Estou incomodado com a abundância e a dispersividade de preocupação de vários movimentos com a regionalidade no campo econômico depois de temporadas e temporadas de escassez da regionalidade no campo econômico. O que foi uma seca dos infernos durante muitos anos parece se transformar em generosa plantação. Esse é justamente o maior problema.
Não contamos com safra de especialistas em economia do Grande ABC para acreditar que teremos volume, capacidade e produtividade para resolução em sintonia com a brutal necessidade de enfrentamentos que virão, como se já não fossem suficientes o que já estão postos e irresolvidos há muito tempo.
Vejo com ceticismo o que poderia ser motivo de satisfação, mas não posso esconder a fundamentação desse artigo. Há muita gente embarcando na ideia e nos propósitos de colaborar com o futuro do Grande ABC sem ter, claramente, noções elementares do ambiente regional dentro do ambiente estadual, dentro do ambiente nacional e dentro do ambiente internacional.
Repito de propósito as frases como metralhadora em guerra porque é preciso martelar essa premissa. Estamos às portas de um festival de ideias e propostas sem ancoragem estrutural. São balões coloridos de entusiasmo soltos ao vento de desperdícios coletivos.
UMA BOLA DE NEVE
O Fórum do Ensino Superior, o Clube dos Prefeitos com o braço da Agência de Desenvolvimento Econômico, as entidades de classe empresarial, os sindicatos de trabalhadores e tudo o mais, se lançaram nesse festival de regionalidade econômica com o ímpeto e a convicção de que navegam em águas plácidas, quando de fato estão em meio a uma correnteza indecifrável a todos.
Minha maior preocupação como jornalista e ativo cultural que navega por essas águas e sabe onde moram os perigos e potenciais portos seguros é que o excesso de interesse que salta no noticiário vire uma bola de neve de decepções e a emenda de desilusões torne-se maior que o soneto de soluções.
Quem tiver a ideia simplificada de que basta apanhar uma das partes das inúmeras faixas de integração que compõem a estrutura orgânica de recomposição mesmo que parcial do tecido econômico do Grande ABC vai sofrer as mesmas consequências emocionais e motivacionais daquele jogador de futebol individualista que, de repente, se sente sozinho em campo com a camisa de uma equipe cujos companheiros se escafederam.
MAIS ENXADRISMO
Não dá para negligenciar a estratégia como ponto central de operações conjugadas a complementaridades. O que o mundo do Desenvolvimento Econômico regional exige é qualificação de enxadrista ao invés de se imaginar que vamos para uma disputa de penalidades máximas aleatória. Parem com isso, senhoras e senhores. Mais vagar, mais vagar.
Conto nos dedos de uma das mãos – e amarro a outra para não sentir a sensação de generosidade e autoengano de acreditar que há mais alguns exemplares a mencionar – nomes de agentes econômicos que atuam no Grande ABC com currículo e atividade prática para ocuparem missões de responsabilidade no Estado Municipal e no Estado Regional como garantia de efetividade.
Não desfrutamos de agentes especializados em regionalidade econômica. No máximo, encontraremos profissionais e lideranças empresariais e sindicais que conhecem beiradinhas desse bolo indigesto, cansativo e desafiador que nos endoidece. E mesmo assim com alto risco de contaminação ideológica e corporativista. Tem sido assim desde sempre.
FALTAM CABEÇAS
Uma de minhas maiores frustrações como jornalista é constatar o quanto o Grande ABC perde tempo ao não forjar profissionais que entendam do riscado regional. Bastaria o patrocínio, apoio ou qualquer coisa nesse sentido para imprimir cursos especificamente direcionados a adensar conhecimentos locais e, a partir daí, dar o pontapé inicial às iniciativas mais urgentes.
É inacreditável que, como o maior centro econômico de transformações econômicas deste País nos últimos 40 anos, com caudalosa coleção de desequilíbrios e perdas comprovadamente alarmantes, o Grande ABC não tenha acordado para a relevância de organizar-se como endereço em busca da recuperação. Continua, por isso mesmo, sujeito a novas e portentosas, além de comprometedoras, ações desestabilizadoras.
Medidas pontuais de especialistas específicos não fazem verão. Serão tijolinhos bem comportadinhos e assentadinhos em tentativas de construir uma fortaleza que jamais se manterá de pé.
A solução à sustentabilidade estrutural de um novo modelo de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, incorporando partes saudáveis e recuperáveis após mais de três décadas de destruição, passa muito distante do entusiasmo juvenil de acreditar que cada um no seu cantinho bonitinho vai representar a soma de medidas e ações de que o território tanto carece.
ENSAIO EMOCIONAL
Estamos num ensaio emocional desancorado de uma partitura organizacional essencial às transformações. Desprezar essa premissa seria mesmo de lascar – e tudo parece caminhar nesse sentido.
Há questões candentes no presente que influenciarão decisivamente o futuro do Grande ABC, mas cujas raízes ainda não foram detectadas por organizações que se lançam aparvalhadamente ou não em pautas senão superadas pelo prazo de validade mas interditadas pelas redes de complexidade.
Estamos lidando com peças essenciais de potencialização econômica do Grande ABC, casos de tecnologia, inovação, produtividade, e não nos demos conta de que as raízes de sustentação às eventuais incursões estão fincadas na definição do que pretendemos e podemos ser no futuro projetado.
As especialidades econômicas do Grande ABC para lidar com os desafios são desconhecidas ou estão fora do nosso alcance isoladamente ou com um agregado de parceiros estaduais e nacionais. A concorrência por financiamentos é densa no País e os projetos expostos se sobrepõem em camadas de inutilidades a ponto de a competitividade internacional desabar a cada temporada, como denunciam os noticiários sistematicamente hostis aos sonhadores.
A lista de ações práticas que poderiam dar impulso à Economia do Grande ABC no mínimo para reagir à onda de desindustrialização que prossegue conta com vasta carga temática que vai da logística interna à logística externa, às ramificações de evasão de consumidores e trabalhadores que ganhará impulso com a chegada do sistema BRT e do Metrô, como se deu com o Rodoanel.
MAIS COMPLICAÇÕES
O comércio eletrônico vai fazer rapa geral. O Rodoanel é um convite mais que consolidado a deserções de vários setores industriais, agora que a Grande Guarulhos entra definitivamente na disputa por investimentos. Tudo isso é absolutamente esquecido por formadores de opinião e tomadores de decisões. A invasão automotiva dos chineses é mais que certa e danosa.
O noticiário que dá conta do surgimento de gente interessada no dinamismo econômico ao Grande ABC revela que a mídia regional finalmente está convertidíssima ao evangelho capitalista como inspiração a transformações. Entretanto, a falta de coordenação dos vários grupos que acordaram de sono profundo não compete ser preenchida nem deve ser conduzida pela mídia porque, como ocorreu no Fórum da Cidadania nos anos 1990, porque se corre o risco de afrouxamento crítico.
O tombo seria igualmente constrangedor e, mais que isso, duramente longevo, porque se perderiam a esperança e a motivação. O desencanto é um algoz de custo elevadíssimo. O Fórum da Cidadania é pedagógico. Depois de euforia sem bases sólidas a depressão imposta pela realidade virou compartimento desagregador de difícil restauração.
Um vestiário de time derrotado em final de campeonato é um ambiente sofrido, mas o calendário pode ser a porta aberta à recuperação praticamente imediata do entusiasmo. Quando se trata de sequelas envolvendo grupos movidos pelo mesmo propósito, mas sem o mesmo amalgama de compartilhamento permanente, tudo é diferente. O vácuo se instala insidiosamente. Sem os alicerces de um planejamento territorial baseado em diagnostico metodologicamente sólido, corremos o risco de tornar o futuro ainda mais devastadores.
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13/04/2026 TROCA-TROCA DE TRENS TEM TUDO DOS MAMONAS