Economia

Quanto tempo perdemos dentro de
veículo nas ruas do Grande ABC?

DANIEL LIMA - 13/07/2011

Ainda bem que as autoridades públicas não dão ouvidos às loucuras de Milton Bigucci. Se o uso e a ocupação do solo no Grande ABC obedecessem às premissas imperialistas do eterno presidente da Associação dos Construtores, Imobiliárias e Administradoras do Grande ABC, perderíamos muito mais que 21 dias dentro do carro nas ruas locais. O cálculo dos dias desperdiçados está no jornal Repórter Diário, numa ampla reportagem publicada no final de semana e disponível na versão digital da publicação.


Não foi o jornal Repórter Diário que se meteu a fazer as contas do quanto gastamos em média para cumprir compromissos diários. A equipe destacada para produzir a matéria ouviu um especialista no assunto, Evandir Megliorini, professor de Engenharia Econômica e Custos da UFABC (Universidade Federal do Grande ABC). O professor chegou à conclusão que se consome em média duas horas para ir e voltar do trabalho, o equivalente a 21 dias por ano dentro do carro.


Faça você, leitor, as contas. Quem passar menos tempo por dia, reduz os dias enjaulados num veículo. Quem passar mais, aumenta.


O trânsito do Grande ABC e também o trânsito metropolitano sempre preocuparam a direção editorial da então melhor publicação regional do País, a revista LivreMercado (aquela que não existe mais, exceto no acervo que detenho para preservar a memória e a responsabilidade social do jornalismo como braço de cidadania). Tanto que em fevereiro de 2000 (portanto, há mais de uma década) a jornalista Tuga Martins foi a campo para mostrar o que se passava e o que se pretendia passar pelas ruas metropolitanas. Aquela Reportagem de Capa está transposta para esta revista digital.


Uma Reportagem de Capa que vem a calhar e que deveria ser avidamente consumida não só por jornalistas metropolitanos, como também por autoridades públicas locais, inclusive secretariado da área, porque reúne tantas informações que é impossível ficar indiferente à consecução dos projetos e também às frustrações das propostas alinhavadas para um futuro demarcado para 2020.


A qualidade de vida dos moradores do Grande ABC passa pela redução das armadilhas viárias que se avolumaram tanto com a ausência de políticas públicas de administradores avessos a construir o amanhã quanto pela explosão do uso de veículos de passeio num País muito mal servido de infraestrutura à mobilidade urbana.


Não bastassem esses pecados capitais, ainda temos gente como Milton Bigucci, que, do alto de uma entidade de classe mais que improdutiva quando se coloca a pauta de cidadania como referência, ejacula individualidades nos corredores das prefeituras, sempre em busca de nacos privilegiados de investimentos imobiliários.


Felizmente, tenho notícias que indicam que o reinado do representante máximo da categoria, mas que está longe de espelhar o pensamento médio da maioria dos empreendedores do setor, tem encontrado maior resistência à catequização da ideia suicida de liberar geral a construção de edifícios de apartamentos na região.


Entretanto, sei lá o que o Grupo Técnico de Mobilidade Urbana anda a fazer no Clube dos Prefeitos. De diagnósticos estamos cheios. Precisamos fundamentalmente de atitudes. A voracidade de agentes do mercado imobiliário é uma marca registradíssima não só no Grande ABC. Submeter as legislações locais de uso e ocupação do solo à vontade de predadores é um tiro certeiro no próprio pé.


Há uma parcela de empreendedores do setor que já se revelou responsável, inquieta com as vicissitudes metropolitanas, mas geralmente pouco se faz presente nas entidades que de fato não passam de lobbies corporativos.


O tempo que perdemos dentro do carro nas ruas metropolitanas é sempre e loucamente tempo demais, uma espécie de preço a pagar pela amplitude de oportunidades que os estudiosos garantem que áreas densamente ocupadas oferecem à mobilidade social, essa corrida sem limites que os humanos se impõem.


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