Economia

Que pena que mercado imobiliário da
Província não repita a Vila Madalena

DANIEL LIMA - 10/07/2012

Chegando aos finalmentes, para depois virem as explicações, o negócio é o seguinte: enquanto somos incompetentes e insensíveis para lidar com a verticalização insana imposta pelos mercadores imobiliários, também chamados de mercenários imobiliários, quando não de predadores imobiliários, vem da Vila Madalena, bairro de boemia e inteligência da Capital tão próxima, um exemplo de maturidade conectada com indignação ante a possibilidade de transformar-se em novo reduto de arranha-céus, porque lá na Cinderela, como cá na Gata Borralheira, não falta fauna de fraudadores da qualidade de vida.
 
Deu na Folha de S. Paulo ainda outro dia que os moradores da Vila Madalena, contrários à verticalização ensandecida que tomou conta da Região Metropolitana de São Paulo (é claro que seletivamente, nas áreas de alta rentabilidade dos predadores) pediram a um escritório de arquitetura (IdealZarvos) a apresentação de um plano para o bairro. A empresa tem muito interesse naquela geografia imobiliária e se lançou ao trabalho.
 
Algo semelhante (vejam só, estou apenas debochando e acusando) ao que se deu em Santo André. Na calada da noite de um final de ano (no final do ano passado), uma conjugação de agentes sob o comando do secretário da Administração do prefeito Aidan Ravin, no caso Frederico Muraro Filho, aprovou um Plano Diretor direcionado à exploração dos espaços mais nobres do Município que ninguém ousa ao menos contestar. Afinal, como se sabe, Santo André é um dos sete pedaços da Província do Grande ABC.
 
Voltando à Vila Madalena, o projeto solicitado pelos oponentes da verticalização (ao contrário de Milton Bigucci, presidente da Associação dos Construtores do Grande ABC que, recentemente, sugeriu edifícios de até 80 andares) está sendo apresentado aos poucos aos moradores e comerciantes. Alguns pontos sobressaem, como alargamento de calçadas, revitalização de praças e inclusão de artesãos na região.
 
Ainda segundo a Folha de S. Paulo (um jornal que, como o Estadão, não tem demonstrado temores frente despautérios imobiliários, inclusive com o escancaramento de uma quadrilha que atuava na Administração Gilberto Kassab) o projeto foi desenvolvido por uma empresa especializada, contratada pela IdealZarvos. Trata-se da americana Aedas, que tem experiência semelhante de urbanismo em bairros de Nova York. "Vamos fazer uma nova rodada de discussões deste material com os moradores antes de entregá-lo para a Prefeitura" -- disse à Folha de S. Paulo Otávio Zarbos, proprietário da Incorporadora IdealZarvos.
 
Uma procura inútil

Será que o leitor consegue distinguir na Província do Grande ABC um único bairro com capacidade de organização e cooperação para dar uma reviravolta na farra imobiliária, que só não é maior porque a maré financeira não está para peixe? É claro que não, porque nossa sociedade está morta e enterrada. Só finge que está viva e saltitante nas colunas sociais de jornais e revistas. E nas malandragens de matérias sob encomenda por conta de páginas e páginas de anúncios publicitários do mercado imobiliário.
 
Quando teremos, afinal, alguns respiros localizados de Vila Madalena, como estamos vendo na Cinderela paulistana? Lá, a maior preocupação de quem vive e trabalha é afastar qualquer possibilidade de novos empreendimentos como shoppings e torres comerciais e residenciais. "Um shopping daria fim a todos os pequenos comércios, tão charmosos, colocando todos os serviços num só lugar" -- disse à Folha  Daniela França, dona da Lola Bistrot.
 
Contasse a Província do Grande ABC com um mínimo de compreensão do quadro de sinistralidade da qualidade de vida que nos atinge, a Associação dos Construtores de Milton Bigucci há muito teria sofrido intervenção que a depuraria eticamente. Afinal, trata-se de uma instituição focada exclusivamente na obtenção de alta rentabilidade dos negócios de um grupinho de associados. A grande maioria, de pequenos empreendedores, há muito abandonou aquele espaço.
 
É claro que a Vila Madalena é um oásis na própria Capital do Estado, porque a regra geral é de Sodoma e Gomorra da Província do Grande ABC.
 
Querem um exemplo, publicado já há algum tempo pelo Estadão? Nos próximos anos, São Paulo terá 12 novos empreendimentos na Marginal do Pinheiros. Sabem o que isso significará? Serão quase 50 mil vagas de estacionamento ao longo de uma das principais vias da Capital. Explicou o Estadão que a maior parte desses megacomplexos, que abrigarão torres comerciais e residenciais, hotéis e shoppings, concentra-se nas regiões de Santo Amaro, Chácara Santo Antônio, Morumbi, Vila Olímpia e Itaim Bibi, todos na zona sul.
 
MP atuante

Ao contrário do que ocorre na Província do Grande ABC, onde o Ministério Público tem enormes dificuldades em lidar com as irregularidades (o escândalo do Semasa está longe da apuração necessária), na Capital o bicho está pegando. O promotor José Carlos de Freitas, da Habitação e Urbanismo, quer saber quais são as contrapartidas exigidas pela Prefeitura para aprovar os projetos e que tipo de obras viárias serão cobradas da iniciativa privada para que o trânsito no entorno dos empreendimentos não vire um caos.
 
Em Santo André, ao lado do Shopping ABC, antigo Shopping Mappin, estão em fase avançadíssima de construção novas torres residenciais. A velocidade vertical é espantosa, tanto quanto o foi a aprovação do projeto num terreno sob restrições de ordem técnica-ambiental que o Semasa desconsiderou e as forças legais nem dão bola. Dá-se a construção como fato consumado.
 
O denunciante do escândalo do Semasa deu a ficha que qualquer aprendiz do mercado imobiliário ouve sem qualquer tipo de surpresa: peguem as obras mais importantes dos últimos anos envolvendo torres residenciais, principalmente, e vasculhem suas entranhas. O que se vai encontrar é um atentado à legislação de uso e ocupação do solo.
 
Alguém que pergunte sobre a posição da Associação dos Construtores, presidida por Milton Bigucci, ante aquela declaração, encontrará como resposta não mais que um barulhento silêncio. Sim, porque quando o silêncio é desavergonhado, agride nossas sinapses em forma e conteúdo com acordes de tamborins do samba do crioulo doido.
 
Se as instituições sociais não mexem uma palha para reforçar e mesmo monitorar os trabalhos policiais e ministeriais, o que esperar de uma entidade de classe diretamente interessada e defensora da maximização do lucro para poucos?


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