Duvido, duvido e duvido que exista um leitor sequer que tenha na ponta da língua ou mesmo com algum tempo para pensar e consultar o Google a resposta para a perda atual da participação no bolo estadual (e consequentemente nacional) da indústria automotiva regional, que envolve montadoras de veículos e autopeças. Somente montadoras e autopeças. Não adianta procurar porque a resposta correta não está disponível em canto algum.
Mas tenho uma resposta à espera de atualização numérica e também pronta para ser especulativamente atualizada. Especulação na área econômica que honre a etimologia respaldada em ética e profissionalismo não é algo aleatório e intelectualmente desonesto porque precisa contar com bases lógicas. É disso que, também, trataremos nesta análise.
Se você pensa que o Grande ABC segue firme e forte no setor automotivo, a nossa Doença Holandesa, está redondamente enganado. Mais que enganado, está sendo olimpicamente driblado. Agora, se você tem certeza que o Grande ABC Automotivo está cambaleando, também precisa rever conceitos. Estamos mesmo é afundando. Imagine então com os efeitos diretos e colaterais do desembarque chinês sob aplausos de nossas lideranças sindicais?
Os dados mais atualizados pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), publicados há algum tempo nesta revista digital, em contexto diferente deste, são arrepiantes. Mas como são dados de 12 anos, encerrados em 2019, tudo indica pelo andar do calendário, que serão piores quando renovados com o enxerto dos anos subsequentes, nada modificadores na região em termos estruturais.
Vamos fazer um teste de regionalidade? Que tal algumas alternativas para o leitor participar dessa brincadeira numérica, de fato uma tragédia social? Vamos ver quem mais se aproxima dos números do período encerrado em 2019? O resultado seria uma moleza diante do cenário que já antecipei? Trata-se de teste simples e viciado no nascedouro do enunciado?
Considerando-se como marco inicial o ano de 2007 e esticando o estudo até 2019, qual foi o comportamento da indústria automotiva do Grande ABC no Estado de São Paulo?
a) Quede de participação no Estado de São Paulo de 5%.
b) Queda de participação no Estado de São Paulo de 12%.
c) Queda de participação no Estado de São Paulo de 16%.
d) Queda de participação no Estado de São Paulo de 25%.
Se o leitor simplesmente arriscar uma das respostas, tenha certeza que o valor do chute é tão sofrível quanto o desconhecimento formal. Transformar em loteria o que é um tema visceral ao destino do Grande ABC até pode valer para testar o grau de sorte neste dia, quem sabe com extensão a alguma jogatina que renda uns trocados ou milhões, mas em nada contribui às questões de regionalidade econômica.
INDÚSTRIA NO COMANDO
Porém, contudo, todavia e o escambau, se a resposta for convicta, dessas embasadas em conhecimento agregado, vale até como resposta certa um número que não seja exatamente o que expôs o estudo da Fiesp, desde que não fuja da margem de erro de algo como dois pontos percentuais. Dois pontos percentuais de verdade, não dois pontos percentuais desses institutos de pesquisas presidenciais que brincam com os consumidores de informação com o deliberado e programado objetivo de tapear o eleitorado.
Antes de oferecer a resposta correta, faço uma emenda importantíssima, relevante, ao mesmo tempo duramente preocupante. O setor industrial, que inclui o setor automotivo, continua a ser o carro-chefe da economia regional. A participação relativa no conjunto da Economia, que envolve todas as atividades econômicas, é de 24%. É metade do ano 2000, mas segue irradiando a maquinaria das demais atividades. Detroit à Brasileira é um processo sistêmico que lembra sapo em água fervente. Só daríamos conta dos danos quando não haveria mais salvação. Aliás, se salvação for o nome de qualidade de vida geral na região e também de mobilidade social, há muito fomos para o brejo. A Classe Média Vulnerável, os Pobres e os Miseráveis são 70% das residências da região. São Caetano é exceção.
VEJA A RESPOSTA
Vamos então à resposta? Qual foi o comportamento do PIB Automotivo do Grande ABC relativamente ao Estado de São Paulo no período que começa em 2007 e se encerra em 2019?
Em 2007, sempre conforme dados oficiais da Fiesp, o PIB Automotivo do Grande ABC representava em valores monetários atualizados R$ 25,6 bilhões. O Estado de São Paulo registrava participação monetária no setor
de R$ 40,8 bilhões, excluindo-se os dados da região. Na ponta do estudo, em 2019, o valor monetário do PIB Automotivo do Grande ABC correspondia a apenas R$ 12,4 bilhões, enquanto o Estado de São Paulo sem o Grande ABC, passou a somar R$ 33,6 bilhões.
Note-se, portanto, que a queda relativa do Grande ABC no período de 12 anos foi de R$ 13,4 bilhões, ou R$ 1,12 bilhão em média a cada ano. No caso do Estado de São Paulo, sempre excluindo os dados do Grande ABC, a queda de participação interna do setor automotivo é de R$ 7,2 bilhões, média anual de R$ 600 milhões. Uma diferença e tanto.
Quando se consideram as participações relativas do setor automotivo no PIB Industrial do Estado de São Paulo no período de 12 anos, o que temos é o seguinte mapeamento: em 2007 a distância registrada era de R$ 15,2 bilhões favoráveis ao Estado. A indústria automotiva representava R$ 40,8 bilhões do PIB Industrial paulista naquela temporada, ante os R$ 25,6 bilhões já mencionados do Grande ABC. Em 2019, a distância relativa aumentou R$ 21,2 bilhões favoravelmente ao Estado, resultado de R$ 33,6 bilhões ante R$ 12,4 bilhões.
O Estado de São Paulo como um todo e sem considerar os números do Grande ABC teve o PIB Automotivo reduzido em R$ 17,5 bilhões no período, enquanto o Grande ABC visto como território exclusivo viu mais da metade da riqueza sobrerrodas ir para as profundezas da desindustrialização, com queda de R$ 51,6 bilhões.
CONTA DE 12 ANOS
Agora vou fazer as contas do período de 12 anos: com os R$ 25,6 bilhões registrados em 2007, o PIB Automotivo do Grande ABC representava participação de 62,75% do PIB Automotivo do Estado de São Paulo (exceto o Grande ABC) de 40. Na ponta da tabela, em 2019, a participação relativa do Grande ABC caiu para 36,90% diante dos números do Estado – R$ 12,4 bilhões ante R$ 33,6 bilhões. Conclusão: a queda relativa da participação regional no PIB Automotivo Estadual caiu 25,85 pontos percentuais. A média anual de perdas do Grande ABC é de 2,15 pontos percentuais.
O pior de tudo isso não é lamentar o passado com data provisória de validade de 2019 e que contamina o futuro que começou em seguida. O pior de tudo isso é saber se a tendência de fragilização do PIB Automotivo do Grande ABC em meio ao enfraquecimento do PIB Industrial do Grande ABC como um todo, tanto no interior da geografia regional quanto em âmbito estadual, seguirá tão perturbadora.
Novos estudos do conglomerado Fiesp/Ciesp vão dar respostas que o Grande ABC já deveria ter contabilizado com um grupo específico de profissionais dedicados à regionalidade no sentido de competitividade econômica de garra e competência semelhantes à vitória dos argentinos ontem na Copa do Mundo. A queda automotiva é muito pior que as trapalhadas nas Malvinas. Não nos damos conta ainda de que a concorrência é gradualmente mortal. E temos adversários internos que de libertários no passado se tornaram entreguistas em nome de um partido político.
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13/07/2026 SINDICALISMO DE CONVENIÊNCIAS