Já que criei, sem a inventividade que jamais avoquei, as expressões “Empregômetro” e “Desempregômetro”, que medem a temperatura do emprego formal no Grande ABC, acho que poderia criar também “Empreendedômetro” e “Desempreendedômetro” para definir o placar de fechamento de empresas de pequeno porte, individuais ou não.
Pretendia utilizar as duas palavras na manchetíssima de hoje, mas há limitações gráficas que me impuseram flexibilidade. Fui obrigado por força da ditadura editorial a mudar de ideia na manchetísima, mas não no conteúdo.
Tudo isso que o leitor acompanha em forma do que chamaria de resumo da ópera de métricas mais que surradas deriva, claro, do “impostômetro”, criado pela Associação Comercial de São Paulo. O Empregômetro e o Desempregômetro que adotei no mercado de trabalho surgiram por força do estonteante anúncio de que São Bernardo geraria 100 mil empregos formais nos quatro anos do prefeito Marcelo Lima. O secretário Rafael Demarchi é um maitre econômico de baixa competência técnica. O balanço mensal será reiteradamente analisado. Está para sair o resumo de junho. Vai ser mais uma derrota do triunfalismo.
FALTA DE SENSIBILIDADE
Quando a gente copia alguma coisa a gente não tem vergonha de dizer, até porque não é vergonha alguma praticar adaptações. Duro mesmo é político que, como Paulinho Serra, tomou na mão grande vários projetos e nem disfarçou o uso, avocando autoria. Casos do Poupatempo da Saúde, por exemplo, ou da Moeda Verde, entre outros. Mas Paulinho Serra, com a subserviência da maior parcela da mídia regional, pode tudo.
Li na edição de ontem do Repórter Diário (tenho dúvida se qualifico a publicação como jornal de papel ou jornal digital, embora me pareça que seja híbrido, com predominância digital) uma reportagem que dá conta da letalidade do empreendedorismo de Microempresas Individuais e Microempresas no Grande ABC.
A publicação se refere à mais recente divulgação do Ministério do Empreendedorismo, Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte. O titulo da matéria é autoexplicativo, embora desastroso: “Maioria das novas empresas da região é MEI, mas falha na gestão mata metade”.
A definição do título como uma sentença implacável à razão principal que levaria os microempreendedores individuais e pequenos negócios a sucumbirem, no caso com o complemento “mas falha de gestão mata metade”, me parece bastante cruel.
PROVA DO ERRO
Ao ler a matéria me dei conta do influenciador à escolha do título que, todos sabem, é um caminhão de melancia à compreensão (ou mistificação) do que vem em forma de informação, de reportagem.
Quando afirmo que parece cruel estabelecer esse juízo de valor como principal causa-mortis dos pequenos negócios, individuais ou não, quero dizer mais que isso, mas não centralizo responsabilidade no autor da matéria e tampouco no editor.
O que quero dizer -- e há prova disso no próprio texto -- é que o viés equivocado de responsabilização caberia ao empreendedor fracassado. Querem ver a prova do crime? Então observem um dos trechos que selecionei justamente para construir minha arguição:
Para Volney Gouveia, gestor do curso de Ciências Econômicas e gestor adjunto da Escola de Gestão e Negócios da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), a falta de uma gestão mais preparada para os desafios da empresa é a principal razão para a morte da mesma em pouco tempo de atividade. O Sebrae aponta que mais da metade das empresas abertas encerram suas atividades em menos de cinco anos. “Isto é histórico e reflete problemas de gestão. Via de regra, há gestão equivocada, que mistura finanças pessoais do dono com as finanças da empresa. Esse conflito de interesse compromete o fluxo de caixa. Associado a isto, há problemas de planejamento. Não se apoia as ações em planejamento estratégico e tático. O que funciona é a estratégia “go horse” (vai de qualquer jeito, em tradução livre). O abre e fecha de empresas depende muitas vezes destes dois fatores, e nem tanto das condições econômicas do País”, aponta. O economista diz que a opção por um trabalho como MEI no lugar do emprego com carteira assinada é feita pensando em um crescimento profissional, mas sem levar em conta que essa atividade demanda mais conhecimento e gerenciamento para dar certo. “O povo brasileiro é empreendedor por natureza. Pode-se empreender por meio de MEI ou mesmo sendo CLT. A questão é que falta preparo para se fazer uma gestão mais eficaz”, afirma Gouveia – escreveu o Reporter Diário.
BAIXO APRENDIZADO
Há duas conclusões convexas que colocam o entrevistado, acadêmico da Universidade Municipal de São Caetano, contra a parede da medição justa dos fatores que alteram o produto argumentativo final.
A primeiro e principal conclusão é mitigar a responsabilidade de governantes, municipais, estaduais e federais no processo de erosão de esperança de sucesso do empreendedorismo de pequeno porte, individual ou não. E esse ramal de insensibilidade também se expande ao próprio Sebrae.
Afinal, há séculos o ritmo da chuva ácida de desilusões com fechamentos formais ou não do pequeno empreendedor se repete e até se agrava. É algo como uma tragédia anunciada. O despreparo é o motor de ignição compulsório do empreendedorismo de pequeno porte porque o empreendedorismo de pequeno porte só existe, em larga escala, por necessidade. Daí, entretanto, à carga de responsabilidade maior, é muita crueldade mesmo.
Escrevo sobre isso há milhares de anos. Enquanto isso, e ainda o fazem, jornais de papel e a mídia em geral festejam novos saldos de negócios criados, solapando o contraponto da destruição de expectativas de fracassos continuados. Não chega a constituir-se um clássico de rouba-monte, mas entre os sobreviventes da guerra de guerrilhas poucos se salvam para valer.
VIDA REAL
Já mencionei esse exemplo há algum tempo, mas não custa repetir. Nos primeiros tempos da revista de papel LivreMercado, acompanhava de perto a distribuição dos exemplares. Fazia questão de direcionar a maior parte da tiragem aos pequenos e médios negócios, sempre com a etiqueta de personalização do endereçamento. Nada mais importante para mostrar a relevância do leitor a ser conquistado. O responsável pela logística de distribuição me mantinha informado sobre mudanças de destinatários. Era uma avalanche a cada jornada. A morte dos pequenos negócios era rotina. Como hoje.
Querem mais um exemplo, além de tantos outros? Perto de minha residência foi aberto um mercado de porte pequeno. Parecia fadado ao sucesso. Não havia na vizinhança nada que obstruísse o crescimento de vendas. Cinco caixas de pagamentos foram instaladas. Havia inúmeros itens de consumo.
Pouco tempo depois da inauguração e a 500 metros surgiram um atacadista e um supermercado. Não sei como o mercadinho ainda resiste. Segue cambaleante. A vizinhança comercial de pequeno porte fechou as portas faz tempo. O efeito-supermercado é arrasador. Juntem-se a isso os produtos dos grandes players internacionais do varejo digital, e o que se tem é mais que carnificina.
E AINDA FESTEJAM
Gente despreparada do Poder Público Municipal comemora os condomínios logísticos, berçários dos varejistas digitais. Trata-os como salvação da lavoura. Fazem cálculos alucinantes de novos empregos. Desprezam os empregos que desaparecem nessa competição desigual. Até os socialistas franceses já tomaram providências para conter a invasão varejista chinesa. Aqui, autoridades públicas, repito, comemoram. São iletrados econômicos.
Talvez esteja a faltar aos acadêmicos e também aos jornalistas de redação uma saidinha da casinha de vez em quando. Tomar contato com a realidade de uma região maltratada pela desindustrialização mas diariamente festejada por prefeitos que encontraram nas redes sociais o divertimento à popularização e a votos acríticos consagradores.
Mesmo com limitações ditadas pelo incidente, dou um jeito de sair por aí de vez em quando. Outro dia – e contei aqui – vi o Grande Alvarenga, bairro de São Bernardo, em cores e ao vivo. Uma calamidade. Pequenos negócios na maioria com placas de vende-se ou aluga-se. Na periferia de Santo André não é nada diferente. Parece que a região está à venda. Há dois anos espero alugar minha casa e morar num apartamento. Há quase 100 mil residências desocupadas na região, segundo o IBGE.
O empreendedorismo de sobrevivência sempre será autofágico, mas poderia ser menos grave e reincidente caso esferas públicas fossem mais efetivas como braços auxiliares. É provável que os cursos de qualificação não levem em conta outra coisa senão a própria obtusidade de fechar-se em copas. Experiências vividas valem muito mais. Empreendedores fracassados poderiam ser melhores professores do que consultores engravatados.
SACOLEJADAS
O segundo grande obstáculo ao empreendedorismo de pequeno porte é mesmo o Estado, no caso o governo federal. Não são os benefícios tributários que sustentam a competitividade dos negócios de pequeno porte. O ambiente econômico e político é um convite a sacolejadas absorvidas por empreendedores de maior porte, mesmo com percalços, mas que impactam diretamente os menos apetrechados.
Bastam alguns meses de trepidação para que seja necessário recorrer ao sistema financeiro. Cria-se a bola de neve de juros elevadíssimos incentivados pela gastança pública.
Não vamos explorar como argumento senão definitivo, mas contundente como simbologia de riscos fora de controle a agenda de Segurança Pública. O Grande ABC noturno é risco dobrado. Cadeias internacionais de cafeterias e outros gêneros não foram devidamente informadas sobre o ambiente criminal na região. Vieram com tudo e quebraram a cara. Fecharam inúmeras unidades. Não só pela violência nossa de cada dia. A maré econômica não está para peixe.
Há consultorias privadas que não enxergam além do próprio umbigo. Costumo cantar a bola de fracassos. Se tivesse alguns bons trocados não investiria um tostão no Grande ABC. Nem com pouco dinheiro me arriscaria a montar um estúdio para produzir conteúdo digital. Algumas abordagens quase me seduziram. Seria burrice empreender onde empreender é burrice. Perdemos mais que o PIB Tradicional. Perdemos o que restava de cidadania.
Investir seria um contrassenso a quem dispõe de praticamente todas as cartas desse embaralhamento selvagem. Pequenos negócios individuais ou não são um trato com a obscuridade. Gestão é uma parcela da resposta. Mas não a principal.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC