Quando as informações repassadas à mídia não são informações completas, muito longe disso, sempre há o risco de tentar metabolizá-las em forma de análise. O anúncio de que uma delegação de representantes de uma cidade da China esteve ontem com o prefeito Marcelo Lima e o secretário de Desenvolvimento Econômico Rafael Demarchi parece suficiente para assegurar muita preocupação. Tanto Marcelo quanto Rafael não são do ramo econômico, mas têm uma vocação ao marketing de quermesse, ou seja, de muito barulho.
Consumi a reportagem do Diário do Grande ABC e também do Reporter Diário e as comparei com a reportagem depágina inteira do jornal Valor Econômico sobre os percalços industriais da China, publicada na edição de ontem e assinada por enviados especiais do Financial Times. Não tenho como evitar esse imbricamento. Os chineses estão desesperados para botar o bloco de produção em outros países e começam a sofrer cada vez mais pressões dos concorrentes.
Está na reportagem do Financial Times: “O excesso de capacidade também se tornou um desafio global para os parceiros comerciais que temem o outro choque da China semelhante ao aumento das exportações chinesas no final dos anos 1990 e inicio dos anos 2000. Os EUA e a UE além de grandes países em desenvolvimento estão rapidamente erguendo barreiras comerciais para proteger suas indústrias avançadas de uma enxurrada de produtos chineses de baixo custo”.
JOGO PESADO
Duvido que tanto o prefeito quanto o secretário, e mesmo o dirigente Mauro Miaguti, do Ciesp, que acompanhou o encontro, tenham lido a reportagem do
Financial Times antes da reunião de ontem, ou mesmo depois.
Depreendo da reportagem que São Bernardo não se preparou tecnicamente às visitas. As declarações do prefeito e do secretário (que reproduzo logo abaixo, nas matérias publicadas no Diário do Grande ABC e no Repórter Diário) são estritamente protocolares.
Reproduzo em seguida mais um trecho da reportagem do Valor Econômico de ontem: “A dependência da China em investimentos na manufatura tornou-se ainda mais urgente à medida que sua capacidade excedente e a demanda doméstica fraca empurram o país para um dos períodos mais longos de pressão deflacionária desde os anos 90. A queda dos preços prejudica a lucratividade das empresas e os balanços dos bancos, além de desestimular novos investimentos” --escreveu o Financial Times.
A visita dos chineses evoca preocupação e dúvidas, além de certo alarmismo. Existe incompatibilidade total de acoplagem do modelo asiático de baixo custo da mão de obra e o, apesar de decadente, padrão salarial e de conquistas trabalhistas dos metalúrgicos e mesmo de outros setores na região.
Como alinhar os ponteiros de competitividade diante do desafio de invasão do território regional sem causar reboliço diabólico nos valores despendidos com os trabalhadores, sem contar a quase sentença de morte a novos investimentos industriais diante da concorrência nacional muito mais aparelhada? Mesmo que o prefeito Marcelo Lima tenha a cobertura de algumas estrelas petistas da região em Brasília. Presente de grego também faz parte de negócios.
TERCEIRA INVESTIDA
Não custa lembrar que a reunião de ontem no Paço Municipal marca a terceira vez nesta temporada em que os chineses constam do noticiário regional. A primeira vez foi uma visita de lideranças sindicais de São Bernardo à China, em busca de investimentos metalúrgicos, em frontal conflito com os contrastes básicos que acabei de mencionar acima. Depois, uma delegação chineses aportou em Mauá e prometeu investimentos.
O amadorismo que engolfa a Administração de Marcelo Lima no setor econômico colocará São Bernardo cada vez mais no acostamento de competitividade. Ainda outro dia mostrei que São Bernardo, após 30 anos, passou a ocupar a última posição no quesito de PIB de Consumo por habitante entre as 20 maiores cidades do Estado de São Paulo. Fosse a conta feita sem considerar o tamanho econômico, provavelmente teria desabado dezenas de posições no ranking estadual. No PIB Tradicional também por habitante, semelhante ao PIB de Consumo, o histórico é igualmente dilacerante.
Não vou ficar aqui no meu canto a citar exemplos de como dar produtividade a eventuais encontros com supostos investidores chineses. Seria mais lógico, inteligente e prospectivo que o prefeito de São Bernardo contratasse uma consultoria especializada. É assim que gestores públicos resolutivos agem. Não é o acompanhamento de um dirigente do Ciesp sempre preocupado em agradar que estenderá o horizonte além do imediatismo de sempre.
SEM EXCESSOS
Menos mal que desta vez o secretário Rafael Demarchi não tenha se excedido no entusiasmo juvenil de projetar valores imaginários de supostos investimentos chineses. Acredita-se que a espada com o peso de 100 mil empregos formais que se adicionariam ao estoque de São Bernardo em quatro anos de mandato de Marcelo Lima tenha disciplinado o secretário a não incidir em nova barbeiragem.
Mas nada disso impede a conclusão, pelo conteúdo do encontro, de que temos uma peça falha na engrenagem enferrujada da gestão de Marcelo Lima na área mais importante do cronograma oficial da Prefeitura. Cada declaração de Rafael Demarchi é um flash de triunfalismo. Com os aplausos do prefeito, claro. Essa dupla é do barulho.
Vamos agora à reprodução das reportagens do Diário do Grande ABC e do Repórter Diário:
Representantes de empresas de
cidade chinesa visitam São Bernardo
DIÁRIO DO GRANDE ABC
Uma delegação com representantes de cerca de 20 empresas da cidade Foshan, na China, esteve ontem em São Bernardo. O grupo se reuniu com prefeito Marcelo Oliveira (Podemos), com o secretário de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Juventude de São Bernardo, Rafael Demarchi e com o diretor da regional do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), Mauro Miaguti.
Segundo Demarchi, a visita dos chineses tem como “principal intuito a geração de negócios, cooperação comercial, troca de tecnologias, novos fornecedores, e investimento na cidade. Tanto por meio de compra de parte das empresas que já estão aqui, como novos investimentos para abertura de empresas da China em nossa cidade”, afirmou o secretário, destacando que a visita foi intermediada pelo CCPIT (Conselho da China para a Promoção do Comércio Internacional).
“Nossa ideia é que eles conheçam o município de São Bernardo e as potencialidades, para criar uma linha direta entre as duas cidades, e possíveis investimentos e novas empresas (subsidiárias) se instalem aqui. Queremos mostrar que São Bernardo está em busca de ampliar ainda mais o nosso horizonte, para tornar nossa economia ainda mais pujante e atrair investimento e geração de empregos”, declarou Demarchi.
“É um prazer imenso receber cada um de vocês na nossa cidade. São Bernardo nasceu da força do trabalho e se transformou em um dos motores da economia nacional. Queremos abrir nossas portas para investidores que acreditam em nosso potencial, sempre com foco na legalidade, na inovação e na geração de empregos. Vejo grandes possibilidades de negócios e parcerias com Foshan. Essa aproximação tem tudo para ser um divisor de águas no nosso caminho de crescimento”, frisou o prefeito.
Mauro Miaguti, diretor do Ciesp de São Bernardo, destacou que a delegação era composta por representantes de empresas das áreas de metal mecânica, de máquinas e equipamentos. Além de indústrias do setor de energia. “São empresas que se interessam por parcerias com as brasileiras. É importante que venham para somar, com transferência de tecnologia e know-how. Não apenas para vender. Nós deixamos claro que são muito bem-vindas para novos negócios, para instalar fábricas aqui. O objetivo sempre é gerar emprego e renda, além de parceria com as empresas locais”, afirma.
Segundo Miaguti, empresários chineses falaram sobre o interesse em conhecer empresas de São Bernardo e da região. E que os próximos passos será a obtenção de informações mais detalhadas sobre as empresas e os produtos chineses, bem como dos setores que eles têm interesse no Grande ABC.
Foshan é uma província de Guangdong. É considerada um dos maiores polos industriais da China, com destaque nos setores de manufatura avançada, automação, cerâmica, design industrial e eletrodomésticos. A cidade abriga multinacionais e startups e é referência global em tecnologia e inovação.
São Bernardo fortalece parceria com
comitiva empresarial de Foshan, China
REPÓRTER DIÁRIO
Para estreitar laços internacionais e colocar o município no radar de grandes investidores estrangeiros, São Bernardo recebeu, nesta terça-feira (05/08), uma comitiva empresarial de Foshan, na China. O grupo, formado por cerca de 20 empresários e representantes de diferentes segmentos da indústria, participou de um evento no Paço Municipal, com apoio do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), regional São Bernardo.
O encontro representou um passo relevante na aproximação institucional entre as duas cidades e teve como principal finalidade apresentar o potencial econômico e estratégico de São Bernardo para negócios internacionais.
Ao longo da agenda, as partes trataram de possibilidades de cooperação comercial, intercâmbio de tecnologias, parcerias com o setor produtivo local e investimentos diretos no município — tanto por meio da aquisição de participação em empresas já instaladas quanto pela implantação de novas unidades de negócios.
Em nome da cidade chinesa, o secretário do Comitê de Foshan para a Promoção do Comércio Internacional (CCPIT Foshan), Li De, ressaltou a importância da missão e o interesse mútuo em construir uma parceria sólida com São Bernardo. “Foshan tem mais de 9 milhões de habitantes e muito a compartilhar em termos de tecnologia, inovação e conhecimento. Temos um carinho grande pelo Brasil e queremos trazer nossa marca e experiência para esta cidade, que demonstra grande capacidade de crescimento. Esperamos fazer história juntos e estabelecer uma relação duradoura com São Bernardo”, declara.
O prefeito Marcelo Lima deu as boas-vindas à comitiva e reafirmou o compromisso da gestão municipal com o desenvolvimento econômico, a modernização da indústria e a geração de oportunidades. “É um prazer imenso receber cada um de vocês em nossa cidade. São Bernardo nasceu da força do trabalho e se transformou em um dos motores da economia nacional. Queremos abrir nossas portas a investidores que acreditam em nosso potencial, sempre com foco na legalidade, na inovação e na geração de empregos. Vejo grandes possibilidades de negócios e parcerias com Foshan. Essa aproximação tem tudo para se tornar um divisor de águas no nosso caminho de crescimento”, destaca.
Também participaram do encontro representantes de entidades parceiras, como o diretor do Ciesp São Bernardo, Mauro Miaguti, que sublinhou a relevância da iniciativa para o setor produtivo local. “São Bernardo tem se posicionado ao lado da indústria, e esse diálogo entre o poder público e o setor empresarial é fundamental. O potencial de investimento e de troca de conhecimento com os empresários de Foshan certamente abrirá novas oportunidades para nossa região”, avalia.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC