É aparentemente um enigma, quando não uma contradição. Como é possível São Caetano preservar o PIB de Consumo neste século depois de passar por duríssimo processo de desindustrialização? Só poderia mesmo ser um equívoco na conta de um fator e de outro fator? Nada disso. Diferentemente da vizinhança do Grande ABC e da literatura econômica conhecida, São Caetano ficou praticamente intocável na participação relativa da classe rica e da classe média tradicional neste século.
Não se dispõem de muitos dados oficiais sobre os movimentos de resistência de São Caetano, mas os disponíveis são suficientes à sustentação de argumentos sólidos.
Não custa lembrar que os ricos e a classe média de São Caetano em 1999, antes de o novo século começar, representavam 45,63% da população. E nesta temporada são 47,11%. A média regional antes do começo deste século registrava 37, 54% e caiu em 2026 para 30,54%. Ou seja: enquanto em 1999 a diferença de participação das duas classes sociais mais endinheiradas apontava distância média de 8,09 pontos percentuais, nesta temporada de 2026 a distância média subiu para 16,57%.
COMO EXPLICAR
O PIB de Consumo e o PIB Tradicional caminham em uma jornada antagônica. Quando um cai é mais que provável que o outro caia também. É um dueto que se explica porque a riqueza construída pelo PIB Tradicional é em alguma escala repassada em forma de riqueza acumulada ao PIB de Consumo.
O PIB de Consumo é resultado da massa salarial e de outros rendimentos não necessariamente de origem no Município analisado. O PIB Tradicional é resultado direto e exclusivo do Município domiciliado.
São Caetano reserva algumas especificidades que desmontam qualquer tese fantasiosa sobre a resistência registrada neste século. Não existe mágica. Não há fator aleatório que torna São Caetano diferente dos demais endereços do Grande ABC.
VÁRIAS EXPLICAÇÕES
O tamanho territorial e custo da terra de apenas 15 quilômetros quadrados praticamente salvaram São Caetano da periferização habitacional que invadiu os demais municípios da região ao longo da história. Famílias pobres e miseráveis não passam de 12,70% de 64.477 residências que absorvem 173.234 moradores. Pobres e miseráveis de São Caetano são apenas 8.159 moradias. No Grande ABC como um todo são 163.254 residências, com média geral de 16,10%. A média geral esconde algumas tragédias que a grandiosidade econômica do Grande ABC, cantada em prosa e versus, provoca decepção. Diadema, por exemplo, tem o dobro de famílias pobres e miseráveis de São Caetano. A conta leva em conta a proporcionalidade em relação ao total de moradias. São 26.805 moradias de 145.996 no geral.
Embora tenha acrescentados 40.064 mil habitantes ao longo deste século, correspondente a 30,97% de crescimento demográfico, São Caetano tem o poder de sedução de ser ocupada por estratos sociais mais elevados da pirâmide econômica. Desta forma, ao neutralizar o avanço de pobres e miseráveis, São Caetano não sofre sobrecarga orçamentária em níveis preocupantes como os vizinhos.
Pesa na ocupação habitacional de São Caetano a proximidade com bairros tradicionais da Capital, casos de Ipiranga e Mooca, de custos relativos mais salgados.
PROXIMIDADE DA CAPITAL
A proximidade da Capital também beneficia São Caetano na empregabilidade. A escolaridade média de São Caetano também é superior à média do Grande ABC. Com isso, São Caetano captura salários médios superiores. A vantagem se reflete no PIB de Consumo.
Também pesam favoravelmente a São Caetano como resiliência à desindustrialização geralmente corrosiva a infraestrutura de serviços públicos e o padrão de habitações, além da Segurança Pública. A engrenagem de vigilância e operações com o uso intensivo de tecnologia praticamente nocauteou uma das poucas válvulas de escape da marginalidade: desabaram os registros de roubos e furtos de veículos, entre outras ocorrências policiais.
Era o que faltava para São Caetano fechar o cerco e fortalecer o círculo virtuoso de qualidade de vida. Praticamente em todos os ranqueamentos, São Caetano desponta insistentemente como oásis social. Não fosse, ainda, as famílias de pobres e miseráveis entre 64 mil moradias, São Caetano poderia ser chamada de gigantesco e uniforme condomínio residencial.
É esse cinturão de atendimento à demanda de classe sociais mais prósperas que faz de São Caetano uma cidadela quase inexpugnável em meio ao caos metropolitano.
Por isso, praticamente tudo que se traduz em equação por habitante para medir o tamanho da qualidade de vida em São Caetano redundará na explicação mais que convincente. Trata-se do seguinte: antigas formulações e atualizações metodológicas que pretendem encontrar respostas para a exceção à regra de que desindustrialização é sinônimo de debilidade social deverá abrir-se ao exemplo de São Caetano.
Quarto maior PIB de Consumo per capita do País e 111ª posição no PIB Tradicional, São Caetano não encontra paralelismo no País quando se considera endereço com mais de 80 mil habitantes.
MAIS VELHA
Visto isoladamente, o PIB Tradicional de São Caetano expressaria a derrocada inexorável da cidade industrial pujante até os anos 1980. Ainda sem atividade econômica que possa reduzir eventual solavanco que a General Motors e o terminal de derivados de petróleo provocariam principalmente nas finanças públicas, São Caetano aperfeiçoa o modelo de residencial privilegiado.
Enquanto isso, a vizinhança se afoga num mar de demandas sociais intermináveis. O perfil de crescimento demográfico menos veloz que nos anos 1990 é mais denso proporcionalmente nas classes menos abastadas, o que, em última instância, exige mais recursos públicos ao enfrentamento. Uma roda-viva que parece interminável ao entorno de São Caetano.
A taxa de envelhecimento médio da população de São Caetano reforça o viés conservador. Entre a base de dados de 1999 e os números deste ano que a Consultoria IPC expõe no conjunto de informações estatísticas sobre o PIB de Consumo, sempre levando em conta diversas fontes oficiais, São Caetano avançou 13 pontos percentuais na população de 50 anos ou mais. Eram 33.315 em 1999 (30,97% do total) e agora são 66.894, correspondentes a 38,61% dos habitantes. Um resultado muito acima dos demais municípios da região. Diadema, mais uma vez, pode ser convocada como exemplo oposto: a população com 50 anos ou mais soma 112.085 pessoas, correspondente a 27,82% do total de mais de 400 mil habitantes.
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01/06/2026 INVASORES BÁRBAROS, LIVRES, LEVES E SOLTOS