Sociedade

QUATRO DRAMAS
NO DIÁRIO DE HOJE

DANIEL LIMA - 05/11/2026

Nos dois períodos em que atuei no Diário do Grande ABC como ombudsman (fora os mesmos tempos e outros tempos em que ocupei todos os cargos possíveis de Redação), minha função evidente era de curador tendo em vista tanto a função de colaborador da empresa como, principalmente,  como leitor exigente em nome da sociedade. A inspiração conceitual de CapitalSocial (“Ombudsman do Grande ABC”) será invertida hoje: vou fazer uma breve investida tendo a primeira página do Diário do Grande ABC como painel de exigências aos personagens principais das respectivas notícias e respectivos entornos.

Não constava da agenda escrever o que estou escrevendo hoje, mas não resisti à primeira página do Diário do Grande ABC. Não é fácil numa mesma edição o jornal reunir pelo menos quatro pautas de engajamento crítico. Mas é o que o Diário do Grande ABC tem a oferecer hoje de forma positiva e que tentarei, seguindo a modelagem desta publicação, incursionar com marca autoral.

Vou deixar para o fim desse texto a manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) que trata do seguinte enunciado: “Expansão de favelas na região derruba 841 hectares de mata”. Essa temática é de tamanha gravidade que requer certo suspense. E muito mais abrangência explicativa do que simplesmente, como muitos poderiam imaginar, prender-se ao campo da habitação propriamente dita.

PRIMEIRO DESTAQUE

Está num cantinho inferior à direita da primeira página do Diário do Grande ABC uma manchetinha que vale muito futuro de ações: “Deputado cobra do PT renovação de quadros”.  O enunciado de primeira página, que destaca o que será levado à página interna, é o seguinte: “Deputado estadual reeleito, Teonilio Barba (PT) disse, no podcast Política em Cena, do Diário, que triunfo de Lula nas urnas representa oportunidade para a sigla repensar seus caminhos e renovar quadros”.

É impossível em pouco espaço (por isso vou tratar desse assunto outro dia) elaborar algo substantivo que se defina ao fim e ao cabo de avaliações o que impediria e o que incentivaria o PT a mudar metodologia para chegar à sociedade. Seria interessante que os petistas sindicalistas e petistas de outras tonalidades compreendessem o recado das urnas da região mesmo sob efeitos especiais da janonização das urnas no segundo turno. Apenas quatro entre 10 eleitores habilitados do Grande ABC votaram em Lula da Silva no segundo turno. O lulismo,   base ancestral do petismo, quando não a própria alma do petismo, está indo ladeira abaixo porque Lula da Silva, como todos nós, é mortal.  Haverá, inevitavelmente, um afrouxamento de competitividade. Mudanças no campo de trabalho estão, comprovadamente, transformando colaboradores com carteira assinada em empreendedores de sobrevivência.  O PT perdeu o trem da história e cada vez mais encontrará obstáculos diante da expansão do capitalismo de microeempreendedores. O PT é socialista por natureza socialista.  Um socialismo raivoso e cada vez mais dependente de políticas assistencialistas que tornam André Janones herói tão improvável quanto reprovável. Lula da Silva é o pior presidente da República da história do Grande ABC, como estou cansado de provar. Seria Dilma Rousseff, mas Dilma Rousseff é filha dileta de Lula da Silva.

SEGUNDO DESTAQUE

Outro destaque da primeira página de hoje do Diário do Grande ABC está concentrado em título mais robusto que o do sindicalista petista em busca de saída existencial de fundo eleitoral. O título “Consórcio e universidades unem forças por população” é estimulante à observação. Veja o enunciado da chamada de primeira página: “O Consórcio Intermunicipal e 16 universidades da região assinaram ontem, no Fórum Permanente de Reitores do Grande ABC, termo de compromisso de cooperação institucional. Segundo Guto Volpi (PL), presidente da entidade, a parceria visa qualificar a gestão pública e transformar pesquisa e inovação em melhorias à população”.

Li a reportagem completa. O Fórum Permanente de Reitores é uma iniciativa do Diário do Grande ABC, mas o Diário do Grande ABC, até prova em contrário, não tem responsabilidade de conduzir os resultados e tampouco de tutelá-los. Isso quer dizer que a turma que dirige as universidades da região conta com um suporte motivacional importante, mas não pode reproduzir o equívoco de três décadas atrás, cometido pela Fórum da Cidadania do Grande ABC, que se escorou no Diário do Grande ABC como proteção organizacional. Assim não dá, evidentemente. Já escrevi muito ao longo dos anos sobre movimentos de comandos universitários na região,  mas o cardápio é vasto e devo enveredar por revisitas. Certo mesmo, pelo que li desde o lançamento do projeto, é que existe fraturas expostas que possivelmente impediriam a agilização dos processos. Sobretudo porque as ações parecem fora do prumo na relação entre definição programática e os incêndios econômicos que transformam o Grande ABC num barril de pólvora social.

TERCEIRO DESTAQUE

O terceiro drama da primeira página do Diário do Grande ABC de hoje ocupa espaço gráfico um pouco maior que as preocupações do sindicalista que também é deputado e um pouco abaixo do encontro dos reitores. Trata-se da seguinte manchetinha “Apesar de positivo, setembro tem pior geração de postos formais desde 2019”. E segue, logo abaixo, sempre na primeira página, o respectivo enunciado: “A região registrou 40.230 admissões e 38.521 desligamentos em setembro, saldo de 1.709 empregos formais.  Apesar de positivo, o número é pior para o mês desde 2019 (1.460), época em que a Ford encerrou as atividades na fábrica de São Bernardo. União atribui o atual panorama à alta taxa da Selic, mantida ontem em 13,75% ao ano – escreveu o jornal.

A reportagem não difere muito do que a maioria dos jornais publica seguidamente a cada 30 dias.  O PT não tem intimidade com desenvolvimento econômico, como provam  dados históricos deste século. De maneira geral, os governos de três esferas, mas principalmente o federal, fazem muito propagandismo com indicadores de emprego. Registramos ao longo dos tempos a diferença entre quantidade e qualidade. A rotatividade no mercado de trabalho é assustadora, como revelam os dados publicados no Diário do Grande ABC de hoje, envolvendo quase 80 mil trabalhadores com carteira assinada apenas em setembro. Isso significa 10% do estoque de trabalhadores. Faça uma projeção sobre a volatilidade ao longo de 12 meses. É muita gente em troca-troca infernal. Os empreendedores são os malvadões de sempre, quando se sabe que as dilaceradoras raízes estão no Estado Socialista em impostos e Estado Anarquista em gastos. O saldo geral do emprego no Brasil nos últimos anos esconde a precarização salarial dos trabalhadores. Mais que isso: os saldos líquidos são negativos nas faixas de maiores rendimentos.

MANCHETÍSSIMA EXPLICADA

Para completar essa ouvidoria inversa, é lógico que o maior destaque está na manchetíssima do Diário do Grande ABC. Manchetíssima é um neologismo que criei e que deveria constar do Wikipedia. Significa a manchete das manchetes e das manchetinhas de primeira página. A manchetíssima impressa no Diário do Grande ABC (“Expansão de favelas na região derruba 841 hectares de mata”) é a síntese do fracasso do Estado Federal, do Estado Estadual, do Estado Regional e do Estado Municipal na área de habitação. Quando afirmo que o futuro sempre chega e chega como resultado do que fizeram no passado e no presente, o que quero dizer é exatamente isso. A manchetíssima do Diário do Grande ABC de hoje é um registro histórico, porque condensa o que somos de verdade em meio ao festival geral de triunfalismo que o Grande ABC e o Brasil como um todo exibem por conveniência dos protagonistas e assessores governamentais, principalmente. Enquanto isso, como se observa, os empreendedores são massacrados. Gente de talento morre na praia de dívidas insolúveis porque o Estado não entrega o mínimo que se espera: equilíbrio das contas publicas como plataforma de embarque no mundo de produção de riquezas. As taxas de juros não explodem por acaso, como pretendem fazer crer os doentes ideológicos.

JOGANDO A TOALHA?

Tudo isso que integra a primeira página do Diário do Grande ABC é um reforço considerável à pregação desta publicação no chamamento à atenção do que nos impacta a cada nova temporada. É, em resumo, entre outras tantas pautas, a síntese de vitorias-derrotas que a cada dia me levam a refletir sobre o sentido de continuar a fazer o que faço, porque fazer o que faço tendo a regionalidade como mantra é uma aberração pessoal e profissional. 

Somos um buraco sem fundo de desilusões.  Mesmo quando parecemos encontrar algum rumo, como é o caso dos reitores, como é o caso do repensar do sindicalismo, como é o caso do mercado de trabalho, como é principalmente o caso da síntese da degradação humana com a multiplicação de ocupações nas favelas, mesmo diante de tudo isso ou principalmente por conta de tudo isso, subsiste uma desconfiança profunda, profética, de que tudo vai se agravar nos próximos e longos tempos porque, na melhor das hipóteses, a velocidade de mudanças lembra cágados concorrendo em 100 metros rasos com coelhos.


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