A manchetíssima da edição de hoje do Diário do Grande ABC sugere uma solução que não se sustenta, porque se confunde corporativismo com regionalismo e seus desdobramentos. Não que no caso o corporativismo contra as retaliações tarifárias do governo de Donald Trump deixe de ser corporativismo relativamente justo. Nada disso. Mas a história pregressa que levou a esse movimento com viés notoriamente político-eleitoral do governo federal, o que não é crime, precisa ser contada sem intervalos para os comerciais. Trata-se de reação seletiva.
Vou reproduzir abaixo a reportagem do Diário do Grande ABC levada à manchete das manchetes de primeira página. O jornal reproduz o movimento liderado pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, berço do petismo de Lula da Silva, para “mitigar os efeitos do tarifaço imposto pelo governo dos Estados Unidos, que no primeiro mês de vigência causou perdas de U$15,2 milhões (R$ 80,2 milhões no câmbio de ontem)”.
DESARTICULAÇÃO TOTAL
A reportagem do Diário do Grande ABC sugere no enunciado de primeira página (“Região se une para reagir à queda em exportação a EUA pós-tarifaço”) que, como num passe de mágica, desencadeia-se mobilização extraordinária em defesa da soberania regional. Bobagem. Se estamos totalmente desarticulados em conceitos básicos de regionalidade em qualquer atividade que se aponte o dedo de organização coletiva, como esperar salto a objetivo tão extraordinário? Regionalismo é a conversão de uma massa impressionante de coletivismos específicos. A ausência de representantes industriais no encontro de ontem é emblemática do buraco sem fundo da mobilização sindical.
Portanto, a reportagem do Diário do Grande ABC contraria os próprios enunciados do Diário do Grande ABC. São, com todo o respeito, uns gatos pingados da região que se articulam politicamente. Falar em regionalismo com esse tiquinho de representantes, praticamente todos vinculados direta ou indiretamente ao sindicalismo regional, inclusive no controle da inoperante Agência de Desenvolvimento Econômico, é exagero.
Não vejo como esperaralguma coisa senão o naturalmente comum nesse movimento porque esse movimento é mesmo uma ação do governo federal para oferecer ajuda financeira às empresas enlaçadas pelo tarifaço. É dinheiro público, supostamente bom e barato, que está disponível. Nada contra a medida diante de intempéries macroeconômicas, assim como em situações da pandemia de Covid.
VIAGEM AUTOFÁGICA
Essa é uma das faces da moeda do encontro de ontem no Sindicato dos Metalúrgicos. A outra face é a face que não foi dita. Ou seja: não se pode tratar o excepcional como regra. E o excepcional é uma raspa de tacho de socorro programado e de cartas marcadas na medida que os critérios de habilitação aos recursos federais são rigorosamente restritivos à maioria das empresas.
Mas o lado mais engraçado, não fosse trágico, dessa movimentação do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, que o jornal não aponta, é que os mesmos sindicalistas na dianteira de pregações socorristas ainda recentemente ocuparam manchetes de jornais (principalmente do Diário do Grande ABC) para produzirem as maiores barbaridades em tempos de crise continuada na região.
Afinal, o que fizeram as lideranças metalúrgicas de São Bernardo? Eles simplesmente foram lá e voltaram cá para dizerem que contavam com parte da solução no combate à desindustrialização do Grande ABC, de cujos estragos eles, os sindicalistas, foram protagonistas juntamente com instituições sociais e empresariais da região.
De que se trata, exatamente? Ora, da comitiva de sindicalistas locais às linhas de montagens dos chineses, lá na China, e retorno entusiasmado com a possibilidade de atrair fábricas.
DUAS CATÁSTROFES
Vejam só quanta ignorância, sobre as quais já escrevi. Justamente os chineses, campeões mundiais em políticas econômicas que esculacham com os direitos trabalhistas, quando não com os Direitos Humanos, são incentivados pelos sindicalistas locais para aportarem investimentos produtivos num Grande ABC tão orgulhosamente festejado pelos mesmos sindicalistas como território de frondosas conquistas trabalhistas.
Se o leitor considera que o exemplo acima já seria suficiente para revelar e condenar ao paredão da sensatez a contradição dos sindicalistas metalúrgicos, o que dizer então diante das duas maiores catástrofes da indústria regional ao longo dos últimos 50 anos, catástrofes que contribuíram decididamente para aumentar os decibéis de um barulho infernal chamado desindustrialização?
Vou repetir esses dois períodos, já esmiuçados aqui ao longo dos últimos 35 anos de CapitalSocial. O primeiro período, de 85 mil demissões no setor industrial ocorreu durante os oito anos dos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, entre 1996 e 2002. O segundo, os quase 60 mil empregos industriais triturados em dois dos seis anos de dois mandatos incompletos de Dilma Rousseff, entre 2015-2016. O PIB do Grande ABC perdeu 33% do valor durante o governo FHC, enquanto no caso de Dilma Rousseff, restritivamente aos dois anos de uma tragédia, foram 30% de esquartejamento.
CADÊ O SINDICATO
A pergunta que não quer calar é a seguinte: o que os sindicalistas rebeldes do Grande ABC, especialmente os metalúrgicos, estavam fazendo nas duas jornadas? Querem a resposta? Nada vezes nada. Na primeira, porque o governo FHC simplesmente asfixiou o movimento sindical. Na segunda, porque o movimento sindical se calou na cumplicidade escancarada para preservar um governo da mesma identidade ideológica. Essa vergonhosa atuação deve ser distribuída também às demais organizações sociais e econômicas da região. Todas se calaram.
Se esses dois exemplos não fossem suficientes para desgastar a tentativa de brilho ocasional dos sindicalistas nestes dias tormentosos de relações diplomáticas entre Lula da Silva e Donald Trump, com direito a interpretações múltiplas após o encontro de ontem na ONU, se tudo isso não fosse suficiente, ainda temos algo muito pior.
O que poderia ser pior do que o passado devastador de dois governos federais traumatizantes? A subserviência escandalosa, parceira, irresponsável e tudo o mais dos mesmos sindicalistas diante da invasão das montadoras chinesas, já apontada neste espaço muito antes de se descobrirem o tamanho da encrenca.
CHINESES DESTRUIDORES
Que encrenca? Os chineses com 120 fábricas de veículos já não sabem mais o que fazer com tanta produção e estão abrindo espaços no mundo ocidental que preserva princípios básicos de direitos trabalhistas, entre tantos outros que o Partido Comunista Chinês passa por cima.
Nenhum movimento se viu na região contrário ao deslocamento cada vez mais pronunciado do eixo de produção e de importação de veículos elétricos chineses ao Brasil. O Grande ABC da Doença Holandesa Automotiva pensa que já conhece o inferno da desindustrialização. Vem mais por aí. Os sindicalistas fazem proselitismo político imaginando que retóricas resolvem os problemas. Empresários e organizações sociais se calam. Estamos fritos e enredados.
VEZ DO DIÁRIO
Repasso na sequência a reportagem do Diário do Grande ABC. Há mudanças cosméticas entre a matéria publicada no jornal de papel e no jornal digital. Uma coisa não atrapalha a outra.
Grande ABC perde quase R$ 79 milhões com
tarifaço e região articula reação conjunta
Diagnóstico feito pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), a pedido do SMABC (Sindicato dos Metalúrgicos do ABC), aponta que o tarifaço imposto ao Brasil pelo governo dos Estados Unidos resultou em perda de aproximadamente U$ 15 milhões, cerca de R$ 79,2 milhões ao Grande ABC no primeiro mês de vigência do novo modelo de comércio exterior.
Os dados foram apresentados no encontro Os impactos do Tarifaço no Grande ABC, realizado na tarde desta terça-feira (23) em parceria entre SMABC, Consórcio Intermunicipal do Grande ABC e a Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, reunindo prefeitos, dirigentes do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), lideranças empresariais e representantes da sociedade civil.
Participaram da mesa de abertura do evento o presidente em exercício do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC e prefeito de Ribeirão Pires, Guto Volpi (PL); o prefeito de Rio Grande da Serra, Akira Auriani (PSB); o secretário-executivo do Consórcio e presidente da Agência de Desenvolvimento, Aroaldo Silva; os diretores do BNDES Nelson Barbosa e Luciana Costa; o presidente do SMABC, Moisés Selerges; e o secretário de Desenvolvimento Econômico de São Bernardo, Rafael Demarchi.
DESABAMENTO
Segundo o estudo do Dieese, em agosto de 2025, primeiro mês completo sob a nova tarifa de 50% imposta pelo governo Donald Trump, as exportações do Grande ABC para os Estados Unidos despencaram de US$ 61,6 milhões em agosto de 2024 para US$ 46,5 milhões em agosto deste ano, uma perda de quase US$ 15 milhões no período, equivalente a uma retração de 24,6%.
O impacto foi desigual entre os municípios, mas dramático em setores estratégicos, comparando agosto de 2025 com o agosto de 2024: São Bernardo do Campo caiu 67,6%, Mauá 66,9%, Diadema 50,5% e Ribeirão Pires 32,2%. As perdas se concentram principalmente na indústria metalúrgica, automotiva e de defesa, pilares da economia regional.
Durante o encontro, foram definidos encaminhamentos estratégicos, como a criação de uma Comissão Regional de Monitoramento dos Impactos na Produção e Emprego, com participação de gestores públicos, sindicatos e empresários; a ampliação da estratégia Grande ABC para o Mundo, voltada à diversificação de mercados e internacionalização das empresas locais.
“Hoje, em uma ação conjunta de diversos agentes do Grande ABC, demos um passo importante para transformar essa crise em oportunidade, com novas conexões internacionais e o fortalecimento da nossa economia regional", afirmou o presidente em exercício do Consórcio ABC, Guto Volpi.
Os representantes do BNDES apresentaram linhas de apoio vinculadas ao Plano Brasil Soberano, programa do governo federal voltado à mitigação dos efeitos do tarifaço e ao fortalecimento do desenvolvimento regional.
"O governo está implementando um programa de grande escala para mitigar os efeitos negativos de tarifas sobre as empresas brasileiras. O foco é fornecer liquidez imediata, facilitar o acesso a crédito e incentivar a adaptação e diversificação das empresas para garantir a sustentabilidade a longo prazo e proteger o emprego e a renda da população", explanou o diretor de Planejamento e Relações Institucionais do BNDES, Nelson Barbosa.
Outra proposta que surgiu no evento é criar um projeto denominado Missão Grande ABC Para o Mundo. “A importância deste evento de hoje (terça) está justamente em criar conexões com outros países e ampliar nossas oportunidades. É fundamental que o Grande ABC aprofunde a cooperação com instituições como o BNDES e outros parceiros estratégicos, para fortalecer o desenvolvimento econômico regional", afirmou Aroaldo Silva.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC