Imprensa

ARCA DE NOÉ CONTRA O
GATABORRALHEIRISMO (20)

DANIEL LIMA - 13/08/2026

Talvez o que se verá em seguida seja o melhor resumo da vida de Celso Daniel como administrador público completamente fora da curva de convencionalismos dos prefeitos do Grande ABC ao longo da história. Celso Daniel foi  regionalista desbravador e reformista por excelência. Tive o privilégio de acompanhar de perto os resultados práticos das duas vitórias de Celso Daniel à Prefeitura de Santo André, em 1996 e 2000. E de retratar tudo isso numa terceira matéria-análise, quando vivemos o choque da perda provocada pelo assassinato, em janeiro de 2002. A criminalidade devastava o Estado de São Paulo e, particularmente, a Região Metropolitana.

Reproduzir aqueles três textos é uma oportunidade de ouro. Os leitores poderão entender a grandeza de Celso Daniel muito acima de debates políticos nestes tempos em que a direita e a esquerda digladiam na arena de uma democracia de exageros e abusos, antes usurpada pela paz de cemitério de acertos entre petistas e tucanos.

O outro lado de Celso Daniel, precisamente o Caso Celso Daniel, que tratará do assassinato propriamente dito, merecerá e exigirá capitulo ou capítulos específicos. São porções distintas que permaneceriam distintas não fossem os desdobramentos do sequestro seguido de morte uma combinação ardilosamente preparada e encetada pelo governo estadual de Geraldo Alckmin em seguida à politização do caso pelos petistas.

Mas isso é outra história. Temos ainda 40 capítulos desta macrossérie para acondicionar a tragédia em contexto apropriado – de tragédia sem vinculação política.  Como, aliás, concluíram investigações policiais. Há ainda quem propague folclores como munição nestes tempos de polarização. Faz parte do jogo. 

PRIMEIRA MATÉRIA

O que se segue é a primeira das três matérias selecionadas, publicada na edição de novembro de 1996 da revista LivreMercado sob o título “Celso Daniel garante que vai ser prefeito de toda a comunidade”:

O prefeito eleito de Santo André, Celso Daniel, engenheiro civil e professor da Fundação Getúlio Vargas, não se deixou encantar pelo volume de votos que recebeu em 3 de outubro e que lhe conferiu a maior votação em números absolutos e relativos do Grande ABC. Foram 205.317 eleitores, ou 61% dos votos válidos, que o recolocam a partir de 1º de janeiro no Paço Municipal de Santo André.

Aos 46 anos de idade e experiência de parlamentar federal de quase três anos de mandato, Celso Daniel transmite a impressão de que marcará nova gestão à frente da Prefeitura pela flexibilidade. Para começar, garante em tom firme que pretende administrar com o partido (PT), mas não sob as rédeas do partido, num aviso emblemático às bases mais radicais de que não vai repetir os descuidos de comando do primeiro mandato.

VOTO E GOVERNO

O Celso Daniel Bom de Voto quer também se consagrar como Bom de Governo. O rompimento com o passado recente de administrador vinculado demais ao Partido dos Trabalhadores não lhe provoca frases de rebeldia explícita. Com a polidez usual, afirma que não se prenderá a eventuais obstruções para nomear todos os membros do secretariado, os quais pretende anunciar até o final deste mês. Uma das primeiras providências depois da avalanche de votos de outubro foi reunir-se com os principais integrantes do PT em Santo André. Entre os assuntos abordados, posicionou-se quanto aos executivos públicos que vão lhe dar suporte técnico-operacional.

“Posso garantir que o nível de renovação do quadro de secretários em relação à primeira gestão é grande. E teremos pessoas não necessariamente vinculadas ao partido, mas sim comprometidas com nosso programa de governo”– disse Celso Daniel durante encontro informal com membros do Fórum da Cidadania, três dias antes de embarcar para a Europa, onde pretende colecionar novos exemplares de gestão pública para eventuais adaptações não só em Santo André, sua maior base eleitoral, mas em todo o Grande ABC, aí como integrante do Consórcio Intermunicipal.

CONCEITO DE GOVERNANÇA

A visão de Celso Daniel sobre administração pública conflita com os modelos usuais no Brasil. Ele é contrário ao Estado-todo-poderoso, em suas várias esferas: “É preciso mudar o conceito de governo para conceito de governança”– costuma afirmar. Isto quer dizer que quer trocar o autoritarismo histórico de administração pública de gabinete pela democracia da representatividade social.

Neste ponto também antagoniza-se com os padrões socialistas que o próprio PT disseminou em várias de suas administrações pelo País. Celso Daniel chama atenção para o fato de que, desde o final da década passada, escreve artigos sobre a necessidade de horizontalizar as decisões públicas sem, entretanto, cair no extremo oposto do preconceito contra a classe de empreendedores e de estratos sociais mais nobres. Enfim, o novo prefeito de Santo André contesta o antigo modelo soviético de conselhos populares que exalam repulsa à integração de camadas sociais, econômicas e políticas distintas.

Recusando-se a assumir postura de liderança do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC, por entender que isso significaria disputa de poder e de espaço político que não lhe interessa e que não convém a quem espera revitalizar o Grande ABC, Celso Daniel só antecipa que não lhe faltará empenho para dar ao organismo formado pelos sete prefeitos caráter de unidade que faltou na atual gestão.

PROCESSO INTERROMPIDO

Elogiou Valdírio Prisco, atual presidente do Consórcio, pelas iniciativas tomadas, mas não deixou de lamentar a ausência coletiva dos demais. Embora não tenha dito formalmente, deu a entender que o desempenho do Consórcio Intermunicipal interrompeu processo de integração regional alcançado durante a gestão dos prefeitos que antecederam os atuais.

A unidade do Consórcio é prioritária para Celso Daniel, mas deve ser acompanhada, numa segunda etapa, da profissionalização de sua estrutura. A nova formatação incluiria também a participação deliberativa da sociedade civil, democratizando-se a responsabilidade de conduzir a necessária reviravolta socioeconômica, atuando como instância suprema de planejamento estratégico do Grande ABC.

NOVA IDENTIDADE

O pretendido novo Consórcio Intermunicipal provavelmente, se depender de Celso Daniel, mudaria até de identidade. Teria outra denominação e se transformaria numa autarquia metropolitana do Grande ABC, com recursos financeiros próprios para desenvolver atividades de estudos, planejamento e obras individuais ou em conjunto entre os próprios Municípios ou também com a participação do Estado e da União. Enfim, comporia um novo arranjo institucional.

Esse fortalecimento intrarregional permitiria relação menos dependente do governo estadual. Celso Daniel não diz com todas as letras, mas a concepção de integração do Grande ABC não cede espaços para uma participação igualitária ou prevalecedora do Estado. Ele não hostiliza o governo estadual, ouve com atenção interlocutores do Fórum da Cidadania que falam sobre os avanços dos últimos tempos, entre os quais promessas de secretários estaduais de investimentos na infra-estrutura regional, mas a autonomia institucional do Grande ABC transpira em suas frases.

Tanto que critica o figurino adotado pela Baixada Santista, que já virou região metropolitana, segundo projeto do governador Mário Covas aprovado pela Assembleia Legislativa. A Baixada está criando autarquia pública que gerenciará a metropolização em parceria paritária com o governo estadual. Celso Daniel afirma que falta comunidade para avalizar a nova configuração jurídico-institucional de Baixada Santista. “Nesse ponto, estamos mais avançados, porque temos o Fórum da Cidadania como aglutinador da sociedade” — disse durante o encontro na Associação Comercial e Industrial de Santo André, referindo-se ao fato de que o avanço na Baixada Santista deu-se apenas entre a cúpula político-administrativa dos nove Municípios.

ESPAÇO DA CIDADANIA

Celso Daniel teve também de explicar posição sobre a convivência entre o Fórum da Cidadania e a autarquia regional que pretende ver constituída: “Jamais disse ou insinuei que o Fórum devesse ser esvaziado. Pelo contrário: acho que é imprescindível a participação de representantes do Fórum da Cidadania nas ações de planejamento e deliberativas da autarquia. Não pretendemos cooptar ninguém. Nosso objetivo é participação com igualdade” — reforçou sua defesa.

Um dos sinais evidentes de que o Celso Daniel que venceu Duílio Pisaneschi nas últimas eleições é mais maduro que o Celso Daniel que derrotou o já falecido José Amazonas em 1988, e de que as amarras do PT não lhe prendem mais os passos, gestos e ações na mesma intensidade de antes, é a composição de secretariado não exclusivamente petista.

Para quem não infere importância nessa decisão, basta dizer que o exclusivismo é uma das vacas sagradas de parcela ainda ponderável das bases do partido, extremamente corporativas. Celso Daniel reafirmou decisão de implantar no organograma da Prefeitura a Secretaria de Indústria e Comércio em caráter impostergável. “A economia é o tema-eixo de qualquer administrador que pretende ajudar a mudar a realidade do Grande ABC” — disse.

MUITA ESPECULAÇÃO

O ambiente descontraído do encontro na sala de reuniões da Acisa permitiu até especulações sobre o perfil do futuro secretário da área econômica. Celso Daniel não se furtou a dizer que quer um executivo público eminentemente operador e suficientemente versátil no relacionamento interpessoal para estabelecer negociações com os parceiros sociais. Mais não disse. Interlocutores do novo prefeito de Santo André acreditam que ele pode surpreender com um nome ligado ao setor empresarial.

Um dos que despontariam na bolsa de apostas é Fausto Cestari, diretor de metalúrgica em Mauá e coordenador-geral do Fórum da Cidadania. Cestari é habilidoso nos contatos pessoais, tem formação empresarial diferenciada porque ressalta aspectos sociais normalmente desprezados pela classe, provavelmente porque em realidade é mais médico pediatra que o convencional representante do capital, e alcançou grau de respeitabilidade que lhe franqueia todos os segmentos.

Além disso, é velho amigo de Celso Daniel. Ambos jogaram basquetebol na Pirelli nos tempos de juventude. Fausto Cestari participou do encontro na Acisa, mas os demais interlocutores preferiram a discrição de não apontá-lo como secretariável. Diferente de Valter Moura, presidente da Associação Comercial e Industrial de São Bernardo, e Filipe dos Anjos Marques, presidente da Associação Comercial e Industrial de Diadema, apontados durante a reunião como virtuais secretários de indústria e comércio de seus Municípios.

SEMPRE NA FRENTE

A nomeação do economista Antonio Carlos Granado, ex-supersecretário na primeira gestão de Celso Daniel, também ganha força na bolsa de apostas. Homem de extrema confiança do prefeito eleito, bem articulado, Granado só não conseguiu indicação do PT para concorrer com Newton Brandão nas eleições de 1993 porque a ala sindical atropelou Celso Daniel e apoiou o então deputado federal e vice-prefeito José Cicote, pouco afinado com o Paço.

Granado ainda estaria na alça de mira de Celso Daniel como eventual concorrente ao Paço nas próximas eleições e a Secretaria relacionada ao desenvolvimento econômico, potencialmente a de maior visibilidade na próxima gestão, lhe daria generosos espaços na mídia, bem como permitiria maior aproximação com representantes do capital, algo que o PT tem muitas dificuldades de alcançar.

Seja qual for o nome indicado — um sindicalista experiente preencheria o perfil descrito por Celso Daniel, mas carregaria carga de histórica beligerância entre capital e trabalho que não conviria ao marketing de aproximação entre o Poder Público e a iniciativa privada — o prefeito eleito de Santo André não deixou de acrescentar, com a sinceridade de quem é apaixonado por Economia, que exercerá pessoalmente espécie de supervisão especial da Secretaria, acima até da natural atribuição reservada a quem foi eleito para comandar o município. Celso Daniel reconhece que o futuro de Santo André e da região está nas linhas do desenvolvimento econômico.

BATERIA DE ENCONTROS

Uma bateria de encontros com sindicalistas, empresários, intelectuais e administradores públicos marca a viagem de Celso Daniel à Alemanha e à Itália. O prefeito eleito de Santo André embarcou no último 21 de outubro e só retorna em 8 de novembro. O roteiro da viagem não chega a lembrar a maratona da campanha eleitoral, quando chegou a cumprir 17 compromissos num mesmo dia, mas certamente será exaustiva. “Vão me sobrar o sábado e o domingo para descansar; afinal não sou de ferro”– brincou Celso Daniel, duas horas antes do embarque.

A viagem teria sido cancelada se Celso Daniel perdesse a eleição. Afinal, ele vai tratar de gestão pública e suas variáveis. Passará 21 dias no coração das grandes transformações que ocorrem na Europa, onde o Estado-do-Bem-Estar-Social está sucumbindo diante da globalização e onde o neoliberalismo não é visto como melhor alternativa. A grande interrogação que marca o mundo nestes dias, de fracasso do Estado e da graduação do livre-mercado, seduz Celso Daniel. Autorizado pela Câmara Federal, ele viaja em missão oficial mas todas as despesas constarão de sua contabilidade pessoal.

CIDADE-IRMÃ

Celso Daniel só não alimentou expectativas de que voltará com a bagagem repleta de novidades, “bem ao gosto da imprensa”. Ele vai enriquecer conhecimentos pessoais e profissionais na esperança de que possa somar também vantagens municipais ou regionais. Citou, para expressar esperança de que não ficará apenas no terreno da teoria, a aplicação de regime tripartite de debates sobre o Porto de Santos pela ex-prefeita Telma de Souza, quando fez viagem semelhante e conheceu o sistema portuário de Barcelona, na Espanha.

Celso Daniel pretende propor ao prefeito de Sesto San Giovanni, no Norte da Itália, região onde concentrará contatos, o selo de cidade-irmã de Santo André, por observar semelhanças econômicas entre os dois municípios, igualmente industrializados e em processo de esvaziamento. Cidades-irmãs costumam trocar experiências em vários campos, num intercâmbio que Celso Daniel observa com atenção de quem sabe que a globalização veio para ficar.

Embora nem fale alemão e italiano, Celso Daniel seguiu para os dois países certo de que as dificuldades serão superadas por intérpretes colocados à disposição por organizações anfitriãs, entre as quais fundações privadas e públicas. Com fama de político em tempo integral, Celso Daniel provavelmente ocupará os sábados e domingos para consolidar projetos como novo prefeito de Santo André, a partir de 1° de janeiro. 

SEGUNDA MATÉRIA

A segunda matéria foi publicada na edição de agosto de 2000 da revista LivreMercado sob  o título interno (e de capa)  “Bom de governo, bom de voto?:

Bom de voto, bom de governo? Quase quatro anos depois de entrevista exclusiva, logo após ser eleito pela segunda vez prefeito de Santo André com a maior votação regional em números absolutos e proporcionais (205.317 eleitores, ou 52,38% dos votos válidos), o prefeito Celso Daniel está novamente em campanha com a vantagem do favoritismo nas pesquisas. Tudo indica que ele conseguirá eliminar de vez a interrogação da capa de LivreMercado de novembro de 1996. Por enquanto, prevalece a interrogação numa sutil e providencial inversão no título de capa, que passou a ser Bom de governo, bom de voto?

Calma! Isso não significa que o agora cinquentão administrador do Partido dos Trabalhadores seja modelo supremo de gestor público que o Grande ABC em crise econômica e social necessita. Celso Daniel ainda não atingiu o patamar imaginado pelos mais exigentes.

Terá mais quatro anos para se consagrar provavelmente como o maior homem público que já passou pela Prefeitura de Santo André e pelo Grande ABC. Ou então como grande esperança que se desvaneceu no enfrentamento de problemas que exigem mais que preparo técnico e experiência. Exigem dose sobreposta de ousadia.

SEM VAREJISMOS

Esqueçam o varejo político e administrativo que costuma pontuar no noticiário e construir reputações que a história trata de desmistificar, para o bem ou para o mal.

Uma administração pública não deve ser examinada prioritariamente sob a lupa ideológica, partidária ou mesmo pragmática de questões circunstanciais.

O administrador de recursos do contribuinte que se escraviza em contemporizar as adversidades do dia-a-dia ou de lamber a própria cria de factoides corre o grande risco de naufragar.

Apagar incêndios ou festejar banalidades não é a melhor alternativa para quem está decidido a ficar na história. Essa é uma vantagem singular de Celso Daniel em relação a grande parte dos políticos brasileiros.

Engenheiro e economista, Celso Daniel foi moldado pela lógica de que dois mais dois são quatro, algo que a usual interpretação política muitas vezes transforma em heresia. Mais maduro nos últimos quatro anos, esse filho de político que ocupou o Legislativo de Santo André e hoje dá nome ao Estádio Municipal conseguiu acertar as contas com uma promessa pós-eleição de 1995: governaria Santo André com a comunidade.

SECTARISMO PETISTA

Conseguiu desvencilhar-se na medida do possível e do viável do sectarismo do PT que ainda se manifesta nos corredores do Paço Municipal. Enfim, conseguiu administrar as principais questões acima da parcela exageradamente esquerdista do partido, o que não é tarefa que se despreze quando se trata da agremiação política mais coerente, e por isso mesmo mais complexa, do País.

A aprovação de seu segundo mandato está comprovada pelas pesquisas e também pelo desespero dos opositores. Ou não é algo exótico rebocar a candidatura do deputado federal e apresentador de televisão Celso Russomanno, cuja intimidade com Santo André é semelhante à de Mike Tyson com a diplomacia?

Mas não é necessariamente por causa dos indicadores eleitorais que Celso Daniel tirou a interrogação da Reportagem de Capa de quatro anos atrás e ao que tudo indica caminha para supressão em relação à Reportagem de Capa desta edição.

Afinal, eleitores têm preferências que nem sempre resistem ao compromisso com o futuro. Geralmente vivem de populismos imediatos cujos efeitos em forma de déficit público e de corrupção são fartamente conhecidos.

LIDERANDO MUDANÇAS

Celso Daniel está aprovado porque liderou transformações domésticas, no âmbito de Santo André, e regionais, como um dos principais condutores do processo de regionalização institucional que o Grande ABC simplesmente desconhecia.

Celso Daniel é dos raros administradores públicos que conseguem ser simultaneamente centralizadores e descentralizadores. Delega sem perder as rédeas. O aparato que lhe dá sustentação administrativa consegue torná-lo capitalizador dos sucessos e socializador dos eventuais tropeços.

Exemplos? Quando estourou a crise do corte de funcionários e salários na Prefeitura, quem apareceu mais no noticiário? A secretária Miriam Belchior. Quando emergiu a polêmica da chamada indústria das multas, quem botou a cara para bater? O também secretário Klinger de Oliveira. Quando se anunciou que o Semasa andou exagerando nas contas de água, quem se meteu a tourear a Imprensa? O superintendente Maurício Mindrisz. Quando desencadeou a controvérsia sobre a mudança de rumo do Parque Guaraciaba, que de reserva verde passaria a recepcionar um lixão, quem foi para a linha de combate? Celso Daniel não, certamente.

DECISÕES COLEGIADAS

Os exemplos não tornam o prefeito um oportunista contumaz, como tentam fazer crer os opositores. O princípio de decisões colegiadas com secretários e auxiliares diretos é o preço natural de cobranças. A vantagem de ceder em nome do grupo de comando de uma administração, um dos pilares da esquerda mais contemporânea, é que o ônus dos contratempos também é pulverizado.

Critica-se a atomização controlada da gestão de Celso Daniel sob o conceito ultrapassado do centralismo de decisões, postura tipicamente de direita escorraçada nas empresas mais modernas e que aos poucos invade o Poder Público endemicamente refratário à modernidade.

O que sublinha o traço diferencial de Celso Daniel em relação aos prefeitos que o antecederam em Santo André e também em outros municípios é sua visão regionalista conectada aos movimentos internacionais sob a força avassaladora da globalização.

Pode parecer simples praticar regionalismo num Grande ABC tão intensamente regional, onde limites territoriais, econômicos e culturais praticamente se confundem. Apenas aparentemente isso é verdade. Tanto que somente de 1996 para cá, quando assumiu a leva de atuais prefeitos, conceitos de regionalidade passaram a ser exercitados. Mesmo assim, em grau apenas razoavelmente satisfatório, porque nem todos os titulares de Executivo abrem mão de atribuições domésticas.

CONSÓRCIO DE VOLTA

Celso Daniel pertence ao grupo de lideranças políticas que fizeram ressuscitar o Consórcio Intermunicipal de Prefeitos. A Câmara Regional, composição de gestores públicos, privados e sociais da região com participação do governo do Estado, também teve seu empenho. A Agência de Desenvolvimento Econômico, braço estatístico e de marketing da Câmara Regional, é fruto de seu esforço e de sua presidência.

Todas essas entidades colocaram fogo nas relações institucionais na região. Saiu-se da etapa de marasmo, do chove-não-molha. Os altos e baixos dessas relações, fundamentalmente por questões ligadas ao calendário eleitoral, não retiram a importância das transformações regionais.

O candidato que busca ser triprefeito em Santo André, façanha que só o antecessor Newton Brandão conseguiu na história, exagera apenas na entonação que dá ao sentimento regionalista. Por convicção e não por teimosia, é um dos poucos defensores do não desmembramento do Grande ABC da Região Metropolitana de São Paulo. Nenhum argumento de Celso Daniel resiste ao fato de que a RMSP é um fracasso de 30 anos que marginalizou o Grande ABC em praticamente todas as deliberações. Tanto é verdade que foi preciso criar a informal Câmara Regional.

FANTASMA DA SEPARAÇÃO

Celso Daniel vê o fantasma da separação como algo que comprometeria a natural sinergia entre a região e a Capital. A Região Metropolitana do Grande ABC, ao contrário do que imagina o prefeito, aproximaria o governo do Estado da região simplesmente porque essa relação está estimulada na legislação que já premiou a Baixada Santista e a Grande Campinas. A informalidade que marca a Câmara Regional é uma deficiência congênita porque num período como o atual, de disputa eleitoral, praticamente desativa a organização.

O escorregão conceitual sobre a metropolização do Grande ABC é pouco, entretanto, para obscurecer o desempenho de Celso Daniel em âmbito regional. Até porque há tempo para reformular a posição. Quem sabe num novo mandato à frente do Consórcio Intermunicipal Celso Daniel possa ter massa crítica para retomar o tema com mais força e sob ótica mais apropriada.

Para isso, terá de costurar articulações mais consistentes e retomar o projeto de metropolização de direito com o suporte de deputados estaduais e do Palácio dos Bandeirantes. São tarefas para as quais a atuação como comandante do Paço Municipal de Santo André não confere o mesmo respaldo da presidência do Consórcio de Prefeitos.

EXTRAPOLANDO LIMITES

Por isso, os eventuais quatro novos anos de Prefeitura vão ser importantíssimos para Celso Daniel consolidar prestígio regional e, com isso, tentar traduzir em fatos o que a imaginação política estimula, colocando-o como predileto do presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, para uma das vagas do partido para o Senado.

À parte os naturais obstáculos partidários, já que também o PT não se desvencilha de disputas internas pelo estrelato, Celso Daniel sabe que a densidade eleitoral de que necessita precisa extrapolar os limites de uma região que só atrai a mídia da Capital quando se trata de desgraças do cotidiano.

Esses devaneios político-eleitorais devem ser descartados como sustentação da ascensão de Celso Daniel. Não seria o fato de ganhar a disputa no partido e virar candidato a senador que o tornaria obrigatoriamente competente. A avaliação de seu segundo mandato tem o peso do regionalismo em primeiro plano e das ações domésticas como complementaridade.

Nada mais compreensivo, entretanto, que, para o eleitor de Santo André, a gestão de Celso Daniel como prefeito vale mais que a de Celso Daniel como regionalista. Aliás, é por isso que está tão bem nas pesquisas já que o eleitorado ainda tem visão extremamente municipalista. A situação, porém, não descarta uma possibilidade que também poderia tornar sua gestão aprovada.

VALIDO A PENA

Se Celso Daniel não tivesse avançado em macroproblemas de Santo André mas confirmasse comportamento regional que o coloca entre os principais responsáveis pela integração do Grande ABC, mesmo assim seu mandato teria valido a pena para a região e também para seu currículo pessoal. Tanto quanto, para seu equilíbrio físico-emocional, o bate-bola de basquete que pratica na Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Santo André toda semana, lembrando os velhos tempos de atleta da Pirelli.

Ao superar as armadilhas do cotidiano, principalmente porque soube utilizar auxiliares-chaves tanto no pelotão de choque quando na mesa de deliberações, Celso Daniel pode usufruir das conquistas. Ou não terá sido ponto importante para sua administração quebrar o distanciamento entre Poder Público e contribuintes ao criar a inédita figura municipal do ombudsman?

A secretária Miriam Belchior deu tratos à bola, acompanhou todo o processo, enquanto o prefeito atuava nos encontros públicos com a humildade de simples auxiliar. Para coroar a proposta, que passou pela democracia do Fórum da Cidadania antes de chegar ao Legislativo, foi eleito um representante das chamadas forças conservadoras de Santo André, o ex-presidente da Acisa (Associação Comercial e Industrial), Saul Gelman.

PLURALIDADE PROVADA

Por mais que o processo de eleição de Gelman tenha sido transparente, não faltaram ações de bastidores para instalá-lo no cargo. Era importante para a pluralidade perseguida por Celso Daniel ter um representante da tradição empresarial de Santo André para ouvir as queixas dos moradores contra a própria administração pública.

A inovação não se limitou ao ombudsman. Um feixe de programas sociais e administrativos que une qualidade de serviços públicos e visibilidade de marketing passou a ser reconhecido pelos resultados e coleciona títulos.

São os casos do Programa de Modernidade Administrativa, que revolucionou o atendimento ao contribuinte dentro e fora do Paço Municipal, liderado operacionalmente pela secretária Miriam Belchior, e o Programa de Orçamento Participativo, que tornou Pedro Pontual seu principal condutor.

EIXO TAMANDUATEHY

Celso Daniel também lançou estacas para o futuro ao anunciar o ambicioso Eixo Tamanduatehy como nova centralidade econômica e social do Município e ao levar para a comunidade o projeto Santo André Cidade Futuro.

No primeiro caso, alguns resultados já apareceram, como a reestruturação da Avenida Industrial, a nova estação rodoviária, a iminente Cidade Pirelli e o adiado mas já em fase final de construção Globalshopping.

No segundo caso, uma grande assembleia com 400 representantes da comunidade formalizou extensa carta de intenções com referências globais para os próximos 20 anos, num processo que passou pelo crivo de quatro mil participantes nas várias etapas preliminares. Os programas também tiveram auxiliares do prefeito elevados ao primeiro plano. No caso do Tamanduatehy, foi o ex-vereador paulistano Maurício Faria. No caso de Santo André Cidade Futuro, Teresinha dos Santos ocupou a ribalta.

MAIS LIBERDADE

O prefeito de Santo André demorou sete anos — a soma de seus dois mandatos –, mas conseguiu fazer aprovar legislação que acaba com as amarras para instalação e ampliação de unidades industriais. E radicalizou na medida, eliminando da geografia municipal qualquer tipo de restrição. Um monumento ao pragmatismo, já que herdou do passado de riqueza de investimentos um dinossáurico rosário de impedimentos que ajudam a explicar a ruína financeira do Município com a perda de 66% de arrecadação de ICMS nos últimos 25 anos.

Celso Daniel também resolveu abrir as porteiras do setor comercial e de serviços ao enviar há pouco um pacote de mudanças que deverão ser aprovadas pelo Legislativo. Santo André deixará de ter reserva de mercado territorial para empreendimentos como farmácias e postos de combustíveis, entre outras novidades. Quem for mais competente, vai se estabelecer.

A gênese das tentativas de recuperar a economia local está na criação da Secretaria de Desenvolvimento e Emprego, um dos primeiros atos no segundo mandato. O convite para Nelson Tadeu Pereira comandar a secretaria prova que Celso Daniel já não estava preso ao conservadorismo petista. Nelson Tadeu Pereira era executivo da Rhodia Têxtil de Santo André e sua nomeação causou mal-estar entre esquerdistas de carteirinha, que sugeriam um sindicalista para o cargo.

CONFRONTO DIFÍCIL

A administração de Celso Daniel no setor de desenvolvimento econômico é relativamente reticente se comparada à vertiginosa inquietação regional e à dedicação pública aos programas sociais. Mas mesmo assim não é justo sacrificá-lo. Se a estrutura física, material e de recursos humanos da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Emprego está muito aquém das necessidades emergenciais do Município, e se as medidas profiláticas vinculadas à legislação foram tomadas com atraso, também é verdadeiro que o prefeito em campanha ainda enfrenta dificuldades operacionais na área.

O colegiado da Prefeitura não está integralmente convencido de que a saída imediata para os problemas sociais que a exclusão econômica multiplica está no apressamento de terapias de desenvolvimento econômico. Para agravar o quadro, representantes do capital preferem a transpiração de apagar incêndios do dia-a-dia dos negócios à inspiração de movimentos de classe.

Embora muito mais atento que todos os antecessores, cujo desprezo à economia se justificava pela crença obtusa de que jamais Santo André perderia o tônus industrial, Celso Daniel não conseguiu acompanhar o ritmo do esfarelamento econômico local.

INVASÃO INCONTROLÁVEL

A invasão de grandes negócios em forma de supermercados, hipermercados, redes de franquias e shoppings foi observada em sua gestão com o mesmo olhar de encantamento dos índios à chegada dos colonizadores. As consequências da disparidade de forças entre os competidores domésticos e os descobridores do potencial de consumo da região estão nas estatísticas de mortalidade empresarial e nas placas de vende-se e aluga-se fixadas em portas cerradas que se enfileiram pelos centros comerciais e também na periferia abatida igualmente pela ascensão da criminalidade.

Com prováveis quatro novos anos de mandato pela frente, Celso Daniel poderá corrigir a rota do transatlântico de dificuldades da economia de Santo André. São inadiáveis as medidas para proteger e dar competitividade aos pequenos negócios comerciais e de serviços.

A recuperação física parcial do Calçadão da Oliveira Lima, retrato da decadência econômica de Santo André, precisa ser acompanhada pela restauração da confiança dos empreendedores atuais e novos, estratégia da qual a Prefeitura não pode se omitir.

O projeto Centro de Bairros, que contempla alguns pontos nobres do comércio da periferia, tem o efeito positivo da intenção de manter consumidores em seus respectivos habitats, mas também está sacrificado pela exuberância dos grandes concorrentes.

SEM RADICALISMOS

Políticas de desenvolvimento dos pequenos negócios industriais também devem merecer atenção redobrada, por mais que esse segmento sofra consequências de ações extra-Grande ABC, à esteira de solavancos macroeconômicos.

Espécie de discípulo de Tony Blair, primeiro-ministro britânico que nem se deixou converter ao radicalismo liberal da antecessora Margareth Thatcher nem ao extremismo socialista francês do também primeiro-ministro Lionel Jospin, Celso Daniel escolheu a chamada Terceira Via para exorcizar dois fantasmas que ainda atormentam Santo André e o Grande ABC às portas do Terceiro Milênio — o direitismo populista de quem só tem olhos para a megalomania de obras reluzentes e o esquerdismo exacerbado de quem só enxerga virtudes no outro lado do balcão das relações entre capital e trabalho — no trabalhador, é claro.

A composição diversificada do Grupo Coordenador do Projeto Santo André Cidade Futuro, a estruturação mista da Agência de Desenvolvimento Econômico e a multiplicidade de atores na Câmara Regional, instituições onde tanto representantes do capital como do trabalho se fazem presentes, revelam o amadurecimento de Celso Daniel e de outros atores políticos da região.

Trata-se, como se nota, de uma viagem sem volta, sejam quais forem os protagonistas do futuro. Até porque, bom senso não pode mesmo permitir retrocesso. 

TERCEIRA MATÉRIA 

A terceira matéria foi publicada na edição de fevereiro de 2002 sob o título interno “Celso Daniel sai de cena como maior gerenciador”:

O assassinato do prefeito Celso Daniel, do PT de Santo André, entre a noite de 19 e a madrugada de 20 de janeiro, entra para a história do Grande ABC como símbolo nacional de consternação pela perda de um político eleito pela terceira vez para o comando do Município. A tragédia que abalou o Brasil e colocou mais uma vez o Grande ABC na liderança de audiência de programas movidos a sangue, choro e revolta também instalou a sucessão estadual e a sucessão presidencial no radar de escaramuças partidárias que ultrapassaram todos os limites de oportunismo.

O sequestro encerrado com violência infiltra-se no âmago da debilidade estrutural da segurança pública porque coroou série de acontecimentos que não deixam dúvidas sobre a sinistra combinação de desenvolvimento econômico em estado quase vegetativo e embicamento da qualidade de vida, principalmente nas regiões metropolitanas.

O maior dos legados deixados por Celso Daniel foi valorizado por quase ninguém durante todos os dias de turbulências que começaram com o sequestro, aumentaram com o assassinato e ganharam formas ainda mais profundas com seu sepultamento e a série de versões que envolveram o crime.

MAIOR ENTRE TODOS

Celso Daniel foi o prefeito mais importante em toda a história político-administrativa da região por simples e lógica justificativa: ninguém na esfera pública pensou a regionalidade do Grande ABC como ele nem dispunha de arcabouço teórico tão variado e denso.

Depois que o corpo de Celso Daniel foi encontrado no chão de terra batida de Juquitiba, na Grande São Paulo, e desceu à terra fresca do túmulo do Cemitério da Saudade, na Vila Assunção, em Santo André, em intervalo de pouco mais de 36 horas que comoveu o Brasil e parece mudar as relações institucionais entre o combativo Partido dos Trabalhadores e o governo federal, a maior reverência que o Grande ABC poderá prestar-lhe é não esquecer a herança de responsabilidade regional que o prefeito destilou pioneiramente na área pública.

O engenheiro e professor de Economia Celso Daniel foi homem com visão de futuro num Grande ABC que insiste em olhar pelo retrovisor. É fato que tinha estilo próprio de inquietar-se com o horizonte regional. Não admitia publicamente, em momento algum, que particularmente sua Santo André era o maior exemplo de imprevidência administrativa dos antecessores. Também não admitia que demorou para se aperceber do empobrecimento da cidade que o viu nascer e que transformou seu pai, Bruno José Daniel, vereador, presidente da Câmara e secretário municipal.

Dissimular preocupação com o histórico quadro de empobrecimento econômico regional era a forma de Celso Daniel amenizar em público o que o atormentava reservadamente. Sim, ele se entregava aos questionamentos com seus botões ou com secretários municipais mais próximos no gabinete de trabalho. Já o apartamento despojado de classe média, sem computador e outros equipamentos eletrônicos, era geralmente refúgio de leitura e de um assíduo espectador de filmes clássicos de Ingmar Bergman, entre outros cineastas consagrados.

REGIÃO EM TRANSE

Celso Daniel reunia amplo conhecimento de que o Grande ABC mudou demais nos últimos 10 anos. A abertura econômica desenfreada, o fim da espiral inflacionária, a sobrevalorização do dólar durante os primeiros anos do Plano Real — essas novas regras de um mundo globalizado colocaram o Grande ABC em transe.

Sobretudo a indústria automotiva, que responde por grande parte do PIB regional e que é a atividade mais competitiva do mundo, atormentava Celso Daniel porque não parava de enxugar estruturas, recursos humanos, investir em tecnologia e em plantas fora do Grande ABC. Mesmo sem montadoras de veículos, Santo André sofria com o esquartejamento do parque fornecedor de autopeças, de capital familiar na maioria dos casos.

Seria bobagem esperar que Celso Daniel denunciasse tudo isso publicamente e que se juntasse aos poucos que, por não serem políticos, por não terem compromissos partidários, por serem mais agressivos, por quaisquer que fossem as razões, decidiram revelar os rombos que as mudanças econômicas operavam num transatlântico então envolto em mares calmos.

OUTRO COMPORTAMENTO

No fundo, no fundo, Celso Daniel temia ser mal interpretado e acusado de agente oficial do desestímulo a investimentos privados na região. Também evitava, com isso, dar corda aos exagerados que alçam o movimento sindical cutista à condição de algoz do capitalismo regional.

O comportamento do prefeito era outro quando tratava de esvaziamento econômico do Grande ABC e da necessidade de afastar o Complexo de Gata Borralheira das entranhas da região. A grandiosidade e a centralidade da vizinha São Paulo, que frequentava com assiduidade de professor da Fundação Getúlio Vargas e da PUC, encantavam Celso Daniel mas não o tornavam necessariamente um deslocado representante da província regional.

Tanto que procurava inspirar-se na maior metrópole do Hemisfério Sul para produzir uma Santo André mais cosmopolita sem que isso transpirasse colonialismo e a confirmação do Complexo de Gata Borralheira. Celso Daniel tinha amor próprio municipal e regional suficiente para dar ares de equivalência à Capital nos projetos e programas sociais e econômicos. 

COM SOFREGUIDÃO

Durante 11 anos, de 1990 a 2000, Celso Daniel lançou-se à regionalidade com sofreguidão. Entre o primeiro mandato de prefeito e o quarto ano da segunda gestão, foi um raro caso de administrador municipal envolvido com a liderança doutrinária e operacional da integração regional. Perguntem quem liderou a construção do Consórcio Intermunicipal de Prefeitos, e receberão como resposta o nome de Celso Daniel. Ele comandou o movimento que Luiz Tortorello, Maurício Soares e José de Filippi Júnior, também prefeitos nos últimos cinco anos, seguiram com empenho. Principalmente os dois últimos.

Quando terminou sua primeira gestão, Celso Daniel virou deputado federal. Enquanto isso, os prefeitos eleitos em 1992 praticamente desativaram o Consórcio Intermunicipal. Newton Brandão, Walter Demarchi, José Augusto da Silva Ramos, Leonel Damo, Antonio Dall’Anese e Valdírio Prisco voltaram ao jogo municipalista que conferiu à história política do Grande ABC o sentido de isolamento de doenças contagiosas.

INDIVIDUALISMOS

Cada novo prefeito tratou de cuidar de interesses limitados ao respectivo território, como se economia, cultura, agentes sociais e atividades políticas devessem obedecer rigidamente o traçado do mapa construído pela série de emancipações nos anos 50 e 60.

A trajetória inicial de Celso Daniel multimunicipal contribui para entender por que tantas figurinhas carimbadas, principalmente do Partido dos Trabalhadores, tomaram o Paço de Santo André no sábado 19 de janeiro, quando houve a divulgação do sequestro. Celso Daniel rompeu as fronteiras provinciais de Santo André e do Grande ABC muito antes de ser convidado por Lula da Silva a coordenar o programa presidencial de governo do PT, inclusive como professor da FGV. Tivesse se enclausurado nos guetos municipais, como tantos outros administradores públicos da região, não teria colaboração alguma a dar no plano nacional.

CONSAGRAÇÃO EM CONGRESSO

O olhar prospectivo de regionalidade provavelmente seria uma das marcas de Celso Daniel como futuro ministro de Indústria e Comércio, posto que lhe estaria reservado no organograma petista. Sim, um ministério de ação, de envolvimento com as forças produtivas. O Ministério do Planejamento, também sugerido, recomendaria um perfil fortemente de coordenação, característica que o prefeito também dominava.

Celso Daniel saltou para a agenda nacional do PT e elaborou o plano de governo de Lula da Silva, apresentado no final do ano passado em Recife, Pernambuco. O congresso consagrou seu nome no partido frente a representantes mais ortodoxos que insistem em hostilizar o capital. O então prefeito de Santo André soube neutralizar as forças mais reacionárias do partido. Utilizou para isso o poder de sedução de quem cultivava o diálogo e de quem construía argumentos com extrema coerência. Saiu de Recife com a cabeça coroada.

PRESTÍGIO EM ALTA

Se Celso Daniel não tivesse erguido no Grande ABC sua plataforma de aspirante a estadista, provavelmente não teria rompido os grilhões do intrincadíssimo jogo político-partidário das agremiações líderes de representatividade. Jamais teria, também, se tornado unanimidade na cúpula petista que, em reconhecimento, compareceu em peso ao centro nervoso da catarse de janeiro, no Paço Municipal de Santo André.

O prefeito que Santo André elegeu por três vezes, sempre lhe oferecendo mais e mais votos, só retornou à Prefeitura pela segunda vez em 1997. A semente da regionalidade integracionista plantada no começo da década e o retrocesso dos prefeitos que sucederam os vencedores das eleições de 1988 associaram-se como eventos conflitivos para as esperanças de um Grande ABC socioeconômico menos vulnerável na virada do milênio.

Após provar o doce da unidade regional que levava a crer que o Grande ABC não seria mais uma metáfora e também depois de sentir o fel do refluxo paroquial, era evidente que a institucionalidade da região não morreria de inanição, antes mesmo que Celso Daniel reocupasse o Paço.

MOBILIZANDO SOCIEDADE

A reconquista da regionalidade mobilizou as elites de entidades empresariais, sindicais e sociais num movimento de mobilização para elevar o quociente político do Grande ABC na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal. Foi assim que se fundou o Fórum da Cidadania, em 1994. Quando os prefeitos eleitos em 1992 deixaram os respectivos postos, a sonhada metropolização sustentada pelo Poder Público estava na lona. Apenas o prefeito de Ribeirão Pires, Valdírio Prisco, aparecia no noticiário, como presidente do Consórcio Intermunicipal que mais lembrava um náufrago em mar aberto.

De novo Celso Daniel voltou à cena da regionalidade ao reocupar o Paço de Santo André em janeiro de 1997. Reencontrou pelas urnas velhos parceiros de jornadas, casos de Luiz Tortorello e Maurício Soares. A eleição dos petistas Oswaldo Dias e Maria Inês Soares reforçou a musculatura do PT e a potencialidade de sensibilização regional. O ex-petista Gilson Menezes voltava à Prefeitura de Diadema e Rio Grande da Serra passou a viver um rodízio funesto e controvertido de prefeitos a partir da morte de Aparecido Franco, vítima de enfarte. 

TEMPOS DE GLÓRIAS

O Fórum da Cidadania vivia momentos de glória. Tinha coordenação articulada e conseguia estabelecer pauta de debates que exigiram reação respeitosa principalmente do governo do Estado. Pressionada por lideranças reunidas no Fórum e contando com apoio do então secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico Emerson Kapaz, a regionalidade dogmática de Celso Daniel consolidou-se com a constituição da Câmara Regional do Grande ABC.

A instituição, incentivada também pelo governador Mário Covas, foi a fórmula que o Grande ABC encontrou para dar um drible na Assembleia Legislativa. Como a metropolização jurídica do Grande ABC é uma eterna expectativa que a Baixada Santista e a Grande Campinas conseguiram materializar porque estão fora do eixo da caótica Grande São Paulo, a saída encontrada foi a fundação da Câmara Regional, um conglomerado de prefeitos, deputados federais e estaduais, representações empresariais, sindicais e sociais — espécie de junção do Consórcio de Prefeitos e Fórum da Cidadania, além do governador do Estado e de todo o secretariado.

A Câmara Regional não era o modelo institucional de metropolização defendido por Celso Daniel. Ele sonhava com participação mais maciça da sociedade. Entretanto, jamais deixou de participar ativamente e de colocar secretários municipais e assessores nos grupos temáticos de estudos.

SECRETARIA CONFIRMADA

Decididamente mais versado em políticas públicas voltadas para o social, Celso Daniel não se consagrou em nível regional e mesmo municipal como administrador de intensidade desejada nas atividades econômicas. Mesmo assim, implementou a importância do desenvolvimento econômico sustentado de forma superior a seus contemporâneos e antecessores.

O exemplo mais emblemático de que Celso Daniel não desprezava a importância da atividade econômica, embora lhe faltasse mais apetência diante das necessidades emergenciais, é que não teve dúvidas de, no início do segundo mandato, confirmar o que prometera a este jornalista, que tanto martelou a respeito do assunto: criou a Secretaria de Desenvolvimento Econômico.

A decisão foi seguida por todos os demais prefeitos. Chamou para o cargo, contrariando parte dos petistas mais à esquerda que queriam um sindicalista, o executivo Nelson Tadeu Pereira, dono de carreira ascendente no Grupo Rhodia e que acabara de se aposentar.

A importância dessa decisão só pode ser avaliada na medida em que se desnuda o corpo insensível dos demais administradores públicos que passaram pelo Grande ABC antes de Celso Daniel: nenhum, absolutamente nenhum deles, ao menos desconfiou que não tinha o menor cabimento exibir o organograma da administração pública municipal sem um quadradinho reservado às relações com as forças industriais, comerciais e de serviços. A suposição de que a riqueza produtiva do Grande ABC seria eterna lubrificou o desinteresse do Poder Público em aproximar-se dos comandos industriais, por exemplo. 

MAIS DINAMISMO

Consórcio Intermunicipal mais ativo, Câmara Regional estimulante e Fórum da Cidadania participativo poderiam ter acomodado Celso Daniel e reduzido sua febre regionalista. Qual nada! Ele liderou a criação da Agência de Desenvolvimento Econômico, braço operacional da Câmara Regional. A agência daria suporte de dados estatísticos, de projetos, de planejamento específico para aplicação pela Câmara Regional. Pela primeira vez o Grande ABC prometia organizar-se estatisticamente para produzir análises que pudessem beneficiar o conjunto dos municípios com medidas estratégicas sistêmicas.

Embora houvesse disfarce generalizado e fingimento acovardado sobre as idiossincrasias que permeavam relações interpessoais e políticas, foi questão de tempo o desmoronamento das instituições que tiveram em Celso Daniel participação direta ou de apoio.

A Câmara Regional sem formalização legal e sem recursos financeiros caiu numa pasmaceira de encontros de escalões secundários do governo do Estado.

O Fórum da Cidadania inchou de entidades, esvaziou as plenárias, perdeu-se na bobagem de trocar a animação do processo socioeconômico pela patetice de misturar-se demais com quem tinha a responsabilidade da execução. 

FALTA DE RITMO

O Consórcio de Prefeitos resiste mais, planta algumas ações regionais, colhe alguns frutos, mas está longe demais da celeridade do empobrecimento regional e da força avassaladora da globalização e da exclusão social.

A Agência de Desenvolvimento Econômico, que Celso Daniel presidia desde a fundação, mal conseguia recursos para pagar salários de colaboradores, quanto mais financiar ações derivadas de conclusões dos estudos.

Mesmo sem apoio permanente de boa parte dos demais prefeitos e longe do nível necessário que lideranças empresariais poderiam oferecer, Celso Daniel fazia das tripas coração para manter a agência. Conseguiu R$ 300 mil do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e também R$ 300 mil do Banco Mundial para ações de desenvolvimento. Tudo a fundo perdido — isto é, sem compromisso de devolução.

Por essas e outras Celso Daniel foi-se afastando dos debates sobre o Grande ABC nos últimos meses. Não que deixasse de comparecer aos encontros, não que retirasse a estrutura material e funcional da Prefeitura das atividades. O prefeito voltou-se mais para a administração de Santo André. Discreto, paciente, jamais reclamou de qualquer prefeito em público. Chegou ao ponto de, em dezembro último, durante os festejos de 10 anos de fundação do Consórcio Intermunicipal, participar de um debate-balanço das atividades e poupar seus pares de paços municipais, preferindo atribuir a recaída institucional da região ao que chamou de pouco empenho da mídia. Também repartiu o peso da retração às dificuldades de financiamento da estrutura das próprias organizações responsáveis pela integração.

BRASÍLIA NO HORIZONTE

Celso Daniel começou a embalar o sonho de influenciar na equação metropolitana da Grande São Paulo, e do Grande ABC em particular, a partir da massa crítica de Brasília, como eventual executivo de ouro de Lula da Silva. A constatação de que os municípios do Grande ABC só conseguirão melhorar os indicadores sociais e econômicos a partir de ação integrada, porque é assim que investidores enxergam a região, sustenta a perspectiva de que são indispensáveis aportes financeiros públicos de instituições de fomento centradas em Brasília.

Integrantes do grupo de Lula da Silva, muitos dos quais originários das greves sindicais no Grande ABC, exerceriam influência suficiente em Brasília para fazer retornar à região nacos de impostos federais que insistem em ser arrecadados no Grande ABC mas são repassados a outros Estados politicamente mais influentes no jogo de forças do Congresso Nacional.

Por mais que Celso Daniel eventualmente estivesse de olho em Brasília e acenasse com a possibilidade de retirar da biografia política do Grande ABC o vácuo de representatividade da classe política na Capital do País, sua ação regional não estava esgotada. Ele fez florescer seguidores influentes, entre os quais os próprios prefeitos. Embora tenham colocado o pé no breque muito antes de Celso Daniel, que só o fez por descobrir essa realidade, os prefeitos sabem que apagar os incêndios municipais se tornará rotina e não circunstância se a visão integracionista for atirada na lata do lixo.

INTEGRAÇÃO NO RADAR

Até por questão de sobrevivência dos grupos políticos que dirigem, eles não podem deixar de olhar para o futuro de integração. Se o passado de fartura industrial induzia ao desleixo, o presente de evasão contínua de riqueza e de permanente geração de pobreza será menos condescendente com quem insistir em achar que os limites do Grande ABC são seus próprios municípios isoladamente.

O ajuntamento estratégico e racional pode parecer um sonho irrealizável, mas basta observar os movimentos de aproximação na União Europeia de 300 milhões de habitantes de nações historicamente separadas por diferenças culturais, econômicas, sociais e políticas para entender o quanto o Grande ABC está atrasado.

O legado metropolitano de Celso Daniel, portanto, é preciosidade que nenhum outro administrador público do Grande ABC ousou liderar e lapidar durante tanto tempo seguido. As fraturas de relacionamento são naturais quando se observa que o caixa mal suporta as contas a pagar e que o regime de Lei de Responsabilidade Fiscal colocou todos os prefeitos na marca do pênalti. Há tantas especificidades municipais a serem gerenciadas pelos prefeitos do Grande ABC que os ideais integracionistas de Celso Daniel pareciam sonhos irrealizáveis. Essa é a diferença entre administradores comuns e visionários.

GATABORRALHEIRISMO

A lucidez com que interpretava a possibilidade de o Grande ABC deixar de lado o Complexo de Gata Borralheira — que se traduz no sentimento generalizado de que a Capital é sempre superior, é a Cinderela — embalou os planos de metropolização institucional e operacional da região vista por Celso Daniel. Se as cidades locais se comunicam por um sistema viário complementar, se são olhadas como unidade socioeconômica e cultural pelo Brasil inteiro, se igualmente não contam com televisão aberta própria, se sofrem as mesmas dores da fama de riqueza e de pobreza que convivem num mesmo ambiente que se transforma em criminalidade, não tinha sentido perderem o senso do coletivismo.

Diferentemente de Lauro Gomes de Almeida, político do passado que comandou as prefeituras de São Bernardo e Santo André e que, portanto, poderia ser interpretado como gerenciador público regionalizado, foi Celso Daniel quem ocupou por 10 anos o posto de principal prefeito do Grande ABC, embora se limitasse a três gestões à frente de uma única Prefeitura.

A contradição que opõe um mesmo prefeito paroquial em dois municípios distintos e Celso Daniel multiplicador baseado numa única Prefeitura deve ser estabelecida para que não se cometa a insensatez de observar Lauro Gomes de Almeida sob prisma fantasioso. Ele foi prefeito de dois municípios da região mas voltou-se principalmente para os limites territoriais que o elegeram por último. Sem contar que era um político de estilo radicalmente diferente de Celso Daniel. Notabilizou-se pelo caciquismo, pelo populismo e pelo mandonismo. Um perfil que Bruno José Daniel, pai de Celso, conhecia como poucos como secretário de Lauro Gomes. Contam-se histórias de Lauro Gomes que, transpostas para o panorama político nacional atual, se assemelhariam às biografias de líderes políticos do Norte e Nordeste. Um ACM antecipado pelo tempo.

COMO PELÉ 

Se forem filtradas as principais características de Celso Daniel como administrador público e comparadas com as melhores qualidades individuais dos atuais prefeitos e seus antecessores na região, a conclusão a que se chegará é que ele provavelmente perderia em intensidade para a maioria. O que o tornou o melhor é que conseguia em porção muito próxima, ou superior, agregar os melhores predicados de todos os demais.

Algo semelhante com o que Pelé representou para o futebol. O Rei não cabeceava como Baltazar, não chutava como Rivelino, não lançava como Gerson, não driblava como Tostão, não tinha a finesse de Didi, o ímpeto de Vavá e o senso de posicionamento de Romário, só para citar alguns dos principais craques brasileiros. Mas Pelé foi insuperável justamente porque era a soma das melhores qualificações individuais dos grandes craques.

Celso Daniel transformou-se no melhor gerenciador público do Grande ABC porque seu horizonte era a política macroeconômica e seu campo de combate os 800 quilômetros quadrados da região. Era especialista em planejar, organizar e centralizar a estratégia sem deixar de descentralizar as ações. Também tinha fairplay para montar e manter equipes de trabalho porque valorizava sobremodo os assessores. Era um espectador anônimo das exposições de seus auxiliares, mas quando necessário, chamado a intervir, mostrava a destreza professoral de avaliações sempre claras, hierárquicas — tudo que anotava disciplinadamente. Reagia com segurança nas eventuais contraposições. Creditava a quem de direito eventuais decisões tomadas em grupo.

FORÇA POPULAR

Extremamente tímido, Celso Daniel tinha tudo para ser um orador com dificuldades de audiência. Mas era bom de discurso, de palanque, de seminário. Falava com mais substância do que eloquência. Mas quem resiste a incorporar novos conhecimentos transmitidos por alguém que não se perdia nos enfoques?

A certeza de que com Celso Daniel haveria sempre interlocução inteligente jamais se frustrou. Coerente do começo ao fim, sabia o momento de elevar a voz, de dar uma entonação mais grave. Gesticulava o suficiente. Nos encontros fechados, jamais cheirou a populismo. Nos palanques das campanhas eleitorais sabia que o povo que se dispõe a ir às ruas não admite falta de empolgação. Por isso era mais enfático.

Celso Daniel também era muito organizado. Cumpria todos os compromissos da agenda sem reclamar. A política era seu sacerdócio mas também sua antítese, porque a introspecção lhe criava algumas barreiras e algumas restrições. Mas a força do animal político que o fez um paradoxo de si mesmo era superior.

PRESERVANDO LIVROS

Deslocado das conversas e das reuniões de amigos e familiares, Celso Daniel se tornava comunicativo na dose necessária nos compromissos de homem público. Quando no exercício da política, atirava às traças a quietude. No apartamento ou na casa dos familiares, geralmente trocava bate-papos por leitura. Adorava pipocas, mas conciliava o prazer com a paixão e o respeito pelas obras literárias.

Subvertendo o costume de que pipoca se come com as mãos, que se encharcam de óleo, Celso Daniel preferia uma colher para não manchar os livros. O confronto covarde que o abateu em hora e em local incertos opôs ao cérebro disciplinado e enriquecido por longas jornadas de empenho cultural mãos engatilhadas pela brutalidade descomunal.

Talvez o único pecado do administrador Celso Daniel, além da natural e justa vaidade intelectual, era a fidelidade aos colaboradores. Nem todos mereciam tanto zelo. Nem todos devolviam em produtividade e objetividade o que Celso Daniel oferecia em confiança e em liberdade. Mas foram poucos os casos com essa textura de relacionamento.

LEGADO IMPORTANTE

Celso Daniel deixou mais que os pressupostos de integração regional como herança político-administrativa ao Grande ABC. Diversas peças importantes do quebra-cabeça de regionalidade foram selecionadas e valorizadas por ele durante vários anos. Casos de técnicos importantes que, a despeito do rebaixamento de participação da maioria dos prefeitos, mantiveram o Consórcio Intermunicipal em ritmo imensamente superior aos tempos dos caciques que pontuaram a administração pública sob ótica exclusivamente municipal.

Embora tenha combatido o tradicional isolamento municipal dos administradores que o antecederam e incentivado a integração dos prefeitos cujos mandatos coincidiram com o seu, Celso Daniel não vacilou no próprio terreiro em que procurou exorcizar o sentimento de periferia de Santo André frente a São Paulo. Na verdade, foi o prefeito que mais se projetou contra o Complexo de Gata Borralheira.

O programa urbanístico Eixo Tamanduatehy, a Cidade Pirelli, a cobertura do então decadente Calçadão Oliveira Lima, a plantação de palmeiras imperiais em pontos estratégicos, a requalificação de ruas e avenidas de intenso tráfego, o Programa de Inclusão Social e a reformulação e transformação do Parque Duque de Caxias no primeiro centro de lazer 24 horas da Grande São Paulo — tudo isso tinha sincronia com o jeito todo especial de Celso Daniel dirigir Santo André.

VIAGENS PEDAGÓGICAS

Como se poderia esperar de guetos de conservadorismo renitente, Celso Daniel acabou criticado por ultrapassar os limites do convencional. As viagens internacionais eram contabilizadas por oposicionistas rasos com a mesma paranoia de quem conta os dias para se livrar do xadrez. Requisitadíssimo por organismos e entidades internacionais, Celso Daniel frequentava seminários, debates, palestras e eventos em todo o mundo. Geralmente com despesas pagas pelos promotores, não raro do próprio bolso.

No ano passado, por exemplo, o prefeito esteve em Nairóbi, Quênia, como expositor de experiência do Programa Integrado de Inclusão Social, em evento promovido pelo Habitat, da ONU (Organização das Nações Unidas). Depois, seguiu para Nova York, Estados Unidos, onde participou da Conferência Istambul+5, que trata de soluções urbanísticas para várias cidades do mundo. 

CONVÊNIOS ASSINADOS

As andanças de Celso Daniel tinham mais que sentido de relacionamento com a intelectualidade internacional. Ele apresentava os resultados como andarilho de classe. Foram estabelecidos vários convênios e acordos de cooperação com importantes repasses de recursos. “Construímos nesse período uma rede de relações com cidades do Exterior e organismos internacionais. Sem exagero, podemos dizer que estamos agindo também como embaixadores de nossa cidade e do Grande ABC” — expôs o prefeito após retornar de Nova York em maio de 2001.

Antes disso, no início do terceiro mandato, Celso Daniel introduziu na estrutura operacional da Prefeitura o que aparentemente seria um acinte para a falta de visão regional e nacional de seus antecessores: criou a Secretaria de Captação de Recursos e Relações Internacionais, comandada por Jeroen Klink, holandês naturalizado brasileiro que já estava incorporado à administração como assessor especial.

AÇÃO ANTIVIOLÊNCIA

A extroversão estratégica de Celso Daniel chocava os vanguardistas do atraso que conferiam exagerados adereços turísticos a quem geralmente era encontrado nos salões dos eventos ou à beira de piscinas com algum livro à mão. Celso Daniel olhava em perspectiva, mas seus pés estavam fincados na Santo André pela qual combatia com postura de esgrimista. Sabia, por isso, que a criminalidade no Grande ABC não poupava Santo André. Por isso, lançou também em janeiro de 2001 a Secretaria de Combate à Violência.

Continuou dando pulso forte a uma operação aparentemente antipopular, mas cujos resultados políticos eram permanentemente monitorados por pesquisas de opinião pública: as multas de trânsito registradas por radares fixos e móveis. Os reclamos provocados por motoristas vítimas de alguns trechos viários considerados armadilhescos foram reduzidos na exata proporção em que viraram reclamação na mídia. As medidas corretivas da política de trânsito comandada pelo secretário Klinger Sousa permaneceram e fizeram escola, embora o indispusesse com grupos de pressão.

Praticamente todos os prefeitos do Grande ABC adotaram ferramenta semelhante para acabar com a farra da irresponsabilidade de motoristas que só se educam pela dor no bolso.

Recente explicação do diretor de trânsito de São Caetano ajuda a entender o sentido de vasos comunicantes da integração prática do Grande ABC. Para justificar a introdução de radares móveis e fixos, recorreu o executivo municipal à simplicidade óbvia: como todo o Grande ABC está cercado de equipamentos que enquadram os motoristas mais afoitos, e somente São Caetano não constava do mapa de limites, as ruas do Município viraram pistas de corrida. O que um dirigente de trânsito definiu sob ótica específica, Celso Daniel constatara muitos anos antes com a dimensão de administrador sem limites territoriais e temáticos.

CIDADE FUTURO

O projeto Santo André Cidade Futuro é uma das heranças que Celso Daniel deixa para a sociedade desembaraçar. Trata-se de definir o desenvolvimento sustentado de Santo André até o ano 2020. Desenvolvimento Econômico, Desenvolvimento Urbano, Qualidade Ambiental, Inclusão Social, Identidade Cultural, Educação e Reforma do Estado são pontos de sustentação da programação que numa primeira etapa envolveu 2,9 mil moradores em 99 reuniões em bairros.

Jamais na história dos municípios da região tanta gente participou diretamente de diretrizes que projetassem o desenvolvimento sustentado para as décadas seguintes. Uma contraposição à história de uma região construída aos saltos e com o prevalecimento de abordagens pontuais.

Santo André Cidade Futuro foi um show de participação popular que arrefeceu nos últimos meses porque há imediatismo por respostas decorrente de um Município que sofre as dores do esvaziamento industrial e do enxugamento de postos de trabalho. Santo André Cidade Futuro tem a cara do Celso Daniel planejador do tempo. É uma carta de intenções cujas diretrizes de cada um dos sete grupos temáticos nem sempre se complementam.

Ao optar pelo título Cenário Para Um Futuro Desejado, a administração de Celso Daniel reconhecia o caráter ao mesmo tempo prospectivo e utópico dos resultados. O programa comprova a descentralidade administrativa do prefeito, que entregou à Terezinha Santos a tarefa de comando.

A veia cultural de Celso Daniel foi exposta entre o final de 1999 e início de 2000, quando o Eixo Tamanduatehy e vários projetos urbanísticos da Prefeitura de Santo André foram exibidos durante a 4ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo. Foi a primeira vez que uma representação oficial do Grande ABC se fez presente no maior evento do setor no País, reservado para o Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera.

A Bienal Internacional de Arquitetura que recepcionou Santo André não foi ação exclusivamente cultural. Por trás desse movimento inusitado estava a expectativa de sensibilizar investidores a descobrir o potencial de transformações urbanísticas e econômicas do imenso corredor formado pela Avenida dos Estados e seus entornos, casos da via férrea e da Avenida Industrial.

PALÁCIO DE MÁRMORE

Lançado em abril de 1999 no Palácio de Mármore, o Eixo Tamanduatehy foi exposto na sequência no Masp (Museu de Arte de São Paulo) e despertou interesse da comunidade acadêmica e de profissionais de arquitetura por representar propostas para superar a posição de periferia do Grande ABC em relação a São Paulo.

Formado por um conjunto de áreas que compreendem cerca de 700 hectares ao longo de 10 quilômetros entre a divisa de São Caetano e o limite com Mauá, o Eixo Tamanduatehy contou com projetos encabeçados por nomes prestigiadíssimos, como Cândido Malta (Brasil), Christian de Portzamparc (França), Eduardo Leira (Espanha) e Joan Busquets (Espanha), assessorados por consultoria dos urbanistas Jordi Borja, da Espanha, e Raquel Rolnik, do Brasil.

Já fazem parte do cenário real de obras do Eixo Tamanduatehy o campus da UniABC, o ABC Plaza e o Supermercado Extra, na Avenida Industrial; a nova Rodoviária e o Autoshopping Global na Avenida dos Estados, além da Cidade Pirelli, em fase de pré-lançamento.

O desfalque de Maurício Faria, responsável pela coordenação do projeto e chamado para reforçar a equipe de Marta Suplicy, atravancou o ritmo mas não comprometeu o programa que faz parte de Santo André Cidade Futuro. Para Celso Daniel, a tradução dessa equação é que mais dia, menos dia Santo André se encontrará com a modernidade.

PRESENTE E FUTURO

Celso Daniel tinha um olho no futuro e outro no presente quando se tratava de dar novo ritmo ao desenvolvimento econômico. Só o ritmo não conseguia acompanhar os problemas acumulados em décadas de imprevidência pública e também as questões ditadas por novos referenciais de competitividade.

A Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Santo André encontrou sérios obstáculos de infra-estrutura material e de recursos humanos para os enfrentamentos que se apresentaram. Se o Eixo Tamanduatehy inebriava pelo casamento entre economia e urbanismo, a velharia legislativa de décadas de fartura e que atravancava qualquer possibilidade de incremento de atividades produtivas foi demoradamente estudada e finalmente eliminada.

AMARRAS INDUSTRIAIS

Um feito inédito e pouco mensurado no acervo gerencial de Celso Daniel foi a radicalização no tratamento das leis que acabaram com as amarras para instalação e ampliação de indústrias. As medidas eliminaram da geografia municipal qualquer tipo de restrição, num monumento de pragmatismo liderado por um administrador público que acompanhou atentamente o esfacelamento industrial de Santo André nos últimos 30 anos. Celso Daniel transpôs o radicalismo dogmático do marxismo dos tempos de juventude e se identificava, cada vez mais, com a social-democracia da Europa do Estado-do-Bem-Estar-Social, na qual se inspirava em seus projetos para Santo André.

Também a legislação do setor terciário — igualmente dinossáurica — foi para o ralo com a retirada de cláusulas de reserva de mercado territorial para empreendimentos como farmácias e postos de combustíveis, entre outros, que contavam com salvaguarda de distância mínima para impedir o choque de oferta de produtos e serviços em seus arredores.

Foi aprovado ainda o funcionamento legal de pequenos negócios em espaços originariamente destinados a residências. Nada mais prático, porque a desindustrialização do Grande ABC, principalmente de Santo André, levou milhares de ex-operários a constituir negócios. Não faltam garagens que viraram pizzarias, bares e mercearias, entre outros estabelecimentos. Adequar as leis à realidade é uma maneira de quebrar a espinha dorsal da indústria de multas e de extorsão.

DIFÍCIL DE CONTROLAR

Como os demais prefeitos da região e do Brasil, Celso Daniel só não conseguiu disciplinar os investimentos na área comercial. Grandes conglomerados nacionais e internacionais de varejo, casos de supermercados, hipermercados, home-centers e shoppings, tomaram o Grande ABC nos últimos anos sem que se opusessem restrições. Mais que isso: os administradores públicos mergulharam de cabeça em oferecer gentilezas para atrair esses investimentos.

A preocupação em recuperar parte dos tributos que se esvaíram com o enfraquecimento industrial e a ameaça de ver municípios vizinhos absorvendo as propostas de instalação de novos redutos de consumo tornaram a administração de Celso Daniel semelhante a dos demais prefeitos no mercado varejista. E a recíproca dos demais prefeitos também é verdadeira.

Isso quer dizer que a vulnerabilidade do pequeno negócio no Grande ABC, à parte a inexistência de instrumentos que reduzam o impacto provocado pela disparidade de forças com a concorrência de maior porte, é assunto que está diretamente relacionado à legislação federal imprevidente. De qualquer forma, Celso Daniel agiu de maneira tópica com a chamada utilização da operação urbana.

UM BOM EXEMPLO

Um exemplo é o ABC Plaza, que provocou alterações no uso e ocupação do solo tomado por uma indústria e que, como compensação, investiu no sistema viário ao redor. De qualquer modo, não pode ser acusado de omisso, porque tentou o paliativo com o projeto Centros de Bairros, que consiste em utilizar ações urbanísticas e viárias como freio à fuga de consumidores da periferia em direção a estabelecimentos de maior porte da região central.

Por todo esse conjunto de obras físicas e programas que desafiam o tempo, Celso Daniel merece muito mais que ser lembrado como novo nome oficial do Parque Duque de Caixas e eventuais outras homenagens a que fez jus. Somente a disseminação da saga que empreendeu para retirar o Grande ABC da condição de satélite da Capital possibilitará, de fato, que as atuais e futuras gerações de gerenciadores públicos entreguem-se com mais empenho à metropolização sempre protelada.

Celso Daniel é um dos poucos exemplares de que a paixão municipal — que não escondia curtir por Santo André — jamais obscureceu seus horizontes cosmopolitas. É segui-lo ou continuar na pasmaceira provinciana de sempre.



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