Regionalidade

UMA AGENDA PARA
LULACÁ E TARCÍSIO

DANIEL LIMA - 29/10/2026

Sei que vou chover de esperança no molhado de esterilidade institucional, mas não custa nada fazer nova abordagem para tentar introduzir no calendário regional um fato histórico de verdade, sem mistificações. O que quero, afinal? Que o Grande ABC, infelizmente apenas sob as asas avariadas do Clube dos Prefeitos, prepare uma agenda mínima de necessidades básicas e a encaminhe ao presidente Lula da Silva e ao governador Tarcísio de Freitas.

Sei que possivelmente a iniciativa encontrará barreiras principalmente de engenharia tática e sabedoria estratégica, mas não custa sair do lodaçal institucional em que nos debatemos há 300 anos. Somos como já escrevi no passado nada mais que uma província metida a besta. Província no sentido de derretimento continuado de qualquer vestígio de regionalidade.

Fosse o Grande ABC como coletivo de organizações de diversos calibres algo que se pudesse dizer que existe de fato e para valer, não estaria aqui um jornalista de 60 anos de atividades ininterruptas a dizer ou a sugerir o que fazer. Infelizmente, sou obrigado a meter minha colher de indignação na sopa de negligências para buscar, quem sabe, uma exceção à regra de probabilidades e, com isso,  alcançar alguma coisa que seja positivamente disruptiva num território de sete pedaços distintos e conflitivos que carrega como melhor referencial explicativo a definição de Detroit à Brasileira.

COMITIVA REGIONAL

Fosse o Grande ABC do Clube dos Prefeitos e de entidades empresariais, principalmente, o mínimo do mínimo que a quebra da qualidade de vida impõe há 30 anos, fosse o Grande ABC do Clube dos Prefeitos e de entidades empresariais, repito em tom de desafio, providencias teriam sido tomadas antes mesmo das eleições para governador e para a presidência da República. Eles, os concorrentes, teriam recebido uma comitiva regional portadora de agenda de demandas com pelo menos 10 questões que poderiam alterar o ritmo da chuva ácida de precariedades e carências, quando não de reestruturação,  de que padecemos.

Convido o leitor a reler o trecho acima porque sei que foi propositadamente extenso  para exigir uma leitura mais acurada.

Com toda a franqueza do mundo, tenho a dizer que ao se completarem duas temporadas com a nova turma de prefeitos do Clube dos Prefeitos, tivemos de fato e para valer apenas alguns respiros de mudanças que, entretanto, não evoluíram para a prática continuada. O Clube dos Prefeitos da atual turma repete as anteriores depois da morte de Celso Daniel.

GILVAN É A ESPERANÇA

Agora me resta a expectativa otimista de que,  quando assumir a condição de prefeito dos prefeitos, o prefeito Gilvan Ferreira, de Santo André, finalmente nos levaria a sonhar com alguma coisa que lembre o desbravador Celso Daniel. O então prefeito de Santo André, criador do Clube dos Prefeitos em 1990, poucos meses depois do lançamento da revista de papel LivreMercado por este jornalista,  abriu o caminho para algo essencial que, lamentavelmente, não evoluiu nem na velocidade nem na qualidade desejadas e necessárias.

O que temos para os próximos quatro anos (guardem essa análise e me cobrem se tiverem coragem) seria o prolongamento de tormentas econômicas e sociais no Grande ABC. Mesmo que medidas supostamente listadas e entregues em cerimônia pública ao governador do Estado e ao presidente da República despertem atenção e dedicação, não será nesse curto prazo que passaremos por mudanças estruturais impactantes.

Entretanto,  teremos a certezas de que, assim como o empobrecimento regional obedeceu a ritmo discreto mas incisivo de gradualismo, começaremos a registrar algumas alterações que poderiam interromper o processo de esfacelamento econômico.

PROPOSTAS ACUMULADAS

Aliás, e por conta disso, uma das medidas que poderiam determinar o perfil de mudanças estruturais da região seria definir a cronologia necessária às transformações. Há nos arquivos do Clube dos Prefeitos um acúmulo de promessas que conectariam o Grande ABC ao governo do Estado e à Presidência da República. São repetecos, e por isso redundâncias, que não cheiram nem fedem quando observados sob o prisma de reconfiguração regional. 

São questões importantes que, entretanto, não alcançariam os objetivos centrais de mudanças para valer. Pior que isso: além do caráter paliativo, estão jogadas às traças porque entre intenções e práticas há um buraco profundo geralmente sustentados por ações puramente marqueteiras.

As barreiras que o Grande ABC encontra para dar o pontapé inicial de verdade em busca de saídas emergenciais é que não temos nem institucionalidades e tampouco massa crítica independente para levar adiante qualquer plano. Por isso que o governador Tarcísio de Freitas e o presidente Lula da Silva, agora em quarto mandato, deverão continuar a observar esse território de três milhões de habitantes como um bando de pedintes nos faróis de esquinas populistas.

Teria o leitor a coragem de dizer que estou equivocado, sabendo ou não sabendo que estou nessa labuta de regionalidade há 300 anos e sei de cor e salteado o que nos faltam de produtivo e o que abundam de perniciosidades? Somente alguém descuidadamente inadimplente, como se manifestou ainda outro dia o agora eleito deputado federal Paulinho Serra, para declarar publicamente que não conta com lista de demandas regionais para levar a Brasília, requerendo-a ao também inadimplente Clube dos Prefeitos.

O pior é que quando entender a realidade que nos abate, não levará nada na condição de aplicabilidade transformadora. Exceto se buscar no acervo desta publicação a imensidão de apontamentos, estudos e análises. Um prefeito municipalista que não enxergou as dimensões da Covid, à frente do Clube dos Prefeitos,  não tem currículo para arvorar-se regionalista. 

Sorte teve Paulinho Serra que toda a carga da pandemia soterrou o açodado presidente Jair Bolsonaro.  A descentralização de ações de combate à Covid determinada pelo Supremo Tribunal Federal salvou prefeitos e governadores populistas de uma prestação de contas mais justa. Já escrevi muito sobre as razões dessa conclusão.

Faço a menção restritiva a Paulinho Serra sobretudo como crítica simbólica no sentido de que eventuais incursões coletivas do Grande ABC junto ao governador do Estado e ao presidente da República não seja contaminada por falsos ativistas das causas do Grande ABC.

LEGITIMIDADE DO VOTO

Quando regionalidade eventualmente virar prioridade do Grande ABC, o que seria ótimo, devemos tomar o cuidado em não cair no conto de pretensos protagonismos. O único agente público com incontestável roupagem de regionalidade, infelizmente não está entre nós há 24 anos. Todos, absolutamente todos os demais, fracassaram totalmente.

Quero dizer com tudo isso que a representatividade do Grande ABC em termos institucionais junto ao governo do Estado e à Presidência da República é uma obra a ser planejada, coordenada e construída. Apesar de todos os defeitos e despreparo histórico, o Clube dos Prefeitos ainda é a melhor alternativa,  porque, afinal, conta com a legitimidade de um coletivo eleito pela sociedade.

Supostamente, portanto, o Clube dos Prefeitos está habilitado a se apresentar como Grande ABC. É o que temos, já que não fomos capazes de criar e sustentar uma das iniciativas propostas por este jornalista e que já completou três décadas: a composição do que chamei preliminarmente de Entidade Cerebral, composta por gente que dispensaria apresentação e que se juntaria ao Clube dos Prefeitos para a tomada de decisões coletivas que, aí sim, contemplariam a representatividade do Grande ABC.

JOGAR A TOALHA

Quando iniciei este texto tinha uma ideia na cabeça que consistia em apresentar uma agenda de pelo menos 10 quesitos para ações de efeitos resolutivos de curto, médio e longo prazo. Comecei a dedilhar meu computador nesta manhã de quinta-feira (agora são 7h52), até que mudei de ideia. Preferi direcionar a metralhadora de inconformismo aos conceitos básicos da sugestão proposta. Conceitos básicos e enxutos, porque já produzi estudos muito mais abrangentes sobre desventuras sociais e econômicas da região.

No fundo, essa nova incursão talvez seja de fato uma terapia recorrente à manutenção do entusiasmo com que me debruço num teclado como se pianista fosse e desfilo correntes de expectativas para me manter motivado a prosseguir a jornada frustrante de praticar jornalismo numa região tão relapsa quanto carente de compromisso coletivo.

Talvez Freud explique esse sadomasoquismo idiota de pregar num deserto de cidadania. Ou alguém tem alguma dúvida de que é o fim da picada o Grande ABC ver passar a banda de duas eleições e sequer sair na janela do inconformismo para quem sabe,  chamar a atenção dos candidatos e dos vencedores?

O que sei e digo sem pestanejar é que a cada dia tenho pesadelos ao projetar a possibilidade de acordar numa determinada madrugada e decidir abandonar esse barco de regionalidade furada. Confiando naquela vidente do Guarujá, se a tomada de decisão de jogar a toalha não demorar muito, terei mais que uma vida de cachorro para esquecer as frustrações nesse território tão maltratado e explorado por extrativistas vorazes. As exceções de almas dedicadas confirmam a regra de almas penadas.


Leia mais matérias desta seção: Regionalidade

Total de 529 matérias | Página 1

17/08/2026 DILMA SIMBOLIZA PT FRUSTRANTE
25/06/2026 QUANDO ABUNDÂNCIA VIRA GRANDE RISCO
13/04/2026 TROCA-TROCA DE TRENS TEM TUDO DOS MAMONAS
09/04/2026 SERÁ QUE FINALMENTE ESTAMOS DESPERTANDO?
06/04/2026 EVASÃO DE CÉREBROS E TAMBÉM DE MÚSCULOS
01/04/2026 E AS UNIVERSIDADES VÃO REAGIR MESMO?
30/03/2026 SETE PEDRAS NO MEIO DO CAMINHO REGIONAL
24/03/2026 NOTA DEZ EM POLÍTICA E NOTA ZERO EM ECONOMIA
24/02/2026 FUNDAÇÃO DO ABC SOB NOVA ADMINISTRAÇÃO?
18/02/2026 A VERDADE SOBRE O CARNAVAL REGIONAL
16/02/2026 CLUBE DOS PREFEITOS PERDIDOS NO TEMPO
11/02/2026 TEMOS O PIOR CLUBE DOS PREFEITOS DA HISTÓRIA
28/01/2026 DIVISIONISMO REGIONAL FRUSTRA A SOCIEDADE
21/01/2026 VÁRZEA VALE MAIS QUE MONTADORAS
14/01/2026 ESPARADRAPOS INSTITUCIONAIS
07/01/2026 DO CONTO DE FADAS AO CONTO DO VIGÁRIO
16/12/2025 UM OSCAR DE PATETICE PARA GATOS PINGADOS
15/08/2025 PF ACABA COM A FARRA DO CLUBE DOS PREFEITOS
31/07/2025 AZEDA A RELAÇÃO ENTRE MARCELO LIMA E TARCÍSIO