Imprensa

ARCA DE NOÉ CONTRA O
GATABORRALHEIRISMO (11)

DANIEL LIMA - 05/06/2026

Muitos dos passivos econômicos e sociais que o Grande ABC acumula neste século estão no recorte que se segue. São cinco edições de novembro de 2002 que tratam diretamente dos danos no mercado de trabalho com carteira assinada durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. O oitavo ano não está contabilizado neste material,  mas consta de outras análises que incorporarão esta coletânea que chega ao décimo-primeiro capítulo de 60 previstos.

À parte as frondosas conquistas do Plano Real a partir de 1994, reviravolta no placar de desesperança a bordo de um processo inflacionário insano, a realidade regional precisa ser explorada para que não paire dúvida sobre um dos pontos centrais  que explicam a derrocada das sete cidades.

O governo Fernando Henrique Cardoso pegou o bonde da desindustrialização do Grande ABC andando, e só o fez piorar ainda mais ao imprimir velocidade intensa de medidas nacionais reestruturantes sob olhares plácitos da plateia regional de mandachuvas e mandachuvinhas desastradamente omissos.

Como se observa, viveu o Grande ABC um paradoxo inconcebível naquele período. Foram exatamente os anos FHC que semearam o maior movimento coletivo da região, com a criação do Fórum da Cidadania, e os desdobramentos no espectro público, com Celso Daniel comandando a criação da Santíssima Trindade Institucional do Clube dos Prefeitos, da Agência de Desenvolvimento Econômico e da Câmara Regional. Tudo, absolutamente tudo, sem que se dessem conta do desastre Fernando Henrique Cardoso em curso.

A compreensão da tragédia no mercado de trabalho é essencial, mas isoladamente não aprofunda o que é fundamental nesta maratona jornalística que, ao se encerrar em 2027, será transformada em mosaico cronológico em que tudo parecerá e será de fato um circuito complementaridades e conclusões.

Os anos de chumbo no emprego formal do Grande ABC durante a presidência de Fernando Henrique Cardoso seguem logo abaixo. Edições da então newsletter CapitalSocial, linha auxiliar diária da mensal revista de papel LivreMercado,  revelaram a metamorfose.

Os textos que se seguem são respectivamente de 11, 12, 13, 14 e 18 de novembro de 2002. Portanto, há um quarto de século. Todos sob o título-manchetíssima “ Descalabros do governo no mercado de trabalho regional”: 

PRIMEIRA EDIÇÃO

Vamos desmembrar em várias edições o tema-manchete deste CapitalSocial sobre a precarização do mercado de trabalho formal no Grande ABC, principalmente, mas também no Estado de São Paulo e tangencialmente no Brasil durante os sete anos de governo Fernando Henrique Cardoso até 2001. Esse é o resultado que mais julgo conveniente para manter o foco nessa questão que consolida todas as análises que fizemos sobre os desatinos do governo federal nos últimos anos e também porque solidifica a assertiva de que nenhuma outra região do País foi tão acentuadamente atingida pelos estilhaços da equipe econômica como os sete municípios locais.

A precarização do mercado de trabalho formal no Grande ABC em confronto com o restante do Estado pode ser facilmente entendida pelo seguinte enunciado, sempre considerando o período 1995-2001, do atual presidente da República, relativamente ao crescimento dos postos de trabalho de até três salários mínimos -- ou seja, R$ 600 hoje. 

 Enquanto o Grande ABC avançou em 98,62% (isto é, praticamente dobrou o número de assalariados com esse baixo vencimento), a Região Norte do País cresceu 41,1%, a Região Nordeste 28,3%, a Região Sudeste 34,8%, a Região Sul 32,3% e a Região Centro-Oeste 25,2%. 

Acredito que os leitores não tenham a menor dúvida sobre esses confrontos amplamente desfavoráveis ao Grande ABC, atingido em cheio pela abertura econômica mais acelerada e desastrada que um governo federal poderia promover, além de outras anomalias compartilhadas por grande parte dos demais territórios nacionais, como os juros elevadíssimos, a guerra fiscal ensandecida, a sobrevalorização artificial da moeda, entre outros fatores fartamente conhecidos.

Como vamos ter várias edições deste CapitalSocial para destrinchar o assunto, ficaremos apenas com essas considerações depois de receber no final de sexta-feira os números definitivos do reestudo da Secretaria de Desenvolvimento, Solidariedade e Emprego da Prefeitura do Município de São Paulo. Evidentemente que a análise é pessoal, mas o ferramental que me foi colocado à disposição pelo técnico Thiago Ribeiro se junta a outros indicadores econômicos e sociais de que dispomos em arquivos próprios para construir o arrazoado que será desmembrado numa sequência de dias.

A Reportagem de Capa deste novembro da revista LivreMercado, que trata dos rombos provocados pela gestão econômica de FHC, não contempla esses números nem as avaliações deste CapitalSocial. Mas nem por isso sofre qualquer reparo. O que ali está escrito, e que reproduziremos até o final do mês em edição especial deste veículo, é tão monolítico que dispensa o mergulho no mercado de trabalho de carteiras assinadas. 

PRECARIZAÇÃO DOBROU  

Dados compilados e metabolizados como informação e análise dão conta de que no período entre 1994 (último ano de Itamar Franco) e 2001 (penúltimo ano de Fernando Henrique Cardoso) o Grande ABC viu inchar seu mercado de trabalho formal de 93.305 trabalhadores para 188.044. Isso mesmo, não há erro de digitação. Esse crescimento da fragilização do assalariamento em 98,62% está nos arquivos do Ministério do Trabalho e Emprego, fonte estatística da secretaria paulistana.

A informação que publicamos aqui na semana passada, sob a manchete de que São Caetano é a campeã em precarização da mão-de-obra com carteira assinada, é absolutamente correta, apesar de os dados da secretaria paulistana terem passado por reparos e reacertos. Acompanhem -- e sintam o tamanho do drama regional da depauperação salarial -- os números do desempenho de cada Município durante a gestão FHC, sempre partindo da base deixada por Itamar Franco, em 1994:  

 São Bernardo contava com 25.988 trabalhadores com até três salários mínimos formais em 1994 e em 2001 teve esse contingente aumentado para 54.479. A participação relativa local passou de 13,3% dos empregos formais para 29,2% -- variação de 109,63%.

 Diadema somava 11.936 em 1994 e saltou para 25.086 em 2001, com avanço relativo interno de 14,2% para 34,3% da mão-de-obra formal -- variação de 110,17%.

 Santo André contava com 28.466 empregos formais ganhando até R$ 600 em 1994 e chegou a 50.030 sete anos depois, saindo de 23,7% de participação dessa faixa salarial no universo dos empregados locais para 42,4% -- variação de 75,75%.

 São Caetano pulou de 15.790 postos de trabalhos formais até três SM em 1994 para 39.580 em 2001, ou seja, passou de 24,6% para 41,8% de participação relativa no mercado de trabalho local -- uma variação de 150,66%.

 Mauá saiu de 6.800 trabalhadores formais ganhando até três salários mínimos em 1994 para 11.679 sete anos depois, saltando portanto de 20,9% para 34,4% de participação relativa no Município -- uma variação de 71,75%.

 Rio Grande da Serra contava com 370 empregos formais em 1994 de até três SM e chegou a 1.158 em 2001 -- variação de 212,97%.

 Ribeirão Pires passou de 3.955 empregos formais de até três salários mínimos em 1994 para 6.032 em 2001, dobrando, portanto, de 22,3% para 44% no mercado local -- variação de 52,51%. 

TRIUNFALISTAS DE PLANTÃO 

É desse somatório de números que chegamos ao resultado regional de antigas 93.305 carteiras de trabalho assinadas com até três salários mínimos para 188.044 sete anos depois. Num próximo capítulo mostraremos, entre outros aspectos, por que São Caetano e Rio Grande da Serra precisam ser observados atentamente. Os efeitos da guerra fiscal no setor de serviços inflam os números dos dois municípios não só na faixa de até três salários mínimos como nas demais.

O fato inquestionável e que os triunfalistas já não terão como negar é que o inchaço de empregos de baixa faixa salarial (e olhe que não estamos falando ainda do crescimento absurdo do desemprego, do subemprego, da informalidade) decorre em todo o País dos terríveis equívocos da equipe econômica federal, mas, particularmente no Grande ABC, como estamos cansados de informar e analisar, foi muito mais destrutivo.

E antes que algum triunfalista de plantão venha com a hipótese absurda de que o crescimento do mercado de trabalho de até três salários mínimos é prova de vitalidade regional, temos a seguinte informação, de cuja análise tratarei nos próximos dias: o mercado de trabalho formal na região para carteiras de trabalho com mais de 10 salários mínimos despencou de 177.114 em 1994 (portanto antes do governo FHC) para 91.261 (nos sete anos de FHC). Uma queda relativa de 49,48% -- a maior do Brasil.

Por que o Grande ABC perdeu mais que o Brasil? Porque seu parque industrial foi duramente atingido pelo governo FHC, enquanto lideranças econômicas, sociais, sindicais, políticas e culturais se masturbavam com uma institucionalidade que só existiu mesmo nas folhas de jornal.

SEGUNDA EDIÇÃO

Revelamos ontem neste CapitalSocial a primeira parte de um despautério há muito denunciado por este jornalista mas só agora devidamente dimensionado e triturado a partir de dados do Ministério do Trabalho e Emprego coletados pela Secretaria de Desenvolvimento, Solidariedade e Emprego de São Paulo. Trata-se dos descaminhos do mercado de trabalho com carteira assinada, especialmente no Grande ABC atingido em cheio pela desindustrialização em suas várias faces -- da evasão industrial explícita, passando pela evasão dissimulada, pela evasão fingida e pela evasão camaleônica.

Mostramos ontem que o contingente de trabalhadores formais na região nos sete anos do governo Fernando Henrique Cardoso até 2001 deu salto olímpico na faixa de até três salários mínimos -- um dos testemunhos numéricos do esboroamento econômico da região.

Em 1994, último ano do governo Itamar Franco, contávamos com 93.305 empregos com carteira assinada até três salários mínimos, contra a avalanche de 188.044 do ano passado. Um crescimento real de 98,62%. Praticamente o dobro. Trocamos grande parte de empregos industriais bem remunerados e com amplo colchão social que os planos de saúde privados e outras conquistas sindicais garantiam, por empregos nas áreas de comércio e serviços que enchem a bola dos falsários estatísticos, mas não escondem a sobrecarga de custos sociais e efeitos danosos à economia como um todo. Em nenhuma região do País houve tamanha precarização, porque nossa economia depende em larga escala da indústria automotiva, a mais constrangida pelo modelo econômico adotado pelo governo federal. 

CLASSE MÉDIA 

Se ganhamos empregos baratos, perdemos empregos típicos da classe média, importantíssimo estrato de mobilidade social. No mesmo período da pesquisa -- os anos FHC -- o Grande ABC perdeu 49,48% dos empregos formais situados em mais de 10 salários mínimos. Exatamente, para efeito de entendimento, de 10,1 salários mínimos em diante. Eram 177.114 trabalhadores que ostentavam carteiras de trabalho de ouro -- uma população equivalente à soma de São Caetano e Rio Grande da Serra. Sete anos depois, chegamos a 91.261 trabalhadores, quase uma Ribeirão Pires.

Como escrevemos ontem, não estamos nem entrando na seara do desemprego crônico, do subemprego envergonhado, da informalidade incorrigível e  -- completando o ciclo -- dos chamados profissionais autônomos, que, na maioria dos casos, vivem no limite entre o desemprego crônico e a informalidade incorrigível.

Nenhuma região com 2,350 milhões de habitantes resiste à perda de 85.853 empregos com carteira de trabalho de no mínimo R$ 2.001 por mês (10 SM). O que aconteceu no Grande ABC, em escala muito superior a qualquer outro Município ou região brasileira, foi uma catástrofe que os leigos, os mal-intencionados e os mentirosos de plantão procuram jogar para escanteio numa série de intervenções manipuladamente preparadas para refugar os fatos. 

PAULISTAS X REGIÃO  

A média estadual de perda de emprego de mais de 10,1 SM nos sete anos completados em dezembro último do governo Fernando Henrique Cardoso é 30,45% inferior à contabilizada no Grande ABC. Enquanto os paulistas como um todo perderam 33,71% de empregos nessa faixa de rendimento no período analisado, o Grande ABC caiu 48,47%.

Em termos relativos, os empregos com carteira assinada de 10,1 ou mais salários mínimos representavam no Grande ABC, em dezembro de 1994, total de 34,42% do estoque ativo dos trabalhadores protegidos pela Consolidação das Leis Trabalhistas. A sangria desatada da abertura econômica e de outros desatinos governamentais reduziu o bolo para 17,13%. Repetindo: de cada 100 empregos com carteira assinada no Grande ABC no início do governo FHC, 34,42 estavam situados na faixa de 10,1 ou mais salários mínimos. Em dezembro do ano passado, caíram para 17,13.

Vejam, por Município da região, o desempenho registrado em dezembro de 1994 e o resultado, sete anos depois. Entre parênteses está a participação relativa da faixa salarial no estoque de empregos formais de cada Município: 

 São Bernardo contava com 88.213 (45,24%) ganhando mais de 10 SM e caiu para 48.486 (25,98%) -- queda relativa de 45,03%. 

 São Caetano somava com 18.818 (29,36%) e caiu para 12.063 (12,74%), com queda relativa de 35,89%. 

 Diadema contava com 20.914 (24,86%) e caiu para 9.817 (13,42%), com queda relativa de 53,06%.

 Mauá tinha 10.772 (33,10%) e caiu para 5.032 (14,84%), com queda relativa de 53,28%.

 Ribeirão Pires reunia 3.948 (22,28%) trabalhadores acima de 10 SM e caiu para 1.001 (7,29%), com queda relativa de 74,64%.

 Rio Grande da Serra contava com 116 (9,04%) e subiu para 256 (11,52%), com crescimento relativo de 120%.

 Santo André somava 34.333 (28,64%) e caiu para 14.606 (12,38%), com queda relativa de 57,45%.

Comparem esses números com outros municípios paulistas: 

 São Paulo contava com 768.945 (21,90%) carteiras de trabalho acima de 10 SM e caiu para 541.358 (16,89%), com queda relativa de 29,59%.

 São José dos Campos tinha 37.133 (35,78%) e caiu para 26.007 (22,63%), com queda relativa de 29,59%.

 Campinas contava com 56.202 (24,64%) e caiu para 36.813 (15,07%), com queda relativa de 34,49%.

 Sorocaba reunia 15.924 (18,19%) e caiu para 11.363 (11,68%), com queda relativa de 28,64%.

Como se observa, a devastidão do governo FHC no mercado de trabalho formal foi menos intensa em outros municípios. Nada surpreendente, porque em recente levantamento que fizemos sobre o ranking do Valor Adicionado (geração de riqueza) no Estado de São Paulo, o Grande ABC perdeu 34% de participação absoluta, enquanto as regiões de Campinas, Sorocaba, São José dos Campos e mesmo a Região Metropolitana de São Paulo, sem o Grande ABC, amealharam resultados positivos diferentes, mas positivos.

A participação relativa de empregos mais qualificados (os de 10,1 ou mais salários mínimos) do Grande ABC no Estado de São Paulo sofreu, evidentemente, dura queda. Se em 1994 os 177.114 empregos dessa faixa salarial na região significavam 11,64% do bolo do Estado de São Paulo, que contabilizava 1.521.382 carteiras assinadas, em 2001 os 91.261 trabalhadores do Grande ABC eram apenas 9,04% do estoque estadual, que somava 1.008.436 empregos de 10,1 ou mais salários mínimos.

No somatório de todas as faixas salariais, o Estado de São Paulo ganhou 348.461 colocações durante o governo FHC, porque o total de 1994 registrava 7.837.396 empregos formais, contra 8.185.857 em dezembro de 2001. Quando se segmenta esse estoque e se estuda o grupo de carteiras assinadas para quem ganha 10,1 salários mínimos em diante, a situação é outra: a perda líquida de 512.946, ou relativa de 33,71%, é bem inferior (29,85%) em comparação aos 49,48% de rebaixamento no Grande ABC. 

MOVIMENTO OPOSTO 

Esse movimento, como já escrevemos, é inversamente semelhante ao que encontramos na faixa de até três salários mínimos: perderam-se empregos de qualidade de um lado e ganharam-se empregos fragilizados de outro. E o Grande ABC sempre perde na equação, porque registra relativamente muito mais inchaço nas faixas até três salários mínimos e muito menos emprego nas faixas acima de 10 SM.

Amanhã escreveremos sobre a faixa salarial que vai de 3,1 a 10 salários mínimos. Perceberão os leitores que não houve praticamente mudança no Grande ABC em meio a tiroteio de contratações e demissões. A roda pegou mesmo acima de 10,1 salários mínimos, como acabamos de mostrar. Uma combinação inquietante de miniaturização do contingente de classe média. A classe média regional (e também das demais regiões, embora não tão intensamente) se proletarizou na Era FHC, enquanto o proletariado menos preparado às exigências do mercado de trabalho entrou na informalidade, nos escaninhos do desemprego ou do subemprego ou mesmo se aninhou no gueto dos autônomos. A maioria sem proteção social e sem contribuir para a Previdência Social. 

TERCEIRA EDIÇÃO

Mostramos nas duas edições anteriores os contrastes no comportamento do mercado de trabalho com carteira assinada no Grande ABC nas faixas mais elevadas e mais baixas de remuneração durante os sete anos do presidente Fernando Henrique Cardoso até 2001. Para que possam compreender nova abordagem na faixa intermediária de 3,1 a 10 salários mínimos, recompomos rapidamente aqueles enunciados:

 Na faixa acima de 10,1 salários mínimos (de R$ 2.001 em diante, em valores de dezembro do ano passado), o conjunto de municípios do Grande ABC perdeu 85.853 postos de trabalho, passando de 177.114  para 91.261 empregados. Uma queda relativa de 49,48%.

 Na faixa popular de até três salários mínimos (R$ 600), o Grande ABC inchou de carteiras de trabalho, passando de 93.305 para 188.044 trabalhadores, ou seja, crescimento de 98,62%.

Como mostramos também nas duas edições anteriores, tanto no universo de privilegiados quanto no de proletarizados, o Grande ABC apresentou dimensionalmente índices de queda e de crescimento muito superiores aos principais municípios paulistas pesquisados e também muito acima da média estadual e macro estadual.

Derrotado fragorosamente onde mais se caracteriza o que se convencionou chamar de mobilidade social -- expressão muito lembrada nestes tempos em que um torneiro-mecânico conquistou a Presidência da República -- o Grande ABC é vítima do gigantismo do emprego barato e sem proteção social privada. Como se teria comportado, então, esse balanço de empregos formais nas faixas de rendimentos que estão acima de três e abaixo de 10,1 SM?

Com base nas estatísticas da Secretaria de Desenvolvimento, Solidariedade e Emprego da Prefeitura de São Paulo, mergulhamos em novas interpretações. E os resultados, felizmente, não seguem a debacle das faixas já analisadas.

Do total de trabalhadores com carteira assinada em dezembro de 2001 no Grande ABC, 44,05% recebiam entre 3,1 e 10 salários mínimos. Sete anos antes eram 44,46%. Acompanhem na sequência cada um dos municípios da região e seus respectivos números em 1994 e 2001.

 Diadema contava com 49.609 empregos formais de 3,1 a 10 SM em 1994, o que representava 58,97% da força de trabalho formalizada. Em 2001, caiu para 36.673 e 50,16% de participação relativa interna.

 Mauá somava 14.284, ou 43,90% dos trabalhadores locais, contra 16.429 empregados formais de 2001, ou 48,45% da força de trabalho.

 Ribeirão Pires reunia 9.213 empregos formais de 3,1 a 10 SM, ou 52% do contingente interno, e caiu para 6.426 e 46,84% de participação interna sete anos depois.

 Rio Grande da Serra contava com 415 postos de trabalho na faixa salarial estudada, com 32,37% de participação interna, contra 764 registrados em 2001, com participação de 34,39%.

 Santo André somava 53.380, com 44,53% de participação interna, e caiu para 50.514, com participação interna de 42,84%.

 São Bernardo tinha 73.870 postos de trabalho de 3,1 a 10 SM em 1994, com participação relativa interna de 37,88%, e aumentou para 79.340 postos e participação de 42,51%.

 São Caetano passou de 28.043 postos, com 43,76% de participação relativa interna, para 39.869 postos e participação relativa de 42,12%. 

Como se observa, no conjunto da obra não há transformação significativa. Em 1994 o Grande ABC contava com 228.814 empregos formais entre 3,1 e 10 SM, contra 230.015 sete anos depois. A participação relativa no Estado de São Paulo também se manteve estável: de 6,3% dos empregos nessa faixa salarial em 1994 para 6,69% em 2001. Individualmente, sim, houve algumas mexidas que não podem ser desprezadas:

 Diadema contabilizou déficit líquido de 13 mil postos de trabalho. Como saltou demais na faixa de até três salários mínimos, de 11.936 para 25.086 em sete anos, tudo indica que radicalizou na troca de empregos de ouro por empregos proletários.

 Ribeirão Pires, duramente atingida pela desindustrialização no período da pesquisa, deu-se o mesmo roteiro de Diadema.

 São Bernardo, mais protegida pelo sindicalismo que construiu história de valorização salarial, conseguiu amortecer a rotatividade impactante da derrubada salarial, embora não tivesse escapado da fragilização comum dos três salários mínimos.

 São Caetano é um caso à parte, pela prática de guerra fiscal no setor de serviços, assim como Rio Grande da Serra. Trataremos desses casos em espaço específico. 

INTERMEDIÁRIOS 

Imaginem os leitores, como exercício de compreensão, se em todas as macrofaixas salariais o Grande ABC apresentasse a relativa estabilidade que se registrou na escala que vai de R$ 601 a R$ 2.000 mensais de salários? Não fossem esses trabalhadores apenas 44,05% do contingente de empregos com carteira assinada, os sete anos de Fernando Henrique Cardoso não teriam reestruturado completamente a realidade econômica e social do Grande ABC. Reestruturado é força de expressão. A expressão vernacular mais apropriada para o remelexo que atingiu a base e o pico da pirâmide salarial com carteira assinada na região é mesmo bagunça quase generalizada.

Sim, bagunça quase generalizada porque 66% dos trabalhadores formais da região viveram pessoalmente ou como espectadores estressados o inferno na torre da precarização do trabalho. Enquanto em 1994 o perfil do emprego formal na região marcava 18,13% de trabalhadores de até três salários mínimos, 44,46% de 3,1 a 10 SM e 49,48% de mais de 10,1 salários mínimos, em 2001 a contabilidade passou a ser de 36,01% de até três SM, 44,05% de 3,1 a 10 SM e 17,13% de 10,1 ou mais salários mínimos.

Só não me dou ao trabalho  -- sempre em meu escritório doméstico -- de traduzir tudo isso em números monetários de perda da massa salarial porque os dados do Ministério do Trabalho e Emprego não são suficientemente compartimentados e não me dão segurança absoluta de fugir de qualquer tropeço. Dividido em microfaixas salariais, o estudo não permite o detalhamento desejado. De qualquer maneira, deixa entreaberta a possibilidade de aproximação estatística que talvez me conduza a novas incursões. .

QUARTA EDIÇÃO

Para quem que está pegando em movimento o bonde da cirurgia no organismo do mercado formal de trabalho do Grande ABC nos sete anos de governo Fernando Henrique Cardoso, vamos rememorar rapidamente os principais pontos dos três capítulos anteriores para que o desta edição seja compreendido sem dificuldades:

 Na faixa acima de 10,1 salários mínimos (de R$ 2.001 em diante, em valores de dezembro do ano passado), o conjunto de municípios do Grande ABC perdeu 85.853 postos de trabalho, passando de 177.044 para 91.261 empregados. Uma queda relativa de 49,48%. Ou seja: o universo dos bens aquinhoados salarialmente desabou de forma impressionante, com imagináveis rescaldos de fissuras sociais e econômicas.

 Na faixa popular de até três salários mínimos (R$ 600), o Grande ABC inchou de carteiras de trabalho, passando de 93.305 para 188.044 trabalhadores, com crescimento de 98,62%. Ou seja: proletarizou-se de forma impressionante um mercado de trabalho forjado durante os anos de ouro da indústria automotiva, base de sustentação da economia regional. 

 Na faixa intermediária de 3,1 a 10 SM (de R$ 601 a R$ 2.000) o Grande ABC praticamente manteve o padrão de empregos formais, pois passou de 228.814 em 1994 para 230.015 em 2001. Ou seja: não perdemos nem ganhamos trabalhadores numa faixa salarial que é incapaz de garantir mobilidade social.

Dissecadas essas três macrofaixas salariais, invadimos agora a microfaixa do Ministério do Trabalho e Emprego que envolve os profissionais com carteira assinada com mais de 20 salários mínimos, ou seja, mais de R$ 4.001. O que teria acontecido com a elite dos profissionais das mais diferentes áreas que em 1994 estavam empregados no Grande ABC? Que rombo o governo Fernando Henrique Cardoso, fartamente analisado aqui e também na edição de novembro da revista LivreMercado, teria provocado no estrato socioeconômico mais indutor de desenvolvimento econômico gerador de riqueza?

Sugiro aos leitores que acompanham estas linhas com atenção permanente que se acautelem e preparem o estômago, porque os estragos são imensos. De 60.977 carteiras profissionais de ouro, isto é, acima de R$ 4.001 mensais, sobrou menos da metade: exatamente 29.124. Perdemos 31.853 empregos formais de rendimentos mínimos anuais de US$ 13 mil. É dinheiro demais para os padrões brasileiros.

O município do Grande ABC que menos sofreu em termos relativos é São Caetano. De 6.848 carteiras de ouro em 1994, último ano do governo Itamar Franco, restaram 5.301 no sétimo ano do governo FHC. A perda relativa de 22,59% esconde distorção que nos próximos dias, como já prometemos, procuraremos esmiuçar: trata-se dos efeitos da guerra fiscal no setor de serviços, que contabiliza empregos formais em São Caetano mas que, de fato, não passam de registros documentais porque parte dos profissionais atua nas sedes paulistanas das empresas seduzidas pela política tributária do prefeito Luiz Tortorello.

Acompanhem um resumo do comportamento do emprego de ouro, de mais de 20 salários mínimos, em cada um dos municípios do Grande ABC. Apresentamos, pela ordem, os empregos formais de 1994, a participação relativa no universo municipal, os empregos formais de 2001 e a respectiva participação relativa interna, isto é, no próprio Município: 

 São Bernardo contava com 30.345 (15,56%) carteiras assinadas com mais de 20 SM em 1994 e caiu para 16.740 (8,97%) no ano 2001 -- queda relativa de 44,83%. 

 Santo André registrava 11.508 (9,60% de todos os trabalhadores formais) em 1994 e caiu para 3.215 (2,72%) em 2001, ou seja, menos 72,06%.

 São Caetano somava 6.848 (10,68%) e caiu para 5.301 (5,60%) no período de sete anos completado em dezembro, com queda de 22,59%.

 Diadema reunia 6.297 (7,48%) e caiu para 2.359 (3,22%), com queda relativa de 62,53% no mesmo período.

 Mauá contabilizava 4.550 (7,81% de sua força de trabalho) em 1994 e caiu para 1.313 (3,87%) depois do vendaval FHC, ou seja, queda de 71,14%.

 Ribeirão Pires tinha 1.384 (7,81%) em 1994 e despencou para 163 (1,18%) sete anos depois, com queda relativa de 88,22%.

 Rio Grande da Serra contava com 45 profissionais que recebiam mais de 20 salários mínimos em 1994 (3,50% da força de trabalho) e caiu para 33 (1,48%) sete anos depois, com queda relativa de 26,66%. 

Uma brincadeirazinha (se é possível usar essa expressão para algo tão sério) de multiplicar talvez dimensione melhor o que significam 31.853 empregos de pelo menos R$ 4.001 decepados entre 1994 e 2001. Imaginem que cada um desses demitidos recebesse exatamente R$ 4.001 (na verdade, apenas uma parte desse contingente de demitidos recebia esse valor). Multipliquem R$ 4.001 por 13 parcelas (os 12 salários mais o 13º) e chegaremos à contabilidade individual de R$ 52.013 por ano de rendimentos brutos. Agora, para que a conta seja realmente fechada, multipliquem esse valor pelos 31.853 empregos destruídos.

Se sua maquininha de calcular é como a minha, de apenas oito dígitos, esqueça! A elasticidade dos numerais exige que se recorra a software específico que os computadores acondicionam, como sugere uma de nossas assessoras. O número final aparece: R$ 1.656.770.089,00. Traduzindo: um bilhão, 656 milhões, 770 mil e 89 reais de salários brutos que foram para o espaço apenas no ano passado. Daí para cima, porque, como escrevi, colocamos todos os empregos dessa faixa de ouro limitados a R$ 4.001.

Como se vê, mobilidade social é balela quando se trata da economia do Grande ABC. Não bastassem os empregos de classe média (mais de 10 salários mínimos) que evaporaram na esteira das estripulias da política econômica do governo federal, ainda contamos com transbordantes hordas de desempregados, subempregados, desempregos e subempregados disfarçados de autônomos e autônomos de fato.

Como é fácil discursar neste País -- e fazer média de acordo com as circunstâncias -- o presidente da República não poderia perder a oportunidade de mencionar a expressão mobilidade social como legado histórico que seu governo manteve ao apontar para o exemplo do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva.

Ora bolas, sem qualquer objetivo de desmerecer o novo presidente, até as ferramentas da antiga Villares -- onde Lula perdeu um dedo -- sabem que o ex-metalúrgico não é exemplo coisa alguma de mobilidade social no sentido nato da expressão. Lula da Silva foi fermentado pela mobilidade corporativa -- primeiro de metalúrgico que defendia seus direitos com intensidade invejável, depois como animal político de notório valor. Os metalúrgicos dos tempos de Lula da Silva, e os que vieram depois e que estão empregados, mal passam de classes médias baixas sem futuro dos mais risonhos para si e seus filhos. Os metalúrgicos dos tempos de Lula e de agora, que estão desempregados, subempregados ou viraram autônomos, vivem mesmo mobilidade descendente.  

PERDA RELATIVA 

Voltando ao mapeamento dos salários de ouro de mais de 20 mínimos, nota-se que a perda relativa de postos do Grande ABC no período fernandista chegou a 52,53%. Muito mais que os 30,85% perdidos pela Capital paulista, os 38,72% que abateram Sorocaba, os 28,93% que impactaram São José dos Campos e os 32,58% que atingiram Campinas. Vejam os detalhes desses municípios:

 Campinas contava com 19.570 empregos de mais de R$ 4.001 em 1994 (8,44% do total interno de empregados formais) e caiu para 13.199 (5,40%) em 2001 -- uma queda relativa de 32,58%.

 São José dos Campos registrava 12.894 empregos de ouro em 1994 (12,42% do total local) e caiu para 9.163 (7,97%) em 2001, com rebaixamento de 28,93%.

 São Paulo somava 294.939 (8,40%) e caiu para 203.923 (6,36%), com queda relativa de 30,85%.

 Sorocaba reunia 5.111 em 1994 (5,84%) e caiu para 3.132 (3,22%) sete anos depois, com variável negativa de 38,72%.

A participação relativa dos empregos formais de mais de R$ 4.001 na grade do Grande ABC em 1994 apontava para 6,88% no Estado de São Paulo. Portanto, acima apenas do percentual de Sorocaba. Para cada 100 trabalhadores de carteira registrada de pelo menos R$ 4.001 no Estado em 1994, 6,88% eram do Grande ABC. Sete anos depois a taxa regional caiu para 4,20%, a menor entre os municípios economicamente mais fortes, depois de Sorocaba. Enquanto o contingente de salários de ouro do Estado de São Paulo foi reduzido em 36,19% (de 539.444 em 1994 para 344.212 em 2001), no Grande ABC a queda, como já vimos, chegou a 52,23%. Conclusão: a crise da mobilidade social é muito maior aqui do que em qualquer outro lugar do Estado e também do País. Em termos domésticos e relativos, em 1994 o grupo de assalariados de ouro participava com 11,85% dos empregos formais na região, contra apenas 5,57% sete anos depois. 

POR NECESSIDADE 

Um dos desdobramentos da precarização do mercado de trabalho formal e do gigantismo do desemprego, do subemprego, da informalidade e do profissional autônomo está mais uma vez estampado nas manchetes dos jornais hoje. Caso do Valor Econômico: "Brasileiro torna-se empreendedor por necessidade, aponta estudo". Alguns fragmentos do texto: "O Brasil está caindo no ranking internacional do empreendedorismo e, o que é pior, sobe quando a avaliação é feita a partir do motivo que leva as pessoas a abrir um negócio: necessidade e não por oportunidade. A dificuldade em encontrar trabalho é a motivação de 55,4% dos empreendedores do País, o que dá ao Brasil a maior taxa de atividade por necessidade (7,5%) dos 37 países pesquisados. A pesquisa é feita desde 1999 pelo GEM (Global Entrepeneurship Monitor), instituição criada pela London Business School e pelo Babson College de Boston (EUA). O Brasil participa desde 2000, via IBQP (Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade no Brasil). O resultado foi apresentado ontem, simultaneamente em Curitiba e Nova York" -- escreveu Miriam Karam, do Valor Econômico.

Na sequência da matéria, a jornalista lembra que na primeira vez em que foi avaliado, junto a outros 21 países, o Brasil foi classificado como a primeira nação em iniciativa empreendedora. No ano seguinte, já com 28 países participantes da pesquisa, ficou em quinto lugar. Agora aparece em sétimo entre 37 nações.

Já há algum tempo, na seção Campo Aberto da revista LivreMercado, comentamos exatamente a conclusão a que chegou agora o IBQP:  a sede de empreendedorismo no Brasil é fortemente marcada pela necessidade de enfrentar a catástrofe do mergulho do mercado de trabalho. Como é evidente, o estudo mostra que, de forma geral, o empreendedorismo por necessidade tende a ser maior entre os países em desenvolvimento, "onde as dificuldades de inserção no mercado de trabalho levam as pessoas a buscar alternativas de ocupação".

Completa a reportagem: "A comprovar a afirmação, apenas três países têm taxas de abertura de negócios por necessidade maior que a taxa de oportunidade -- Brasil, Argentina e China". O presidente da IBQP-PR, Sérgio Prosdócimo, fez um alerta: "Este índice (do empreendedorismo movido pela necessidade) deve servir de alerta para nossa sociedade. O Brasil precisa mudar e rapidamente suas políticas de apoio às micro e pequenas empresas".

Enquanto o País se esfacela  -- e particularmente o Grande ABC -- o presidente FHC discursa para intelectuais internacionais que da missa não sabem um terço. São voyeuristas profissionais.   

QUINTA EDIÇÃO

Os municípios de Campinas, São José dos Campos e Sorocaba, núcleos aglutinadores de três regiões metropolitanas da chamada São Paulo Expandida, talvez sejam a referência mais sólida para exigir teorias sobre o comportamento econômico do Grande ABC. Comparativos com a vizinha e exuberante Capital devem ser relativizados porque a formosa Cinderela reserva geralmente ao Grande ABC o Complexo de Gata Borralheira. A desproporção histórica de realidades econômicas entre a Cinderela e a Gata Borralheira provavelmente concentre grau desestimulador às metas de desenvolvimento comparativo do Grande ABC.

Por isso, a formulação deste CapitalSocial é a seguinte: o que teria ocorrido no mercado de trabalho formal daqueles três municípios-regiões do Interior que contam com dois milhões de habitantes em contraste com o Grande ABC de 2,350 milhões?

Como mostramos em capítulos anteriores, a queda de participação absoluta e relativa dos empregos com mais qualidade salarial em Campinas, Sorocaba e São José dos Campos foi menos traumática do que no conjunto dos municípios do Grande ABC. Em praticamente todas as macrofaixas salariais, os estrondos da política econômica do governo federal foram menos intensos naquelas capitais interioranas. Destrinchemos as razões principais: 

 Primeiro, porque aqueles municípios não passaram por tantos tormentos de modernização tecnológica. A implantação da indústria naqueles locais é mais recente em relação à Região Metropolitana de São Paulo. Por isso as pesquisas apontam agregado inferior de investimentos tecnológicos naquelas cidades. Como foram originalmente implantadas com menos gorduras que as empresas da metrópole paulistana, cortaram menos gente para adequarem-se à competitividade internacional patrocinada sem cautela pelo governo federal. O pesquisador João Batista Pamplona, num dos trabalhos estatístico-analíticos para a Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, em sua febre triunfalista preferiu propagar o contrário. Tratamos desse assunto em várias matérias na revista LivreMercado.

 Segundo, porque Campinas, Sorocaba e São José dos Campos não sofrem na mesma intensidade dos males da metropolização desajuizada da Grande São Paulo. A densidade geográfica é muito menor que a registrada na Grande São Paulo e, por consequência, gera menos pressões e precarizações trabalhistas, da mesma forma que não sobrepõem aos gerenciadores públicos investimentos de permanente recauchutagem social, decorrentes principalmente de correntes migratórias caudalosas. 

 Terceiro, porque Campinas, Sorocaba e São José dos Campos, guardadas as devidas proporções individuais, são espécies de São Paulo das respectivas regiões metropolitanas. Os municípios mais próximos que se relacionam economicamente com Campinas, Sorocaba e São José dos Campos são espécies de Grande ABC em relação a São Paulo, ou seja, a Gata Borralheira admiradora da Cinderela. Por isso, os benefícios dos níveis aparentes de crescimento econômico individual que aqueles municípios ostentam são inferiores aos do conjunto das respectivas regiões metropolitanas que capitaneiam. O entorno de Campinas, de São José dos Campos e de Sorocaba acaba, por isso mesmo, fortalecendo a cidade-sede. Contrariamente ao Grande ABC que, como arrebalde da Capital, alimenta a mesma Capital com seu grau de auto preconceito cultural, econômico, social, político e institucional. 

 Quarto, porque Campinas, Sorocaba e São José dos Campos absorveram ao longo dos últimos 10, 15 anos muitas das indústrias que deixaram a Região Metropolitana de São Paulo por fatores sobejamente conhecidos. A imensidão de áreas privilegiadas pela guerra fiscal, as relações entre capital e trabalho geralmente mais suaves, a vocação dos administradores públicos de valorizar mais a iniciativa privada, as facilidades logísticas de rodovias em estado de manutenção invejável, a sede por elevação da qualidade de vida dos trabalhadores, esses e outros vetores tornam a vida pessoal e profissional mais agradável e prospectiva naqueles municípios do Interior.



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