A direção editorial do Diário do Grande ABC deveria seguir o exemplo do Jornal Nacional, edição de ontem à noite, e solicitar desculpas ao distinto público. A TV Globo errou numa informação e a corrigiu. O Diário deveria fazê-lo após a leitura deste texto. A manchete principal de primeira página do jornal mais antigo da região ("Está faltando loja no Grande ABC") sugeriu na edição de ontem a carência de unidades comerciais na região. Fiz as contas e cheguei à conclusão do suposto buraco. É claro que a comparação com a Capital, base do cálculo do jornal, é esdrúxula, uma bobagem sem tamanho.
A metodologia aplicada, com base nos dados de uma empresa séria e competente como a IPC Marketing e Pesquisas, é catastrófica. Pelo Diário, caberia o equivalente a 150 unidades do tamanho do Shopping ABC na Província do Grande ABC. Já imaginaram a catástrofe dos investidores ao se fiarem no texto do jornal? Mal conseguimos suportar mais um ou outro shopping, se tanto. Só temos cinco e há quem garanta que, se apertar, confessamos. Ou seja: não suportamos mais nenhum.
Como sou perdigueiro da informação e conheço suficientemente a economia da Província, levei um susto enorme ao ler a manchete de primeira página do Diário do Grande ABC. Fiquei mais assustado ainda quando fui à página interna. Uma matéria mal-elaborada, sem pé nem cabeça, com dados falhos e interpretação equivocadíssima.
Em resumo, o Diário do Grande ABC afirmou que a Província do Grande ABC tem espaço enorme a novos empreendimentos comerciais. Como pode ser possível tamanha sandice, imaginei, porque tenho batido na tecla de que há evidente canibalismo na região. Comerciantes saltam de banda porque nos últimos 20 anos houve completo divórcio entre o número de novos empreendimentos do setor (e de serviços também) e o esvaziamento econômico ditado pelo esfarelamento industrial. Muitos dos 100 mil postos de trabalho formal que desapareceram do setor industrial foram transformados em negócios de pequeno porte a partir de meados dos anos 1990.
São Paulo é outra coisa
O Diário do Grande ABC respaldou a pobre matéria na informação de que, numa divisão do total de empreendimentos comerciais da região, registrados pela empresa IPC Marketing, a Província do Grande ABC conta com índice de 20,1 para cada mil habitantes. Bem abaixo da média da Capital, de 29,4 unidades por mil habitantes. E também abaixo da média paulista, de 27,3 lojas, e mesmo do Brasil, de 22,7 unidades.
A comparação não tem sentido. Nem mesmo um outro ramal para tentar chegar a um índice menos impreciso, que seria a divisão de lojas comerciais pelo potencial de consumo, especialidade da IPC Marketing, seria aconselhável sem os devidos reparos e contextualização.
Por que não? Porque potencial de consumo nem sempre é traduzido em consumo local. Mais que isso: no caso da Província, parte do potencial de consumo ainda é consumado na vizinha Capital, dadas as diferenças e as especificidades de estrutura econômica. Além disso, São Paulo é um chamariz nacional e internacional, enquanto somos uma Província com Completo de Gata Borralheira. São Paulo adiciona ao potencial de consumo próprio muitos valores de potencial de consumo de outros endereços. Com a Província se dá exatamente o inverso.
Mesmo sem pretender me alongar em aproximar o mais possível o potencial de consumo da realidade regional, fui à luta para encontrar um exemplo que pudesse explicitar a bobagem publicada pelo Diário. E encontrei com certa facilidade. A barbeiragem se resume na insustentabilidade econômica de que, para nos igualar à Capital, conforme o dispositivo do Diário do Grande ABC, teríamos uma defasagem de 150 unidades do porte do Shopping ABC. Vou explicar.
Pelas contas do Diário do Grande ABC, a Província do Grande tem média de 20,1 unidades de comércio por mil habitantes, ante 29,4 da Capital. Ora, então a diferença que supostamente seria desfavorável à região (e que significa uma incrível elasticidade que comportaria novos empreendimentos) chega a 46,26%. Mas a diferença é maior: o índice da Capital é de 35,61 lojas por mil habitantes. Ou seja: a diferença chega a 77,20% entre o índice paulistano e o provincial. Continuando o raciocínio para chegar àquela suposta demanda reprimida de lojas, basta saber quanto são esses 77,20% desfavoráveis à Província: contamos com um total de 51.891 empreendimentos, chegaríamos a 40.059 de potencial de incremento. Agora, basta dividir 40.059 novos empreendimentos por 267 lojas (que é o total de negócios comerciais do Shopping ABC) para chegarmos às 150 novas unidades de centros planejados de compra.
Fenômeno sem respaldo
Se aparecesse na praça algum maluco que acreditasse na interpretação dos dados do Diário do Grande ABC, daríamos um nó na Capital e poderíamos cantarolar a liderança nacional em matéria de economia porque aos 150 novos shoppings acrescentaríamos os cinco atuais. O placar passaria a ser de
Por isso e por outras o título deste artigo foi feito sob medida para levar os leitores à leitura incrédula, porque duvido que unzinho sequer que tenha conhecimento regional passou os olhos naquelas duas linhas acima e não se tenha colocado em posição defensiva.
A realidade que o Diário do Grande ABC insiste em negar é que o universo do setor comercial da Província do Grande ABC ocupa o tamanho exato do encaixe entre oferta e demanda. Diria mais: dadas as condições mais que conhecidas de empobrecimento econômico da região, com dados que estamos cansados de expor e analisar e que constam dos arquivos desta revista digital, a numerologia sobre potencial de consumo está ajustadíssima às condições que encontramos.
Estamos cada vez mais parecidos com a média brasileira em muitos aspectos econômicos, o que é uma tremenda roubada porque a média nacional está muito aquém do Primeiro Mundo e dos maiores centros econômicos do País.
O índice de 22,7 lojas para cada mil habitantes no País é muito próximo ao 20,1 da Província. Mesmo sem levar a sério esse tipo de confronto, porque é muito frágil como sustentação de um debate econômico, o que se apresenta é mesmo uma semelhança que mostra a nossa cara cada vez mais verde e amarela, ou seja, de crescimento econômico minguado ao longo dos últimos 40 anos e que nos últimos seis anos ganhou certo influxo por conta de opção preferencial pelo crédito fomentador de consumo, e não de investimentos garantidor do futuro.
Oferta e demanda decidem
Uma região que comporta uma única opção de restaurante para os afortunados (ou supostamente afortunados, porque não faltam trambiqueiros que arrotam peru e comem mortadela), que não consegue emplacar uma alternativa que funcione dia e noite na área supermercadista (o Sonda, felizmente, vem insistindo na tentativa de dar certo) e que não oferece uma única casa de espetáculo com programação que não cheire a mofo, entre tantas graves fissuras econômicas e culturais por falta de demanda uma região assim, não pode sequer ser comparada à Capital tão próxima.
Daí, é claro, que 150 novos shoppings não passam mesmo de síntese de uma operação metodológica despropositada. Manchete impressa, manchete condenada à história. Mas nada que dispense um pedido de desculpas, é claro.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC