Não é tarefa fácil selecionar algumas edições de uma determinada temática que ajuda a construir o mosaico da história do Grande ABC quando se conta com manancial extraordinário. É o caso desta edição de Arca de Noé Contra o Gataborralheirismo, ao tratar da Universidade Federal do Grande ABC. Afinal, o acervo desta publicação conta com 260 textos nos quais a instituição salta como protagonista e também como acessório de análises. Uma contagem que começa muito antes de a UFABC surgir materialmente no arcabouço institucional do Grande ABC.
Embora o cerco esteja apertando para dar conta de 60 textos relativos a 60 anos de atividades deste jornalista, talvez seja possível, no que resta de espaço programado, voltar à Universidade Federal do Grande ABC. Mas isso é especulação. O que os leitores vão encontrar nessa edição possivelmente seja suficiente para compreender os dois lados da moeda dos investimentos federais que culminaram na construção da UFABC.
O que se segue e que está explicado, completa praticamente oito anos de publicação. E a situação da UFABC não se alterou nesse período. Segue sendo um retumbante fracasso regional porque não preenche os requisitos básicos que a contemplariam como exigência básica. E isso está no que se segue.
O modelo que introduzi como fórmula de consagrar um jornalismo de bilateralidades conflitivas é inédito neste País em que interesses nem sempre detectados pelos consumidores de informações prevalecem. Confiram e comprovem.
Arca de Noé Contra o Gataborralheirismo é a série jornalística disparadamente mais aprofundada sobre o Grande ABC em várias dimensões. É uma ressonância crítica dos cromossomos sociais e econômicos do gataborralheirismo regional. Nesse caso, como se verá, ao permitir e ainda aplaudir uma universidade federal centralizada em pautas que excluem o território em que se instalou. Prova letal? No consagrado Ranking Universitário da Folha de S. Paulo, a UFABC ocupa a posição 185 entre pouco mais de 200 instituições no quesito Economia. E essa classificação parece perpétua, porque não evoluiu ao longo de 20 anos de instalação da universidade.
PRIMEIRA RODADA
A primeira etapa do Debate Digital foi publicada na edição de 18 de outubro de 2018 de CapitalSocial sobe o título “Debate Digital vai começar com educador ligado ao Psol”. Acompanhem:
Pretendo participar de intensas interações com gente da sociedade regional que supostamente tem muito a contribuir para disseminar conhecimento sobre vários vetores de nossa mambembe regionalidade. Mambembe e mequetrefe, para ser mais preciso. Dois verbetes cujo uso jornalístico configura-se crime, segundo sentença de um meritíssimo que não entende bulhufas de jornalismo e muito menos de regionalidade. Mas é especialista em uso e abuso da autoridade.
O novo projeto desta revista digital é o que chamo de Debate Digital. Vou procurar explicar nos próximos parágrafos. Já tenho inclusive um primeiro debatedor praticamente confirmado.
Debate Digital oferece aos leitores muitas vantagens em relação às entrevistas convencionais que a imprensa em geral publica. Vou mais longe: não conheço um modelo semelhante no jornalismo nacional e internacional. Salvo engano, estamos inaugurando uma nova forma de fazer jornalismo, o que não é novidade para quem acompanhou a trajetória da revista LivreMercado, que revolucionou o conceito de comunicação social numa Província que segue presa a um modelo arcaico, obsoleto, típico dos anos 1950.
Um modelo que prestigia acriticamente mandachuvinhas e mandachuvinhas. Quando não os transforma em heróis. É por isso, entre outros fatores, que estamos na pindaíba. Somos o microcosmo, do Brasil que parece ter começado a acordar nestas eleições.
Afinal, o que vem a ser Debate Digital? Vou reproduzir os elementos regulamentares básicos para que não haja dúvida quanto ao projeto.
1. Enviarei uma pergunta específica ao debatedor escolhido. Ele receberá o questionamento através de endereço eletrônico e terá 10 dias para enviar a resposta num total de até mil palavras.
2. Terei igualmente 10 dias para a réplica, que também contará com o máximo de mil palavras.
3. O debatedor volta a intervir, agora com a tréplica, novamente com mil palavras e no prazo de até 10 dias.
4. Terei novamente 10 dias de prazo para nova contraposição, igualmente de mil palavras.
5. Possíveis novas rodadas de indagações poderão dar continuidade ao Debate Digital. O ciclo que se cumprirá será o mesmo verificado anteriormente, com direito a réplica e tréplica nas condições já especificadas.
FUGINDO DO IMPRODUTIVO
A inovação de Debate Digital em relação a tudo que o leitor está acostumado a acompanhar na imprensa é que o contraditório ou a complementação prevalecerá sempre, em substituição ao convencionalismo de pergunta e resposta. Isso significa que os leitores poderão ter acesso a um conjunto muito mais substancioso de informações em forma de questionamentos e explicações numa via de mão dupla.
Na tradição do formato de perguntas e respostas nem sempre as abordagens estão conectadas com a elucidação de fatos, conceitos, interpretações e tudo o mais. No Debate Digital a possibilidade de alcançar o objetivo de maior amplitude seria muito mais consistente.
Pode ser que outros nomes sejam anunciados nos próximos dias. Certo mesmo é que a experiência de Debate Digital começará com o ex-vereador de Santo André Ricardo Alvarez, ex-candidato a prefeito. Ricardo Alvarez é um acadêmico que deverá proporcionar oportunidade especial ao cavoucamente do estágio do esquerdismo na região, dirigente que é do Psol de Guilherme Boulos.
ORIGEM E DISCORDÂNCIA
Ricardo Alvarez é um formador de opinião na área educacional que precisa ter espaço fora do ecossistema para se manifestar. É o que pretendemos. Já acordamos preliminarmente sobre sua participação. Acertamos tudo num grupo do aplicativo WhatsApp a partir de posições antagônicas. As opiniões dele sobre o candidato Jair Bolsonaro não são exatamente as minhas. Como minhas opiniões sobre Guilherme Boulos não se aproximam das dele.
Há alguns aspectos de Debate Digital que ainda estão sendo avaliados. Um já está mais que considerado: a cada fase de participação do entrevistador ou do entrevistado, travestidos de debatedores, o texto será publicado na integra nesta revista digital. Ou seja: os leitores poderão acompanhar atentamente as intervenções dos dois lados, do entrevistador que também atuará como debatedor e do debatedor que também poderá atuar como entrevistador.
Vou explicar a gênese de Debate Digital. A novidade é que fugiremos do perfil tradicional, no caso o entrevistador que se limita a questionamentos. Vou exercer a função de forma muito mais ativa, ou seja, muito além da formulação de questões. Fosse diferente disso, convenhamos, a novidade de Debate Digital seria uma arrematada bobagem. Portanto, vou fazer mais que questionamentos: exercerei o direito de fustigar o entrevistado, buscando supostas brechas por onde interviria, e também serei questionado. Querem mais liberdade de expressão com responsabilidade social do que isso?
A mecânica de Debate Digital, portanto, é de confrontação no sentido literal do verbete e também no espetro plástico, de elasticidade, ou seja, de complementação, retificação, ratificação e tudo o mais que o conhecimento proporciona. Daí ter definido que as partes terão a cada rodada até mil palavras para expor ideias, propostas e tudo o mais.
DIVIDINDO O PESO
CapitalSocial tornou-se quase que uma via de mão única de posicionamento sobre o estágio social e econômico da região. A carga é muita pesada e precisa ser dividida e multiplicada. Darei nomes aos bois que se recusarem a participar dessa empreitada. É preciso tirar da toca do comodismo e da conveniência gente que poderia colaborar de forma mais incisiva com o futuro regional. Enfrentar este jornalista não é um bicho de sete cabeças. Há imensas possibilidades de os argumentos caminharem tanto por uma trilha sem atropelos como a uma avenida de desafios. O leitor que acredita que Debate Digital será um mar de tranquilidade, uma troca de gentilezas, está tão equivocado quanto quem entende que será um campo de batalha.
Vejam um caso reto e direto que se apresenta na primeira etapa de Debate Digital: a pergunta-chave a ser enviada ao acadêmico Ricardo Alvarez tratará da UFABC (Universidade Federal do Grande ABC), essa inutilidade regional que há mais de uma década se instalou em Santo André (e mais tarde em São Bernardo). Só o fato de enviar questionamento a Ricardo Alvarez com a qualificação de “inutilidade”, deverá colocar o parceiro de Debate Digital em posição antagônica. Querem algo melhor?
Não custa lembrar que esse projeto foi antecedido -- também como inovação no jornalismo profissional -- por Entrevista Indesejada. Seguindo roteiro tradicional, de pergunta formulada e encaminhada ao possível entrevistado, obtivemos pouco retorno. A maioria dos alvos preferiu fugir da raia. Só o empresário Milton Bigucci, metido em variadas encrencas, inclusive na Máfia do ISS da Capital, recebeu ao longo dos anos sete versões diferentes de Entrevista Indesejada. Não respondeu a nenhuma.
FUJÕES SÓ PERDEM
Quem sugere que Entrevista Indesejada se tornou inútil, ante a fuga dos entrevistados, não sabe os impactos que questionamentos produzem nos formadores de opinião. Não seria a recusa que apagaria os estragos. Aliás, estragos são maiores quando a tentativa de entrevista fracassa. Os questionamentos ganham forte lastro de constatações que causariam incômodo aos fujões. Recentemente a Folha de S. Paulo fez algo semelhante ao que Entrevista Indesejada propagou ao longo dos anos: publicou questões que um pretendido entrevistado se negou a responder. Se a Imprensa adotasse esse padrão de inconformismo como alternativa às tentativas de ouvir quem prefere o silêncio e o desprezo aos consumidores de informação, os desdobramentos seriam outros.
Desta vez, com Debate Digital, procuraremos interlocutores que possam participar do projeto sem temores maiores. Já sabemos que bandidos sociais não estariam mesmo dispostos a enfrentamentos que os colocariam em maus lençóis, porque eles sempre agem por baixo dos panos.
Nossos alvos serão profissionais que têm o que dizer sobre o futuro da região. A expectativa de que encontraremos interlocutores virtuais decididos a fortalecer os laços de cidadania digital não será frustrante. Por mais que esse território tenha se transformado em Província, seria inconcebível chegar ao ponto de emudecimento irrestrito. Ricardo Alvarez é um teste emblemático.
SEGUNDA RODADA
Acompanhem em seguida a segunda etapa sob o título “Debate Digital: Alvarez já-já responde sobre UFABC”, publicada em 24 de outubro de 2018:
Embora contasse com prazo de até 10 dias para produzir o texto da primeira rodada de Debate Digital, o professor e agente político Ricardo Alvarez decidiu encaminhar posicionamento em menos de 24 horas. Vou ler atentamente os enunciados do ex-candidato à Prefeitura de Santo André pelo Psol. Como tenho prazo de 10 dias para oferecer contrapontos aos leitores, devo preparar espécie de réplica neste final de semana. O texto avaliativo de Ricardo Alvarez sobre a atuação da UFABC (Universidade Federal do Grande ABC) será publicado na edição de segunda-feira.
Não preciso realçar o quanto estou satisfeito com a resposta de meu companheiro nessa viagem de transparência e cidadania. O projeto Debate Digital é inédito no jornalismo brasileiro, assim como o fora o Observatório de Promessas e Lorotas, ainda recentemente desativado por falta de matéria-prima. Sem contar o Ombudsman não autorizado, desativado temporariamente porque cansei de chover no molhado. Sem contar, ainda, outros tantos projetos que viraram efetivas ações no campo jornalístico, rompendo o lacre de mesmices da Imprensa nacional.
Juro que não li uma linha sequer do texto de Ricardo Alvarez. Exceto o título “Federal do ABC: uma conquista que precisa ser aprimorada”. Se querem saber, se fosse analisar o material apenas pelo título, que é uma espécie de vitrine do que normalmente se segue em forma de costura geral do pensamento do autor, diria que o professor da Fundação Santo André teria recebido nota cinco, numa escala de zero a dez. Sei que é um julgamento, por assim dizer, precipitado. Um título nem sempre diz tudo, mas o faço apenas para esquentar o ambiente possivelmente de muito contraditório que marcará a primeira edição de Debate Digital.
Afinal, por que numa escala de zero a dez me meto a dar nota cinco para o professor se nem consumi o conjunto de conhecimentos que ele destilou em cada um dos parágrafos que se seguiram até praticamente chegar ao limite regulamentar de mil palavras?
Vou explicar. Mas a explicação precisa ser relativizada, porque estou vendo um quarto à meia luz pelo buraco da fechadura da intuição.
Qual é a explicação para a nota cinco? Quando escreve “Federal do ABC: uma conquista que precisa ser aprimorada”, visto a chuteira de atleta da contraposição pressupostamente atrevida, mas respaldada pela história da Universidade Federal do ABC, para relativizar tanto “conquista” quanto “aprimorada”.
DEFINIÇÕES EMULATIVAS
Não me oponho monoliticamente à concepção de que a Universidade Federal do Grande ABC foi uma conquista para a região. Trata-se de avaliação, quando não de definição, que contempla subjetividades e materialidades. Quanto ao “aprimorada”, diria que o termo é incorreto. Quem quer saber as razões da relativização de “aprimorada” tem um motivo forte para continuar a acompanhar Debate Digital. Vou dar consistência ao que precariamente exponho agora como marketing para chamamento à audiência.
Insisto em afirmar e reafirmar que não li um parágrafo sequer da primeira intervenção do professor Ricardo Alvarez. Só vou fazê-lo por volta das duas da tarde de hoje, quando me desvencilhar da montanha de compromissos desta manhã, e de todas as manhãs. Sei que ele me encaminhou o material ontem à tarde. Tanto que me comunicou por meio de aplicativo de celular. Como tive uma tarde complicadíssima e uma noite dedicada ao noticiário eleitoral seguido da novela das nove e na sequência de mais noticiário eleitoral, que se esticou até meia-noite, não tive mesmo saída senão postergar a leitura. Não que a discriminasse como prioridade. Exatamente o contrário: coisas importantes demais precisam ser atendidas com o máximo de concentração.
ACOMPANHAMENTO CRÍTICO
Ao longo do histórico da Universidade Federal do Grande ABC, mesmo antes da instalação em Santo André, tanto a revista LivreMercado quanto CapitalSocial se tornaram os únicos veículos de comunicação a investirem para valer no acompanhamento crítico da instituição. Não se trata de empáfia, mas de constatação.
Os arquivos dos demais veículos estão aí à disposição de quem se interessa pelo futuro da região. Fora o noticiário corriqueiro, nenhum dos jornais se dedicou a essa problemática. Como também a tantas outras. O jornalismo regional, não canso de dizer, vive num mergulho no tempo que o coloca em meados do século passado. Tornou-se fonte exploratória dos mandachuvas e mandachuvinhas.
Então ficamos assim: na próxima segunda-feira vamos publicar na íntegra a primeira participação de Ricardo Alvarez no inédito Debate Digital. Na segunda-feira seguinte chego chegando com a réplica. E outras rodadas virão. A Universidade Federal do Grande ABC (e eventuais desdobramentos) será esmerilhada com contrapontos fartos e mútuos neste espaço. Uma lição de transparência, independência e tantos outros quesitos que importa à cidadania de verdade. O resto é mistificação.
TERCEIRA RODADA
Em 30 de outubro de 2018, sob o título “Debate Digital: UFABC é conquista a ser aprimorada”, o professor Ricardo Alvarez produziu o seguinte texto:
Fui instigado a escrever sobre a UFABC e a regionalidade e é o que faço. Antes, porém, algumas informações que julgo necessárias.
A luta pela criação de uma Universidade pública no Grande ABC remonta aos anos 60, quando se ventilava a possibilidade de um Campus onde hoje se localiza a ETE Lauro Gomes, no centro de São Bernardo. O movimento sofreu uma interrupção óbvia anos de chumbo e renasceu na década de 80.
Na retomada a reivindicação era de uma Universidade estadual ou federal, desde que pública. Sustentava o pleito as nossas especificidades econômicas, o porte populacional e a necessidade de oferta de ensino superior público e gratuito que atendesse a família dos trabalhadores no Grande ABC.
Era um momento de grave crise econômica e desemprego, que se fazia sentir com intensidade no Brasil em especial na região.
Quis o destino que o movimento tivesse eco e que ela viesse pelas mãos do presidente Lula, oriundo do ABC, no seu primeiro mandato. Seus dois Campus abrigam mais de 14 mil alunos de graduação e 1500 na pós-graduação.
Um princípio que sempre esteve na dianteira da criação da UABC era o aproveitamento das faculdades e universidades municipais, a saber: Faculdade de Direito em São Bernardo, Fundação Santo André e Medicina ABC em Santo André e USCS (antigo IMES) em São Caetano.
Havia uma combinação atrativa de interesses que cercavam esta proposta: a oferta de cursos em diferentes áreas do conhecimento e a infraestrutura existente que seria inteiramente absorvida.
Além disso, os municípios repassariam ao governo federal/estadual uma obrigação constitucional sua, que é a oferta do ensino superior, permitindo desta forma concentrar seus esforços no ensino básico, seu foco legal.
Ocorre que no meio do caminho as forças provincianas municipais falaram mais alto e assistimos um festival de chauvismo marcado por uma patriotada descabida. Prefeitos batiam no peito e diziam que “ninguém mexe no que é meu”. Azar da regionalidade e dos interesses coletivos.
Tivesse isso ocorrido a UFABC nasceria com uma regionalidade mais instituída e estruturada em seu DNA, em função das relações já estabelecidas e dos cursos oferecidos. Isso em nada impediria uma rediscussão de novos cursos a partir de demandas amplamente discutidas na sociedade.
Mas não foi o que aconteceu. A oferta de graduação e da estrutura correspondente seguiu as diretrizes definidas pelo MEC em Brasília quase que exclusivamente. Houve uma participação bastante limitada dos atores sociais da região nas decisões maiores.
O mecanismo de núcleo comum nos anos iniciais e a abertura de opções nos anos finais, respondia a um desejo do MEC de um modelo que se diferenciava das demais Universidades Federais do Brasil.
Considero, sem nenhuma dúvida, que a UFABC é uma conquista importante para a região e o país. Importante polo de atração de jovens talentos e de qualidade inquestionável.
Mas nem todos enxergam desta forma. Lembro que sua expansão para São Bernardo sofreu forte boicote do ex-prefeito Dib em função das diferenças partidárias, numa atitude provinciana e reprovável.
Após 13 anos de existência é preciso admitir que a proximidade entre a UFABC e as gestões municipais, o Consórcio de Prefeitos, Agência Regional e o governo do estado ainda são tímidas. Mas é preciso identificar as causas.
O discurso e a prática da regionalidade nascem com o prefeito Celso Daniel (PT) na segunda metade dos anos 90. Foi a partir dele que descobrimos nossos vizinhos quando o assunto é gestão, até então ilustres desconhecidos. Nem é preciso reafirmar a importância da elaboração de diagnósticos comuns e da definição de políticas públicas regionais em função de nossas especificidades.
Ocorre que a morte prematura de Celso Daniel provocou um abatimento nos mecanismos de discussão coletiva quando eles ainda não estavam suficiente maduros e sedimentados entre os representantes políticos e partidos àquela época.
Os últimos 15 anos foram marcados pelo esvaziamento gradual e constante destes órgãos e a perda de importância na gestão municipal. Chegamos ao ponto de Diadema e Rio Grande da Serra abandonarem esta perspectiva sem rodeios.
Recuamos neste processo de integração, reduzimos sua importância nos debates eleitorais e tornamos esta pauta secundária diante de desafios que se colocam aos gestores e à sociedade.
Neste quadro de solubilidade da pauta regional recebemos a UFABC. Enquanto a regionalidade foi perdendo em importância a Universidade foi se consolidando a partir das diretrizes e desejos do MEC, percorrendo um caminho contrário.
Caberia aos nossos representantes recompor a pauta regional e abrir um diálogo direto com a Universidade, a partir das necessidades locais. Esta luta não está perdida e precisa ser reanimada.
Uma saída interessante seria um chamamento amplo dos mais diversos setores da sociedade para uma discussão coletiva de prioridades em todos os sete municípios da região, culminando num grande congresso regional que sintetizaria as propostas a serem trabalhadas.
Este trabalho deveria incorporar, inclusive, as outras Universidades e Faculdades da região, poderia desembocar em novos cursos a partir das demandas levantadas e poderia indicar estudos superiores em pós-graduação na formação de quadros gestores.
Há outras possibilidades neste caminho, que passam pela relação com a requalificação das escolas públicas, com a oferta de serviços na área da saúde, na defesa do que sobrou da mata atlântica, no estímulo à criação de startups, enfim, a lista é grande, mas parece que a vontade é pequena.
As necessidades sociais se acumulam em tempos de crise. Aproximar os vínculos entre os centros produtores do saber e a gestão pública é sinal de inteligência. O distanciamento evidencia sinais em contrário.
Para avançar neste sentido precisamos superar esta patriotada local que regozija egos mas produz muito pouco no sentido de apontar soluções para nossos problemas. A iniciativa tem que ser dos prefeitos, sem o que avançaremos pouco.
O tempo urge. Se não houver unidade entre os gestores municipais nesta linha de criar políticas públicas regionais não adianta buscar culpados nas Universidades para nossos fracassos. Simples assim.
QUARTA RODADA
Nas edição de sete de novembro de 2018, sob o título “Debate Digital: UFABC é barriga de aluguel inútil”, apresentei a seguinte réplica ao artigo do professor Ricardo Alvarez:
Nesta segunda rodada de um confronto de ideias com Ricardo Alvarez chamo a atenção dos leitores para um buraco negro na dupla premissa do professor da Fundação Santo André. Diferentemente das afirmativas dele, a UFBC (Universidade Federal do Grande ABC) não é nem uma conquista regional e tampouco deve ser aprimorada. Trata-se de instituição que faz pouco caso da região. E a recíproca é verdadeira, embora por razões completamente antagônicas. Resultado? A precisão da expressão “barriga de aluguel”.
Como mil palavras limitadoras a definições e incursões mais substanciosas, vou procurar esgotar essa métrica no que for possível na certeza de que, ante idas e vindas, poderei dar maior consistência às contraposições.
Vejo, resumidamente (e, portanto, com propensão a intervenções mais detalhadas no futuro) vários pontos que minam o centro da retórica da rodada inicial. A UFABC (e o artigo do professor) peca por passar como trator sobre o apelo mais evidente à própria razão de estar na região: o compromisso com o desenvolvimento econômico e os desdobramentos sociais e ao próprio ecossistema de cidadania.
VERBETES IGNORADOS
Nesse ponto (e daí se explica o resumo das ideias do professor contido no título que escolheu) as crateras de descaso com a região estão tipificadas na ausência de um texto reparador. Verbetes (e equivalentes) como produtividade, desenvolvimento econômico, competitividade, desigualdade social, empreendedorismo, Custo ABC e tantos outros que remeteriam diretamente ao cerne da questão são olimpicamente esquecidos ou, com muito boa vontade, mitigados por Ricardo Alvarez.
Fossem apenas esses os pontos frustrantes (no sentido da questão central desse debate), tudo estaria num patamar menos grave. Mas o que temos é algo muito pior, daí minha imensa curiosidade de receber a segunda rodada de intervenções do professor. Suspeito que ele não tenha se dado conta do que está em debate como peça essencial.
A UFABC contrariou a vontade do então presidente da República, Lula da Silva. O petista deixou claro em entrevistas que pretendia ver uma instituição voltada à economia regional, mas o MEC o atropelou com um comitê centralizador de ideias fixas e um esnobismo curricular que sugeria estar a região plantando o mais extraordinário exemplar de revolução na área. Seriamos a fina flor da universidade pública. Levaríamos ao Brasil e ao mundo prerrogativas de eficiência na produção de saberes. Só faltou combinar com os russos. No caso, nós mesmos.
Outro ponto a tornar turbulento o horizonte da UFABC foi o preparativo estatizante dos debates locais para encaminhar o projeto ao governo federal. Os movimentos seguiram em direção à exaltação da teoria em desfavor da prática. Raramente houve citação à importância de juntar no processo acadêmicos e agentes econômicos. Como se o MEC já não fosse suficiente para meter a colher no cozido alheio.
SOCIEDADE EXCLUÍDA
Para que não haja dúvida sobre esse processo de preparação acompanhado atentamente por este jornalista numa série de matérias, a sociedade praticamente não participou de nada. E a bem da verdade não seria sensato dizer que se fosse convocada para valer os resultados seriam muito diferentes, porque se há algo que falta à região é o comprometimento com a regionalidade. Nosso gataborralheirismo é orgânico. Adoramos entregar a terceiros externos o que não temos coragem e em muitos casos competência técnica de realizar internamente.
Por conta disso e de muito mais fico a me perguntar: qual seria o fio condutor proposto pelo professor Ricardo Alvarez à recomposição da pauta regional em torno da UFABC se a matéria-prima de que se utilizou para sugerir essa iniciativa está viciadíssima pelo erro de origem da instituição, ou seja, a visão excessivamente estatal das coisas e o sentimento bovino de subordinação aos mandachuvas de Brasília.
PREFEITOS DESPREPARADOS
A Universidade Federal do Grande ABC é tanto encalacradamente estatal nos pressupostos curriculares e desprezível à atividade econômica que o professor Ricardo Alvarez entrega a rapadura da iniciativa supostamente restauradora a um Clube dos Prefeitos esfacelado, não bastasse a inapetência de décadas.
Entender que o Clube dos Prefeitos, na modelagem atual, antiga, autoritária e inadequada, seria capaz de dar o tom, o ritmo, a direção e tudo o mais para retirar a UFABC dos abusivos braços do MEC tem o mesmo sentido que delegar a uma estátua de concreto em forma de militar a capacidade de dissuadir ações terroristas.
O imobilismo do Clube dos Prefeitos é estrutural entre outros motivos porque não conta com uma espécie de Conselho Especial, integrada por agentes da sociedade sem rabo preso com os poderes públicos. Gente preparada para apontar soluções.
Para que a UFABC saia do casulo autonomista sedimentado em solo de Santo André não existe possibilidade de preservar um resquício sequer de algo que lembraria tanto a pretensa conquista quanto o decantado aperfeiçoamento. Pau que nasce torto morre torto. A saída é um redirecionamento espetacular para explodir o elitismo destilado de Brasília. A UFABC é uma pretensiosa industrializadora de manequins destinados a passarelas internacionais em vez de centroavantes arrebatadores de competitividade regional.
RETRATO ACABADO
A expressão barriga de aluguel, rebocada de uma entrevista com o especialista em educação Valmor Bolan, severo crítico da formulação e da execução do projeto da UFABC, pode até parecer de mau gosto, mas retrata à perfeição a consolidação de uma instituição que atua como espécie de principado na região.
A UFABC é uma ilha de fantasia no sentido de que não tem peso algum no destino regional. Caso seguisse outras iniciativas de Ensino Público Superior, poderia catalisar o desenvolvimento regional. É disso que pretendo tratar numa segunda rodada.
Espero que o professor Ricardo Alvarez se fixe na ideia central desse Debate Digital: o que a UFABC entregou até agora para a região?
QUINTA RODADA
Em 29 de novembro de 2018, Ricardo Alvarez volta para novo confronto sobre a instituição federal sob o título “ Debate Digital: UFABC agrega de fato valor ao Grande ABC”. Acompanhem:
A partir de texto de minha autoria publicado no "CapitalSocial” sobre a importância da UFABC para a região, e do contraponto do jornalista Daniel Lima, dou continuidade ao debate sobre um tema que considero vital para o futuro do Grande ABC.
A primeira grande questão que considero central no debate é o papel da Universidade e sua relação com as demandas empresariais, ou do capital. Os termos "produtividade, desenvolvimento econômico, competitividade, desigualdade social, empreendedorismo, Custo ABC (...)" apontam, em geral, para isso, com a óbvia exceção da desigualdade.
Uma segunda questão, relacionada diretamente com a anterior, é a relação de baixa intensidade da Universidade com o Grande ABC. Comecemos pelo primeiro.
O equívoco original se estabelece quando a formatação da instituição obedece aos interesses empresariais, ou, de outra forma, serve de suporte às necessidades do capital. Há uma diferenciação essencial que são os interesses públicos e os privados. A UFABC, por óbvio, deve se curvar às necessidades e demandas sociais.
INTERESSES PRIVADOS
Texto recentemente publicado no site Undark, (revista digital, sem fins lucrativos que explora a interseção entre ciência e sociedade) mostra os desvios provocados nos resultados das pesquisas científicas na área da alimentação/nutrição. Pergunta o texto: “Numerosos estudos sugerem que conflitos de interesse são prejudiciais à ciência nutricional. Mas com financiamento federal em falta, o que um pesquisador deve fazer?
A resposta é óbvia: estudos financiados pelas empresas do ramo mostram que açúcar e refrigerantes, por exemplo, fazem bem à saúde. Ao contrário, pesquisas financiadas pelo Estado apontam exatamente o contrário[1]. A submissão das atividades aos financiadores deturpa os resultados da pesquisa e criam um ambiente de confusão científica, certamente maléfica para o bem comum. Não se trata de identificar mocinhos ou bandidos, mas simplesmente em reconhecer que os objetivos esperados são reconhecidamente divergentes.
CRESCIMENTO DO CAPITAL
Não existe a máxima preconizada pelo liberalismo de que se o capital vai bem a sociedade também. Basta observar que a linha de crescimento dos lucros das grandes corporações no Brasil e no mundo, após a crise do subprime de 2007/2008, foi amplamente superior aos rendimentos do trabalho.
A UFABC, bem como nenhuma outra universidade no Brasil, deve estar à serviço ou subordinada aos interesses privados. Uma pergunta, no entanto, fica sem resposta: por que o empresariado local não busca relação e apoio nas universidades e faculdades privadas?
A resposta é simples: educação é um investimento de alto custo e as privadas se preocupam em, no máximo, formar quadros laborais. Pesquisa e extensão, quando existem, são limitadas e de baixa qualificação.
CONQUISTA CIVILIZATÓRIA
Nesses estabelecimentos de ensino predomina o “aulismo”, que é a atividade econômica possível resultante da equação entre mensalidades mais baixas (energizadas por bolsas públicas - Fies e Prouni) e corpo docente mal remunerado. Nessa contabilidade que ainda incorpora a remuneração dos investimentos dos empresários do ramo, sobra muito pouco para pesquisa e extensão.
Por isso os olhos das atividades econômicas produtivas e de circulação se voltam para as universidades públicas, cuja produção de tecnologia e conhecimento é infinitamente superior aos resultados das instituições privadas.
Sendo assim, é importante frisar que a produção de conhecimento é uma conquista civilizatória, de toda a sociedade e seu foco está nos interesses e necessidades sociais coletivos e difusos e não privados.
Uma outra questão central no debate é a baixa intensidade na integração da UFABC com a região. Concordo que essa relação precisa ser aprimorada e aprofundada, mas cabe uma leitura mais acurada das origens desse distanciamento.
A questão da regionalidade veio com os governos do PT, especialmente Celso Daniel nos anos 1990 e 2000. Não foi fácil retirar os prefeitos e Câmaras Municipais de seus quadradinhos de poder, elaborar propostas regionais e, principalmente, aplicá-las. A tarefa andou a passos lentos, mas andou. Gerou frutos e, mais do que isso, chacoalhou corações e mentes para uma nova forma de ação do poder público que extravasasse as fronteiras políticas e demarcatórias municipais.
ESVAZIAMENTO REGIONAL
O que se observa hoje com um crescente de vitórias eleitorais de governos de centro e direita? Vejam o caso de Rio Grande da Serra e Diadema, com suas posições isolacionistas, agora acompanhadas de São Caetano do Sul.
Vivemos um gradual e sequente esvaziamento dos fóruns de discussão de temas eminentemente regionais e de políticas públicas coletivas. Os prefeitos mantêm uma pauta de discussão numa mão, mas, ao mesmo tempo, retiram os recursos aplicados esvaziando as possibilidades de integração e avanço com a outra.
O caminho da regionalidade foi sendo substituído pelo chauvinismo mais tosco e bruto e a síntese maior deste movimento é a eleição de Jair Bolsonaro para presidente. Vale lembrar que não estamos sós. Uma onda conservadora se abate mundo afora que aponta seus dedos em forma de arma para os segmentos mais vulneráveis da sociedade, além do discurso de Estado mínimo e redução de investimentos sociais.
O que esperar da UFABC nesse contexto? Que ela construa uma unidade regional que a política, seus representantes e as eleições não construíram? Seria pedir demais e nem é papel dela navegar por essa seara.
Somente uma mudança profunda na linha política regional poderia gerar uma nova coalizão de interesses e, a partir deles, buscar ampliar as relações com a UFABC e demais unidades universitárias da região.
Os prefeitos e as câmaras municipais têm a obrigação de buscar a regionalidade, não o contrário.
SEXTA RODADA
Estava de volta este jornalista, em 20 de dezembro de 2018, sob o título “ Debate Digital: defesa frágil de uma UFABC mais que inútil”, contrapondo-se ao debatedor Ricardo Alvarez:
O professor Ricardo Alvarez fez da terceira rodada deste Debate Digital um festival de anacronismos em defesa de uma instituição sem a menor importância regional, porque inútil, arrogante e totalmente deslocada do desenvolvimentismo por si pobre e modorrento. Fosse moderna, não haveria dúvida de que a UFABC multiplicaria o protagonismo de uma regionalidade minguante.
Selecionar os pontos frágeis do arrazoado do acadêmico, também dirigente do PSOL de Santo André, é tarefa fácil, mas desafiadora. O limite regulamentar de mil palavras pode se tornar incompatível com a profusão de equívocos a desmascarar.
A ojeriza de Ricardo Alvarez ao empreendedorismo privado não surpreendente. O professor faz parte de uma agremiação partidária cuja ideologia sintetiza-se na figura caricata de Guilherme Boullos. A pífia votação do líder de ocupação de terras urbanas nas eleições presidenciais reproduz o quanto a sociedade despreza suas teses e ações que a pretexto de ajustes de direitos constitucionais, subvertem a ordem pública.
MESSIANISMO RADICAL
Não vou me fixar no partidarismo e na ideologia de Ricardo Alvarez para dinamitar os parágrafos que esgrimiu com a profundidade e o conhecimento de alguém que se rivalizaria na brutalidade de insumos intelectuais com um Alexandre Frota de sinais trocados.
Não se sustenta como regra geral o messianismo do professor. Ele prega insuperável incompatibilidade entre empreendedorismo e universidade pública por conta de possibilidades de contravenções éticas dos primeiros. Tão perniciosas como as vantagens espúrias dos maus capitalistas, que temos às pencas inclusive na região sem que ninguém os combata, exceto este jornalista, são estripulias de instituições beneficiárias de fartos orçamentos públicos, gerados pela economia capitalista que o autor tanto execra. Aliás, não se conhece outra maneira de criar riqueza senão no regime capitalista. Exceto, e mesmo assim temporariamente, com custos elevadíssimos, quando os governos perdulários acionam a maquinaria da casa da moeda.
EXEMPLO ESCLARECEDOR
A revista Exame de duas semanas atrás mostra bem o quanto universidade e empreendedorismo desencadeiam benefícios à sociedade. O exemplo tratado pela Exame é comum no mundo inteiro. Novidade só mesmo nas universidades públicas brasileiras, irmãs siamesas em despudores corporativistas.
Escreveu a Exame que o professor da faculdade de Farmácia da Universidade de São Paulo, Humberto Gomes Ferraz, é autor, junto com o laboratório farmacêutico Biolab Sanus, de uma patente que permitiu criar o remédio contra enjoo Vonau Flash. “Essa patente, sozinha, respondeu no ano passado por 58% de toda a receita de royalties da maior universidade do país. No total, as 1.299 patentes de todos os departamentos da USP renderam 2,49 milhões de reais; o Vonau Flash foi responsável por 1,44 milhão de reais desse montante. E os números devem crescer” – escreveu Exame.
Não vou me estender sobre a reportagem da Exame. O mundo inteiro convergiu para uma aliança de responsabilidade social e ganhos econômicos entre academia e empresas privadas.
Mesmo apertado, vou tentar chegar ao máximo de contraposições, além do núcleo já mencionado e esmiuçado. O professor coloca em dúvida a capacidade de redução de desigualdade e da pobreza na esteira do capitalismo. Exemplos internacionais históricos tratam de demolir esse preconceito. Mais: peguem dados sociais deste País, em variáveis imensas, e observem a localização mais incidente da pobreza e da desigualdade.
ESTADO GERA DESIGUALDADE
O Brasil é desigual em larga margem porque o Estado corrupto e desorganizado, muitas vezes em parceria com empresários amigos, é obstáculo quase intransponível. Onde o capitalismo sem vícios maiores se manifesta, a riqueza se espraia. O Grande ABC só não é um imenso Nordeste porque o capitalismo, bem ou mal, aqui se plantou. Fossem mais competentes os dirigentes do Estado em suas três dimensões, prefeituras, Estados e União, os resultados seriam muito melhores.
A defesa do enclausuramento acadêmico da UFABC é uma associação de escravagismo ideológico e acinte econômico. Uma relação próxima entre universidade e empreendedorismo na região não significaria submissão se o capital social com que sonhamos se manifestasse. Um capital social sem distorções movidas por interesses políticos, claro. Estado, Mercado e Sociedade cabem perfeitamente num mesmo compartimento mutuamente vigilante e cooperador.
Uma das características do texto do professor Alvarez é colocar no mesmo saco de gatos de interpretação o capitalismo produtivo e o capitalismo financeiro. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Aliás, o capitalismo financeiro tem muito mais a ver com o Estado inchado e ineficiente.
CAPITALISMO FINANCEIRO
Grande parcela dos ganhos financeiros neste País resultam do esfacelamento das contas públicas, entre outras razões porque o funcionalismo público, especialmente o federal, é um dos principais agentes de desigualdades sociais. O estrabismo esquerdista não deixa o professor enxergar o principal, nem o complementar.
Pergunta o professor por que motivo o empresariado local não busca relação e apoio nas universidades e faculdades privadas. Sugere que não haveria resposta a um questionamento supostamente monolítico. Bobagem de quem comemora gol quando a bola bate na trave: da mesma forma que a maioria das universidades privadas se tornou balcão de negócios, em contraponto a incubadoras ideológicas das universidades públicas, pequenos empreendedores estiolados pelo Estado não têm recursos sequer para pensar em contratar pessoal, quanto mais a investir em produtividade.
Além disso, grandes empreendimentos da região, quase todos multinacionais, preferem buscar nas matrizes a base a novos produtos e serviços, ou, também, como mostram os números da USP, aproximando-se de instituições universitárias que começam a acordar do sono profundo do alheamento social, disfarçado de aversão ao capitalismo.
CHAVE DO PROGRESSO
O verniz social do professor Alvarez, que dá conta de que a produção de conhecimento é conquista civilizatória de toda a sociedade e seu foco está nos interesses e necessidades sociais coletivos e difusos e não privados, não passa de arrematada extravagância filosófica: o sincronismo entre social e econômico que as relações mais sensíveis entre universidade e empreendedores no mundo inteiro cultua é a chave de ignição ao progresso
Um progresso que será expandido amplamente também aos vetores sociais com a quebra de barreiras de desigualdades e pobrezas na medida em que o Estado for menos ladrão e mais responsável com os recursos orçamentários de fontes empreendedoras que geram riqueza com produção e serviços, não com impostos agressivamente arrecadados.
Já passou da hora da direção da Universidade Pública do Grande ABC, entre outras obrigações sociais, tentar explicar as razões de estar na última fileira de empregabilidade dos alunos, conforme destaca o Ranking Universitário Folha. Uma colocação bem distante da liderança da USP que, como se sabe, ainda é aprendiz em empreendedorismo consorciado.
SÉTIMA RODADA
Eis, na edição de 15 de janeiro de 2019, mais uma camada de defesa da instituição federal pelo professor Ricardo Alvarez, sob o título “Debate Digital: UFABC vai além dos próprios limites”. Acompanhem:
Seguindo no debate sobre a Universidade Federal do ABC, rabisco algumas ideias que servem de aprofundamento do texto anterior mas, ao mesmo tempo, busca esticar o elástico do texto-resposta de Daniel Lima.
Adjetivar minha militância e posições políticas é motivo de orgulho. Não me sinto atacado ou mesmo vilipendiado quando sou associado à posições anticapitalista. Sinal de reconhecimento.
Daniel usa óculos de análise cujas lentes, de resto, afeta a compreensão de grande parte dos jornalistas em especial da grande mídia. Mas não se resume a eles.
O capitalismo é o mantra irrefutável da condição humana em seu estágio máximo de progresso. Nada existiu antes como ele e nada existirá depois dele, uma vez que o ápice foi atingido. Esta tese já foi exaustivamente debatida nos anos com a queda do muro de Berlim, amplamente criticado pelos liberais de capital ou de ideias.
SEM FUNDAMENTAÇÃO
Francis Fukuyama, inclusive, levantou fortuna com o livro "Fim da História", no qual se apoiava em Hegel para envernizar sua surrada tese de que a vitória do capitalismo seria a consolidação final do processo evolutivo civilizatória da humanidade.
Evidente que essa tese carece de fundamento. Ele abandonou suas intempéries acadêmicas nessa seara para escrever sobre a crise do aquecimento global. Fez bem.
O que os doutos liberalizantes não explicam é como nos últimos 20 anos, no mundo, a concentração de renda, a riqueza e o patrimônio tornaram-se tão concentrados. A explicação é que o capital tem esse comportamento no seu DNA. Não são os capitalistas ruins ou bons, são apenas capitalistas cumprindo a sina para a qual foram designados.
ESTADO DÁ VIDA
Não parece ser tão difícil de entender que o Estado é a forma pela qual a distribuição vai ganhar vida, pois se depender dos capitalistas sobra apenas bondade, filantropia e apegos morais. Insuficientes e desnecessários, numa lógica de construção nacional e de projeto de país.
Dito isso, encaixo a UFABC neste contexto. Mas, antes dela, levanto uma questão que não recebeu explicações devidas. Se o mercado é o máximo da organização humana e o capitalismo o estágio último de evolução da sociedade, por que as universidades privadas, vendedoras de diplomas, pagadoras de péssimos salários, distantes da pesquisa e da extensão, com cargas de aula reduzidas e sem um papel social, senão o de encher os bolsos de seus proprietários, que muitas vezes nem da área de educação são, não servem como exemplo ao Sr. Daniel Lima?
Eu sei a resposta, mas poderia haver ao menos uma menção. As baterias se voltam com uma universidade de gabarito, titulada, muito procurada pelos vestibulandos e de ótima reputação, mas as fábricas de diplomas são poupadas estrategicamente, pois desmontam, na prática, o discurso da infalibilidade do mercado e da incompetência do Estado.
ESTADO CORRUPTO?
Outra questão a ser pensada: associar o Estado à corrupção é uma demonstração de desconhecimento histórico do tratamento do assunto. A análise de como o tema é trabalhado na sociedade mostra que sua vida e oscilações correspondem a interesses políticos e não motivado por princípios éticos ou morais.
Lembremos que Getúlio Vargas, JK, Lula e Dilma foram intensamente atacados. Governos Militares, FHC e o próprio Temer não tiveram o mesmo tratamento, embora ela rolasse intensa. Nem é preciso dizer que ela existiu em todos os governos no século XX e XXI, mas não é disso que estou tratando.
Resumir os problemas do Estado à corrupção na gestão é colocar a discussão num patamar raso e ideologizado, num degrau abaixo.
A Federal do ABC deve sim se aproximar da sociedade, do poder público e da região. Não questiono isso. O que me intriga é o bombardeio contra ela e o silêncio nas privadas que são, em verdade, o símbolo maior do que se almeja com privatizações. Em outras palavras, seria recuar no tempo e na história. Apesar que em tempos de Bolsonaro e ministros lunáticos e fanáticos nada mais soa como loucura, pois ela chegou ao poder central.
Defendo a estatização completa da educação brasileira em todos os níveis. A eliminação do analfabetismo e a valorização da carreira do magistério. Defendo ainda a liberdade de discussão política e de educação sexual. Eis a chave da retomada do crescimento econômico. Não será a educação a fazer isso sozinha, mas passa necessariamente por ela.
A UFABC tem um papel a desempenhar nesse sentido, mas cabe ao Estado fomentar.
OITAVA RODADA
De novo volto à cena do debate, agora em 19 de março de2019, sob o título “ Debate Digital: professor encalacrado atira a esmo”. Acompanhem:
Desesperado por não encontrar um fiapo sequer de argumento consistente em defesa do indefensável – ou seja, a UFABC é uma fraude regional no campo econômico – o professor Ricardo Alvarez, meu debatedor, escorregou na casca de banana de um emaranhado de tergiversações. Fosse eu o que ele é, ou seja, oponente em ideias, me sentiria igualmente à deriva. A UFABC é uma causa perdida.
As únicas pegadas desse monstro como prova de regionalidade de atuação se esgotam no entorno de furtos e roubos denunciados por alunos e professores. Nesse ponto, a UFABC está mais que institucionalizada regionalmente. Aliás, nada diferente do que se observa nas salas de aulas. Ali, roubam-se e furtam-se sonhos de empregabilidade, que é o que interessa.
Possivelmente não teria o mesmo comportamento argumentativo errático do professor diante dessa troca de ideias. Não perderia o foco. Aquartelado na fragilidade de sustentação a algo sem consistência, teria jogado a toalha com humildade.
Ricardo Alvarez, um combativo esquerdista, desses que lançam boias em defesa do Estado Poderoso como a salvação da lavoura econômica, ética e social, não apenas como uma parte da engrenagem civilizatória, prefere morrer em combate. Como se já não estivesse morto a partir dos primeiros parágrafos na primeira rodada.
FUGINDO DA RAIA
Como Alvarez ainda tem uma rodada para cavoucar alguma coisa que honre a camisa da Universidade Federal do Grande ABC na jamais perpetrada institucionalidade regional no campo econômico (e em tantas outras áreas), espero que deixe de ser uma metralhadora giratória temática e, finalmente, entenda o centro desse debate. Entender provavelmente ele entenda. O que tenta, no fundo, é fugir da raia.
Ou seja: Alvarez deveria jogar fora, porque fora de lugar está, qualquer argumento distante da questão básica deste Debate Digital, ou seja, e insisto na questão: o alheamento da UFABC nas questões econômicas da região.
Não pretendo ser repetitivo sobre o que chamaria de calcanhar de Aquiles da UFABC. A instituição é sanguessuga regional há mais de uma década. É o resultado deformado de uma fornada socialista que nenhum País minimamente desenvolvido adota. A UFABC vive no mundo da lua do mundo teórico.
O professor Alvarez sabe disso. Tanto sabe que não encontrou um único exemplo sequer nas quatro rodadas em que se manifestou que colocasse a UFABC na linha de frente, ou mesmo na linha auxiliar, de ações regionais.
Prefere o professor sempre mais preocupado em combater adversários ideológicos verdadeiros e imagináveis derivar o debate a temáticas alheias ao fulcro da base desse trabalho jornalístico.
IGNORANDO O PRINCIPAL
Escreveu na rodada anterior sobre os exóticos ministros do governo Jair Bolsonaro, sobre o mercantilismo das universidades privadas, sobre um liberalismo extremista que já está sendo questionado e metabolizado no mundo civilizado, sobre a prevalência hierárquica do Estado na correção de rota da UFABC e sobre tantas outras coisas que não passam mesmo de coisas quando o principal é subestimado, quando não esquecido.
Chamo a atenção dos leitores para que vasculhem cada parágrafo do professor Ricardo Alvarez no texto da rodada número quadro deste Debate Digital.
Verifiquem com os próprios olhos e mente o quanto a instituição sem qualquer relação substantiva com a sociedade regional é protagonista direta ou indireta dos parágrafos que tentam dar sustentação a uma ideia cujo desfecho está consumado em evidente fuga do objetivo principal.
Ricardo Alvarez é desses profissionais acadêmicos que não largam o osso de uma ideologia retrógrada que, não por acaso, dá guarida ao MST (Movimento dos Trabalhadores sem Teto) e tantas outras quinquilharias filosóficas que não se mantêm de pé sem o dinheiro muitas vezes espúrio do Estado provedor e doutrinador de ideais igualmente sabotadores da cidadania empreendedora.
CONTRAMÃO DA SOCIEDADE
Alvarez está na contramão de estudos inclusive de institutos dito socialistas que constataram o desejo das populações de periferias em ter o próprio negócio. Para o professor, o Estado é a expressão máxima da cidadania e o capitalismo é um mal a ser combatido. À falta de equilíbrio entre Estado, Mercado e Sociedade, adivinhe quem dá as cartas? Basta ver o Brasil entregue pela Nova República.
A UFABC é um reduto esquerdista sem preocupação com a sociedade regional. Os índices de inserção econômica local, em forma de empregabilidade, são deploráveis. Como já escrevi tantas vezes, a UFABC é uma fábrica de manequins para exportação e um deserto de centroavantes para uso interno.
Explico: não fossem os trabalhos teóricos muitos dos quais sem preocupação com o pragmatismo de resultados em favor da sociedade, a UFABC despencaria em qualquer ranking de medição de competitividade. O exibicionismo corporativo prevalece sobre resultados práticos, de políticas públicas não partidárias e ideológicas.
O professor Ricardo Alvarez sabe disso e muito mais, claro, e considera esse o foco apropriado à universidade pública. O mundo civilizado e progressista no sentido mais amplo da expressão já jogou no lixo essa baboseira há muito tempo.
ORIGEM É O ESTADO
Quando ataca as universidades privadas, cobrando do debatedor abordagem específica, o professor Ricardo Alvarez usa a velha tática de deslocar o ponto nuclear de um debate a uma direção que supostamente lhe conviria. Aí é que está enganado, mais uma vez. Ao direcionar as fragilidades mais que conhecidas do Ensino Superior privado, o professor da Fundação Santo André e integrante do PSOL deixa escapar dois flancos que o derrubam de vez.
Primeiro flanco: em situações normais, não de intervenção estatal espúria, as escolas particulares não vivem de dinheiro público como as escolas públicas; portanto, estão no mercado por conta e risco, submetidas ao escrutínio dos alunos.
Segundo flanco: se as universidades privadas estão distantes do exigido para que o País não siga construindo um fosso entre a modernidade e o obsoletismo funcional do mercado de trabalho (é disso que estamos tratando como pauta central), a responsabilidade maior é do Estado que o professor tanto defende, porque é o Estado centralizador que expede licenças ao funcionamento de arapucas de ensino.
FARRA DE UNIVERSIDADES
Aliás, foi no período do governo Lula da Silva que se deu a maior incidência relativa de autorizações às fábricas de diplomas – sem contar a farra de financiamentos a grupos de interesses próximos ao governo.
Uma Lava Jato da Educação, como se anuncia, rivalizaria o resultado com as falcatruas na Petrobras e em tantas outras peças do corolário estatal dominado pela engenharia de corrupção que abalou o País e torna inconsolável todos os vagabundos éticos.
Aliás, mais uma vez contraditório, o professor expressa descuidadamente, porque conflitiva com seus próprios enunciados, essa epidêmica depravação do Estado sem controle ao se referir aos governos que antecederam os recentemente desmascarados pela Operação Lava Jato.
Ricardo Alvarez, repito, tem mais uma rodada para tentar responder ao que propusemos neste Debate Digital. Por que a UFABC é tão insensível à geografia regional, acumulando ano a ano avaliação desprezível no Ranking Universitário da Folha, porque simplesmente o mercado de trabalho não a reconhece como agente de atenção ao Desenvolvimento Econômico?
RODADA FINAL
Completando o circuito de contraditórios, o Debate Digital se encerra em primeiro de abril de 2019, sob o título “Debate Digital: Alvarez decide abandonar a disputa. Lógico”. Acompanhem:
Está encerrada a primeira versão de uma novidade no jornalismo brasileiro. O “Debate Digital” proposto por este jornalista e que teve como oponente o professor universitário Ricardo Alvarez, de Santo André, também dirigente do Psol. A programação foi encerrada antes do tempo regulamentar. Seria pelo menos mais uma etapa de contraditórios, mas o professor da Fundação Santo André preferiu não continuar.
Ricardo Alvarez informou que já não dispõe mais de elementos para seguir em frente. Nada mais ajuizado. Notável foram as tentativas (três rodadas) de atenuar o indefensável, ou seja, a inutilidade da UFABC (Universidade Federal do Grande ABC) quando se trata do Desenvolvimento Econômico da região.
A retirada de Ricardo Alvarez não o desclassifica como contendor. Distante disso: do outro lado do ringue esgrimi intervenções que o colocaram naturalmente em situação de nocaute, simplesmente porque a UFABC, como poderão recordar ou tomar conhecimento os leitores logo abaixo, é um acinte institucional na região.
O distanciamento que a UFABC mantém das organizações públicas, sociais e empresariais do Grande ABC é o retrato fiel dos efeitos deletérios da concepção com que foi criada – e que contou com Ricardo Alvarez como uma das lideranças da região.
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