Com o texto publicado na última quinta-feira, dando conta de três tempos de dois mandatos e da morte biológica e administrativa de Celso Daniel, cheguei a um terço da trajetória de uma coletânea que valerá alguma coisa preciosa no futuro que sempre chega caso o Grande ABC saia da pasmaceira institucional, principalmente institucional, das últimas quatro décadas.
Arca de Noé Contra o Gataborralheirismo é um exercício que me impus como legado a todos que pretenderem compreender o Grande ABC como maior laboratório social e econômico do País nos últimos 50 anos. Precisamente desde os primeiros efeitos do movimento sindical de Lula da Silva em meados dos anos 1970.
Não se constrói uma Detroit à Brasileira por combustão. Somos uma obra-prima de incompetência generalizada. Ganhamos de presente do governo federal o protecionismo para fabricar veículos. E o fizemos com péssima qualidade quando em confronto com o mercado internacional (as carroças de Collor de Mello) e jogamos praticamente tudo no acostamento da negligência institucional e na arrogância de acreditar que a mágica expressão Grande ABC seria o pó de pirlimpimpim que asseguraria riqueza eterna.
ESTADO DOMINADOR
O capitalismo fortemente de Estado do Regime Militar que fez a Economia do Grande ABC dar um salto quântico agora é um capitalismo supostamente liberal que viola a estrutura industrial do Grande ABC com a preferência ideológica pelos chineses predadores.
Do total de 60 textos previstos, que fazem referência explícita aos 60 anos de jornalismo, ainda faltam 40 para atingir a meta. Às vezes fico atormentado com a possibilidade de não romper a fita de chegada. Só vou me sentir tranquilo quando chegar lá. E antes mesmo de chegar lá já tenho outro projeto também em forma de coletânea, agora com a participação de profissionais que colaboraram intensamente para o sucesso da revista LivreMercado.
O que me move nessa busca pela reprodução de tantas análises é justamente a exclusividade que detenho como observador da cena regional ou mais precisamente do cenário de regionalidade. Sinceramente, não boto muita fé na valorização do material que está sendo cuidadosamente selecionado como parte da operação, e que não representará nem 5% do total disponível no arquivo de CapitalSocial.
MORFOLOGIA FRÁGIL
Falta ao Grande ABC o que chamaria de morfologia cultural para destruir o sentimento gataborralheiresmo que marca a sociedade. A destruição de qualquer coisa que seja caracterizada como reserva de conhecimento regional é constante e, não bastasse o regionalismo de terceira classe, encontramos suplementação destruidora da tecnologia comunicacional, que banaliza, quando não ignora, tudo que não tenha caído na rede de espetacularização.
E assim no País inteiro. Apenas nichos sociais consomem para valer experiências que tornam possível buscar referências para corrigir a rota de desenvolvimento social no sentido de conhecimento intelectual.
Ainda tenho 40 análises a acondicionar no pacote de Arca de Noé. Por enquanto, apenas por enquanto, não sinto desconforto adicional de escolhas apertadas. Vou explicar. Tracei o projeto levando-se em conta que entre mais de nove mil opções, não poderia perder o foco no conceito da megasssérie para justificar e dar produtividade às 60 definições.
Foi a primeira etapa da Escolha de Sofia. Espero não passar por uma segunda versão, ou seja, de transformar a última dezena selecionável em operação estressante. Às vezes fico atormentado com a possibilidade de passar por pressão quando se estreitar o espaço disponível.
TUDO PLANEJADO
O planejando que desenhei segue à risca a premissa de que temáticas relevantes não poderiam ser dispensadas e, mais que isso, deveriam ser observados com rigores de ourives. Cada nova escolha à coletânea significa uma escolha a menos. Quando se tem como se tem por enquanto a estrada larga de pinçamentos, nada mais tranquilizador.
Há a possibilidade de gerar certa displicência nas escolhas? Claro que há. Mas quando se adota o conceito de selecionar o acervo com rigor absoluto desde a primeira edição de 60 no total, acredito que estaria interditando a estrada do sufoco. Será que vou ter uma batata-quente editorial para descascar na reta de chegada dessa coletânea?
Parece bobagem para quem não leva a sério o que chamo de planejamento transposto em forma de anotações impressas, mas esse é um método que reduz drasticamente as potencialidades de fragilizar o objetivo traçado.
Seria algo como disputar uma maratona, que jamais disputei, ou mesmo uma prova de 10 quilômetros, que já realizei em forma de corrida informal. O ritmo físico precisa estar sintonizado com a reserva de músculos e com a fortaleza mental.
CONTROLE PROGRAMADO
Costumo dizer que nem precisaria de cronômetro para cumprir a corrida informal praticamente sem desvio além da margem de no máximo 5% do tempo despendido. Um corpo disciplinado memoriza o tempo com a precisão possível de um relógio. Assim é que, também, vejo o desafio de chegar à marca planejada de 60 textos sem incorrer no desespero de eliminar conteúdos indispensáveis ao encaixe do projeto.
Para o leitor entender a engrenagem central de Arca de Noé Contra o Gataborralheirismo e o consequente controle de qualidade do que se apresenta, dividi a linha editorial que adotei há 36 anos na revista LivreMercado, transposta em seguida a essa publicação digital, considerando alicerces macro temáticos.
Vou explicar. Questões-chave como Desindustrialização, Logística, Assassinato de Celso Daniel, Socialismo em Diadema, Sindicalismo, Universidade Federal do Grande ABC e tantas outras formam a estrutura editorial. É verdade que a agenda é múltipla, mas também é verdade que tudo gira em torno do abracadabra da regionalidade que poucos praticam.
Devo confessar ao leitor que logo após o primeiro capítulo decidi flexibilizar o que parecia excessivamente castrador. A reprodução de exatos 60 textos cercearia a compreensão da regionalidade pretendida porque algumas pontas ficariam soltas. Seriam vácuos que despejariam sobre o leitor do presente e quem sabe do leitor do futuro a possibilidade de afundar no vazio da compreensão plena.
AGREGANDO VALORES
Por isso, decidi incorporar a cada edição da coletânea, quando pertinente, textos conjugados. A primeira gestão de Celso Daniel, a segunda gestão de Celso Daniel e a morte física e administrativa de Celso Daniel ganharam espaço único em forma de capítulo específico, como foi apresentado na semana passada. Situações semelhantes também constam de vários dos 20 capítulos já publicados. E haverá novas incorporações. A origem e o desfecho de determinadas abordagens que se comprovam históricas no jornalismo regional não podem ser desconfigurados à compreensão dos leitores de hoje e do futuro.
Uma das pautas sobre as quais estou de olhos atentos e que pretendo rebocar à coletânea refere-se à invasão asiática, principalmente chinesa, no setor automotivo do Grande ABC. Por enquanto, o cerco de um capitalismo de Estado predador tem sido externo, com fábricas que se instalam no País quer em forma de ação direta ou associada a companhias automotivas locais. Mas, do jeito que a banda está tocando, não demorará para desembarque na região. As chamadas conquistas trabalhistas implodiriam.
Os chineses só não desembarcaram aqui ainda porque o Custo ABC não combina com capitalismo predatório. Mas do jeito que os bravos sindicalistas fazem de tudo para recepcioná-los sob a égide geopolítica do governo federal e a idolatria socialista, provavelmente teremos um novo choque interno do setor econômico mais importante da região. Como se a abertura econômica destrambelhada de Collor de Mello, o elitismo de Fernando Henrique Cardoso e o analfabetismo macroeconômico de Dilma Roussef não fossem suficientes. Além claro, do deslumbramento e gastança de Lula da Silva.
Total de 2003 matérias | Página 1
14/08/2026 CARTA ABERTA AO PRESIDENTE LULACÁ