A queda escandalosa e impiedosa da arrecadação de São Bernardo entre 2004 e 2025 (e anteriormente também, mas faltam dados confiáveis do anteriormente) é consequência da lógica macroeconômica que tem como aferidor mais consagrado o PIB Tradicional (Produto Interno Bruto). É o que vamos mostrar na sequência da bomba que publicamos na edição de ontem e que dá conta de que somente no ano de 2025 São Bernardo deveria ter adicionado à Receita Total nada menos que arredondados R$4,3 bilhões ao registrado de fato R$ 6.572.979 bilhões. Mais que uma Santo André de descompasso arrecadatório.
Também faz parte do pacote editorial de hoje, centralizado em São Bernardo, Capital Econômica do Grande ABC, o comportamento ponta a ponta do PIB de Consumo, parente muito próximo do PIB Tradicional e que mede com precisão o quanto São Bernardo sofreu com os desarranjos.
A melhor maneira de confrontar o PIB Tradicional não está na medição pura e simples do balanço dos dados próprios de cada Município. É possível obter resultados mais importantes, e tenho feito isso ao longo dos tempos, comparando valoresconcorrenciais. Ou seja: pega-se o valor do PIB Tradicional de 2004 e o comparara com o valor do PIB Tradicional de terceiros.
IBGE ATRASADO
No caso do confronto que promovo neste texto, a marca temporal começa no ano de 2004, como se registrou no critério de Receita Total utilizada ontem, mas termina antes de 2025, porque o PIB dos Municípios Brasileiros mais atualizado estacionou em 2023, e mesmo assim com limitações de dados.
O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) está atrasadíssimo na divulgação completa do PIB, geralmente com dois anos de atraso. Faltam dados setoriais no PIB Tradicional dos municípios brasileiros desde 2021. Por isso, vou me limitar a registrar o resultado de São Bernardo sem complementaridades pretendidas, inclusive ou principalmente para verificar o andar da carruagem do setor industrial.
Numa linha de tempo que fragmentei para além do resultado do PIB Tradicional de São Bernardo entre 2004 e 2023, constatei o que não é nada surpreendente em duas estações de parada de dados que refletem bem o que foram os anos diretamente sob o comando do presidente Lula da Silva nos dois primeiros mandatos, e os anos diretamente sob o comando de Dilma Rousseff, nos seis anos de dois mandatos incompletos. Ou seja: além do embate entre o PIB Tradicional de 2004 e o PIB Tradicional de 2023, estacionei as baterias de análises no PIB Tradicional de 2010, 2014 e 2016.
LULA FESTEJADO
Como todo o mundo sabe ou deveria saber, o segundo mandato de Lula da Silva foi a consagração do ex-metalúrgico à frente do governo federal. Houvesse parado ali, entraria para a história do País como o presidente de melhores resultados. Termina entre os piores quando se trata de Grande ABC. Lula deixou o governo com aprovação de 82% dos brasileiros. É claro que o indice seria outro se houvesse a atmosfera comunicacional democrática, ou quase democrática (depende de quem incensa o supremo Alexandre de Moraes) de conflitivos avanços digitais que reduziram drasticamente a importância da imprensa tradicional. Mas isso é outra história.
Com políticas de expansionismo fiscal de Lula da Silva, especialmente no segundo mandato em que se desgarrou do legado fiscalista dos tucanos, o mercado interno bombou. Nunca se venderam tantos veículos. As planilhas da Anfavea, o Clube das Montadoras, estão estreitamente relacionadas à temperatura econômica e social do Grande ABC.
O consumo de commodities pelos chineses, especialmente, garantiam o crescimento das receitas nacionais. O PIB explodia. Com isso, e agora mostro a melhor metodologia de aferição de Desenvolvimento Econômico restrito à influência do Produto Interno Bruto, a participação de São Bernardo no PIB Nacional registrou fantástico 1,431%. Traduzindo: de tudo que se produzia de riquezas no País na temporada de 2010, último ano de Lula presidente na primeira década, nada menos que 1,431% era de responsabilidade de São Bernardo. Para o leitor ter ideia do quanto isso significava em gigantismo, é pouco menos do que o conjunto dos sete municípios do Grande ABC passaram a contar na temporada de 2023 -- esquálido 1,767%.
LULA E DILMA
Para quem entende que um governo é um sucesso pelo que supostamente deixa de crescimento econômico, sem considerar o conjunto da obra macroeconômica, o segundo mandato de Lula da Silva é prova viva de competência. Bobagem. O futuro imediato que sempre chega e mesmo o futuro mais remoto sofrem as consequências de descontroles subestimados, quando não glorificados.
Foi o caso de Dilma Rousseff, a quem Lula da Silva entregou o bastão nessa corrida quase completa do Partido dos Trabalhadores neste século em Brasília.
Lula da Silva deixou, portanto, a herança maldita com cores de herança bendita de 1,431% de participação do PIB de São Bernardo no PIB Nacional. PIB Tradicional, vale a pena repetir. PIB de Consumo é outra coisa e vem logo a seguir. Ao final do sexto ano, incompleto, de Dilma Rousseff à frente do governo federal, a participação regional no PIB Tradicional Nacional caiu para 0,845%. Uma queda de 69,35% no período. Como os leitores já sabem de cor e salteado, no PIB Tradicional medido por este jornalista, a queda internas na região chegou a 24,14%.
VEJA OS DADOS
Vou dar números para que o leitor possa entender a situação. O PIB de São Bernardo em valores monetários nominais (sem considerar a inflação) de 2010, quando Lula da Silva deixou a presidência depois de dois mandatos, registrou R$ 55.615,87 bilhões. O PIB do País contabilizou R$ R$ 3.886 trilhões. Basta dividir um pelo outro para se chegar à participação de 1,431%. Em 2004, ponto de partida desses cálculos, a participação do PIB Tradicional de São Bernardo no PIB Nacional era de 0,955%, resultado do valor monetário de R$ 16.906.079 bilhões em confronto com R$ 1.769 trilhões do País.
Para o leitor ter ideia do quanto o desastre chamado Dilma Rousseff abalou o PIB Tradicional de São Bernardo (e do Grande ABC como um todo), a participação relativa da Capital Econômica do Grande ABC no PIB Nacional segue em ritmo de desabamento: contamos em 2023 com apenas 0,660%.
Pegue o resultado de 2004, de 0,955% e faça uma comparação. E também pegue os dados de 2016, pós-Dilma, e chegue a 2023, e faça outra comparação. Entre 2004 e 2023, a queda da participação de São Bernardo no bolo nacional chegou a 44,70% -- média anual de 2,128%. No período mais curto, de 2016 a 2023, a queda de participação relativa no PIB Nacional acusou o golpe de rebaixamento de 28,03% --média anual de 4,00%.
MOBILIDADE SOCIAL
Qualquer que seja o caminho explicativo, o desenlace de desencantamento será sempre o mesmo. Pior que isso, repetirei sempre, foi o escandaloso mutismo de supostas institucionalidades do Grande ABC. Os ocupantes dessas instituições longevas não fizeram sequer um movimento contestatório.
Agora vamos para os finalmentes. Tudo isso que o leitor acabou de consumir desembocou na reestruturação compulsória da ocupação socioeconômica de São Bernardo (e também nos demais municípios).
Num período semelhante à medição do PIB ( entre 2004 e 2026), a Classe Rica de São Bernardo perdeu participação relativa interna de 29,43%, segundo dados de empresa especializada em PIB de Consumo, a Consultoria IPC. Em 2004, São Bernardo contava com 7,296% de moradias de Classe Rica. Duas décadas depois sobraram 5,640%.
CLASSE MÉDIA PRECÁRIAS
A Classe Média Tradicional de São Bernardo contava em 2004 com 31,80% das moradias, ante 26,37% em 2026%. Agora vem a prova provada da degringolada. A Classe Média Precária, como batizo a Classe C de teóricos da embromação, saiu de participação relativa de 33,73% em 2004 para chegar a 53,62% em 2026. Esse gigantismo de famílias de Classe Média Precária é resultado perverso do rebaixamento de participação relativa da Classe Rica e da Classe Média Tradicional, além da ascensão assistencialista de Pobres e Miseráveis do Bolsa Família: representavam 27,17% em 2004 e passaram para 14,38% em 2026.
Os números da Consultoria IPC são implacáveis. São Bernardo contava com 0,73555% de participação relativa no PIB de Consumo Nacional em 2004 e caiu para 0,52309% em 2026. Uma queda de 40,16%. O PIB de Consumo per capita, sem considerar a inflação do período, passou de R$ 7.085.507 mil para R$ 53.508,44. Um avanço de 992,45%. Avanço é força de expressão. Aa média nacional registrou praticamente o dobro.
Ainda não esgotamos o estoque de anotações e avaliações envolvendo diferentes resultados da Receita Total dos municípios mais importantes do Estado de São Paulo. Contextualizar a realidade regional em confrontos intermunicipais é a fórmula perfeita para inibir exibicionismos sem lastro.
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02/11/2026 SÃO BERNARDO PERDE R$ 4,3 BI DE RECEITA