O esvaziamento econômico do Grande ABC ao longo dos anos, período acompanhado com máxima atenção analítica por este jornalista, está cada vez mais sacramentado, carimbado e documentado no PIB de Consumo, especialidade da Consultoria IPC do pesquisador Marcos Pazzini.
Nesta temporada de 2025, o estoque acumulado de riqueza para consumo do G-15, o grupo formado pelos maiores municípios do Estado de São Paulo, fora a Capital, está 4.31% acima do Grande ABC, que forma o G-7. Há 30 anos, em 1995, o Grande ABC era superior em 5,74%. O PIB Tradicional, que é outra coisa, apresenta situação muito mais grave.
Essa conta leva em conta exclusivamente o PIB de Consumo per capita, métrica que torna iguais territórios demograficamente diferentes. Nesse caso, o Grande ABC reúne população de 2.790.633 habitantes, enquanto o G-15 contabiliza 8.905618 habitantes. Considerando-se o PIB de Consumo sem a devida observação do critério per capita, fixando-se exclusivamente no volume, o Grande ABC deste 2025 conta com 136.284.831.908 bilhões para consumir, enquanto o G-15 atingirá 454.5t01.364546 bilhões.
VIRANDO O JOGO
A participação do Grande ABC no PIB de Consumo Nacional em 2025 é de 1,67196%, enquanto o G-15 registra 5.58074%. Vê-se, portanto, que não seria adequada a utilização desses dados. É como deixar de levar em conta a inflação de determinado período quando se pretende mostrar o comportamento da região em qualquer quesito econômico.
Há 323 textos no acervo desta revista digital voltados ao G-22. Criamos esse grupamento exatamente para, entre outras razões, sair do casulo impreciso, quando não matreiro, de aferir o desempenho econômico e social do Grande ABC aprisionado à organicidade puramente local, ou seja, sem olhar aos concorrentes em diversas geoeconomias, principalmente do Estado.
O primeiro texto que trata do G-22 foi publicado em 4 de maio de 2015. Portanto, há mais de 10 anos. Se fosse aferida a origem dessa proposta, inicialmente no formato de G-20, sem Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, a primeira edição foi publicada em 20 de fevereiro de 2012.
O QUE É G-22?
Quer uma prova provada de que esse tipo de conceituação de competividade regional é uma joia preciosa desta publicação e uma comprovação do analfabetismo de secretários de Desenvolvimento Econômico dos sete municípios da região, incluindo na lista também o Clube dos Prefeitos? Pergunte a qualquer um deles sobre o G-22. Sem essa abordagem seletivamente ampla do cenário econômico do Estado de São Paulo, é impossível pretender entender o que se passa no Grande ABC.
Esses dois blocos formam o que denominamos de G-22, o grupo dos 20 maiores municípios do Estado, como já disse. Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra constam da lista do G-22, mas não são levados individualmente em conta porque não têm representatividade econômica. Estão de carona. Mas precisam ser listados porque, afinal, formam o Grande ABC inteiro, embora não representem 3% do PIB Tradicional e do PIB de Consumo.
Há inúmeros endereços municipais no Estado de São Paulo que poderiam constar de uma relação com finalidade específica, sobretudo do Clube dos Prefeitos. Uma espécie de expedição de especialistas em competitividade econômica poderia devassar todos os predicados individuais dos 15 municípios que completam o G-22 e extrair o máximo de informações sobre tudo que se refira aos motivos que os levaram a, na maioria dos casos, alçar novos voos na geração de riqueza.
METROPOLIZAÇÃO AJUDA
A situação do Grande ABC poderia ser ainda pior do que já se apresenta, com tendência de a diferença entre os dois blocos se acentuar nos próximos anos, repetindo os anos anteriores, num processo de tração. Bastaria que não houvesse a proximidade com a Capital. Como assim?
A metodologia que define o PIB de Consumo, também conhecido como Índice de Potencial de Consumo, interfere diretamente no abrandamento das perdas industriais que impactaram o Grande ABC desde a chegada dos anos 1990, principalmente.
Já expliquei a diferença entre PIB de Consumo e PIB Tradicional várias vezes, mas toda vez que me lanço a novas análises é preciso repetir. O PIB de Consumo representa a geração de riqueza em forma de salários, principalmente, independentemente do local de ocupação dos moradores. Já o PIB Tradicional capta a produção de riquezas em produtos e serviços nas respectivas sedes dos negócios.
CIDADANIA FRAGILIZADA
A proximidade com a Capital leva milhares de moradores do Grande ABC ao desgaste diário de atuarem profissionalmente na vizinha poderosa, à falta de oportunidades nas sete cidades. Temos, portanto, nesse ponto, um aliado especial. Independentemente do quanto representam os custos vivenciais, por assim dizer, de deslocamentos diários.
Faltam números oficiais sobre esse universo de desertores involuntários da região. Com base em estudos que já completaram 10 anos, 30% da População Economicamente Ativa deslocam-se diariamente rumo à Capital. Esses números atualizados provavelmente seriam ainda mais robustos.
No fundo, por conta disso, o que temos é uma enorme população pouco afeita à cidadania municipal e regional, exposta a um regime de trabalho de intenso desgaste.
Como se observa, a regressividade ocupacional de trabalhadores do Grande ABC no Grande ABC causa mais estragos do que poderia sintetizar a Economia restrita. É uma questão sociológica porque ultrapassa a linha de fundo de assalariamento. Imagine os leitores o grau de exaustão física, emocional e mental de grande contingente de moradores de segunda a sexta-feira no balanço incomodo de transporte coletivo, de motos e também em veículos próprios.
É por isso que tenho alertado aqui sobre a euforia em torno do metrô de verdade que um dia vai chegar mesmo que tangencialmente à região: quantos trabalhadores e também consumidores vão se deslocar à Capital? Vamos perder ainda mais a identidade municipal e muito mais do quase nada do que resta de identidade regional destes tempos.
A metropolização do Grande ABC vai se constituir em nova encruzilhada à cidadania já escassa, quando não estrangulada, quando não manipulada, quando não negligenciada.
E VAI PIORAR
Como se percebe, não existe fantasia nem perseguição muito menos discriminação e menos ainda estupidez quando, em várias análises que já elaborei sobre a chegada sempre esticada do metrô na região. O alerta é essencial. Assim como ocorreu com a chegada também tangencial e restritiva do Rodoanel, vamos marcar mais derrotas internas. Vamos virar um apêndice da Capital de forma ainda mais expressiva.
É nesse ponto que cheguei ao ponto que pretendia chegar. O que temos pela frente nos próximos anos e mesmo décadas é um cenário ainda mais desolador do que vivemos até agora neste século. Além de o cerco do Rodoanel se fechar literalmente, com a entrega em breve do trecho Norte, que deixará Guarulhos e vizinhança na cara do gol, encontraremos dados estatísticas que constatarão o avanço sequencial e incontrolável da industrialização no Interior do Estado, especialmente nas regiões lideradas por Campinas, Sorocaba e São José dos Campos, três dos municípios do G-15 dentro do G-22.
As próximas gerações – anotem e me cobrem dentro de 30 anos – vão participar de um turbilhão metropolitano em que a identidade municipal e a identidade regional vão virar pó. Mais pó do que já viraram neste século. Principalmente porque inexiste qualquer preocupação de lideranças políticas, sociais e econômicas em organizarem algo diferente do que já temos.
E o que temos é dispersão, desencanto, despreparo e alienação. Um terreno fértil aos espertalhões que trocam regionalismo por territorialismo. Tudo muito mal representado, em espelho fiel, pelo Clube dos Prefeitos Pedintes e Espetaculosos.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC