Economia

PIB da Província cresce pelo IGPM
e cai pelo IPCA. Qual você escolhe?

DANIEL LIMA - 16/12/2011

O PIB (Produto Interno Bruto) da Província do Grande ABC recebeu números contraditórios nas reportagens publicadas ontem no Diário do Grande ABC e no Diário Regional. Os dados referem-se ao desempenho regional em 2009, conforme balanço do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Além disso, há controvérsias sobre os índices e também se crescemos ou perdemos quando se comparam os números com 2008.

 

O Diário do Grande ABC errou redondamente ao esticar o período deflacionário. O Diário Regional fez a operação correta (os números deflacionados de 2008 contrapostos aos números de 2009 para medir o desempenho), mas chegou a um resultado imperfeito. Se o deflator for outro, o que sempre utilizamos, o IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado), da Fundação Getúlio Vargas, em vez de perda a Província chega a resultado positivo em 2009.

 

Antes de esmiuçar os dados publicados no Diário do Grande ABC e no Diário Regional, vale lembrar que o índice geral do PIB da Província em 2009 registrou 2,197% de tudo que é produzido de riqueza no País. Como em 1970 o indicador chegava a 4,570%, temos queda relativa de 51,92%.

 

Derrapagem grave

 

Traduzindo: perdemos mais da metade da geração de produtos e serviços ao longo de 39 anos. Menos mal seria se a perda fosse apenas relativa, ou seja, em comparação com o País como um todo, porque poderíamos ter crescido menos que a média do País mas não teríamos deixado de crescer. O problema grave é que caímos em termos absolutos, porque perdemos para nós mesmos e também para a média do País. Nada mais lógico, porque 1970 era praticamente o auge da industrialização da Província e na outra ponta, em 2009, apesar de todos os investimentos e de produtividade industriais, não recuperamos os valores absolutos.

 

Mais ou menos neste período do ano que vem os jornais da região vão publicar que o PIB da Província cresceu consideravelmente em 2010, porque a economia nacional saiu do marasmo iniciado em 2008 por conta da crise internacional do sistema financeiro e alcançou números estratosféricos no ano passado. O PIB nacional cresceu 7,5% na temporada passada.

 

Os indicadores de que a Província avançou no ano passado após um 2009 complicado já foram publicados nesta revista digital, com base nos dados do Valor Adicionado, componente decisivo na construção do Produto Interno Bruto. O risco que corremos no ano que vem, quando emergirem os números do PIB de 2010, é de nova onda de triunfalismo. Como sempre estaremos com atraso de dois anos na publicação dos números do PIB os leitores incautos que não distinguirem o ontem do hoje nas páginas dos jornais, acabarão iludidos.

 

Ano que vem diferente?

 

Nada assegura que os números gloriosos do PIB de 2010 para a economia da Província do Grande ABC não sejam atropelados por eventual quebra de crescimento em 2012. A previsão é de que o Brasil não crescerá nem 3% neste 2011 e mal chegaremos a 3,5% no ano que vem. Isso tudo se a União Européia não desfizer ainda mais os sonhos dos emergentes. Principalmente os Brics.

 

Agora vamos revelar as razões que levaram tanto o Diário do Grande ABC quanto o Diário Regional a apontarem equivocadamente os valores percentuais de queda do PIB da Província em 2009, quando comparado a 2008.

 

O Diário do Grande ABC cometeu o pecado de exceder-se no período pesquisado para chegar à perda de 3,5% do PIB regional. Em vez de promover a disputa dos números deflacionados de 2008 com os números finais registrados em 2009, optou por remeter a correção monetária a setembro deste ano. Um verdadeiro sarapatel, sem nexo e sem qualquer jurisprudência econômica. O confronto deve restringir-se 2008 e 2009. Meter o ano inteiro de 2010 e os nove primeiros anos deste 2011 na equação deflacionária é obra desastrada. Não imagino quem tenha sido o gênio desse apagão de discernimento.

 

Convém ressaltar o entendimento do verbete deflacionar. O conceito, como explica qualquer dicionário de economia, está relacionado à existência de inflação ou a desvalorização da moeda pela alta generalizada dos preços. Deflacionamento nada mais é que a conversão de valores correntes (nominais) em moeda de poder aquisitivo constante (valor real).

 

Continuando, o Diário Regional fez tudo certinho, botando o ano de 2008 de um lado e o ano de 2009 do outro. Aplicou, como o Diário do Grande ABC, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) do IBGE. Chegou à conclusão que a perda regional entre um ano e outro foi de 5,48%, bem acima da perda do PIB nacional, que ficou em 0,3% no período.

 

Erros de cálculo

 

Utilizei os próprios números do Diário Regional (que são também os números publicados pelo Diário do Grande ABC) para constatar que houve erro de cálculo. Se o PIB da Província do Grande ABC em 2008 alcançou R$ 70,299 bilhões e chegou a R$ 71,164 bilhões em 2009, isso significa que a queda foi de 4,31%, não de 5,48%.

 

Por que 4,31%? Basta deflacionar os R$ 70,299 bilhões de 2008 para chegar ao valor final de R$ 73,330 bilhões. A inflação registrada pelo IPCA no período foi de 4,3120%. Quando se coloca para enfrentamento os R$ 73,330 bilhões de 2008 deflacionados até dezembro de 2009 e os R$ 70,299 bilhões contabilizados em 2009, alcança-se a perda de 4,31%.

 

Quem acreditava que esse debate, opondo Diário do Grande ABC e Diário Regional, não passaria de simples picuinha, deve ter percebido que tem muito mais relevância. Afinal, os dois jornais erraram na qualidade e na quantidade do PIB regional em 2009, quando confrontado com o ano anterior. O Diário do Grande ABC se equivocou completamente ao enfiar nos cálculos o deflacionamento de 2010 inteiro e boa parte deste ano. O Diário Regional tropeçou no quociente dos valores de deflacionamento, embora tenha acertado no período comparado.

 

Então, para resumir a ópera, o que tivemos em 2009 na Província do Grande ABC foi a queda de PIB em 4,31. Esse é um lado da moeda. Há outro que precisa ser ponderado.

 

Indexador de sempre

 

Como sempre calculo o deflacionamento de tudo que se refere à economia da Província do Grande ABC utilizando o IGP-M da Fundação Getúlio Vargas, para evitar que as análises sofram distorções metodológicas que afundariam o barco das conclusões teóricas, o que temos em 2009 quando comparado a 2008 é, acreditem, o crescimento do PIB da Província.

 

Isso mesmo: os números absolutos do PIB da região de 2008 passam por processo de deflacionamento determinado pelo índice negativo de 1,72% do IGP-M de 2009. Então, o que era R$ 70.299 do PIB de 2008, passa a ser R$ 69.089 em 2009. Como em 2009 o PIB da região registrou R$ 71.164 bilhões, basta cruzar os dois números para alcançar crescimento de 3,0%.

 

Ainda escreveremos muito sobre o PIB de 2009 sob diversos ângulos. Preferimos o IGPM por vinculação metodológica história, mãe de todas as elucubrações. Então, comemoremos o crescimento. Apesar da crise internacional. Não cometeríamos o crime de mudar o indexador em período de, apesar de tudo, recuperação numérica, depois de utilizá-lo anos a fio em jornadas de perdas sobre perdas.



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