Economia

QUANDO A ECONOMIA DE
SÃO BERNARDO VAI REAGIR?

DANIEL LIMA - 08/08/2025

São Bernardo é a Capital Econômica do Grande ABC. Responde por 38% do PIB Tradicional em valores monetários. Mas, como mostramos ainda outro dia, vive decadência praticamente ininterrupta sem que o atual prefeito Marcelo Lima se dê conta da gravidade. A massa de empobrecidos favorece tremendamente políticos populistas.

Antecessores não agiram tão descuidadamente assim. Mesmo sem oferecer respostas que, todos sabem, não dependem exclusivamente de ações domésticas, algum legado econômico entregaram após a avalanche regional de oito anos de Fernando Henrique Cardoso e os dois anos de recessão aguda de Dilma Rousseff.

Marcelo Lima tem como abre-alas um secretário de Desenvolvimento Econômico sem qualificação à culinária de transformações. Abre-alas é força de expressão. Sete meses passados desde que começou a botar a mão na massa, e a dependência automotiva cada vez mais fragilizada, Rafael Demarchi prefere cardápio indigesto de promessas e lorotas.

TRIUNFALISMO CONSTANTE

Como ainda outro dia mostrei que São Bernardo virou lanterninha no PIB de Consumo do G-22, formado pelas 20 maiores cidades do Estado de São Paulo, tenho obrigação jornalística de ir adiante. E vou mesmo. Outros municípios da região não escaparão. Novos balanços virão. É o que fazemos há mais de três décadas neste endereço.

Vou apresentar em seguida alguns dados econômicos e sociais que destroem qualquer narrativa que ainda se tenta costurar para dizer que São Bernardo é um gigante inabalável. O prefeito Marcelo Lima tem dito algo nesse sentido a cada santo dia.

Enquanto isso, chineses e outros asiáticos invadem ou ameaçam aportar em São Bernardo com investimentos devastadores para a Economia local. Como se já não bastasse a Doença Holandesa Automotiva para continuadamente infligir duros reveses.

TEMPO IMPLACÁVEL

Marcelo Lima e tanta gente de São Bernardo, do Grande ABC e de outras plagas que praticam o mesmo erro, o erro de esquecer que o tempo passa na catinga da fumaça, todo esse pessoal desconhece ou faz pouco-caso do que ocorreu desde que foi implantado o Plano Real, em 1994.

Mostramos, como já disse, que entre 1995 e 2025, São Bernardo foi uma catástrofe no PIB de Consumo per capita, métrica mais apropriada para encontrar a realidade  quando se trata de observar a situação financeira dos moradores.

Sabem os leitores quanto era a população de São Bernardo em 1995 e quanto é nesta temporada? São Bernardo teve acréscimo demográfico correspondente à soma das populações atuais de São Caetano e Rio Grande da Serra. Sabe lá o é isso? Foram acrescentados ao mapa social de São Bernardo nos 35 anos pesquisados nada menos que 259.268 novos moradores. 

A população de São Bernardo de 1995 correspondia à ocupação de 162.317 moradias. Já na ponta da tabela, neste 2025, são 304.437 residência. Poderia ter escrito “somos” ao invés de são, porque moro em São Bernardo.

Seria natural em qualquer lugar do mundo mais ou menos arrumado na estrutura socioeconômico que houvesse, 30 anos depois, mais moradores da Classe Rica do que no pontapé inicial. Alguma dúvida? Com isso, a mobilidade social em forma de crescimento no volume de residências, estaria de alguma forma mantida.

RICOS EM DECLÍNIO

Qual nada: do total de moradias de São Bernardo em 1995, 11,24%,  correspondente a 18.244 famílias ocupava o topo da pirâmide social, de Classe Rica. Agora, em 2025, são apenas 5,00%, correspondentes a 15.096 moradias.

Ou seja: a mobilidade social na classe mais elevada foi para o saco da desindustrialização incontida e múltipla em motivações. Portanto, uma queda dramaticamente dupla.

Transpondo proporcionalmente o universo de família de Classe Rica da São Bernardo da metade dos anos 1990 para a atualidade, sem que no período houvesse qualquer ganho em forma de mobilidade social, contaríamos com 34.219 moradias. Como temos não mais que 15.096, perdemos mais da metade.

Mas isso não dá a dimensão exata da situação histórica. Essa perda é em volume de moradias. Quando o cálculo, mais apropriado, de participação relativa, a derrocada é maior: nada menos que 55,51% de rebaixamento da Classe Rica. A construção dessa debacle é resultado do confronto da participação relativa de 11,24% no total de moradias em 1995 e de apenas 5,00% em 2025.

Em 1995, a participação média da Classe Rica no Brasil não passava de 4,40%  e caiu para 2,70% em 2025. A vantagem de São Bernardo, nesse confronto, caiu de 6,84 pontos percentuais para 2,30 pontos percentuais. Os Ricos de São Bernardo são cada vez menos Ricos quando confrontados com a média nacional. 

CLASSE MÉDIA TAMBÉM 

Já quando se trata de Classe Média Tradicional, a mobilidade social também foi para o brejo, mas se salvou, entre aspas: em números absolutos houve crescimento. Eram 59.132 residências no pós-Real e agora são 90.038. Mas não caiam na besteira de achar que houve compensação à queda em números absolutos e relativos infligida à Classe Rica.

A Classe Média de 1995 representava 36,43% das famílias de São Bernardo, enquanto em 2025 baixou a participação para 29,50%. Entre Ricos e Classe Média, portanto, São Bernardo sofreu queda de participação relativa de 13,17 pontos percentuais, resultado de 47,67% em 1995 e de 34,50% em 2025. Em nível nacional,  participação média da Classe Rica e da Classe Média Nacional passou de 15,80% em 1995 para 22,10 pontos percentuais. Com isso, a média nacional foi reduzida de diferença de 31,85 pontos percentuais para 12,40 pontos percentuais no confronto com São Bernardo.

Mesmo com o crescimento populacional elevado durante os 30 anos pesquisados (os dados primários são a Consultoria IPC, especializada em potencial de consumo com base em inúmeras fontes governamentais), São Bernardo sofreu as durezas de perder a cada nova temporada participação relativa no bolo nacional do PIB de Consumo. Quanto mais moradores, mais os municípios podem potencializar o PIB de Consumo Geral. Mas correm o risco de frustrações no PIB de Consumo per capita.

CLASSE MÉDIA PRECÁRIA

A participação relativa nacional é pautada pela demografia. E São Bernardo caiu estrepitosamente no ranking nacional. De 1.0040% de tudo que se consumia no País em 1995, São Bernardo caiu para 0,51587%. Nenhuma surpresa. Além de fatores internos, de empobrecimento continuado, a média de crescimento dos municípios brasileiros foi bastante superior.

A queda de 48,62% de participação relativa no PIB de Consumo Geral no mapa nacional se deu cumulativamente ao aumento de 30,83% da população. São Bernardo ganhou uma São Caetano e uma Rio Grande da Serra em população predominantemente de perfil econômico abaixo da média de 1995.

Com a queda de participação relativa no combinado de Classe Rica e Classe Média Tradicional, o que se pergunta é o que teria ocorrido com a chamada Classe C, que não passa de Classe Média Precária, já que é fruto da redução positiva da participação relativa de Pobres e Miseráveis durante o período e da redução negativa da Classe Rica e da Classe Média Tradicional?

A Classe Média Precária de São Bernardo passou de 32,61% das residências em 1995 e saltou para 44,50% em 2025. Embora possa parecer um dado positivo, o que temos de fato é uma faixa socioeconômica que não pode vacilar e está sujeita a intempéries macroeconômicas.

Afinal, precisa escalar uma montanha para subir de categoria enquanto basta um descuido para descer morro abaixo e se instalar no grupo de Pobres e Miseráveis. Na comparação com a média nacional, a Classe Média Precária não passava de 26,34% em 1995 e passou para 47,40% em 2025. Um avanço determinado sobretudo pelo encolhimento da classe de Pobres e Miseráveis.

POBRES E MISERÁVEIS

Entre 1995 e 2025 houve pouca mudança em São Bernardo na classe de Pobres e Miseráveis, apesar de todos os programas sociais, especialmente do Bolsa Família. Eram 19,72% das residenciais na largada da pesquisa e foi reduzida a 18,40% nesta temporada. A Favela do Montanhão, de 100 mil moradores, simboliza a decadência de São Bernardo.

A situação em nível nacional é bastante diferente no mesmo período. O Brasil contava com 53,45% de Pobres e Miseráveis em 1995 e passou para 27,70% em 2025. Como se observa, a diferença em relação a São Bernardo caiu de 33,73 pontos percentuais para 9,30 pontos percentuais. Conclusão? São Bernardo está cada vez mais próxima do perfil de excluídos sociais da média brasileira.

O envelhecimento de São Bernardo não está restrito à engrenagem socioeconômica. Há também um vetor que precisa ser avaliado com cuidado porque reúne componentes sociológicos que poderiam auxiliar nas tratativas de devassar as entranhas políticas daquela que já foi a cidade mais avermelhada da região, depois de Diadema.

POPULAÇÃO ENVELHECIDA

Em 1995 apenas 11,83% dos moradores de São Bernardo estavam na faixa de idade de 50 anos para cima. Já em 2025, esse universo saltou para 30,83%. Quando se leva em conta essa densidade demográfica no respectivo recorte tendo como companhia a queda permanente da massa de trabalhadores de chão de fábrica, por causa de desindustrialização e também de novas tecnologias, o que se encontra é uma barreira ao expansionismo de eleitores suscetíveis aos pressupostos doutrinários do PT.  Ou alguém tem dúvida de que foi a mão do sindicalismo aguerrido que  embalou o berço de criação e crescimento do Partido dos Trabalhadores?

O contraponto a essa premissa também precisa ser avaliado com cuidado, porque tem peso relativo que não neutraliza o envelhecimento da população mas supostamente o ameniza: a polarização nacional entre direta e esquerda aciona a engrenagem doméstica.

Luiz Fernando Teixeira, um petista de classe econômica privilegiada e, portanto, sem qualquer relação genética com o PT tradicional, perdeu as eleições municipais no ano passado mas foi relativamente muito bem votado. Um sindicalista, exceto Luiz Marinho, teria passado vergonha.  

Vergonha que os petistas têm passado em Santo André, de Classe Média de outra identificação social, sem tanta influência petista e que demorou para engolir e consagrar Celso Daniel  -- que jamais foi sindicalista.



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