Sociedade

Retrato da Província: uma kombi,
outra kombi e um estádio lotado

DANIEL LIMA - 26/06/2012

Vou direto ao ponto: que retrato o leitor pintaria da Província do Grande ABC se a Província do Grande ABC fosse retratada numa tela como espécie de exercício crítico? Eu já me decidi, por isso vou fundo: não passamos de uma kombi lotada aqui à direita, outra kombi lotada à esquerda e, no centro, um grande e lotado estádio, o Estádio Primeiro de Maio, maior da região, depois de o Estádio Bruno Daniel virar sucata por desídia da Administração Aidan Ravin e de antecessores.
 
Certamente o leitor está invocado com o desenho que pintou em minha imaginação, um desenho supostamente sem graça. Kombi aqui, Kombi ali e um estádio bem no centro não são coisas que reúnam um mínimo de sensibilidade artística e, mais que isso, não têm nenhum valor plástico. Qualquer principiante seria capaz de formular algo bem melhor.
 
Concordo completamente. O desenho que saltou à tela de minha imaginação, só na tela de minha imaginação porque sou ruim de doer no uso de pincéis, é um desenho rudimentar, quase primário, porque esse é o meu limite artístico. Mas, acreditem, por trás de traços simples, quase simplórios, há significados contundentes, para não dizer pungentes.
 
Desvendando a imagem
 
Sabem os leitores o que significa essa Kombi verdinha à direita da tela, uma kombi toda bem ajambrada, pintadinha? Os mandachuvas da Província do Grande ABC. Eles são uma minoria quantitativa, mas uma maioria decisória, especulativa, manobreira, interesseira, manipuladora. Reúne principalmente políticos de coturno elevado, alguns membros do Judiciário, do Ministério Público e também da mídia. Eles se apertam nos assentos, porque o espaço é exíguo e muito concorrido. Há filas de pretendentes. Cutucam uns aos outros. Incomodam-se mutuamente. Mas sempre dão um jeitinho de sossegarem o facho de ambições exacerbadas, porque há pesos e contrapesos que precisam ser ponderados. De vez em quando um ou outro quer tomar o lugar do condutor de plantão, que se julga comandante de tudo. É uma briga de foice no escuro. Mas eles sempre dão um jeitinho para se acomodarem no bem-bom. É claro que há trocas de ocupantes, conforme o jogo eleitoral. Alguns são despejados, outros sobem correndo para tomar os assentos.
 
Nas eleições de 2008 houve novos ocupantes, como há novos ocupantes a cada disputa à qual o povo é compulsoriamente convidado a participar. Remelexos marcaram o espaço da kombi sempre em alta velocidade, porque ambição, dinheiro, poder, não têm limites. Quando, entretanto, a gulodice ultrapassa os limites éticos, por assim dizer, tudo pode acontecer. Escândalos se sucedem em forma de freio de arrumação interna, embora pareça aos olhos ingênuos que os objetivos sejam outros.
 
A maioria dos mais ambiciosos quer participar dessa kombi da felicidade, que pode durar alguns anos, muitos anos ou mesmo apenas alguns meses. Tudo depende das mexidas das pedras do jogo político-partidário.
 
Pobres coitados
 
A outra kombi que meti no desenho ilustrativo da realidade da Província do Grande ABC é uma kombi maltratada, velha que dá dó, toda amassada e com o motor rateando. São os pobres coitados que têm capacidade, inteligência, independência e outros requisitos para contrapor uma dose de equilíbrio aos ocupantes da kombi dos poderosos, mas que nada fazem. Ou pouco fazem. Alguns se metem a admoestações, a proposições, a lamentações públicas, mas a maioria se cala ou se manifesta em grupos segregados que pensam simetricamente, embora sem o mesmo lustro intelectual.
 
A kombi dos que esperneiam cuidadosamente é uma kombi muito vigiada pela kombi dos poderosos. Os ocupantes precisam ser contidos a qualquer custo. Ou se calam, ou se manifestam apenas em guetos de inconformados, sem nenhum risco de contaminação do ambiente, ou vão lhe sobrar porradas de todos os tipos. Vão ser perseguidos nos bastidores. Terão seus valores morais e materiais atingidos. Sentirão o peso da discriminação disfarçada de indiferença. Essa não é uma kombi bem-vinda na Província do Grande ABC. Quem se meter a condutor, então, está frito. Só resistirá se tiver uma porção de loucura no cérebro.
 
E esses infelizes!
 
Já o estádio lotado é formado por gente que gira em torno dos poderosos, ou seja, da kombi do bem-bom. São funcionários públicos graduados, acadêmicos, empresários, sindicalistas, lideranças de classe, gente assim. A marca registrada de todos eles, ou de quase todos eles, é a indiferença ao coletivo. Interessam-lhes o próprio bolso, as vantagens individuais. Mudam de opinião como modelos de calcinhas. Depende do que lhes oferecem. Alguns são mais resistentes, porque há questões ideológicas em jogo e é preciso manter as aparências, mas nada resiste ao abandono para que novas cores pintem na tela que não é da Globo.
 
Já no horizonte ao longe que salta de minha tela imaginária, esse horizonte é emblematicamente formado pelo restante da população da Província. Simplesmente abdica de qualquer iniciativa crítica, reformista, determinista. É a grande massa popular que acredita que os ocupantes da kombi dos poderosos será capaz de lhes garantir um destino regional satisfatório, contando para isso com a força do contraponto dos pobres ocupantes da kombi mambembe e esperançosos de que o Estádio Primeiro de Maio lotado garante o jogo frenético de uma democracia construtivista.
 
Pobre horizonte que salta de meus pincéis. O arrastão econômico dos anos 1990 levou praticamente tudo da Província do Grande ABC. A luta pela sobrevivência daqueles que ocupavam os degraus mais elevados do comboio social soterrou de vez qualquer possibilidade de rearranjo institucional. Os medíocres tomaram conta do território regional. Para felicidade geral da kombi dos poderosos de plantão, que se esforçam para evitar desembarque na próxima parada eleitoral, conhecedores que são das regras do jogo jogado silenciosamente pelos grupos de interesses distribuídos no estádio lotado.


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