.

Nem Fernando Henrique Cardoso registrou hecatombe semelhante durante os oito anos de dois mandatos. E o PIB per capita da Capital Econômica do Grande ABC, a São Bernardo dos metalúrgicos corporativamente combativos desde que o governo de plantão não seja extensão  ideológica já conhecida? Perdeu um terço do valor real.



Leia mais matérias desta seção: Economia

Total de 1995 matérias | Página 1

04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC
03/02/2026 LULA ZERA ESTRAGO DE DILMA APÓS NOVE ANOS
29/01/2026 NÃO RIAM: COLÔMBIA É A GRANDE SAÍDA REGIONAL
22/01/2026 METRÔ PODE REPETIR DANOS DO RODOANEL
19/01/2026 UM SINDICALISTA COM A CABEÇA NO PASSADO
15/01/2026 IPTU AVANÇA SOBRE FORTE QUEDA DO ICMS
13/01/2026 IPTU EXAGERADO INIBE ECONOMIA REGIONAL
12/01/2026 GALPÃO E PÁTIO NÃO MUDAM GRANDE ABC
05/01/2026 LULACÁ-LULALÁ NO RITMO DE FRACASSOS
22/12/2025 PIB CATASTRÓFICO DE SANTO ANDRÉ
19/12/2025 ATENÇÃO! PIB SEGUE DERROCADA DE DILMA
15/12/2025 SÃO CAETANO TEM MAIS DO MENOS
10/12/2025 QUANDO MAIS É CADA VEZ MENOS
02/12/2025 SÃO BERNARDO AINDA DEVE 92.372 VAGAS
27/11/2025 SANTO ANDRÉ TIRA PELE DOS MORADORES
26/11/2025 CARGA TRIBUTÁRIA EXPLOSIVA E CRUEL
24/11/2025 DIADEMA É MESMO PIOR QUE SANTO ANDRÉ? (5)
20/11/2025 GRANDE CAMPINAS GOLEIA GRANDE ABC
19/11/2025 FICAREMOS SEM AS MONTADORAS?